Assim como há cerveja sem álcool, café sem cafeína, sal sem sódio, açúcar sem glicose, tabaco sem nicotina, homens sem substância e sem humanidade, isto é, “sem fundamento, sem missão, sem fim último” 1; e todos estes são produtos “light”; assim existem, também, cristãos “light” que são partidários de um inferno “light”.
Podemos perguntar-nos: o que é um inferno “light”? É um “inferno” carenciado. É um inferno “leve”: sem pena de dano, sem pena de sentido, sem eternidade e/ou sem habitantes. Com base nessas quatro carências, as variantes são muitas e as há para todos os gostos. Alguns são plenamente “light” e sustentam as quatro negações; outros são mais moderados e aceitam apenas algumas variantes “light” ou lhes põem atenuantes.
Em muitos textos da Sagrada Escritura se fundamentam as verdades reveladas acerca do inferno. Mas, para o meu intento, bastam apenas duas metades de dois versículos. Ensina-se a pena de dano, isto é, a privação da visão de Deus, em “Apartai-vos de mim, malditos,…” (Mt 25, 41); a pena de sentido, isto é, o sofrimento que provém de coisas sensíveis, em “…ide para o fogo…” (id.); a eternidade das penas, que jamais terminarão, em “…eterno.” (id.); e acerca dos seus habitantes: “Estes irão para o castigo eterno…” (Mt 25, 46). Para os que temos a convicção de que a Bíblia é Palavra de Deus, não são necessários mais textos. Serão os quatro pontos da primeira parte deste artigo.
PRIMEIRA PARTE
1. A privação da visão de Deus ou pena de dano.
Esta é a pena essencial do inferno. Se com a imaginação mais tropical e o coração mais febril imaginássemos as torturas mais refinadas e incríveis, as penas de sentido mais horríveis que já foram pensadas, e se ainda deixássemos o imaginário barroco sobre o inferno, a tortura chinesa e os torturadores modernos com suas técnicas refinadas como brincadeira de criança, se o inferno tivesse todos aqueles tormentos sensíveis elevados até ao enésimo grau, mas se não houvesse pena de dano, o inferno não seria o inferno, mas sim o paraíso, já que Deus seria visto. Pelo contrário, se no inferno não houvesse pena de sentido, mas sim privação da visão de Deus, o inferno seria um inferno e tão insuportável quanto aquele que teve os castigos mais assustadores e horríveis infligidos pelas criaturas.
O que há de mais dramático no inferno não é o que mais assusta a maioria das pessoas, ou seja, as penas sensíveis. O que aterra no inferno é não ver Deus: “…aquele Deus que eles não quiseram conhecer em vida não os conhecerá” 2. Por isso Santo Afonso, Doutor da Igreja, disse sabiamente: “Todas as outras penas mal são penas comparadas a esta pena.” 3. Nem o “fogo inextinguível”4, nem o cheiro pestilento, nem a companhia insuportável dos demônios e dos outros condenados, nem o lugar assustador 5, nem o tormento dos sentidos corporais internos e externos, nem o “verme que não morre”6 roedor de consciência, nem “choro e ranger de dentes”7, nem “a escuridão exterior” 8, nem nenhuma outra dessas coisas, nem todas juntas, fazem o inferno, mas tendo perdido Deus.
Em outras palavras, que bem perde o condenado? Perde Deus que é um Bem infinito. A dor e a pena são, portanto, infinitas 9. O aspecto formal do castigo é o distanciamento de Deus. Assim como a dor substancial da Paixão do Senhor são as dores interiores e não as sensíveis, assim como no temor de Deus o medo filial é mais importante e o medo servil deve levar-nos a isso 10, assim como na penitência o essencial é a dor interior pelos pecados cometidos e a penitência externa é apenas fruto e incentivo para a interna – e se não fosse assim não serviria para nada, podendo até ser pecado -11, assim também, de modo semelhante, é a pena de dano com respeito à pena de sentido.
Claro que isso não atrai a atenção do mundano, pois de fato nesta terra ele vive como se Deus não existisse e esta futura distância de Deus nem sequer o preocupa, porque ele a imagina como uma extensão da distância agradável e atual de Deus. É claro que isso não preocupa o pecador que vive chafurdando no repertório de inúmeros pecados, pois na verdade ele vive sempre ofendendo a Deus e essas ofensas lhe parecem que não lhe trazem castigo algum agora, prolongando essa -aparente- ausência de castigo para o futuro em sua imaginação. Claro, isso não é percebido por aqueles que vivem nas trevas de sua estupidez quase invencível e por causa de sua própria estupidez não conseguem abrir os olhos. Claro que isso não é percebido por quem vive imerso na fugacidade do tempo que passa, nos milhares de produtos de supermercado que almeja e na autoabsorção de sua vontade permissiva. O tempo impede-os de ver a eternidade, impedindo-os de apreender a primazia do ser e de se acreditarem autores da sua liberdade de não perceberem a escravidão presente, nem temerem o futuro inexorável; O seu materialismo impede-os de considerar a possibilidade de um castigo essencialmente espiritual. Em última análise, a perda do sentido de Deus leva à perda do sentido do pecado, e isso os leva a não perceber a realidade do justo castigo pelo pecado.
Negam o inferno aqueles que antes deformaram ou negaram Deus, em algumas de suas características, como ser pessoal, espírito puro, livre, providente e transcendente. Quando não existe Deus não há como transcender os horizontes deste mundo e o homem permanece preso no concreto da imanência. A realidade do inferno é clamorosa demais para aqueles que não sabem que têm um verdadeiro Pai no céu. No seu livro “Discussão”, Jorge Luis Borges, sustenta “a blasfêmia de dizer que todo aquele que acredita no inferno ‘é irreligioso’, com a qual quase toda a Humanidade, exceto Borges, cai na Irreligião; e até mesmo Jesus Cristo…” 12. Alguns, aparentemente, nunca encontraram a saída dos seus tortuosos labirintos interiores.
O horror da pena de dano só é compreendido aqui na terra por almas santas e fervorosas. Os mundanos, aqueles que vivem no pecado, compreenderão isso tarde, seus olhos só se abrirão quando compreenderem que, por culpa própria, perderam um Bem infinito.
Não só a existência e a eternidade do inferno são um dogma de fé definido, conforme declarado pelo Quarto Concílio de Latrão: “…para que, segundo as suas obras, sejam elas boas ou más, recebam o castigo perpétuo com o diabo, e a glória eterna com Cristo.”13; também é de fé definida que os condenados sofram pena de dano, conforme ensina a constituição “Benedictus Deus”: “…De acordo com a ordenança comum de Deus, as almas daqueles que morrem em pecado mortal real, imediatamente após a sua morte, descem ao inferno, onde são atormentadas com castigos infernais.”14, a existência e a eternidade da pena de sentido também é de fé definida, conforme ensina o Símbolo “Quicumque”: “...e aqueles que fizeram o bem irão para a vida eterna; Aqueles que erraram irão para o fogo eterno. Esta é a fé católica: a menos que se acredite fiel e firmemente nela, não se pode ser salvo.”15.
No Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium, 48, ensina-se a necessidade de uma vigilância constante, para que “não como servos maus e preguiçosos (cf. Mt 25, 26), somos ordenados a partir para o fogo eterno (cf. Mt 25, 41), para as trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes (Mt 22, 13 e 25, 30)”. Estas palavras foram introduzidas no texto para afirmar “o castigo eterno do inferno”. Com efeito, diz a Comissão Teológica: “As palavras de Nosso Senhor sobre o castigo eterno do inferno foram introduzidas no texto, como explicitamente solicitado por muitos Padres.” 16. (Mais tarde indicaremos porque as explicações da Comissão Teológica constituem a explicação oficial do texto.) Da mesma forma, onde se fala de “a ressurreição da vida” e “a ressurreição da condenação“, no mesmo número, estas palavras são concebidas como um complemento às outras palavras referentes ao inferno que citamos anteriormente. A Comissão Teológica diz: “Tendo em conta a alteração anterior, devido à lógica interna da exposição e para satisfazer ainda mais os desejos dos Padres, foram introduzidas as palavras sobre a ressurreição da vida ou julgamento” 17.
A principal pena de sentido é o fogo, daí o rico epulão dizer: “Estou atormentado por essas chamas”(Lc 16, 24). Como afirmam os Santos Padres e Doutores, e antigos autores eclesiásticos, por exemplo:
* Santo Inácio de Antioquia: “Não se enganem, meus irmãos: quem perturba as famílias não herdará o reino de Deus. Se, então, aqueles que fizeram estas coisas segundo a carne estão mortos, quanto mais se alguém corromper, com a doutrina perversa, a fé de Deus, pela qual Jesus Cristo foi crucificado? Esse, estando manchado, irá para o fogo inextinguível; Da mesma forma, quem o ouve”18.
* O autor do “Martírio de São Policarpo”: “E atendendo à graça de Cristo, [os mártires] desprezaram os tormentos mundanos, libertando-se, durante uma hora, do castigo eterno. O fogo dos cruéis algozes parecia frio para eles. Porque tinham diante dos olhos a fuga daquele que é eterno e jamais se extinguirá.”19.
* O autor da chamada 2ª carta aos Coríntios: “E os incrédulos verão a sua glória e a sua força e se maravilharão ao ver o domínio do mundo em Jesus, dizendo: Ai de nós, porque tu eras e nós não o sabíamos, nem cremos, nem obedecemos aos presbíteros, que nos pregaram sobre a nossa salvação; e o seu verme não morrerá e o seu fogo não se apagará, e eles serão um espetáculo para toda a carne… [os justos] verão como serão punidos com tormentos terríveis e fogo inextinguível, aqueles que erraram e negaram Jesus com palavras e ações darão glória ao seu Deus”20.
* São Justino: “...de forma alguma pode acontecer que o maligno, ou o ganancioso, ou o insidioso, ou o dotado de virtude esteja escondido de Deus, e que cada um vá para o castigo eterno ou para a salvação eterna de acordo com os méritos de suas ações. Porque se estas coisas fossem conhecidas de todos os homens, ninguém escolheria o vício por pouco tempo, sabendo que iria para a condenação eterna do fogo; mas ele se conteria completamente e se adornaria com a virtude, seja para obter os bens prometidos por Deus, seja para escapar das torturas”21.
* Santo Irineu: “o castigo daqueles que não acreditam na Palavra de Deus, e desprezam a sua vinda, e voltam atrás, foi ampliado; tornando-se não apenas temporário, mas eterno. Para todos aqueles a quem o Senhor diz: Afastai-vos de mim, condenados, para o fogo perpétuo, serão sempre condenados.”22.
* Discurso a Diogneto: Os mártires ficarão maravilhados ao ver o castigo de “a verdadeira morte, que está reservada para aqueles que serão condenados ao fogo eterno, que será uma tortura até o fim para aqueles que lhe forem entregues”23.
* Tertuliano fala de: “fogo contínuo”24, “fogo eterno”25, “fogo perpétuo”26, “fogo eterno da geena para pena eterna”27.
* São Cipriano: “A geena sempre ardente queimará aqueles que a ela forem entregues, e uma tristeza voraz com chamas vivas; nem há qualquer chance de que os tormentos algum dia tenham descanso ou fim. As almas com seus corpos serão preservadas para infinitos tormentos de dor… Aqueles que não quiseram acreditar na vida eterna tardarão em acreditar no castigo eterno.”28.
* Santo Agostinho: “será um fogo corporal”29.
* São João Crisóstomo diz que todos os sofrimentos desta vida, por maiores que sejam, são uma pálida imagem das torturas do inferno e não são sequer uma sombra dessas torturas30.
* São Gregório Magno: “Não hesito em afirmar… é corpóreo”31.
* São Tomás de Aquino: “É preciso dizer que o fogo que atormentará os corpos dos condenados é corpóreo”32.
* Santa Catarina de Sena: “Filha, a língua não é capaz de falar destas almas infelizes e das suas tristezas… A primeira é serem privados de Mim, o que lhes é tão doloroso que, se fosse possível, em vez de se libertarem das tristezas e não Me verem, escolheriam o fogo e os tormentos atrozes para Me verem… O quarto tormento é o fogo, que queima e nunca acaba. A alma, por seu próprio ser, não pode ser consumida, porque não é algo material, mas incorpóreo. Mas eu, por justiça divina, permiti que fosse queimado pelo sofrimento, para afligi-lo e não consumi-lo. Ele o queima e o faz sofrer com grandes penas, de diferentes maneiras conforme a diversidade dos pecados, uns mais e outros menos conforme a gravidade da culpa.”33.
* Santa Teresa de Jesus: “…Na verdade, queimar aqui é muito pouco comparado com esse fogo ali.”34.
* Santo Afonso de Ligório: “Assim como um peixe na água está rodeado de água por todos os lados, o condenado é completamente envolvido pelo fogo.”35.
* São João Bosco conta um sonho que teve sobre o inferno onde foi obrigado a colocar a mão na parede e diz que no dia seguinte “percebi que a mão estava realmente inchada; e a impressão imaginária daquele fogo teve tanta força que logo depois a pele da palma da mão se soltou e mudou”36.
* A Virgem de Fátima em 13 de julho de 1917, em sua terceira aparição, segundo Lúcia: “…Ele abriu as mãos novamente. O raio de luz que deles saía parecia penetrar a terra, e víamos como um mar de fogo, e os demônios e as almas misturavam-se no fogo como se fossem brasas transparentes pretas ou bronzeadas, com forma humana, que se moviam no fogo carregado pelas chamas, que delas saíam, junto com nuvens de fumaça, caindo em todas as direções, assim como caem faíscas nos fogos, sem peso nem equilíbrio, entre gemidos de dor e desespero, que horrorizavam e faziam estremecer. terror… Aterrorizados, olhamos para Nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza: -Vistes o inferno onde vão parar as almas dos pobres pecadores. Ao rezar o Rosário, diga depois de cada mistério: -Ó meu Jesus! Perdoa-nos os nossos pecados, preserva-nos do fogo do inferno, leva todas as almas para o céu e ajuda especialmente os que mais necessitam da tua misericórdia.”37.
Paulo VI, no “Credo do Povo de Deus”, afirma que aqueles que rejeitaram o amor e a misericórdia de Deus até o fim: “eles estarão destinados ao fogo que nunca cessará”38.
Finalmente, pelo modo de falar dos documentos e do ensinamento ordinário, assim expresso durante tantos séculos, é uma questão de fé que a pena de dano e a pena de sentido são realmente diferentes e a pena de sentido não pode ser reduzida à mera aflição psicológica produzida pela privação da visão de Deus39.
Diante desta nuvem de testemunhas, podemos duvidar razoavelmente da realidade deste “lugar de castigo” (cf. Lc 16, 28)? Não seria mais sensato viver para não ir até ele?
Portanto, tendo em conta a opinião moralmente unânime dos Santos Padres e teólogos, o ensino ordinário da Igreja, etc., afirmamos com eles que o fogo do inferno não é metafórico (não existe apenas nas mentes dos condenados 40), mas verdadeiro, real, corpóreo (na medida em que é um agente material, que existe na sua realidade objetiva e que atormenta os réprobos). Assim como afirmamos a sua corporalidade, afirmamos que não conhecemos a sua materialidade porque é um fogo especial, sui generis, pois possui propriedades diferentes do fogo da terra. É um fogo que não é extinguível, mas inextinguível (não necessita de combustível para ser alimentado); não temporal, mas eterno; não para o conforto dos corpos, mas para o castigo das almas e dos corpos; e isso atormenta os réprobos sem destruí-los. É um fogo que queima sem matar; sem consumir, queima; sem iluminação, queima; e que, apesar das suas chamas, envolve os condenados em trevas opacas e noites eternas.
Nem mesmo a descrição mais sinistra e bizarra de punições significativas, nem mesmo a mais horrível e grotesca, será capaz de mostrar fielmente quais são essas punições. Aqueles que ficam horrorizados com estas pinturas ou com estas descrições deveriam antes afastar-se dos pecados que os impedem de ver, em toda a sua profundidade, o fim para o qual se dirigem por sua própria culpa.
Portanto, tendo em conta a importância da pena de dano sobre a pena de sentido, São João Crisóstomo disse: “Há muitos homens que, julgando absurdamente, desejam acima de tudo evitar o fogo do inferno; Mas acredito que incomparavelmente maior que a dor do fogo será a dor de ter perdido para sempre essa glória; nem acredito que valha mais a pena lamentar os tormentos do inferno do que a perda do reino dos céus; porque este tormento é o mais amargo de todos“41. Em outro lugar ele diz:”A dor do fogo do inferno é certamente intolerável. Mas mesmo que imaginássemos mil infernos de fogo, não teríamos feito nenhum progresso na compreensão do que significa ter perdido a bem-aventurança eterna, ser rejeitado por Cristo, ouvir dele aquelas palavras: não te conheço.”42.
A questão é que a pena de sentido, por maior que seja, é finita, enquanto a pena de dano é infinita. Santo Tomás ensina: “A pena é proporcional ao pecado. No pecado devemos distinguir dois aspectos. A primeira é a aversão ao bem imperecível, que é infinito; e por esta razão o pecado também é infinito. A segunda é a conversão desordenada a um bem perecível; e neste sentido o pecado é finito, tanto por parte do objeto ao qual se converte, que é finito, como por parte do próprio ato pecaminoso, pois os atos da criatura não podem ser infinitos. Consequentemente, por parte da aversão, a pena de dano corresponde ao pecado, que é infinito, pois é a perda de um bem infinito, como o próprio Deus. E da parte da conversão desordenada à criatura, lhe corresponde o castigo do sentido, que é finito.” 43.
Por mais difícil que possa ser para a sensibilidade do homem moderno, o que é revelado é revelado. E não há maneira sensata de escapar dessa realidade. Um autor após afirmar a existência do fogo material e corpóreo – embora não como o nosso – nada menos que… identifica-o com o Espírito Santo!: “O fogo do inferno é, de alguma forma, o próprio Deus! É a mesma chama viva de amor – que é o Espírito Santo – que purifica nesta vida e no purgatório e atormenta eternamente no inferno.”44.
O terceiro elemento que molda a realidade do inferno é que as suas penas são eternas. Se os seus castigos fossem temporários estaríamos na presença de um falso purgatório. A este respeito, é curioso que muitos protestantes que negam a realidade do purgatório, praticamente o aceitem, sustentando que as dores do inferno são temporárias.
Por que os castigos do inferno são eternos? São Tomás diz: “A pena pelo pecado mortal é eterna, porque através dela se peca contra Deus, que é infinito. E como a pena não pode ser infinita em sua intensidade, visto que a criatura não é capaz de nenhuma qualidade infinita, exige-se que ela, pelo menos, seja de duração infinita.””45.
Aqueles que negam a eternidade do inferno geralmente o fazem por uma das seguintes hipóteses:
– Ou porque o pecador repara as suas faltas e é reabilitado, hipótese condenada pela Igreja46 e totalmente absurda, pois, fora do tempo, a mudança é impossível em relação ao fim último.
– Ou porque Deus o perdoa sem que o condenado se arrependa, o que contradiz a justiça de Deus, a sua infinita sabedoria e o amor do próprio Deus.
– Ou porque Deus o aniquila, devolvendo-o a nada, o que também contradiz a sabedoria de Deus e a sua justiça.
Esta última hipótese parece ser a apoiada pelo teólogo progressista Eduardo Schillebeeckx, OP. Ele literalmente afirma que: “Não se sabe se existem homens que praticam o mal com uma vontade definitiva, rejeitando a graça e o perdão de Deus; mas se existem homens – é uma hipótese – que não têm uma relação teologal com Deus, estes nem sequer têm o fundamento da vida eterna.
É algo totalmente diferente da apocatástase ou recapitulação geral de Orígenes e outros. Repito: não sei se existem homens tão perversos que rejeitem a graça e o perdão de Deus. É possível que todos os homens estejam destinados ao céu; mas, em qualquer caso, se eventualmente existissem homens maus, no sentido de definitivamente maus, a sua morte física seria o fim da sua existência. Só existe o céu, e não junto com um inferno onde os homens sofrem fogo e castigo por toda a eternidade. É contra a natureza de Deus, que é Amor, que os homens sejam punidos eternamente. Para mim, como homem de fé, é impensável que, enquanto a alegria inunda o céu, haja pessoas a dois passos de distância47, no meio de sofrimentos infernais e eternos. Não pode haver um inferno que seja o inverso da alegria eterna do Reino de Deus. Não há nada além do Reino de Deus”48.
Um dos maiores infortúnios dos progressistas cristãos é que eles acreditam que são melhores que Deus. Eles sustentam que isso vai contra a natureza de Deus, que “é amor“(1Jo 4, 16), o que o próprio Amor encarnado revelou! Pretendem ensinar à Sabedoria Infinita o que pertence ou não à sua natureza. Indicam ao Amor Subsistente o que deve ser o seu Amor. Dá a impressão de que nos consideram tão estúpidos que vamos ouvi-los, contra Jesus Cristo.
Ele continua levantando hipóteses: “O céu e o inferno são possibilidades antropológicas porque o homem é finito, a sua liberdade é finita, ele pode escolher o bem ou o mal de forma definitiva. É um fato antropológico. Se existem esses homens que escolhem o mal, eu não sei. Mas mesmo admitindo que existam, o inferno não existe49. Não existe vida infernal“50. É chamada de morte eterna por uma razão. Mas isso não significa que o inferno não exista. Apesar do dominicano belga de língua flamenga, é um dogma de fé definido que os demônios já estão condenados no inferno e, portanto, existe; e, da mesma forma, é um dogma de fé definido que “O homem que morre em pecado grave tem que viver eternamente no estado do inferno”51 e, portanto, existe.
A seguir, este teólogo “católico”, com muita desenvoltura, afirma a antiga doutrina gnóstica da aniquilação: “Se há alguém que na sua vida é capaz de se separar completa e definitivamente da comunhão com o Deus da vida, está destinado à aniquilação do seu próprio ser.“52. Schillebeeckx é pior que os nazistas que mataram o corpo, mas não conseguiram matar a alma; ele não apenas desintegra os corpos, mas quer que Deus desintegre as almas. Quão pouco respeito pela pessoa humana! Onde está a imortalidade do homem? Na sua estreiteza mental ele quer forçar Deus a fazer o que Deus nunca fará. Schillebeeckx ignora que São Tomás, que deveria ser seu professor, ensina: “Embora pelo fato de alguém pecar contra Deus, que é o Autor do ser, merece perder o mesmo ser; Considerada, porém, a desordem do seu próprio ato, ele não deve perdê-la: porque o ser está pressuposto por mérito ou demérito, nem está sendo afastado ou corrompido pela desordem do pecado. E, portanto, a própria privação do ser não pode ser uma castigo adequada para qualquer culpa.”53.
O Doutor Angélico sustenta que nada se aniquila e demonstra isso até do ponto de vista natural: “As naturezas das criaturas demonstram que nenhuma delas é aniquilada: porque ou são imateriais, onde não há poder de não existir; ou são materiais, e estes sempre subsistem, pelo menos em termos de matéria, que é incorruptível como sujeito existente de geração e corrupção. Nem pertence à manifestação da graça reduzir algo a nada, porque a onipotência e a bondade de Deus se manifestam mais claramente na preservação das coisas em seu ser. Portanto, devemos simplesmente dizer [simpliciter] que nada é aniquilado”54.
O “teólogo feliz” continua com expressões semelhantes às que utilizámos antes e às quais já me referi: “Alguns teólogos me dizem: “Então não há castigo para o mal cometido”. Eu respondo: você não entende o que significa estar com Deus por toda a eternidade. Para os homens não haveria vida de comunhão com Deus… É terrível. Deus não tem sentimentos de vingança. Para mim, esta coexistência de paraíso eterno para os bons e inferno para os maus, que recebem o castigo eterno, é impossível. O «éschaton» ou realização última é exclusivamente positivo: não existe «éschaton» negativo. É o bem, e não o mal, que tem a última palavra. “Esta é a mensagem e esta é a práxis da vida de Jesus de Nazaré”.55. O Dominicano de Nijmegen ignora que Deus triunfa pela sua misericórdia com aqueles que são salvos e triunfa pela sua justiça com aqueles que são condenados, e que mesmo com estes ele tem misericórdia”pois eles são punidos menos do que merecem” 56. Ou como disse Santa Catarina de Sena numa oração dirigida ao Pai celeste: “No inferno brilha a tua glória pela justiça que se verifica nos condenados; mas a misericórdia também trabalha com eles, pois não recebem o castigo tão grande quanto mereciam.”57.
Schillebeeckx ignora que a mensagem e a vida de Jesus de Nazaré incluem o ensino muito claro de que o inferno existe com a sua pena de dano: “Apartai-vos de mim, malditos…”, com sua pena de sentido: “…ide para o fogo…”, com sua eternidade: “…eterno…”, e com seus habitantes: “E estes irão para o castigo eterno“. Não se deve crer que “Jesus Cristo veio em carne” (1Jo 4, 2) que negam a verdade, a autoridade e a utilidade de todas as suas palavras. Nós, que cremos que Ele é “a Palavra [que] se tornou carne”(Cf. Jo 1, 14) confessamos, e por isso estamos dispostos a dar a nossa vida, se necessário, a Cristo: “Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68) E as suas palavras sobre o inferno são também palavras de vida eterna.
Schillebeeckx sustenta que não há simetria entre a noção de céu e inferno e, portanto, a noção de inferno não pode funcionar como contraponto à de céu, mas não percebe que o contraponto mais perfeito ao céu é o “inferno” que ele propõe, pois contrasta o mesmo Ser Subsistente – que é objeto da visão e gozo do céu – com o nihil – o nada – em que os condenados acabam, em sua teoria. Para São Tomás não há contraponto entre predestinação e reprovação. A primeira é toda obra de Deus retribuída pelo homem; A segunda começa com o desvio da criatura que prefere a falta à plenitude do ser. Na aniquilação de Schillebeeckx não há lugar para Deus; No inferno revelado há lugar para Deus que, naturalmente, é por essência, presença e poder, e na consciência dos condenados que ali sabem o que perderam por culpa própria. Talvez em nenhum outro ponto da doutrina a assimetria entre a fé católica e a fé progressista seja tão vista como neste sobre o inferno.
Pelo contrário, a Igreja Católica ensina, sem ir mais longe em Maio de 1979, com total clareza que “Ela acredita no castigo eterno que aguarda o pecador, que será privado da visão de Deus, e na repercussão deste castigo em todo o seu ser… É isso que a Igreja entende quando fala do inferno.…” 58. Devemos dar ouvidos àquela a quem Jesus Cristo prometeu indefectibilidade e não aos teólogos dissidentes.
Parece-me que a principal dificuldade contra a doutrina católica do inferno surge precisamente de não saber o que é o amor: “Quem pode garantir, sem destruir o próprio amor, que o amor realmente oferecido não pode tornar-se um amor livremente recusado?“59. Dante colocou-se brilhantemente na entrada do inferno: “Vós que entrais aqui, abandonai toda esperança”; e acrescentou:
“A justiça moveu meu sublime Criador; sou obra do Poder Divino, da Sabedoria Suprema e do Primeiro Amor.”
Padre Lacordaire comenta: “Se fosse apenas a justiça que abrisse o abismo, ainda haveria remédio; mas foi também o amor, o Primeiro Amor, quem fez isso: é isso que suprime toda esperança. Quando alguém é condenado pela justiça, pode recorrer ao amor; Mas quando for condenado por amor, a quem recorrerá? …O amor não é um jogo. Ninguém é amado impunemente por um Deus, não se é amado impunemente até a morte na cruz. Não é a justiça que carece de misericórdia; É o próprio amor que condena o pecador. O amor – já o experimentamos demais – é vida ou morte; e se for o amor de Deus, é vida eterna ou morte eterna”60.
Por isso Cornelio Fabro afirma sabiamente: “Sem a eternidade das dores do inferno e sem o inferno, a existência vira um passeio pelo campo“61, em um piquenique. Cita Kierkegaard: “Uma vez eliminado o horror da eternidade (ou da felicidade eterna ou da condenação eterna), querer imitar Jesus acaba se tornando uma fantasia. Porque só a seriedade da eternidade pode obrigar, mas também mover, um homem a cumprir e justificar os seus passos.“Os progressistas eliminaram o horror da eternidade e as suas pregações, as suas ações pastorais, a sua evangelização… são uma fantasia! Sem a eternidade o seguimento de Cristo… é uma fantasia! Eles não querem a seriedade da eternidade e por isso são incapazes de se forçar, mover, cumprir e justificar as suas ações. Sem a possibilidade concreta da condenação eterna, a eternidade do céu é fútil, infantil, insignificante. A perda da seriedade da eternidade, e não a suposta falta de vocação, está na base da entrega de tantos padres e freiras62.
Quem não está convencido da seriedade da eternidade não convence ninguém, suas palavras são o ar levado pelo vento e suas obras pesam tanto quanto uma teia de aranha. Quem poderá convencer da frivolidade do inferno gnóstico, produto da cultura da banalização?
Ainda há mais a dizer. Aqueles que querem estender demais a misericórdia acabam encurtando-a. É assim que é. Alguns acreditam que são muito misericordistas, mas no fundo são cruéis, porque se a pena dos anjos maus e dos condenados terminasse, não se vê por que a bem-aventurança para os anjos e santos não terminaria. Santo Tomás ensina: “Assim como os anjos bons são abençoados por causa de sua conversão a Deus, os anjos maus são réprobos por causa de sua aversão a Deus. Portanto, se a miséria dos anjos maus algum dia acabasse, a bem-aventurança dos anjos bons também teria um fim, o que é inadmissível.“63. E em outro lugar ele explica porque este erro de Orígenes foi reprovado pela Igreja: “porque, por um lado, estendeu demasiado a misericórdia de Deus, e por outro lado, restringiu-a demasiado. Pela mesma razão parece existir para que os anjos bons permaneçam em felicidade eterna e para que os anjos maus sejam punidos para sempre. Portanto, assim como afirmou que os demônios e as almas dos condenados acabariam por ser libertados do castigo, também disse que os anjos bons e as almas dos bem-aventurados retornariam da bem-aventurança para as misérias da vida.“64. E ainda: “É totalmente irracional [pensar que o castigo dos condenados terminará dentro de algum tempo]. Da mesma forma que os demônios são obstinados em sua malícia, e por isso serão eternamente punidos, assim também o são as almas dos homens que morrem sem caridade, visto que “a morte é para os homens o que a queda é para os anjos”65 como diz São João Damasceno”66.
Hoje alguns afirmam que o inferno é desabitado. Acham que não existem condenados de fato. Os textos que falam do inferno nada mais seriam do que ameaças que nunca se concretizarão. Orígenes admitiu condenados temporários, agora a própria existência de condenados é negada.
No Concílio Vaticano II, um Padre pediu que se declarasse que havia, de fato, condenados no inferno, porque senão o inferno seria uma mera hipótese67. A Comissão Teológica julgou que não era necessário introduzir esta declaração porque os textos do Novo Testamento citados no documento conciliar têm uma forma gramatical futura68; Não são verbos na forma hipotética ou condicional, mas na forma futura. “Irão” supõe, como é evidente, que alguém irá69.
As explicações da Comissão Teológica constituem o pressuposto dos votos e constituem a interpretação oficial do texto. Se algum Padre não tivesse concordado com a interpretação, teria votado “non placet”. Assim, estamos diante da interpretação oficial de como o Concílio Vaticano II entende estas passagens bíblicas e as entende no sentido de que há e haverá condenados de fato, excluindo a interpretação meramente hipotética do inferno.
Mais uma vez vemos que alguns que se consideram os defensores do Concílio Vaticano II são os que mais ignoram os seus textos e a sua correcta interpretação.
A fé católica afirma inequivocamente que existem condenados no inferno e que este não foi destruído por Jesus Cristo. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, citando ensinamentos anteriores do Magistério da Igreja: “Jesus não desceu ao inferno para libertar dali os condenados70 nem para destruir o inferno da condenação71, mas para libertar os justos que o precederam.“72. Por isso ensina Dom José Capmany Casamitjana, Bispo Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias da Espanha: “A verdade é que o inferno existe e que lá existem e existirão pessoas condenadas.”73, e quem tem um mínimo de bom senso deduz: “E eu posso ser um deles. Usarei todos os meios para evitá-lo”.
Certamente a Igreja não tem poder para declarar quem são aqueles que foram condenados. Não existe nenhum tipo de canonização reversa. Além disso, a incapacidade da Igreja de apontar quem está no inferno é salvífica. Na Igreja ninguém tem o poder de destruir, mas apenas de construir: “…segundo o poder que o Senhor me deu para nos edificar e não para destruir”(cf. 2 Coríntios 13:10).
Diz-se de São Vicente Pallotti que um dia o santo sacerdote acompanhou à tortura um assassino da pior espécie, que se recusou obstinadamente a arrepender-se, zombou de Deus e blasfemou até no cadafalso. Padre Pallotti já havia esgotado todos os meios de conversão: estava no palco ao lado daquele desgraçado; Com o rosto banhado em lágrimas, ele se jogou a seus pés, implorando-lhe que aceitasse perdão pelos seus crimes, mostrando-lhe o vasto abismo em que iria cair. A tudo isso, o criminoso respondeu com um insulto e uma blasfêmia, e sua cabeça acabara de cair com o golpe da lâmina fatal. Na exaltação da sua fé, da sua dor e indignação, e também para que aquele horrível escândalo se tornasse uma lição salutar para a multidão de presentes, o piedoso eclesiástico levantou-se, pegou pelos cabelos a cabeça ensanguentada do executado e apresentou-a à multidão: “Olhai!”, exclamou com voz estrondosa; “olhai bem! Aqui está o rosto de um condenado!” Diz-se que só este fato foi suficiente para atrasar o processo de beatificação. A tal ponto a Igreja é misericordiosa!”74.
Apenas é citado um caso do Santo Cura d’Ars em que ele parecia temer pelo destino eterno de uma pessoa falecida. “Uma pessoa recém-chegada de Paris ou arredores – diz Hipólito Pagés – perguntou-lhe onde estava a alma de um dos seus familiares recentemente falecidos. Recebeu esta resposta, sem qualquer comentário: ‘Ele não quis confessar na hora da morte’. Infelizmente, era verdade: o moribundo rejeitara o padre. O Cura d’Ars não poderia saber de antemão”75.
Nem mesmo o próprio Judas pode ser dito com certeza, apesar de existirem vários textos bíblicos que parecem apoiar a hipótese da sua condenação. Na verdade, São Vicente Ferrer afirmava ter sido salvo76.
Em nome da misericórdia divina.
Por volta de 420 Santo Agostinho77 indica diferentes teorias sobre o inferno, vigentes naquela época:
1- Alguns acreditavam que todos os pecados eram expiados em vida ou após a morte;
2- Outros sustentavam que Deus não condenaria ninguém pela intercessão dos santos;
3- Outros sustentavam que nenhum batizado, nem mesmo os hereges, seria condenado;
4- Houve quem limitasse a salvação a todos os batizados na Igreja Católica, que, mesmo que caíssem na idolatria e no ateísmo, não seriam condenados para sempre;
5- Outros diziam que quem perseverasse na fé, mesmo que caísse em pecados graves, seria salvo;
6- Alguns alegaram que apenas os cruéis seriam condenados.
Todas ideias que foram defendidas em nome da misericórdia divina, como também acontece agora. Todos os homens e mulheres seriam confirmados na graça.
Santo Agostinho refutou todas essas teorias: “Após o julgamento final, alguns não quererão e outros não poderão pecar… Alguns viverão uma vida verdadeiramente feliz na vida eterna, os outros continuarão infelizes na morte eterna, incapazes de morrer: nenhum dos dois terá fim… A morte eterna dos condenados não terá fim e o castigo comum a todos será que não poderão pensar no fim, nem na trégua, nem na redução dos seus castigos.”78.
Já vimos como, em nome da misericórdia divina, Schillebeeckx nega o inferno. Mas há outros teólogos católicos, não “infernalistas” como diz um deles, que parecem, de fato, acreditar que o inferno está vazio, como Teilhard de Chardin, Rahner e von Balthasar79, que consideram o inferno como uma possibilidade real de desastre final mas, ao mesmo tempo, insistem no dever de “esperar por todos”, segundo R. Gibelli80. À primeira vista parece que a posição de Schillebeeckx é mais séria, mas esta última é um engano mais perigoso.
Uma eternidade sem quem, de fato, foi condenado ou vai ser condenado, é uma eternidade frívola, não séria, é um inferno “light”. Não vale a pena lutar para evitá-lo, se de fato todos o evitam; Portanto, não vale a pena lutar para ganhar a outra eternidade, que nos é dada sem esforço. A proposta do inferno progressista é uma proposta autoritária e demagógica. Autoritário, porque todos, mesmo que não queiram, estão salvos; demagógico, porque como os políticos de hoje fazem promessas fáceis de salvação eterna, que não cumprirão, muitos descobrirão quando for tarde demais, e a quem se queixarão?
Um inferno vazio não é um inferno salvador; Pelo contrário, um inferno habitado, sim, é salvífico. Por isso é revelado: “…irão…”, e como toda revelação sobrenatural, é uma revelação salvadora.
Negar o inferno – em alguns ou em todos os seus elementos – é uma forma de univocar o ser, de homogeneizá-lo, típica de todo sistema gnóstico. O inferno “light” é, no fundo, um inferno hegeliano, ou seja, uma ideia de inferno, não um inferno real, concreto, na verdade; É um “flatus vocis”, não um acontecimento. Digamos que a pastoral dos “flatus vocis” corresponda a um inferno que é um “flatus vocis”. Aqueles que afirmam que não há condenados no inferno caem na mesma linha ideológica daqueles que negam a transmissão geracional do pecado original, ou negam a verdadeira e real Encarnação de Nosso Senhor, ou a sua ressurreição corporal 81, ou a integridade biológica da Virgem Maria, ou a presença física de Cristo na Eucaristia. Alguns não negam descaradamente o inferno, nem o pecado original, nem a Encarnação do Verbo, nem a ressurreição, nem a virgindade de Maria, nem a Eucaristia; Mas negam aquilo que verifica, sustenta, como preambula fidei, a realidade do inferno, do pecado original, da Encarnação, da ressurreição, da virgindade, da presença real na Eucaristia. Ou seja, imitam a atitude inconsciente de quem serra o galho onde está sentado. Este inferno fictício é apenas mais um disparate do progressismo. É um inferno vão e mesquinho, como repulgo de empanada.
Que diferença! Costumava-se dizer que havia uma placa na entrada do inferno: “Vós que entrais aqui abandona toda esperança”; Agora eles mudaram a legenda do cartaz para: “Entrada proibida“. Antes: “Não há salvação aqui“; agora: “Está alugado. Desocupado”Antes os bandidos iam para o inferno; agora, se existe inferno, Deus é mau.
Há muito tempo, Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, alertou sobre os misericordistas: “Mas Deus é tão misericordioso! Sim; Ele é misericordioso, mas não é tão estúpido a ponto de agir irracionalmente; Ser misericordioso com quem quer continuar a ofendê-lo não seria bondade, mas estupidez de Deus. O Senhor diz: Devem os teus olhos ser maus porque eu sou bom? (Mt 20:15) E porque sou bom, você quer ser mau? Deus é bom, mas também é justo e, por isso, exorta-nos a observar a sua santa lei se quisermos ser salvos: Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mt 19,17). Se Deus fosse misericordioso com todos os homens, bons e maus; Se concedesse a todos a graça de se converterem antes de morrer, seria ocasião para pecar até para o bem; mas não, quando chega o fim de suas misericórdias, ele pune e não perdoa mais. E os meus olhos não terão piedade de ti nem eu terei piedade (Ez 7,4); Por isso ele nos alerta: Rezai para que a vossa fuga não seja no inverno nem no sábado (Mt 14:20). No inverno você não pode agir por causa do frio nem no sábado por causa da lei; o que significa que chegará um momento para os pecadores impenitentes em que eles gostariam de se entregar a Deus e serão impedidos de fazê-lo pelos seus maus hábitos.”82.
Palavras sábias que devem ser cuidadosamente ponderadas:
– Deus é misericordioso, mas não estúpido;
– Deus é misericordioso, mas a sua misericórdia é regulada pela sua sabedoria83;
– Deus é Amor, mas não age irracionalmente;
– Deus é bom, mas não para que possamos ser maus; Se Deus fosse bom para que pudéssemos ser maus, Deus não seria bom;
– Deus é bom, mas é justo84;
– Se Deus salvasse a todos, se quisesse com vontade eficaz a salvação de todos os homens, sejam bons ou maus, Deus seria ocasião de pecado até para os bons, ou seja, se não punisse os maus induziria os bons a se tornarem maus, pois seria o mesmo. Esse absurdo, que não ocorre em Deus, ocorre em pregadores, catequistas ou formadores que negam o inferno por qualquer motivo – negam a pena de dano, ou a pena de sentido, ou a eternidade, ou esvaziam-no -: eles são, de fato, uma ocasião para o pecado até para o bem. Deus quer com uma vontade antecedente a salvação de todos os homens, mas com uma vontade consequente, depois do pecado não arrependido, ele quer punir alguns. Sugiro que nas nossas Congregações religiosas aqueles que negam qualquer aspecto do inferno sejam convidados, temporariamente, a abandonar a nossa família religiosa. Que o que aconteceu com tantos outros não aconteça conosco. Tapa os ouvidos quando alguém fala negando a terrível realidade do inferno, esses são descendentes do Maligno que trabalham para ele. São lobos em pele de cordeiro.
Se Deus quis com vontade eficaz a salvação de todos os homens, por que a Encarnação do seu Filho? Por que a morte na cruz? Por que a Igreja? Por que o Papa, os bispos, os padres e diáconos? Por que a nova evangelização? Por que as Conferências Episcopais, as Cúrias, o CELAM e todas as outras organizações? Por que os sacramentos? Por que a liturgia? Por que a Palavra de Deus, a Bíblia? Por que pregar? Por que evangelizar a cultura? Por que a missão ad gentes? Por que tratar “da Igreja no mundo de hoje?” Por que dialogar com outros cristãos, com quem acredita em Deus, com quem não acredita em nada? Por que trabalhar no areópago da mídia? Por que…?
O inferno está mais povoado pela “misericórdia” do que de justiça. O progressismo é antifrástico – como um gordo que se chama magro –: eles querem um inferno vazio e a única coisa que conseguem é povoá-lo mais. Eles são os colonizadores do inferno. Um inferno desabitado é um inferno fatal para os homens.
É também Santo Afonso quem ensina: “Um certo autor indicou que o inferno é povoado mais pela misericórdia do que pela justiça divina; e assim é, porque, contando imprudentemente com a misericórdia, continuam a pecar e a condenar-se. Deus é misericordioso. Mas quem nega? E, apesar disso, quantos hoje a misericórdia manda para o inferno! Deus é misericordioso, mas também justo, e por isso é obrigado a punir quem o ofende. Ele mostra misericórdia para com os pecadores, mas apenas para com aqueles que, depois de ofendê-lo, se arrependem e temem ofendê-lo novamente: a sua misericórdia por gerações e gerações para com aqueles que O temem85, cantou a Mãe de Deus. Com aqueles que abusam da sua misericórdia para desprezá-lo, use a justiça. O Senhor perdoa pecados, mas não pode perdoar a vontade de pecar. Santo Agostinho escreve que quem peca com a esperança de se arrepender depois de ter pecado não é penitente, mas zomba de Deus86. O Apóstolo adverte-nos que não se zomba de Deus em vão: Ninguém zomba de Deus87. Seria zombar de Deus, ofendê-lo como e quanto quiser e depois ir para o céu.”88.
Li um artigo muito ambíguo: “Diga-me como é o seu inferno e eu lhe direi quem é o seu Deus“89, o que também se aplica a saber como é quem pensa no inferno. Se o seu inferno está vazio, seu deus é estúpido e você também. Se o seu inferno é “light”, seu deus é “light”, e você é um homem “light”.
A única coisa que os infernovacantistas deixaram vazios foram os conventos, os seminários e os noviciados. Muitos queixam-se de não terem vocações, mas se não acreditam na eternidade, como convencer os jovens de que vale a pena dar tudo por Cristo? A dimensão escatológica está presente em cada decisão vocacional à vida consagrada. Quando isso falta, falta a motivação para fazer algo que valha a pena. Sem eternidade é impossível que haja vocações à vida consagrada: “…É constante a doutrina que o apresenta como uma antecipação do Reino futuro. O Concílio Vaticano II propõe mais uma vez este ensinamento quando afirma que a consagração “já anuncia a futura ressurreição e a glória do reino dos céus”90. Isto é conseguido sobretudo pela opção pela virgindade, sempre entendida pela tradição como uma antecipação do mundo definitivo, que a partir de agora atua e transforma o homem como um todo.”91.
Os infernovacantistas diminuem a grandeza do mistério pascal e transformam a necessidade e a urgência da nova evangelização numa espécie de novo proselitismo. Eles são os pessimistas de “os novos céus e a nova terra” profetizados e prometidos (Is 65, 17 e cf. 66, 22; 2Pe 3, 13).
SEGUNDA PARTE
1. A pastoral acerca do inferno.
Vemos três posições principais sobre esta questão:
1º Há não-progressistas que pregam um inferno em que parece que o mais importante são as penas de sentido – o que é um erro -; ou “mandam” para o inferno aqueles que consideram desagradáveis; ou ficam felizes em pregar, por hábito, sobre o castigo eterno a que inexoravelmente irão seus ouvintes.
2º Os progressistas que escondem ou negam a realidade do inferno têm vergonha de pregá-la ou escondê-la com subterfúgios. Não só por motivos pseudomisericordistas, mas, sobretudo, por estarmos imersos no temporal e nos ajoelharmos diante do que o mundo pensa. Desta forma, eles diminuem a dignidade de Cristo, desvirtuando as suas palavras. A terrível verdade do fato real dos homens que foram condenados e que serão condenados produz o efeito de “vinagre nos dentes e de fumo nos olhos” (cf. Pr 10, 26).
3º Existe uma forma evangélica de pregar sobre a realidade do inferno e é fazê-lo à maneira de Deus.
a) Existe a obrigação de pregar sobre o inferno:
Pio XII ensinou: “Não há, portanto, tempo a perder para combater com todas as nossas forças este deslizamento das nossas próprias fileiras para a irreligiosidade e para despertar o espírito de oração e penitência. A pregação das verdades primeiras da fé e dos fins últimos não só não perdeu a sua oportunidade nos nossos tempos, mas tornou-se mais necessária e urgente do que nunca. Até pregando sobre o inferno. Sem dúvida, este assunto deve ser tratado com dignidade e sabedoria. Mas como a própria substância dessa verdade, a Igreja tem, diante de Deus e diante dos homens, o sagrado dever de anunciá-la, de ensiná-la sem qualquer atenuação, como Cristo a revelou, e não há condição de tempo que possa diminuir o rigor desta obrigação. Isto obriga em consciência todo sacerdote a quem, no ministério ordinário ou extraordinário, foi confiado o cuidado de formar, advertir e orientar os fiéis. É verdade que o desejo do céu é em si um motivo mais perfeito do que o medo do castigo eterno; mas daí não se segue que seja também para todos os homens a razão mais eficaz para mantê-los afastados do pecado e convertê-los a Deus.”92.
A este respeito, Garrigou-Lagrange sustentou: “Hoje pouco se prega sobre este assunto e deixa-se que uma verdade tão salutar caia no esquecimento; Não está suficientemente refletido que o medo do inferno é o início da prudência e conduz à conversão. Neste sentido, pode-se dizer que o inferno salvou muitas almas. Além disso, existem muitas objeções muito superficiais circulando contra a existência do inferno, que parecem para alguns crentes responder à verdade com títulos melhores do que as respostas tradicionais. Por quê? Porque não se aprofundaram nem quiseram desvendar essas respostas”93.
E João Paulo II na Exortação Apostólica pós-sinodal “Reconciliatio et paenitentia”: “Nem pode a Igreja omitir, sem grave mutilação da sua mensagem essencial, uma catequese constante sobre aquilo que a linguagem cristã tradicional designa como os quatro novíssimos do homem: a morte, o julgamento (particular e universal), o inferno e a glória. Numa cultura que tende a encerrar o homem na sua vicissitude terrena mais ou menos alcançada, pede-se aos pastores da Igreja uma catequese que abra e ilumine com a certeza da fé o além da vida presente; Além dos misteriosos portões da morte existe uma eternidade de alegria na comunhão com Deus ou de pena longe dele. Somente nesta visão escatológica podemos ter a medida exata do pecado e sentir-nos decididamente impelidos à penitência e à reconciliação.”94.
b) Devemos pregar convencidos da verdade revelada:
Ao pregar sobre estes temas, Santo Agostinho disse: “Eu vos aterrorizo, irmãos? É porque estou aterrorizado“95. Afirma-se sobre São Paulo da Cruz que quando pregava sobre o inferno dava a impressão de estar contando o que ele mesmo tinha visto – como havia acontecido -: “Ele às vezes tremia da cabeça aos pés, fazendo com que todos que o ouviam tremessem também.”96.
c) A pregação deve ser feita de tal maneira que os ouvintes percebam que o pregador não quer que seus ouvintes vão para o inferno, mas que o faz como que forçado pelo seu dever e por causa do seu amor sacerdotal:
Como Deus faz. Deus não nos ameaça com o inferno porque quer nos condenar, mas para que dele possamos nos libertar, como ensinou São João Crisóstomo97.
São Bernardo disse: “Desçamos ao inferno em vida [entende-se: pela meditação] para não descermos depois da morte.“98. E São Tomás de Aquino aconselhou o mesmo: “Precisamente porque Cristo desceu ao inferno para a nossa salvação, devemos nos preocupar em descer lá com frequência, considerando esses castigos, como fez o santo rei Ezequias, que disse: Eu disse: No meio dos meus dias irei para as portas do Inferno (Is. 38, 10). Pois quem, durante a sua vida, desce lá frequentemente com os seus pensamentos, não descerá facilmente quando morrer, pois tal consideração o separa do pecado.”99.
Quem prega o inferno deve ter as intenções que teve Santo Afonso, nas mesmas circunstâncias: “Convençam-se, então, amados irmãos, de que Deus vai fazer-vos ouvir neste dia o sermão sobre o inferno para vos libertar dele; Ele vos fará ouvir isso para que abandoneis o pecado, que é a única coisa que pode condenar-vos ao inferno.”100.
É a atitude espiritual de tantos santos, por exemplo, Santa Catarina, Santo Antônio Maria Claret, o beato Dom Luís Orione. Em sua “Autobiografia” São Claret101 diz: “A caridade me impele, me impulsiona, me faz correr de uma cidade para outra, me obriga a gritar: Meu filho, pecador, olha, você vai cair no inferno! Pare, não vá mais longe! Ah, quantas vezes peço a Deus o que pediu Santa Catarina de Sena: Dá-me, Senhor, colocar-me às portas do inferno e poder deter aqueles que vão entrar lá e dizer a cada um: Para onde vais, infeliz? Volte, faça uma boa confissão e salve sua alma e não venha aqui para se perder por toda a eternidade!102. E Dom Orione clama: “Coloca-me, Senhor, na boca do inferno para que eu, com a tua misericórdia, possa fechá-lo”.!”103.
Caso o que foi dito pareça insuficiente para alguém, João Paulo II no seu livro “Cruzando o limiar da esperança”104 refere-se a este tema no capítulo 28: Vida Eterna: ainda existe? Citaremos isso em parte, mas detalhadamente.
“Pergunta. […] alguns consideram que esta Igreja tão loquaz se cala sobre o que é essencial: a vida eterna. […]
Resposta. […] Sua pergunta… refere-se… à ligação entre a escatologia e a Igreja na terra. A este respeito, o senhor mostra que na prática pastoral esta abordagem se perdeu um pouco, e devo admitir que, nisso, o senhor tem alguma razão.
Recordemos que, em tempos não muito distantes, nos sermões de retiros ou missões, os Novísimos – morte, julgamento, inferno, glória e purgatório – sempre foram um tema fixo do programa de meditação, e os pregadores souberam falar sobre isso de forma eficaz e sugestiva. Quantas pessoas foram levadas à conversão e à confissão por estes sermões e reflexões sobre as últimas coisas!
Além disso, deve-se admitir, este estilo pastoral era profundamente pessoal: “Lembre-se de que finalmente você aparecerá diante de Deus com toda a sua vida, que diante de Seu tribunal você será responsável por todas as suas ações, que você será julgado não apenas por suas ações e palavras, mas também por seus pensamentos, mesmo os mais secretos”. Pode-se dizer que tais sermões, perfeitamente adaptados ao conteúdo da Revelação do Antigo e do Novo Testamento, penetraram profundamente no mundo íntimo do homem. Abalaram-lhe a consciência, fizeram-no cair de joelhos, levaram-no ao confessionário, produziram nele uma profunda ação salvífica.
O homem é livre e, portanto, responsável. A sua é uma responsabilidade pessoal e social, é uma responsabilidade diante de Deus. Responsabilidade onde reside a sua grandeza. Eu entendo o que teme alguém que chama a atenção para a importância daquilo que você se torna porta-voz; ele teme que a perda destes conteúdos catequéticos e homiléticos constitua um perigo para aquela grandeza fundamental do homem105. Na verdade, é oportuno que nos perguntemos se, sem esta mensagem, a Igreja seria capaz de despertar o heroísmo, de gerar santos. Não estou falando tanto daqueles “grandes” santos que são elevados à honra dos altares, mas sim dos santos “cotidianos”, segundo o significado do termo na literatura cristã primitiva.
É significativo que o Concílio nos lembre também o chamado universal à santidade na Igreja. Esta vocação universal refere-se a cada batizado, a cada cristão. E é sempre muito pessoal, está ligado ao trabalho, à profissão. É uma prestação de contas do uso dos talentos de alguém, se o homem fez bom ou mau uso deles. E sabemos que as palavras do Senhor Jesus, dirigidas ao homem que enterrou o talento, são muito duras, ameaçadoras (cf. Mt 25, 25-30).
Pode-se dizer que mesmo na recente tradição catequética e querigmática da Igreja dominou uma escatologia, que poderíamos qualificar como individual, segundo uma dimensão, embora profundamente enraizada na Revelação divina. A perspectiva que o Concílio quer propor é a de uma escatologia da Igreja e do mundo.
[…] Deve-se admitir que esta visão da escatologia estava apenas muito fracamente presente na pregação tradicional. E é uma visão bíblica original. Toda a passagem conciliar, citada acima, é na verdade composta por textos retirados do Evangelho, das Cartas Apostólicas e dos Atos dos Apóstolos. A escatologia tradicional, que girava em torno dos chamados Novísimos, é inscrita pelo Concílio nesta visão bíblica essencial. A escatologia, como já demonstrei, é profundamente antropológica, mas à luz do Novo Testamento está sobretudo centrada em Cristo e no Espírito Santo, e é também, num certo sentido, cósmica.
Podemos perguntar-nos se o homem com a sua vida individual, com a sua responsabilidade, com o seu destino, com o seu futuro escatológico pessoal, com o seu paraíso, inferno ou purgatório, não acabará por se perder naquela dimensão cósmica. Reconhecendo as boas razões da sua pergunta, devemos responder honestamente: o homem até certo ponto está perdido, os pregadores, os catequistas, os educadores também se perderam, porque perderam a coragem de “ameaçar com o inferno”. E talvez até quem os ouve tenha deixado de ter medo dele.
Na verdade, o homem da civilização atual tornou-se insensível às “coisas últimas”. Por um lado, a secularização e o secularismo agem a favor de tal insensibilidade, com a consequente atitude consumista, orientada para o usufruto dos bens terrenos. Por outro lado, os infernos temporários causados neste século que termina contribuíram em certa medida para isso. Depois das experiências dos campos de concentração, dos gulags, dos bombardeamentos, para não falar dos desastres naturais, poderá o homem esperar algo pior que o mundo, uma acumulação ainda maior de humilhações e desprezos? Em uma palavra, você pode esperar o inferno?
Assim, a escatologia tornou-se, de certa forma, algo estranho ao homem contemporâneo, especialmente na nossa civilização. Isto, contudo, não significa que a fé em Deus como Justiça Suprema se tornou completamente estranha; a espera por Alguém que, finalmente, diga a verdade sobre o bem e o mal dos atos humanos, e recompense o bem e puna o mal. Ninguém mais, somente Ele, será capaz de fazer isso. Os homens ainda têm essa convicção. Os horrores do nosso século não conseguiram eliminá-lo: «É dado ao homem morrer uma só vez e depois julgar» (cf. Hb 9, 27).
Esta convicção constitui também, num certo sentido, um denominador comum de todas as religiões monoteístas, juntamente com outras. Se o Concílio fala da natureza escatológica da Igreja peregrina, também se baseia neste conhecimento. Deus, que é o Juiz justo, o Juiz que recompensa o bem e pune o mal, é verdadeiramente o Deus de Abraão, de Isaque, de Moisés e também de Cristo, que é Seu Filho. Este Deus é antes de tudo Amor. Não só Misericórdia, mas Amor. Não apenas o pai do filho pródigo; Ele é também o Pai que «dá o seu Filho para que o homem não morra, mas tenha a vida eterna» (cf. Jo 3, 16)106.
O Papa continua dizendo: […] “Em Cristo, Deus revelou ao mundo que quer que “todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Esta frase da Primeira Carta a Timóteo tem uma importância fundamental para a visão e para o anúncio das últimas coisas.
O problema do inferno sempre preocupou os grandes pensadores da Igreja desde o início, desde Orígenes, até aos dias de hoje, até Michail Bulgakov e Hans Urs von Balthasar. Na verdade, os antigos concílios rejeitaram a teoria da chamada apocatástase final, segundo a qual o mundo seria regenerado após a destruição e todas as criaturas seriam salvas; uma teoria que aboliu indiretamente o inferno. Mas o problema permanece. Pode Deus, que tanto amou o homem, permitir que o homem o rejeite a ponto de querer ser condenado a um tormento perene? E, no entanto, as palavras de Cristo são unívocas. Em Mateus ele fala claramente sobre aqueles que irão para o castigo eterno (cf. 25:46). Quem serão estes? A Igreja nunca comentou o assunto. É um mistério verdadeiramente inescrutável entre a santidade de Deus e a consciência do homem. O silêncio da Igreja é, portanto, a única posição oportuna do cristão. Também quando Jesus diz de Judas, o traidor, que “seria melhor para aquele homem se não tivesse nascido” (Mt 26,24), a afirmação não pode ser entendida com a certeza da condenação eterna.
Ao mesmo tempo, porém, há algo na própria consciência moral do homem que reage à perda de tal perspectiva: o Deus que é Amor não é também a Justiça definitiva? Ele pode admitir esses crimes terríveis, eles podem ficar impunes? A castigo definitiva não é de alguma forma necessária para obter equilíbrio moral na intrincada história da humanidade? Não é o inferno, em certo sentido, “a última tábua de salvação” para a consciência moral do homem? […]
Talvez isso seja suficiente. Muitos teólogos, no Oriente e no Ocidente, também teólogos contemporâneos, dedicaram os seus estudos à escatologia, aos Novísimos. A Igreja não deixou de manter a sua consciência escatológica. Se deixasse de ser escatológico, deixaria de ser fiel à sua própria vocação, à Nova Aliança, selada por Deus em Jesus Cristo”107.
EPÍLOGO
Enfim, não nos bastará a vida presente, nem mesmo a eternidade, para dar graças a Jesus Cristo que “de Criador veio a fazer-se homem, e de vida eterna a morte temporal, e assim a morrer por meus pecados”108.
Nunca agradeceremos suficientemente a paciência de Deus conosco, pois, estando ainda em vida, ainda temos a esperança de conversão. Poderíamos ter terminado nossa existência nesta terra estando em pecado, e Ele não o permitiu.
Devemos continuar pedindo, todos os dias de nossa vida, a graça das graças, a graça da perseverança final, como o fazemos em cada Ave-Maria: “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.
E muito mais inteligente do que propor dúvidas acerca do inferno — as quais, além disso, há séculos foram resolvidas pelos Santos Padres e Doutores — é vivermos de modo que não venhamos a ir para ele. Pois sempre será verdade: “Que, ao final da jornada / quem se salva sabe / e quem não, não sabe nada”.
Que a Virgem Maria nos guarde e proteja.
Autor: Pe. Carlos Buela
Fonte: Revista Diálogo n. 15.
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NOTAS
1 Cf. Dr. Mario Caponetto, Cabala e Gnosticismo, AICA, n.º 2063, 3 de julho de 1996, p. 21. Antes os chamávamos de “tilingos”.
2 Santo Agostinho, Serm. 251, E.B. app.: “Ultra nescientur a Deo, qui Deum scire noluerunt.”
3 Obras Ascéticas, B.A.C., Madrid, t. II, p. 669.
4 Cf. Mc 9, 42; Lc 3, 17; etc.
5 Chamado de abismo (Lc 8, 31; Ap 9, 11; 20, 1-3), fornalha de fogo (Mt 13, 42 e 50), tanque de fogo e enxofre (Ap 19, 20; 20, 9,15; 21, 8), fogo eterno (Mt 18, 8; 25, 41), perdição, destruição (Mt 7, 13; Fil 3, 19; 1Tm 6, 9; 2Ts 1, 9), segunda morte (Rm 6, 21; Ap 20, 6. 14; 21, 8), Tártaro (2Pe 2, 4), fogo inextinguível, trevas externas, etc.
6 Cf. Is 66, 24; Jdt 16, 21; Éclo. 7, 19 e Mc 9, 43 e seguintes.
7 Cf. Mt 15, 50; etc.
8 Cf. Mt 8,12; 22, 13; 25, 30; etc.
9 São Tomás, S.Th.,1-2, 87, 4: “Poena Damni est infinito, quia est amissio boni infiniti.”
10 Cf. Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, [370].
11 Ibid., [82].
12 Leonardo Castellani, O Evangelho de Jesus Cristo, Dictio, Buenos Aires, 1977, p. 489.
13 Dz. 429 [801].
14 Dz. 51 [1002].
15 Dz. 40 [76].
16 “Introducta sunt in texto verba Domini nostri circa poenam aeterna inferni, sicut explicite a multis Patribus petitum est (E/2639 2675 2676 et 11 alii, E/ 2682 2695 2716 2720.” Textus emendatus Capitis VII Schematis Constitutionis de Ecclesia, Relatio de n.º 48, p. 181, linha 22 (Romae 1964), p.
17 “Ratione habita praecedentis emendationis, ob internam logicam expositionis et ut amplius desideriis Patrum satisfieret, introducta sunt verba de resurrectione vitae vel iudicii (E/ 2788 2838 cum 13 aliis).” Ibid., nota 5, linha 26.
18 Ef 16, 1s.
19 Martírio de São Policarpo, 2, 3; cf. Santo Irineu, Ad haer., 4, 39; Santo Ambrósio, Comentário sobre São Lucas, 7, 20.
20 2Co 17, 5ss.
21 Apologia, 1, 12.
22 Adversus haereses, 4, 28, 2.
23 10, 7s.; Funk, 1, 408-410.
24 Apologético,48; PL 1.527.
25 Ibidem, PL 1, 528; e em De poenitentia, 12; PL 1, 1247.
26 De praescriptione haereticorum,13; PL 2.845.
27 De resurrectione, 35.
28 Ad Demetrianum, 24; ML 4, 561s.
29 A cidade de Deus, 21,10.
30 Ad pop. Ant., Hom.49: “Haec omnia ludicra sunt et risus ad illa supplicia. Pone ignem, pone ferrum, quid nisi umbra sunt ad illa tormenta?” (Tudo isso são jogos e risos comparados a essas torturas. Considere os tormentos de fogo e ferro, o que são eles senão sombras comparados a esses tormentos?)
31 Diál. IV, 29; PL 77, 368.
32 S.Th., Supl. 97, 5.
33 O diálogo, cap. XVIII, B.A.C., 1950, p. 256.
34 Livro da Vida, cap. 32, 4. A Santa Doutora descreve uma visão do inferno que teve e diz que “foi um dos maiores favores que o Senhor me concedeu” (ibid., 5).
35 Op. cit. p. 662.
36 Biografia e escritos, B.A.C., Madrid, 1955, p. 647.
37 Pe. Julio Triviño, Teologia, espiritualidade e profecia da Mensagem de Fátima, in Universitas, n.º 41, setembro de 1976, p. 17.
38 Profissão Solene de Fé 30 de junho de 1968, n. 12; comentário teológico de Cándido Pozo, S.J., 2ª ed., B.A.C., Madrid, 1975, p. 21.
39 Cándido Pozo, S.J., Teologia do Além, B.A.C., Madrid, 1968, p. 197.
40 Como sustentou Orígenes na antiguidade e hoje, por exemplo, o Dicionário Teológico de Rahner (Herder, Barcelona, 1967, p. 514).
41 Ad Theodorum lapsum, I, 12; MG 47, 292.
42 In Mt., hom. 23, 8.
43 S.Th., I-II, 87,4.
44 Palavra de Comunhão, 71 (texto policopiado); Entendo que A. cai no erro lógico da supositio terminorum que leva a uma falacia equivocationis, porque o fogo real e corpóreo passa a significar o fogo do amor de Deus -O Espírito Santo!-, o que é uma falácia por tomar o mesmo termo no mesmo silogismo de forma equívoca; Parece-me também que ele se confunde ao identificar o fogo do inferno com o do purgatório, entendendo o fogo do purgatório segundo a concepção dos Padres Gregos. (Em uma ocasião, tomando como título um exame de Escatologia, o professor vocal sustentou que “o fogo do inferno poderia ser um câncer”; como pode ser visto se manejarmos a exegese arbitrariamente, podemos fazer com que as palavras digam qualquer coisa. Assim “fogo” poderia ser água, vento, nuvem, doce de leite, doce, massa folhada, água sanitária ou qualquer coisa, o que é um absurdo).
45 S.Th., Supl. 99, 1.
46 Dz. 211.
47 “…a dois passos…”, isto nada mais é do que a imaginação de A. Se prestasse mais atenção ao Evangelho de Jesus Cristo, perceberia que “um grande abismo existe entre nós e vós” (Lc 16, 26). O inferno não está a dois passos do céu, como afirma Schillebeeckx.
48 Sou um teólogo feliz, Entrevista com Francesco Strazzari, Soc. Educação Atenas, Madrid, 1994, pp.
49 É claro que Schillebeeckx nega o inferno. Para ele, a lógica do bem, expressa na práxis do Reino, conduz, com base na promessa e na graça, à realização final da felicidade eterna; A lógica do mal, por outro lado, não leva a lugar nenhum; e se há alguém que é capaz, em sua vida, de se separar completa e definitivamente da comunhão com o Deus da vida, está destinado à aniquilação de seu próprio ser: “mas não há reino infernal de sombras próximo ao reino de Deus da felicidade eterna.[…] O éschaton, isto é, o que é último, é exclusivamente positivo. práxis de Jesus de Nazaré, que, por isso, os cristãos confessam como o Cristo” (E. Schillebeeckx, Homem, Imagem de Deus).
50 Ibid., nota 48.
51 Michael Schmaus, Teologia Dogmática, Ed. RIALP, Madri, 1965, t. VII, p. 429.
52 Ibid., nota 48.
53 S. Th., Supl., 99, 1, ad 6.
54 S.Th., I, q. 104, a. 4, c.
55 Ibid., nota 48.
56 S.Th., Supl., 99, 2, ad 1.
57 Taurisano, Preghiere ed elevações de S. Caterina, Roma, 1932, p. 105.
58 Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre algumas questões relativas à escatologia, 17 de maio de 1979, publicada em Mundo Mejor de 4 de agosto de 1979.
59 Cfr. Martelet, G., L’audelà retrouvé, Paris, 1975, p. 182; citado por Juan L. Ruiz de la Peña, A outra dimensão. Escatologia Cristã, Ed. Sal Terrae, Santander, 1986, p. 265.
60 Conferências de Nossa Senhora de Paris, conf. 72 (ano 1851). Cf. Obras completas, tradução de P. Castaño, Madrid, 1926, t. 7, páginas 186-187. (Citado por Antonio Royo Marín, O.P., Teologia da Salvação, B.A.C., Madrid, 1965, p. 328).
61 A aventura da teologia progressista, Eunsa, Pamplona, 1976, p. 230.
62 Hans Küng afirma: “…Não é estranho que hoje em dia não seja fácil, mesmo para os próprios bispos, responder de forma convincente à questão de por que permanecer na Igreja ou simplesmente no ministério, quando não se pode mais ameaçar com o inferno…” (Manter a esperança. Escritos para a reforma da Igreja, Ed. Trotta, 1993, p. 18). Atualmente, mais de 900 sacerdotes deixam o ministério (cf. L’Osservatore Romano, 27 de maio de 1994, p. 7); e segundo o CELAM na América Latina, a cada 30 minutos 200 católicos deixam a Igreja Católica para ingressar em seitas (AICA, n.º 2.066, 24 de julho de 1996, p. 157).
63 IV Sent. d. 46, q. 2, a. 3 pb. praet.
64 IV Sent. d. 46, q. 2, a. 3, sol.1; cf. Supl. 99, 2, c.
65 De fé orth. biblioteca. 2, cap. 4.
66 IV Sent. d. 46, q. 4, sol. 2; cf. Supl. 99, 3.
67 “Unus Pater vult aliquam sententiam introduci ex que appareat reprobos de fato haberi (ne danatio ut mera hipotese maneat.” Schema Constitutionis dogmaticae de Ecclesia, Modi VI, cap. 7, n.º 40, p. 10.
68 “Ceterum in n.º 48 Schematis citantur verba evangélica quibus Dominus ipse in forma gramaticalliterfutura de reprobis loquitur” (ibid., nota anterior).
69 Neste trabalho ignoramos a questão de saber se há muitos ou poucos que são salvos. Não está em nossa intenção tratar desse assunto.
70 Cf. Concílio de Roma, ano 745: DS, 587: “…Clemens, qui per suam stultitiam sanctorum Patrum statuta [scripta] respuit vel omnia synodalia acta [parvipendit], /…/ insuper et dominum Iesum Christum descendentem ad inferos omnes [!] pios et impios exinde praedicat [simul inde] abstraxisse…” (“…Clemente, que por sua estupidez rejeitou os escritos dos Santos Padres ou (tinha pouca consideração) pelos atos sinodais, /…/ também disse que o Senhor Jesus Cristo, descendo ao inferno, extraiu todos os piedosos e os ímpios”).
71 Cfr. Benedict gravitatis peccati personalis primerum parentum. Credunt etiam, quod Christus propter salutem puerorum qui nati fuerunt post eius passionem, incarnatus Fuit et passus, quia per suam passionem destruxit totaliter infernum… do inferno, no qual estavam não pelo pecado original que neles havia, mas pela gravidade do pecado pessoal dos primeiros pais. Eles também acreditam que Cristo se encarnou e sofreu pela saúde dos filhos que nasceram depois de sua paixão, porque por sua paixão destruiu completamente o inferno.”); Clemente VI, c. Super quibusdam: DS, 1077: “Quod Christus non destruxit descendente ad inferos inferiorem infernum” (“Cristo descendo aos infernos não destruiu o inferno inferior”).
72 Nº 633.
73 Grande Enciclopédia Rialp (GER), t. 12, p. 710.
74 Cfr. Mons. de Segur, El Inferno, Iction, Buenos Aires, 1980, pp.
75 A declaração consta do Processo Ordinário, p. 449.
76 Cfr. Henri Gheón, Vicente Ferrer e seu tempo.
77 A Cidade de Deus, cap. 21, seg. 17, 22.
78 Enchiridion, cap. 29, seg. 111 e 113.
79 Por exemplo, ele afirma: “Il Crocifisso non soffre simplesmente l’inferno meritato dai peccatori; qualitativamente ogni possibile inferno. Ció elimina de forma muito radical a symmetria giudiziaria veterotestamentaria” (TeoDrammatica. L’Ultimo Atto, V. 5, ed. Jaca Book, 1986, p. 237).
“Anteriormente, se você notar que toda liberdade condicional do Signore indica a possibilidade de uma dannazione eterna, eles são prepasquali” (idem, p.238).
“Il Signore não é morto soltanto por i buoni che subito si aprono a lui, mas também por i cattivi e gli si negano. Egli ha tempo di aspettare fine a che anche i dispersi figli de Dio siano raggiunti dalla sua luz. Giacché anche il cattivo non é fuori dalla zona del suo potere, e la dispersione del Signore abbraccia e ultrapassa em muito o dispersione dei pecatori” (idem, p. 239).
“Nella passione egli deve soffrire per tutti coloro che senza di lui avrebbero meritato l’inferno. Cosí la tenebra dei peccati rimane recinta dalla tenebra dell’ amore, come la patisce il Figlio nell’abbandono di Dio” (idem, p. 241).
“Nell’inferno rimarrebbe, come realtá dannata definitiva il peccato staccato dal peccatore por l’opera della croce, una realtá non assolutamente nulla causa della forza in essa investita dall’uomo. I peccati vengono rimessi, divisi da noi, da noi distolti. Vengono rinciati lá dove é tutto cio che Dio non vuole a che condanna: nell’inferno. Che un luogo simile cia é, nella storia che va dal peccato originale alla redenzione, moto piú important que se no ci fosse, perché é o testemunho permanente della remissione dei peccati a dom da graça divina” (idem, p.269).
80 A teologia do XX secolo, Queriniana, Brescia 1992, p. 368: “…lo stesso Von Balthasar, que prevê o inferno como uma possibilidade real de queda final, mas insisto ao mesmo tempo no dovere di ‘esperar por todos’.”
81 Cfr. meu artigo A Ressurreição, mito ou realidade?, Mikael, ano 2, não. 6.
82 Obras Ascéticas, Sermão 34, Sobre a Impenitência, t. II, BAC, 1954, p. 749.
83 Cfr. S. Th., Supl., 99, 2, ad 1.
84 Que Deus é bom nos dá esperança, o que evita o desespero; O fato de Deus ser justo infunde-nos o medo, o que impede a presunção (cf. São Tomás, Ad Rom. 11, 22).
85 Lc 1, 50.
86 “Irrisor est, non poenitens” (Ad. Fr. in er., s.), cit. em San Alfonso, ver nota 87.
87 Gl 6, 7.
88 Sermão 32, Ilusões do Pecador, op. cit., pp.
89 Boletim Salesiano, agosto de 1993, n. 510, p.10 e segs.
90 Constituição Dogmática Lumen gentium, 42.
91 Exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata, n. 26.
92 Pio XII, Exortação aos párocos e pregadores na Quaresma de 1949, AAS 41.5 (25 de abril de 1949), p. 185.
93 Garrigou-Lagrange, A vida eterna e a profundidade da alma, Madrid, p. 133.
94 João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-sinodal Reconciliatio et Paenitentia, 26.
95 Cit. de Ubillos, Exercícios Espirituais.
96 Carlos Almeras, San Pablo de la Cruz, Ed. Descleé, Bilbao, 1960, p. 135.
97 “Minatur Deus gehennam, ut a gehenna liberet, et ut firmi ac stabiles Evitamus minas” (De poenit., hom. 3).
98 Cit. de Ubillos, Exercícios Espirituais.
99 Exposições. símbolo. N.º 932: “Nam Christus descendit ad inferus pro salute nostra, et nos frequenter debenmus solliciti esse illuc descendere…”.
100 Op. cit., p. 660.
101 Escritos autobiográficos e espirituais, B.A.C., Madrid, 1959, n.º 212, p. 251.
102 B. Raimondo di Capua, La vita di S. Caterina da Siena, Volgarizzata da Bernardino Pecci, Roma, 1866, Prólogo primo XV, p. 10: “Se, salva l’union della tua caritá, io fosse posta sopra la bocca dell’inferno, per chiuderlo, talmente che niuno mai piú v’entrasse, mi sarebbe gratissimo, affinché in tal maniera tutti i mei prossimi si salvassero.”
103 Cartas Selecionadas, Ed. Pio XII, Mar del Plata, 1952, p. 189 (Texto citado em nossas primeiras Constituições [356] na versão Caminho com Dom Orione, Ed. Pcia. Nuestra Señora de la Guardia, Argentina, vol. II, p. 227).
104 Editado por Vittorio Messori, Ed. Plaza & Janés, Barcelona, 1994, pp.
105 Nicolas Berdiaev disse: “Ao afirmar sistematicamente a personalidade e a liberdade, chega-se à possibilidade do inferno. Não é difícil superar a ideia do inferno, mas os conceitos de personalidade e liberdade perdem automaticamente força” (Esprit e liberté, Essai de philosophie chrétienne, Paris, Ed. Jesers 1933, p. 341; citado por Charles Journet, El Mal, Ediciones RIALP, Madrid, 1965, p. 176).
106 Cruzando o limiar da esperança, idem.
107 Ibidem, p. 188.
108 Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, [53].