Este estudo ocupa-se do complexo fenômeno da Nova Era (New Age), que influencia numerosos aspectos da cultura contemporânea.
O estudo é um relatório provisório. É fruto da reflexão comum do Grupo de Trabalho sobre Novos Movimentos Religiosos, composto por membros de diferentes dicastérios da Santa Sé: os Pontifícios Conselhos da Cultura e para o Diálogo Inter-religioso, que são os principais redatores deste projeto; a Congregação para a Evangelização dos Povos e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
Estas reflexões dirigem-se principalmente aos responsáveis pela ação pastoral, a fim de que possam explicar em que difere o movimento Nova Era da fé cristã. O estudo convida os leitores a terem em conta a sede espiritual de muitas pessoas do nosso tempo, que a espiritualidade da Nova Era procura saciar. É preciso reconhecer que o atrativo exercido pela religiosidade da Nova Era sobre alguns cristãos pode dever-se, em parte, a uma falta de atenção séria por parte das próprias comunidades cristãs a temas que, na realidade, são elementos integrantes da síntese católica. Tais são, por exemplo, a importância da dimensão espiritual do homem, integrada no conjunto da sua existência, a busca do sentido da vida, a vinculação entre os seres humanos e o restante da criação, o desejo de uma transformação pessoal e social, e a rejeição de uma visão racionalista e materialista da humanidade.
A presente publicação sublinha a importância de compreender a Nova Era como corrente cultural, bem como a necessidade de que os católicos compreendam a autêntica doutrina e espiritualidade católicas para avaliar adequadamente os temas da Nova Era. Os dois primeiros capítulos apresentam a Nova Era como uma tendência cultural multifacetada e propõem uma análise dos fundamentos básicos das ideias transmitidas nesse contexto. A partir do terceiro capítulo oferecem-se algumas indicações para o estudo da Nova Era, comparando-a com a mensagem cristã. Também se apresentam algumas sugestões de caráter pastoral.
Aqueles que desejarem aprofundar o estudo da Nova Era encontrarão referências úteis nos apêndices. É de esperar que esta obra ofereça um estímulo para ulteriores estudos, adaptados aos diferentes contextos culturais. O seu objetivo consiste em fomentar o discernimento daqueles que procuram pontos de referência sólidos para uma vida mais plena. Estamos convencidos de que, na busca de muitos dos nossos contemporâneos, se pode descobrir uma autêntica sede de Deus. Como disse o Papa João Paulo II a um grupo de bispos dos Estados Unidos: « Os pastores devem perguntar-se sinceramente se prestaram suficiente atenção à sede do coração humano em busca da “água viva” que só Cristo nosso Redentor pode dar (cf. Jo 3, 7-13) ». Como ele, queremos apoiar-nos « na novidade perene da mensagem evangélica e na sua capacidade de transformar e renovar aqueles que a aceitam » (AAS 864, 330).
1 QUE TIPO DE REFLEXÃO?
As reflexões seguintes têm por objetivo orientar os responsáveis pela pregação do Evangelho e pelo ensino na Igreja, em todos os níveis. Este documento não pretende oferecer um conjunto exaustivo de respostas às múltiplas questões suscitadas pela Nova Era ou por outros indícios contemporâneos da perene busca humana de felicidade, sentido e salvação. É um convite a compreender a Nova Era e a entabular um diálogo com aqueles que se veem influenciados por suas ideias. O documento ajuda os agentes de pastoral a compreender a espiritualidade da Nova Era e a responder a ela, ilustrando os pontos em que tal espiritualidade contrasta com a fé católica e refutando as posições defendidas pelos pensadores da Nova Era em oposição à fé cristã. Na realidade, o que se exige dos cristãos é, antes de tudo e acima de tudo, estarem firmemente fundamentados em sua fé. Sobre essa base sólida, podem construir uma vida que responda positivamente ao convite da primeira carta de São Pedro: « Se alguém vos pedir explicações da vossa esperança, estai dispostos a defendê-la, mas com modéstia e respeito, com boa consciência » (1 Pd 3, 15s).
1.1. Por que agora?
O começo do terceiro milênio não só chega dois mil anos depois do nascimento de Cristo, mas também numa época em que os astrólogos creem que a Era de Peixes –conhecida por eles como a era cristã– está chegando ao fim. Estas reflexões referem-se à Nova Era, que recebe seu nome da iminente Era astrológica de Aquário. A Nova Era é uma das muitas tentativas de dar sentido a este momento histórico pelo qual a cultura (especialmente a ocidental) se vê bombardeada. Torna-se difícil ver com clareza o que há de compatível e de incompatível em relação à mensagem cristã. Por isso parece ser este o momento oportuno para oferecer uma avaliação cristã do pensamento da Nova Era e do movimento da Nova Era como conjunto.
Disse-se, e com razão, que nestes dias muitas pessoas vacilam entre a certeza e a incerteza, especialmente no que se refere à sua identidade.1 Alguns dizem que a religião cristã é patriarcal e autoritária, que as instituições políticas são incapazes de melhorar o mundo e que a medicina tradicional (alopática) é simplesmente incapaz de curar eficazmente as pessoas. O fato de que aquilo que em outros tempos eram elementos centrais da sociedade seja percebido atualmente como indigno de confiança ou carente de verdadeira autoridade criou um clima no qual as pessoas dirigem o olhar para o interior, para si mesmas, em busca de sentido e de força. Há também uma busca de instituições alternativas que se espera possam responder às suas necessidades mais profundas. A vida caótica e desestruturada das comunidades alternativas dos anos setenta foi cedendo lugar a uma busca de disciplina e de estruturas, que são claramente os elementos-chave dos movimentos « místicos » imensamente populares. A Nova Era mostra-se atraente sobretudo porque muito do que oferece sacia a fome que com frequência as instituições oficiais deixam insatisfeita.
Embora grande parte da Nova Era seja uma reação contra a cultura contemporânea, em muitos aspectos revela-se filha dessa mesma cultura. O Renascimento e a Reforma configuraram o indivíduo ocidental moderno, que não se sente oprimido por cargas externas, como a autoridade meramente extrínseca e a tradição. Há muitos que sentem cada vez menos necessidade de « pertencer » às instituições (apesar do que, a solidão continua sendo em grande medida um flagelo da vida moderna), e não se inclinam a dar às opiniões « oficiais » maior valor que às suas próprias. Com esse culto à humanidade, a religião se interioriza, de modo que vai sendo preparado o terreno para uma celebração da sacralidade do eu. Por isso a Nova Era compartilha muitos dos valores propugnados pela cultura empresarial e pelo « evangelho da prosperidade » (dos quais se falará mais adiante: seção 2.4), bem como pela cultura do consumidor, cujo influxo pode ser visto claramente no número cada vez maior de pessoas que afirmam ser possível conciliar o cristianismo e a Nova Era, aceitando aquilo que lhes parece melhor de um e de outra.2 Vale a pena recordar que os desvios no seio do cristianismo também ultrapassaram o teísmo tradicional, ao aceitar um retorno unilateral ao Eu, o que favoreceria essa fusão de enfoques diferentes. O que importa assinalar é que, em certas práticas da Nova Era, Deus fica reduzido a uma prolongação do progresso do indivíduo.
A Nova Era atrai pessoas imbuídas dos valores da cultura moderna. A liberdade, a autenticidade, a autossuficiência e outras coisas semelhantes são consideradas sagradas. Atrai aqueles que têm problemas com estruturas de tipo patriarcal. « Não requer mais fé ou mais crença do que a necessária para ir ao cinema »,3 e, no entanto, pretende saciar o apetite espiritual do homem. Mas, e aqui se encontra a questão central, o que se entende exatamente por espiritualidade no ambiente da Nova Era? A resposta é chave para desvendar algumas das diferenças entre a tradição cristã e grande parte daquilo que pode ser chamado de Nova Era. Algumas versões da Nova Era dominam as forças da natureza e procuram comunicar-se com outros mundos para descobrir o destino dos indivíduos, para ajudá-los a sintonizar com a frequência adequada e tirar o máximo proveito de si mesmos e de suas circunstâncias. Na maior parte dos casos, resulta completamente fatalista. O cristianismo, por sua vez, é um convite a dirigir o olhar para fora, para além, ao « novo advento » do Deus que nos chama a viver o diálogo do amor.4
1.2. Na era das comunicações
A revolução tecnológica das comunicações nos últimos anos provocou uma situação completamente nova. A facilidade e a velocidade com que hoje podemos comunicar-nos é uma das razões pelas quais a Nova Era atraiu a atenção de pessoas de todas as idades e ambientes. Muitos cristãos, entretanto, não têm certeza do que ela é na realidade. A Internet, em particular, adquiriu enorme influência, especialmente entre os jovens, que a consideram um meio agradável e fascinante para obter informação. Mas, sobre numerosos aspectos da religião, é um veículo superficial de desinformação: nem tudo o que se apresenta com o rótulo de « cristão » ou « católico » é confiável, nem reflete a doutrina da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, há uma notável expansão das fontes da Nova Era, que vão de coisas sérias ao ridículo. As pessoas precisam, mais ainda, têm direito a uma informação fidedigna sobre as diferenças entre o cristianismo e a Nova Era.
1.3. Contexto cultural
Quando se examinam muitas das tradições da Nova Era, logo se torna claro que, na realidade, há pouco de novo na Nova Era. O nome parece ter-se difundido por meio dos rosacruzes e da maçonaria, nos tempos das revoluções francesa e americana. Contudo, a realidade que ele denota é uma variante contemporânea do esoterismo ocidental, que remonta aos grupos gnósticos surgidos nos primeiros tempos do cristianismo e que se consolidaram na época da Reforma na Europa. Esse gnosticismo foi-se desenvolvendo junto com as novas visões científicas do mundo e adquiriu uma justificação racional ao longo dos séculos XVIII e XIX. Implicava uma rejeição progressiva do Deus pessoal e foi-se concentrando em outras entidades que, no cristianismo tradicional, figuravam como intermediárias entre Deus e a humanidade, com adaptações cada vez mais originais delas, e até acrescentando outras. Uma poderosa corrente da cultura ocidental moderna que contribuiu para difundir as ideias da Nova Era é a aceitação geral da teoria evolucionista de Darwin. Isso, juntamente com uma atenção centrada nos poderes ou forças espirituais ocultas da natureza, foi a espinha dorsal daquilo que hoje se conhece como teoria da Nova Era. Na realidade, se a Nova Era alcançou um grau notável de aceitação, foi porque a cosmovisão em que se baseia já estava amplamente aceita. O terreno estava bem preparado pelo crescimento e pela difusão do relativismo, juntamente com uma antipatia ou indiferença para com a fé cristã. Houve, além disso, um vivo debate acerca de se, e em que medida, a Nova Era pode ser qualificada como um fenômeno pós-moderno. A própria existência do pensamento e da prática da Nova Era, bem como sua vitalidade, dão testemunho do anseio insaciável do espírito humano pela transcendência e pelo sentido religioso, algo que não é apenas um fenômeno cultural contemporâneo, mas que já se manifestava no mundo antigo, tanto cristão como pagão.
1.4. A Nova Era e a fé católica
Ainda que se possa admitir que a religiosidade da Nova Era, de certo modo, responde ao legítimo anseio espiritual da natureza humana, é preciso reconhecer que tais tentativas se opõem à revelação cristã. Na cultura ocidental em particular, é muito forte o atrativo dos enfoques « alternativos » à espiritualidade. Por outro lado, entre os próprios católicos, inclusive em casas de retiro, seminários e centros de formação para religiosos, popularizaram-se novas formas de afirmação psicológica do indivíduo. Ao mesmo tempo, há uma nostalgia e uma curiosidade crescentes pela sabedoria e pelos rituais de outrora, o que explica em parte o notável aumento da popularidade do esoterismo e do gnosticismo. Muitos se sentem especialmente atraídos pelo que se conhece –corretamente ou não– como « espiritualidade » celta,5 ou pelas religiões dos povos antigos. Os livros e cursos sobre espiritualidade ou sobre religiões antigas ou orientais são um negócio florescente e com frequência recebem o apelativo de « Nova Era » por razões de caráter comercial. Mas os vínculos com tais religiões nem sempre são claros. De fato, com frequência são negados.
Um adequado discernimento cristão do pensamento e da prática da Nova Era não pode deixar de reconhecer que, como o gnosticismo dos séculos II e III, ela representa uma espécie de compêndio de posições que a Igreja identificou como heterodoxas. João Paulo II alertou a respeito do « renascimento das antigas ideias gnósticas sob a forma da chamada New Age. Não devemos enganar-nos pensando que esse movimento possa levar a uma renovação da religião. É somente um novo modo de praticar a gnose, isto é, essa postura do espírito que, em nome de um profundo conhecimento de Deus, acaba por deturpar a Sua Palavra, substituindo-a por palavras que são somente humanas. A gnose nunca desapareceu do âmbito do cristianismo, mas sempre conviveu com ele, às vezes sob a forma de correntes filosóficas, mais frequentemente com modalidades religiosas ou pararreligiosas, com uma decidida, embora às vezes não declarada, divergência em relação ao que é essencialmente cristão ».6 Um exemplo disso pode ser visto no eneagrama –um instrumento para a análise caracterológica segundo nove tipos– que, quando utilizado como meio de desenvolvimento pessoal, introduz ambiguidade na doutrina e na vivência da fé cristã.
1.5. Um desafio positivo
Não se deve subestimar o atrativo da religiosidade da Nova Era. Quando falta um conhecimento profundo dos conteúdos da fé cristã, alguns, pensando erroneamente que a religião cristã não é capaz de inspirar uma espiritualidade profunda, procuram-na em outros lugares. A bem da verdade, alguns dizem que a Nova Era está ficando antiquada e já falam da « próxima » era.7 Falam de uma crise que começou a manifestar-se nos Estados Unidos no início dos anos 1990, mas admitem que, especialmente fora do mundo de língua inglesa, tal « crise » pode chegar mais tarde. Entretanto, as livrarias e as emissoras de rádio, bem como a multidão de grupos de autoajuda em numerosas cidades e capitais ocidentais, todos parecem desmentir tal crise. Parece que, ao menos por enquanto, a Nova Era continua bem viva como parte do atual panorama cultural.
O êxito da Nova Era apresenta um desafio à Igreja. Muitos pensam que a religião cristã já não lhes oferece –ou talvez nunca lhes tenha proporcionado– algo de que realmente necessitassem. A busca que com frequência conduz uma pessoa à Nova Era é um anseio autêntico: por uma espiritualidade mais profunda, por algo que lhes toque o coração, por um modo de encontrar sentido num mundo confuso e muitas vezes alienante. Há algo de positivo nas críticas que a Nova Era dirige ao « materialismo da vida cotidiana, da filosofia e até da medicina e da psiquiatria; ao reducionismo, que se recusa a levar em conta as experiências religiosas e sobrenaturais; à cultura industrial de um individualismo desenfreado, que inculca o egoísmo e se despreocupa dos outros, do futuro e do meio ambiente ».8 Os problemas que a Nova Era apresenta nascem antes daquilo que propõe como respostas alternativas às questões vitais. Se não queremos que a Igreja seja acusada de permanecer surda aos anseios dos homens, seus membros devem fazer duas coisas: firmar-se com ainda maior solidez nos fundamentos de sua fé e escutar o clamor, com frequência silencioso, do coração dos homens, que os leva a afastar-se da Igreja quando nela não encontram respostas satisfatórias. Em tudo isso há também um chamado a aproximar-se de Jesus Cristo e a estar dispostos a segui-lo, pois Ele é o verdadeiro caminho para a felicidade, a verdade sobre Deus e a plenitude de vida para todos quantos estejam dispostos a responder ao seu amor.
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2 A ESPIRITUALIDADE DA NOVA ERA — VISÃO GERAL
Em muitas sociedades ocidentais, e de maneira crescente também
em outras partes do mundo, os cristãos com freqüência
entram em contato com diversos aspectos do fenômeno conhecido como
Nova Era. Muitos deles sentem a necessidade de entender como podem aproximar-se
da melhor maneira possível de algo tão sedutor e, ao mesmo
tempo, complexo, esquivo e em certas ocasiões perturbador. Estas
reflexões pretendem ajudar os cristãos a fazer duas coisas:
– identificar os elementos do desenvolvimento da tradição
da Nova Era;
– apontar os elementos incompatíveis com a revelação
cristã.
Esta é uma resposta pastoral a um desafio atual. Não
pretende proporcionar uma lista exaustiva dos fenômenos da Nova Era,
já que isso exigiria um volumoso tratado, além do que esta
informação está disponível em outros lugares.
É essencial tentar compreender a Nova Era corretamente para avaliá-la
com imparcialidade e evitar criar uma caricatura da mesma. Seria insensato,
além de falso, dizer que tudo o que é relacionado com este
movimento é bom, ou que é mau tudo aquilo que se refere a
ele. Não obstante dada a visão subjacente à religiosidade
da Nova Era, em termos gerais é difícil reconciliá-la
com a doutrina e a espiritualidade cristãs.
A Nova Era não é um movimento no sentido em que normalmente
se emprega o termo “Novo Movimento Religioso”, nem é aquilo que
normalmente se dá a entender com os termos “culto” ou “seita”. É
muito mais difuso e informal, já que atravessa as diversas culturas,
em fenômenos tão variados como a música, o cinema,
seminários, oficinas, retiros, terapias, e em outros muitos acontecimentos
e atividades, embora alguns grupos religiosos ou para-religiosos tenham
incorporado conscientemente alguns elementos da Nova Era, e inclusive alguns
tenham sugerido que esta corrente foi fonte de inspiração
para várias seitas religiosas e para-religiosas . No entanto, a
Nova Era não é um movimento individual uniforme, mas antes
uma rede ampla de seguidores cuja característica consiste em pensar
globalmente e atuar localmente. Aqueles que fazem parte dessa rede não
se conhecem necessariamente uns aos outros e raramente se reúnem,
se é que chegam a fazê-lo. Com o fim de evitar a confusão
que pode surgir ao usar o termo “movimento”, alguns se referem a Nova Era
como um “ambiente” (milieu) ou um “culto de audiência” (audience
cult) . No entanto, também se tem destacado que “é uma corrente
de pensamento muito coerente”, um desafio deliberado da cultura moderna.
É uma estrutura sincretista que incorpora muitos elementos diversos
e que permite compartilhar interesses ou vínculos em graus distintos
e com níveis de compromissos muito variados. Muitas tendências,
práticas e atitudes mais ou menos vinculadas à Nova Era,
na realidade são parte de uma reação mais ampla, facilmente
identificável, contra a cultura dominante, de modo que o termo “movimento”
não está completamente fora de lugar. Pode aplicar-se à
Nova Era no mesmo sentido em que se aplica a outros movimentos sociais
de vasto alcance, tais como o movimento pelos direitos civis ou o movimento
pela paz. Assim como eles, abrange um impressionante conjunto de pessoas
vinculadas aos objetivos fundamentais do movimento, porém sumamente
diferentes pela maneira em que se vinculam a ele e pelo modo de entender
algumas questões concretas.
A expressão “religião da Nova Era” é mais controvertida,
pelo que convém evitá-la, apesar de que a Nova Era é
com freqüência uma resposta a perguntas e necessidades religiosas,
que exerce sua atração sobre pessoas que tratam de descobrir
ou redescobrir uma dimensão religiosa em sua vida. Evitar o termo
“religião da Nova Era” não significa de modo algum pôr
em questão o caráter genuíno da busca de significado
e de sentido da vida por parte dessas pessoas. Respeita o fato de que muitos
daqueles que estão dentro do movimento Nova Era distinguem cuidadosamente
entre “religião” e “espiritualidade”. Muitos rejeitaram a religião
organizada, porque a seu juízo não conseguia responder a
suas necessidades e por isso se dirigiram a outros lugares para encontrar
“espiritualidade”. Mais ainda, no coração da Nova Era está
a crença de que a época das religiões particulares
passou, e por isso referir-se a ele como uma religião seria contradizer
sua própria autocompreensão. Não obstante, se pode
situar a Nova Era no contexto mais amplo da religiosidade esotérica,
cujo atrativo continua crescendo.
Existe um problema implícito no presente texto. Tratando de entender
e avaliar algo que é essencialmente uma exaltação
da riqueza da experiência humana, inevitavelmente se objetará
que jamais poderá fazer justiça a um movimento cultural cuja
essência é precisamente romper com o que se consideram os
limites restritivos do discurso racional. Na realidade, tem por objetivo
convidar os cristãos a levar a sério a Nova Era e, como tal,
pede aqueles que o leram entrarem em um diálogo crítico com
aqueles que se aproximam do mesmo mundo a partir de perspectivas muito
diferentes.
A eficácia pastoral da Igreja no terceiro milênio depende
em grande parte da preparação de comunicadores eficientes
da mensagem evangélica. O que segue é uma resposta às
dificuldades expressas por muitos que estão em contato com esse
fenômeno tão complexo e escorregadiço conhecido como
a Nova Era. É uma tentativa compreender o que é a Nova Era
e de identificar as perguntas às quais esta pretende oferecer respostas
e soluções. Já existem excelentes livros e outros
materiais que analisam o fenômeno no seu conjunto ou que explicam
aspectos particulares com grande detalhe. Nós nos referiremos a
alguns deles no apêndice. Não obstante, nem sempre realizam
o necessário discernimento à luz da fé cristã.
O propósito do presente texto é ajudar aos católicos
a encontrar uma chave para entender os princípios básicos
que há por trás do pensamento da Nova Era, de modo que possam
avaliar cristãmente os elementos da Nova Era que encontram. Convém
recordar que muitas pessoas rejeitam o termo “Nova Era” e sugerem a expressão
“espiritualidade alternativa” como mais correta e menos restritiva. Também
é verdade que muitos dos fenômenos mencionados neste documento
provavelmente não levam nenhuma etiqueta particular, porém
se pressupõe, para ser breve, que os leitores identificaram o fenômeno
ou conjunto de fenômenos que podem estar razoavelmente vinculados
com o movimento cultural geral conhecido habitualmente como Nova Era.
2.1. Que há de novo na Nova Era?
Para muitos, o termo “Nova Era” se refere a um momento decisivo da história.
Segundo os astrólogos, vivemos na Era de Peixes, que foi dominada
pelo cristianismo e que será substituída pela nova era de
Aquário no começo do terceiro milênio. A Era de aquário
adquire uma enorme importância no movimento da Nova Era, em grande
parte por causa do influxo da teosofia, do espiritismo e da antroposofia,
assim como dos seus antecedentes esotéricos. Os que sublinham a
iminente mudança do mundo expressam muitas vezes o desejo desta
mudança, não tanto no mundo mesmo quanto em nossa cultura,
em nosso modo de relacionar-nos com o mundo. Isto é especialmente
manifestado naqueles que acentuam a idéia de um Novo Paradigma de
vida. É um enfoque atraente, visto que algumas de suas manifestações,
os seres humanos não são espectadores passivos, mas sim desempenham
um papel ativo na transformação da cultura e na criação
de uma nova consciência espiritual. Em outras manifestações,
se atribui um maior poder à progressão inevitável
dos ciclos naturais. De qualquer modo, a Era de Aquário é
uma visão, não uma teoria. Porém a Nova Era é
uma tradição ampla que incorpora muitas idéias sem
vinculação explícita com a mudança da Era de
Peixes para a Era de Aquário. Entre elas existem visões moderadas,
porém muito generalizadas, de um futuro no qual haverá uma
espiritualidade planetária junto às religiões individuais,
instituições políticas planetárias que complementarão
as locais, entidades econômicas globais mais participativas e democráticas,
uma maior importância das comunicações e da educação,
um enfoque misto da saúde que combinará a medicina profissional
e a autocura, uma compreensão do eu mais andrógina, e formas
de integrar a ciência, a mística, a tecnologia e a ecologia.
Mais uma vez, isto demonstra o profundo desejo de uma existência
satisfatória e saudável para a raça humana e para
o planeta. Entre as tradições que se juntaram na Nova Era
podem contar-se: as antigas práticas do ocultismo egípcio,
a cabala, o gnosticismo cristão primitivo, o sufismo, as tradições
dos druidas, o cristianismo celta, a alquimia medieval, o hermetismo renascentista,
o budismo zen, a yoga, etc.
Nisto consiste o “novo” da Nova Era. É um “sincretismo de elementos
esotéricos e seculares”. Vincula-se à percepção,
amplamente difundida, de que o tempo está maduro para uma mudança
fundamental dos indivíduos, da sociedade e do mundo. Há várias
expressões da necessidade de mudança:
– da física mecanicista de Newton à física quântica;
– da exaltação da razão da modernidade a uma valorização
do sentimento, da emoção e da experiência (descrita
muitas vezes como um deslocamento do pensamento racional “do hemisfério
esquerdo” ao pensamento intuitivo do “hemisfério direito”);
– do domínio da masculinidade e do patriarcado, a uma celebração
da feminilidade nos indivíduos e na sociedade.
Neste contexto se usa com freqüência o termo “mudança
de paradigma” (paradigm shift). Às vezes, claramente se pressupõe
que tal mudança não somente é desejável, porém
inevitável. A negação da modernidade, subjacente a
este desejo de mudança, não é nova. Ao contrário
pode descrever-se como “um restabelecimento ou “revival” moderno das religiões
pagãs com uma mistura de influências tanto das religiões
orientais como da psicologia, da filosofia, da ciência e da contracultura
modernas, desenvolvidas nos anos cinqüenta e sessenta”. A Nova Era
não é senão uma testemunha de idéias e valores
dominantes na cultura ocidental, apesar de que sua crítica idealista
é, paradoxalmente, típica da cultura que critica.
É preciso dizer uma palavra sobre a idéia de mudança
de paradigma. Foi popularizada por Thomas Kuhn, historiador americano da
ciência, que concebeu o paradigma como “a constelação
inteira de crenças, valores, técnicas, etc., compartilhados
pelos membros de uma dada comunidade”. Quando se produz um deslocamento
de um paradigma a outro, se trata de uma transformação em
bloco da perspectiva mais do que um desenvolvimento gradual: na realidade,
é uma revolução. Kuhn enfatizou que os paradigmas
rivais são incomensuráveis e não podem coexistir.
Por isso, afirmar que uma mudança de paradigma no âmbito da
religião e da espiritualidade é simplesmente uma maneira
nova de formular as crenças tradicionais, constitui um erro. O que
acontece na verdade é uma mudança radical de cosmovisão,
que invalida não só o conteúdo, mas também
a interpretação fundamental da visão anterior. Talvez
o exemplo mais claro de tudo isto, pelo que se refere à relação
entre a Nova Era e o cristianismo, seja a reelaboração da
vida e do significado de Jesus Cristo. É impossível reconciliar
estas duas visões.
Está claro que a ciência e a tecnologia têm sido
incapazes de cumprir suas promessas antigas pelo que os seres humanos se
têm voltado para o âmbito espiritual em busca de significado
e de libertação. Tal como agora a conhecemos, a Nova Era
procedia da busca de algo mais humano e mais belo diante da experiência
opressora e alienante da vida na sociedade ocidental. Seus primeiros expoentes,
dispostos a estender seu olhar na direção desta busca, fizeram
dela um enfoque muito eclético. Poderia ser um dos sinais da “volta
à religião”, porém afinal não é uma
volta às doutrinas e credos cristãos ortodoxos. Os primeiros
símbolos deste “movimento” que se introduziram na cultura ocidental
foram o conhecido festival de Woodstock, no Estado de Nova York, em 1969,
e o musical Hair, que expôs os principais temas da Nova Era em sua
canção emblemática “Aquarius”. Porém isto era
tão somente a ponta de um icerbeg cujas verdadeiras dimensões
se pode perceber somente numa época relativamente recente. O idealismo
dos anos 1960 e 1970 ainda sobrevive em alguns setores. Porém agora
já não são os adolescentes que estão principalmente
envolvidos. Os vínculos com a ideologia política de esquerda
se desvaneceram e as drogas psicodélicas já não têm
a importância daquele tempo. Ocorreram tantas coisas desde aquele
tempo que tudo isto já não é revolucionário.
As tendências “espirituais e “místicas” que antes se limitavam
à contracultura, hoje em dia fazem parte arraigada da cultura dominante
e afetam facetas tão distintas da vida como a medicina, a ciência,
a arte e a religião. A cultura ocidental está agora imbuída
de uma consciência política e ecológica mais generalizada
e todo este deslocamento cultural exerceu um enorme impacto nos estilos
de vida das pessoas. Alguns sugeriram que o “movimento” Nova Era é
precisamente essa grande mudança para o que se considera “um gênero
de vida notavelmente melhor”.
2.2. O que pretende oferecer a Nova Era?
2.2.1. Encantamento: deve haver um anjo
Um dos elementos mais comuns da espiritualidade da Nova Era é
a fascinação pelas manifestações extraordinárias
e em particular pelos seres paranormais. As pessoas reconhecidas como médiuns
asseguram que sua personalidade é possuída por outra entidade
durante o transe, um fenômeno da Nova Era conhecido como “channeling”
(canalização), no qual o médium pode perder o controle
de seu corpo e de suas faculdades. Algumas pessoas que foram testemunhas
destes acontecimentos não duvidariam em admitir que as manifestações
são efetivamente espirituais, porém não procedem de
Deus, apesar da linguagem de amor e luz que se costuma usar quase sempre.
Provavelmente seja mais correto referir-se a isto como a uma forma contemporânea
de espiritismo, mais que a uma espiritualidade em sentido estrito. Outros
amigos e conselheiros do mundo do espírito são os anjos (que
se converteram em centro de um novo negócio de livros e imagens).
Quando na Nova Era se fala de anjos, se faz de maneira pouco sistemática,
pois as distinções neste âmbito nem sempre se consideram
úteis, sobretudo se são demasiado precisas, já que
“há muitos níveis de guias, entidades, energias e seres em
cada oitava do universo… Estão ali para que os escolhas e elejas
segundo os teus próprios mecanismos de atração–repulsão”.
Estes seres espirituais às vezes são invocados de maneira
“não religiosa” como uma ajuda para o relaxamento, com vista a melhorar
a tomada de decisões e o controle da própria vida pessoal
e profissional. Outra experiência da Nova Era, que asseguram possuir
alguns que se auto-definem como “místicos”, consiste na fusão
com alguns espíritos que ensinam através de pessoas concretas.
Alguns espíritos da natureza são descritos como energias
poderosas que existem no mundo natural e também nos “níveis
interiores”: Isto é, aqueles aos quais se acede mediante o uso de
rituais, drogas e outras técnicas para alcançar estados de
consciência alterados. Está claro que, ao menos em teoria,
a Nova Era muitas vezes não reconhece nenhuma autoridade espiritual
além da experiência pessoal interior.
2.2.2. Harmonia e compreensão: boas vibrações
Fenômenos tão diversos como o Jardim de Findhorn e Feng
Shui representam uma diversidade de estilos que ilustram a importância
de estar em sintonia com a natureza e o cosmos. Na Nova Era não
existe distinção entre o bem e o mal. As ações
humanas são fruto da iluminação ou da ignorância.
Daí que não podemos condenar ninguém, e que ninguém
tem necessidade de perdão. Crer na existência do mal só
pode criar negatividade e temor. A resposta à negatividade é
o amor. Porém não do tipo que tem que traduzir-se em ações,
é mais uma questão de atitudes da mente. O amor é
energia, uma vibração de alta freqüência; o segredo
da felicidade e da saúde consiste em sintonizar com a grande cadeia
do ser, de encontrar o próprio lugar nela. Os mestres e as terapias
da Nova Era afirmam oferecer a chave para encontrar as correspondências
entre todos os elementos do universo, de modo que a pessoa possa modular
a tonalidade de sua vida e estar em harmonia absoluta com os demais e com
tudo que a rodeia, se bem que o pano de fundo teórico varia de um
para o outro.
2.2.3. Saúde: uma vida dourada
A medicina formal (alopática) tende na atualidade a limitar-se
a curar doenças isoladas, concretas, e não alcança
uma visão de conjunto da saúde da pessoa: isto tem provocado
freqüentemente uma compreensível insatisfação.
A popularidade das terapias alternativas tem aumentado enormemente porque
asseguram abranger a pessoa em sua totalidade e se dedicam a remedir mais
que a curar, como se sabe, a saúde holística se centra no
importante papel que desempenha a mente na cura física. Diz-se que
a conexão entre os aspectos espirituais e físicos da pessoa
se encontra no sistema imunológico ou no sistema dos chakras hindus.
Na perspectiva da Nova Era, a enfermidade e o sofrimento procedem de uma
atuação contra a natureza. Quando se está em sintonia
com a natureza, pode-se esperar uma vida mais saudável e inclusive
uma prosperidade material. Segundo alguns curandeiros da Nova Era, na realidade
não teríamos por que morrer. O desenvolvimento do nosso potencial
humano nos porá em contato com nossa divindade interior e com aquelas
partes de nosso eu alienadas ou suprimidas. Isto se revela sobretudo nos
Estados de Consciência Alterados (Alterated States of Consciousness,
ASCs), induzidos ou pelas drogas ou por diversas técnicas de expansão
da mente, particularmente no contexto da “psicologia transpessoal”. Costuma-se
considerar o xamã como o especialista dos estados de consciência
alterados, como aquele que é capaz de ser um medianeiro entre os
reinos transpessoais dos deuses e dos espíritos e o mundo dos humanos.
Existe uma notável variedade de enfoques que promovem a saúde
holística, derivados uns das antigas tradições culturais,
conectados outros com as teorias psicológicas desenvolvidas em Esalen
durante os anos 1960-1970. A publicidade relacionada com a Nova Era cobre
um amplo espectro de práticas, tais como a acupuntura, o biofeedback,
a quiroterapia, a quinesiologia, a homeopatia, a iridologia, massagem e
vários tipos de “técnicas corporais” (tais como ergonomia,
Feldenkreis, reflexologia, rolfing, massagem de polaridade, toque terapêutico,
etc.), a meditação e a visualização, as terapias
nutricionais, tratamentos psíquicos, vários tipos de medicina
à base de plantas, a cura mediante os cristais (cristaloterapia),
metais (metaloterapia), música (musicoterapia) ou cores (cromoterapia),
as terapias de reencarnação e, por último, os programas
dos doze passos e os grupos de auto-ajuda. Afirma-se que a fonte da cura
está dentro de nós mesmos, que a podemos alcançar
quando estamos em contato com nossa energia interior ou com a energia cósmica.
Enquanto a saúde inclui um prolongamento da vida, a Nova Era
oferece uma fórmula oriental em termos ocidentais. Originalmente,
a reencarnação fazia parte do pensamento cíclico hindu,
baseada no atman ou núcleo divino da personalidade (mais tarde,
o conceito de jiva), que se transferia de um corpo para outro corpo em
um ciclo de sofrimento (samsara), determinado pela lei do karma, vinculado
ao comportamento nas vidas passadas. A esperança se apóia
na possibilidade de nascer num estado melhor ou, definitivamente, na libertação
da necessidade de tornar a nascer. Diversamente da maioria das tradições
budistas, o que vaga de corpo em corpo não é uma alma, mas
sim um continuum de consciência. Em ambas tradições,
a vida presente está encerrada num processo cósmico potencialmente
infinito, sem fim, que inclui até os deuses. No Ocidente, depois
de Lessing, a reencarnação foi entendida de maneira muito
mais otimista, como um processo de aprendizagem e de realização
individual progressiva. O espiritismo, a teosofia, a antroposofia e a Nova
Era vêem a reencarnação como uma participação
na evolução cósmica. Este enfoque pós-cristão
da escatologia se considera como a resposta a questões não
resolvidas pela teodicéia e prescinde do conceito de inferno. Quando
a alma se separa do corpo, os indivíduos podem voltar o olhar para
toda a sua vida até esse instante e quando a alma se une a seu novo
corpo se obtém uma visão antecipada da seguinte fase da vida.
A pessoa pode aceder a suas vidas anteriores mediante os sonhos e as técnicas
de meditação.
2.2.4. Totalidade: uma viagem mágica ao mistério
Uma das preocupações centrais do movimento Nova Era é
a busca da “totalidade”. Convida a superar todas as formas de “dualismo”,
já que essas divisões são um produto doentio de um
passado menos iluminado. As divisões que, segundo os promotores
da Nova Era, se devem superar, incluem a diferença real entre o
Criador e a criação, a distinção real entre
o ser humano e a natureza ou entre o espírito e a matéria,
todas as quais são consideradas erroneamente como formas de dualismo.
Supõe-se que estas tendências dualistas estão baseadas
em definitivo nas raízes judeu-cristãs da civilização
ocidental, quando na realidade seria mais correto vinculá-las ao
gnosticismo, e em particular ao maniqueísmo. A revolução
científica e o espírito do racionalismo moderno são
considerados culpados especialmente da tendência à fragmentação
que considera as unidades orgânicas como mecanismos redutíveis
a seus componentes menores, que podem explicar-se depois em função
destes últimos, assim como da tendência a reduzir o espírito
à matéria de maneira que a realidade espiritual – incluindo
a alma – se converte em mero “epifenômeno” contingente de processos
essencialmente materiais. Em todas estas áreas, as alternativas
da Nova Era recebem o nome de “holísticas”. O holismo impregna todo
o movimento Nova Era, desde seu interesse pela saúde holística
até a busca da consciência unitiva, e desde a sensibilidade
ecológica até a idéia de uma “rede” global.
2.3. Princípios fundamentais do pensamento da Nova Era
2.3.1. Uma resposta global em tempos de crise
“Tanto a tradição cristã como a fé leiga
no progresso ilimitado da ciência tiveram que enfrentar uma grave
ruptura manifestada pela primeira vez nas revoltas estudantis de 1968”.
A sabedoria das velhas gerações de repente ficou sem significado
e sem respeito, enquanto se desvanecia a onipotência da ciência,
de maneira que a Igreja agora “tem que enfrentar uma grave crise na transmissão
de sua fé às gerações jovens”. A perda generalizada
de confiança nestes antigos pilares da consciência e da coesão
social foi acompanhada por um retorno inesperado da religiosidade cósmica,
de rituais e crenças que muitos pensavam tinham sido suplantados
pelo cristianismo. Só que esta perene corrente esotérica
subterrânea na realidade nunca se tinha extinguido. Em compensação,
parecia novo no contexto ocidental o pico da popularidade da religião
asiática, sob a influência do movimento teosófico do
fim do século XIX que “reflete a crescente consciência de
uma espiritualidade global que incorpora todas as tradições
religiosas existentes”.
A eterna questão filosófica da unidade e da multiplicidade
tem sua forma moderna e contemporânea na tentação não
somente de superar uma divisão indevida, mas inclusive também
a diferença e a distinção reais. Suas expressões
mais comuns é o holismo, ingrediente essencial da Nova Era e um
dos principais sinais dos tempos no último quarto do século
XX. Investiram-se grandes energias no esforço para superar a divisão
em compartimentos estanques característica da ideologia mecanicista,
porém isto provocou a submissão a uma rede global que adquire
uma autoridade quase transcendental. Suas implicações mais
óbvias são o processo de transformação consciente
e o desenvolvimento da ecologia. A nova visão, meta da transformação
consciente, demorou a ser formulada e sua aplicação se ver
obstaculizada por formas de pensamento mais antigas, que se consideram
entrincheiradas no status quo. Em compensação, teve um enorme
êxito a generalização da ecologia como fascinação
pela natureza e ressacralização da terra, a Mãe Terra
ou Gaia, graças ao zelo missionário característico
dos “verdes”. A raça humana como conjunto é o agente executivo
da Terra e a harmonia e compreensão que se requerem para o governo
responsável que vai sendo compreendida de maneira progressiva como
um governo global, com uma estrutura ética global. Considera-se
que o calor da Mãe Terra, cuja divindade penetra toda a criação,
preenche o vazio entre a criação e o Deus-Pai transcendente
do judaísmo e do cristianismo, eliminando a possibilidade de ser
julgado por este último.
Nesta visão de um universo fechado, que contém “Deus”
e outros seres espirituais junto conosco, se descobre um panteísmo
implícito. Este é um ponto fundamental que impregna todo
o pensamento e a atuação da Nova Era e que condiciona de
antemão qualquer outra avaliação positiva deste ou
daquele aspecto de sua espiritualidade. Como cristãos cremos, pelo
contrário, que “o ser humano é essencialmente uma criatura
e como tal permanece para sempre, de tal forma que nunca será possível
uma absorção do eu humano no Eu divino”.
2.3.2. A matriz principal do pensamento da Nova Era
A matriz essencial do pensamento da Nova Era deve ser buscada na tradição
esotérico-teosófica que gozou de grande aceitação
nos círculos intelectuais europeus dos séculos XVIII e XIX.
Em particular, vigorou na maçonaria, no espiritismo, no ocultismo
e na teosofia, que compartilhavam uma espécie de cultura esotérica.
Nesta cosmovisão, o universo visível e o invisível
estão vinculados por uma série de correspondências,
analogias e influências entre o microcosmos e o macrocosmos, entre
os metais e os planetas, entre os planetas e as diversas partes do corpo
humano, entre o cosmos visível e os âmbitos invisíveis
da realidade. A natureza é um ser vivo, atravessado por uma rede
de simpatias e antipatias, animado por uma luz e um fogo secreto que os
seres humanos procuram controlar. As pessoas podem conectar-se com os mundos
superior ou inferior mediante sua imaginação (órgão
da alma ou espírito) ou então recorrendo a mediadores (anjos,
espíritos, demônios) ou rituais.
As pessoas podem ser iniciadas nos mistérios do cosmos, Deus,
ou o eu, por meio de um itinerário espiritual de transformação.
A meta última é a gnose, a forma superior de conhecimento,
equivalente a salvação. Implica numa busca da mais antiga
e elevada tradição da filosofia (o que se chama, de modo
inapropriado, philosophia perennis) e da religião (teologia primordial),
doutrina secreta (esotérica) que é a chave de todas as tradições
“exotéricas” acessíveis a todos. Os ensinamentos esotéricos
se transmitem de mestre para discípulo num programa gradual de iniciação.
Alguns vêem o esoterismo do século XIX como algo totalmente
secularizado. A Alquimia, a magia, a astrologia e outros elementos do esoterismo
tradicional se tinham integrado completamente com aspectos da cultura moderna,
incluindo a busca das leis causais, o evolucionismo, a psicologia e o estudo
das religiões. Alcançou sua forma mais clara nas idéias
de Helena Blavatsky, uma médium russa que, junto com Henry Olcott,
fundou a Theosophical Society em Nova York em 1875. Esta sociedade tinha
por objetivo fundir elementos das tradições orientais e ocidentais
em uma forma de espiritismo evolucionista. Tinha três objetivos principais:
1. “Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade,
sem distinção de raça, credo ou cor”.
2. “Promover o estudo comparativo das religiões, a filosofia
e a ciência”.
3. “Investigar as leis desconhecidas da Natureza e os poderes latentes
do ser humano”.
“O significado desses objetivos… deveria estar claro. O primeiro objetivo
nega implicitamente o “fanatismo irracional” e o “sectarismo” do cristianismo
tradicional tal como o concebem os espiritistas e os teósofos…
O que não é imediatamente evidente nestes objetivos é
que para os teósofos a “ciência” significava as ciências
ocultas, e a filosofia, a occulta philosophia. Para eles, as leis da natureza
eram de índole oculta ou psíquica e esperavam que a religião
comparativa desvelasse uma “tradição primordial” modelada,
em último termo, a partir de uma philosofia perennis hermética”.
Um componente destacado dos escritos de Madame Blavatsky era a emancipação
da mulher, o qual implicava um ataque contra o Deus “masculino” do judaísmo,
do cristianismo e do Islã. Convidava a voltar à deusa mãe
do hinduísmo e à prática das virtudes femininas. Estas
idéias continuaram sob a orientação de Annie Besant,
que se achava na vanguarda do movimento feminista. Na atualidade, a Wicca
(cf. o termo no glossário do parágrafo n. 7) e a “espiritualidade
das mulheres” continuam esta luta contra o cristianismo “patriarcal”.
Em sua obra The Aquarian Conspiracy, “A conspiração do
Aquário”, Marilyn Ferguson dedicou um capítulo aos precursores
da Era de Aquário, aqueles que haviam tecido uma visão transformadora
baseada na expansão da consciência e na experiência
da auto-transcendência. Dois dos mencionados são o psicólogo
americano William James e o psiquiatra suíço Carl Gustav
Jung. James definiu a religião como experiência, não
como dogma, e ensinou que os seres humanos podem mudar suas atitudes mentais
a fim de converter-se em arquitetos de seu próprio destino. Jung
destacou o caráter transcendente da consciência e introduziu
a idéia do inconsciente coletivo, uma espécie de depósito
de símbolos e recordações partilhadas com pessoas
de diversas épocas e culturas diferentes. Segundo Wouter Hanegraaff,
ambas personagens contribuíram para a “sacralização
da psicologia”, que se converteu em um elemento fundamental do pensamento
e da prática da Nova Era. De fato, Jung “não só psicologizou
o esoterismo, mas também sacralizou a psicologia, enchendo-a dos
conteúdos da especulação esotérica. O resultado
foi um corpo de teorias que permite falar de Deus quando na realidade se
quer falar da própria psique, e falar da própria psique quando
na realidade se quer falar do divino. Se a psique é “mente”, e Deus
também é “mente”, então falar de uma coisa significa
falar da outra”. À acusação de ter “psicologizado”
o cristianismo responde que “a psicologia é o mito moderno e só
podemos entender a fé nestes termos”. Certamente, a psicologia de
Jung lança luz sobre muitos aspectos da fé cristã,
especialmente sobre a necessidade de enfrentar a realidade do mal. Porém
suas convicções religiosas são tão diferentes
ao longo das diversas etapas de sua vida, que a imagem de Deus que se depreende
é sumamente confusa. Um elemento central de seu pensamento é
o culto ao sol, onde Deus é a energia vital (libido) do interior
da pessoa. Segundo afirmou ele mesmo “esta comparação não
é um mero jogo de palavras”. Este é “o Deus interior” ao
que se refere Jung, a divindade essencial que ele acreditava existir em
todo o ser humano. O caminho para o universo interior passa através
do inconsciente e a correspondência do mundo interior com o exterior
reside no inconsciente coletivo.
A tendência a intercambiar a psicologia e a espiritualidade foi
retomada pelo Movimento do Potencial Humano quando este se desenvolveu
no final dos anos sessenta no Instituto Esalen da Califórnia. A
psicologia transpessoal, fortemente influída pelas religiões
orientais e por Jung, oferece um caminho contemplativo onde a ciência
se encontra com a mística. A ênfase que se coloca na corporeidade,
a busca de métodos para expandir a consciência e o cultivo
dos mitos do inconsciente coletivo eram todos incentivos para buscar o
“Deus interior” dentro de si mesmo. Para realizar o próprio potencial
seria necessário ir além do ego individual a fim de converter-se
no deus que cada um é no mais profundo de si mesmo. Isto se podia
realizar escolhendo a terapia adequada: a meditação, as experiências
parapsicológicas, o uso de drogas alucinógenas. Todos estes
eram os caminhos para chegar a “experiências culminantes”, experiências
“místicas” de fusão com Deus e com o cosmos.
O símbolo de Aquário, tirado da mitologia astrológica,
chegou a converter-se na expressão do desejo de um mundo radicalmente
novo. Dois centros que constituíam o centro propulsor inicial da
Nova Era (e que continuam sendo-o até certo ponto) eram a Comunidade
Jardim de Findhorn, no Nordeste da Escócia, e o Centro para o Desenvolvimento
do Potencial Humano de Esalen, em Big Sur, Califórnia, nos Estados
Unidos. No entanto, o que mais alimenta a difusão da Nova Era é
o desenvolvimento de uma progressiva consciência global e a percepção
crescente de uma crise ecológica iminente.
2.3.3. Temas centrais da Nova Era
A Nova Era não é uma religião propriamente dita,
porém se interessa por aquilo que se denomina “divino”. A essência
da Nova Era é a livre associação de diversas atividades,
idéias e pessoas, às quais se poderia aplicar esta denominação.
Não existe, de fato, uma só articulação de
doutrinas parecidas às das grandes religiões. Apesar disso,
e apesar da enorme variedade que existe na Nova Era, existem certos pontos
comuns:
– O cosmos é visto como um todo orgânico;
– Está animado por uma Energia, que também se identifica
com a Alma divina ou Espírito;
– Acredita-se na mediação de várias entidades
espirituais: os seres humanos são capazes de ascender às
esferas superiores invisíveis e de controlar suas próprias
vidas além da morte;
– Defende-se a existência de um “conhecimento perene” que é
prévio e superior a todas as religiões e culturas;
– as pessoas seguem mestres iluminados…
2.3.4. O que diz a Nova Era sobre…?
2.3.4.1. …a pessoa humana?
A Nova Era implica uma crença fundamental na perfectibilidade
da pessoa humana mediante uma ampla variedade de técnicas e terapias
(em contraposição com a idéia cristã de cooperação
com a graça divina). Existe uma coincidência de fundo com
a idéia de Nietzsche de que o cristianismo impediu a manifestação
plena da humanidade genuína. Neste contexto, a perfeição
significa alcançar a própria realização segundo
uma ordem de valores que nós mesmos criamos e que alcançamos
por nossas próprias forças: daí que podemos falar
de um eu autocriador. A partir desta ótica, há maior diferença
entre os humanos tal como são agora e como serão quando tiverem
realizado seu potencial, do que aquela que existe atualmente entre os humanos
e os antropóides.
É útil distinguir entre o esoterismo ou busca de conhecimento,
e a magia, ou ocultismo: esta última é um meio para obter
poder. Alguns grupos são ao mesmo tempo esotéricos e ocultistas.
No centro do ocultismo existe uma vontade de poder baseada no sonho de
tornar-se divino. As técnicas de expansão da mente têm
por objetivo revelar às pessoas seu poder divino. Utilizando este
poder, preparam o caminho para a Era da Iluminação. Esta
exaltação da humanidade, cuja forma extrema é o satanismo,
subverte a correta relação entre o Criador e a criatura.
Satã se converte no símbolo de uma rebelião contra
as convenções e as regras, símbolo que com freqüência
adota formas agressivas, egoístas e violentas. Alguns grupos evangélicos
manifestaram sua preocupação pela presença subliminar
do que consideram simbolismo satânico em algumas variedades de música
rock, que exercem uma profunda influência nos jovens. De qualquer
modo, está muito longe a mensagem de paz e harmonia que se encontra
no Novo Testamento e com freqüência é uma das conseqüências
da exaltação da humanidade quando implica a negação
de um Deus transcendente.
Porém não se trata somente de algo que afete aos jovens.
Os temas básicos da cultura esotérica também estão
presentes nos âmbitos da política, da educação
e da legislação. Isto se aplica especialmente à ecologia.
Sua forte ênfase no biocentrismo nega a visão antropológica
da Bíblia, segundo a qual o ser humano é o centro do mundo
por ser qualitativamente superior às demais formas de vida natural.
O ecologismo desempenha hoje um papel destacado na legislação
e na educação, apesar de que deste modo rebaixa o ser humano.
A mesma matriz cultural esotérica pode achar-se na teoria ideológica
subjacente à política de controle da natalidade e nas experiências
de engenharia genética, que parecem expressar o sonho humano de
re-criar-se a si mesmo. Espera-se realizar este sonho decifrando o código
genético, alterando as regras naturais da sexualidade e desafiando
os limites da morte.
Naquilo que poderia chamar-se um relato típico da Nova Era, as
pessoas nascem com uma centelha divina, num sentido que recorda o gnosticismo
antigo. Esta centelha as vincula à unidade do Todo, pelo que são
essencialmente divinas, embora participem da divindade cósmica segundo
distintos níveis de consciência. Somos co-criadores e criamos
nossa própria realidade. Muitos autores da Nova Era sustentam que
somos nós que escolhemos as circunstâncias de nossas vidas
(inclusive nossa própria enfermidade e nossa própria saúde).
Nesta visão cada indivíduo é considerado fonte criadora
do universo. Porém necessitamos fazer uma viagem para compreender
plenamente onde nos encaixamos dentro da unidade do cosmos. A viagem é
a psicoterapia e o reconhecimento da consciência universal, a salvação.
Não existe o pecado; somente existe conhecimento imperfeito. A identidade
de cada ser humano se dilui no ser universal e no processo de sucessivas
encarnações. As pessoas estão submetidas ao influxo
determinante das estrelas, porém podem abrir-se à divindade
que vive em seu interior, numa busca contínua (mediante as técnicas
apropriadas) de uma harmonia cada vez maior entre o eu e a energia cósmica
divina. Não é necessário qualquer Revelação
ou Salvação alguma que chegue de fora das pessoas, mas simplesmente
experimentar a salvação escondida no próprio interior
(auto-salvação), dominando as técnicas psicofísicas
que levam à iluminação definitiva.
Algumas etapas do caminho até a auto-redenção são
preparatórias (a meditação, a harmonia corporal, a
liberação de energias de autocura). São o ponto de
partida para processos de espiritualização, aperfeiçoamento
e iluminação que ajudam às pessoas a adquirir maior
autocontrole e uma concentração psíquica na “transformação”
do eu individual em “consciência cósmica”. O destino da pessoa
humana é uma série de encarnações sucessivas
da alma em corpos distintos. Isto se entende não como o ciclo de
samsara, no sentido de purificação como castigo, mas como
uma ascensão gradual para o desenvolvimento perfeito do próprio
potencial.
A psicologia se utiliza para explicar a expansão da mente como
experiência ‘mística”. A yoga, o zen, a meditação
transcendental e os exercícios tântricos conduzem a uma experiência
de plenitude do eu ou iluminação. Acredita-se que as “experiências
culminantes“ (voltar a viver o próprio nascimento, viajar até
as portas da morte, o biofeedback, a dança e inclusive as drogas,
qualquer coisa que possa provocar um estado de consciência alterado)
conduzem à unidade e à iluminação. Como só
há uma Mente, algumas pessoas podem ser canais, canais para os seres
superiores. Cada parte deste único ser universal está em
contato com todas as demais partes. O enfoque clássico da Nova Era
é a psicologia transpessoal, cujos conceitos básicos são
a Mente Universal, o Eu Superior, o inconsciente coletivo e pessoal e o
ego individual. O Ser Superior é nossa identidade real, ponte entre
Deus como Mente divina e a humanidade. O desenvolvimento espiritual consiste
no contato com o Ser Superior, que supera todas as formas de dualismo entre
o sujeito e o objeto, a vida e a morte, a psique e o soma, o eu e os aspectos
fragmentários desse mesmo eu. Nossa personalidade limitada é
como uma sombra ou um sonho criados pelo eu real. O Ser Superior contém
as recordações das (re-)encarnações anteriores.
2.3.4.2. …Deus?
A Nova Era mostra uma notável preferência pelas religiões
orientais ou pré-cristãs, as quais se consideram contaminadas
pelas distorções judeu-cristãs. Daí o grande
respeito que merecem os antigos ritos agrícolas e os cultos de fertilidade.
“Gaia”, a Mãe Terra, se apresenta como alternativa a Deus Pai, cuja
imagem se vê vinculada a uma concepção patriarcal do
domínio masculino sobre a mulher. Fala-se de Deus, porém
não se trata de um Deus pessoal. O Deus de que fala a Nova Era não
é nem pessoal nem transcendente. Tampouco é o Criador que
sustenta o universo, mas sim uma “energia impessoal”, imanente ao mundo,
com o qual forma uma “unidade cósmica”: “Tudo é um”. Esta
unidade é monista, panteísta ou, mais exatamente, panenteísta.
Deus é o “princípio vital”, “o espírito ou alma do
mundo”, a suma total da consciência que existe no mundo. Num certo
sentido, tudo é Deus. Sua presença é claríssima
nos aspectos espirituais da realidade, de modo que cada mente espírito
é, em certo sentido, Deus.
A “energia divina”, quando é recebida conscientemente pelos seres
humanos, costuma-se descrever como “energia crística”. Também
se fala de Cristo, porém com ele não se alude a Jesus de
Nazaré. “Cristo” é um título aplicado a alguém
que chegou a um estado de consciência onde o indivíduo se
percebe como divino e pode, portanto, pretender ser “Mestre universal”.
Jesus de Nazaré não foi o Cristo, mas simplesmente uma das
muitas figuras históricas nas quais se revelou essa natureza “crística”
igual a Buda e outros. Cada realização histórica do
Cristo mostra claramente que todos os seres humanos são celestiais
e divinos e os conduz para essa realização.
No nível mais íntimo e pessoal (“psíquico”) no
qual os seres humanos “ouvem” esta “energia cósmica divina” se chamam
também “Espírito Santo”.
2.3.4.3. …o mundo?
A mudança do modelo mecanicista da física clássica
pelo “holístico” da moderna física atômica e subatômica,
baseado na concepção da matéria como ondas ou quanta
de energia em lugar de partículas, é central para o pensamento
da Nova Era. O universo é um oceano de energia que constitui um
todo único ou bordado de vínculos. A energia que anima o
organismo único do universo é o “espírito”. Não
há alteridade entre Deus e o mundo. O mundo mesmo é divino
e está submetido a um processo evolutivo que leva da matéria
inerte a uma “consciência superior e perfeita”. O mundo é
incriado, eterno e auto-suficiente. O futuro do mundo se baseia num dinamismo
interno, necessariamente positivo, que conduz à unidade reconciliada
(divina)de tudo quanto existe. Deus e mundo, alma e corpo, inteligência
e sentimento, céu e terra são uma única e imensa vibração
de energia.
O livro de James Lovelock sobre a hipótese Gaia afirma que “todo
o âmbito da matéria viva da terra, desde as baleias até
os vírus e desde os carvalhos até as algas, poderia considerar-se
como uma única entidade vivente, capaz de manipular a atmosfera
da terra para adaptá-la a suas necessidades gerais e dotadas de
faculdades e poderes que superam de longe os de suas partes constitutivas”.
Para alguns a hipótese Gaia é “uma estranha síntese
de individualismo e coletivismo. Parece como se a Nova Era, após
ter arrancado as pessoas da política fragmentária, estivesse
desejando lançá-las numa grande panela da mente global”.
O cérebro global necessita de instituições com as
quais governar, em outras palavras, um governo mundial. “Para enfrentar
os problemas de hoje, a Nova Era sonha com uma aristocracia espiritual
ao estilo da República de Platão, dirigida por sociedades
secretas…”. Talvez seja um modo exagerado de expor a questão,
porém existem numerosas provas de que o elitismo gnóstico
e o governo global coincidem em muitos temas da política internacional.
Tudo quanto existe no universo está inter-relacionado. De fato,
cada parte é em si mesma uma imagem da totalidade. O todo está
em cada coisa e cada coisa no todo. Na “grande cadeia do ser”, todos os
seres estão intimamente vinculados e formam uma só família
com diferentes graus de evolução. Toda pessoa humana é
um holograma, uma imagem da criação inteira, na qual cada
coisa vibra com sua própria freqüência. Cada ser humano
é um neurônio do sistema nervoso central e todas as entidades
individuais se acham em relação de complementaridade uma
com as outras; na realidade há uma complementaridade ou androginia
interna em toda a criação.
Um dos temas constantes nos escritos e no pensamento da Nova Era é
o “novo paradigma” que foi posto em evidência pela ciência
contemporânea. “A ciência nos permitiu uma visão da
totalidade e dos sistemas, nos deu estímulo e transformação.
Estamos aprendendo a compreender as tendências, a reconhecer os sinais
iniciais de um paradigma mais promissor. Criamos panoramas alternativos
do futuro. Comunicamos as falhas dos velhos sistemas e forçamos
novos contextos para resolver problemas em todas as áreas”. Até
aqui, a “mudança de paradigma” é uma mudança radical
de perspectiva, porém nada mais. A questão é saber
se pensamento e mudança real serão proporcionais e se é
possível demonstrar a eficácia que teria uma transformação
interior sobre o mundo exterior. É obrigatório perguntar-se,
mas sem expressar um juízo negativo, até que ponto pode considerar-se
científico um processo mental que inclui afirmações
como esta: “A guerra é inconcebível numa sociedade de pessoas
autônomas que descobriram a interconexão de toda a humanidade,
que não temem idéias estranhas e nem culturas estrangeiras,
que sabem que todas as revoluções começam dentro da
pessoa e que não se pode impor o próprio tipo de iluminação
a ninguém”. Não é lógico deduzir que, visto
que algo é inconcebível, não poderá acontecer.
Este é o tipo de raciocínio tipicamente gnóstico,
no sentido de que confere demasiado peso ao conhecimento e à consciência.
E isto não significa negar o papel fundamental e crucial do desenvolvimento
da consciência nos descobrimentos científicos e no processo
criativo, mas simplesmente alertar contra a possibilidade de impor sobre
a realidade exterior aquilo que até o momento só está
na mente.
2.4. “Habitantes do mito ou da história?”: A Nova Era e a cultura
“Na realidade a atração da Nova Era tem algo a ver com
o interesse pelo eu, seu valor, suas capacidades e problemas, que a cultura
atual fomenta. Enquanto a religiosidade tradicional, com sua organização
hierárquica se adapta bem à comunidade, a espiritualidade
não tradicional se adapta bem ao indivíduo. A Nova Era é
‘do’ eu na medida em que fomenta a celebração daquilo que
há de ser e vir a ser; e é ‘para’ o eu na medida em que,
ao diferenciar-se do estabelecido, está numa situação
capaz de enfrentar os problemas gerados pelas formas de vida convencionais”.
A rejeição da tradição em sua forma patriarcal,
hierárquica, tanto social como eclesial, implica na busca de uma
forma alternativa de sociedade, inspirada claramente no conceito moderno
do eu. Muitos escritos da Nova Era defendem que não se pode fazer
nada (diretamente) para mudar o mundo e em compensação se
há de fazer tudo para mudar-se a si mesmo. Mudar a consciência
individual se entende como a maneira (indireta) de mudar o mundo. O instrumento
mais importante para a mudança social é o exemplo individual.
O reconhecimento universal de tais exemplos pessoais levará paulatinamente
à transformação da mente coletiva, transformação
que será a conquista mais importante do nosso tempo. Isto faz parte,
claramente, do paradigma holístico e constitui uma nova formulação
do clássico problema filosófico da unidade e da pluralidade.
Também está relacionada com a posição junguiana
da correspondência e da rejeição da causalidade. Os
indivíduos são representações fragmentárias
do holograma planetário; olhando o próprio interior, não
só se conhece o universo, mas também é possível
mudá-lo. Só que quanto mais se olha para dentro, menor se
torna o cenário político. É difícil saber se
esta posição pode articular-se com a retórica da participação
democrática numa nova ordem planetária, ou se pelo contrário
se trata de uma maneira inconsciente e sutil de privar de poder as pessoas,
deixando-as à mercê da manipulação. A atual
preocupação pelos problemas planetários (os temas
ecológicos, o esgotamento dos recursos naturais, a superpopulação,
a diferença econômica entre norte e sul, o enorme arsenal
nuclear, a instabilidade política) favorecem ou impedem o compromisso
com outras questões políticas e sociais igualmente inquietantes?
O antigo provérbio “a caridade bem entendida começa em casa”
pode proporcionar um sadio equilíbrio à maneira de abordar
estes temas. Alguns observadores da Nova Era detectam um autoritarismo
sinistro por trás da aparente indiferença quanto à
política. O próprio David Spangler assinala que uma das sombras
da Nova Era é “uma capitulação sutil frente à
impotência e a irresponsabilidade esperando que chegue a Nova Era
em vez de ser criadores ativos de plenitude na própria vida”.
Seria certamente exagerado afirmar que o quietismo é geral nas
atitudes da Nova Era. Contudo, uma das principais críticas ao movimento
Nova Era é que a busca individualista da própria realização
no fundo pode atuar contra uma sólida cultura religiosa. A este
propósito, convém destacar três pontos:
– Cabe perguntar-se se a Nova Era possui coerência intelectual
para proporcionar uma imagem completa do mundo a partir de uma cosmovisão
que pretende integrar a natureza e a realidade espiritual. A Nova Era vê
o universo ocidental cindido por causa das categorias de monoteísmo,
transcendência, alteridade e separação. Descobre um
dualismo fundamental em divisões como as que existem entre real
e ideal, relativo e absoluto, finito e infinito, humano e divino, sagrado
e profano, passado e presente, que remetem todas à “consciência
infeliz” de Hegel e são responsáveis de uma situação
considerada trágica. A resposta da Nova Era é a unidade mediante
a fusão: pretende reconciliar alma e corpo, feminino e masculino,
espírito e matéria, humano e divino, terra e cosmos, transcendente
e imanente, religião e ciência, as diferenças entre
as religiões, o Yin e o Yang. Já não há, portanto,
alteridade. O que fica, em termos humanos, é a transpessoalidade.
O mundo da Nova Era não é problemático: não
fica nada para alcançar. Porém a questão metafísica
da unidade e a pluralidade continua sem resposta, talvez sem sequer ser
colocada; lamentam-se os efeitos da desunião ou da divisão,
porém a resposta é uma descrição de como apareceriam
as coisas em outra ótica.
– A Nova Era importa fragmentariamente práticas religiosas orientais
e as reinterpreta para adaptá-las aos ocidentais. Isto implica uma
rejeição da linguagem do pecado e da salvação,
substituída com a linguagem moralmente neutra da dependência
e da recuperação. As referências às influências
extra-européias são às vezes uma mera “pseudo-orientalização”
da cultura ocidental. Ademais, dificilmente se trata de um diálogo
autêntico. Num ambiente onde as influências greco-romanas e
judeu-cristãs resultam suspeitas, as orientais se utilizam precisamente
porque são uma alternativa à cultura ocidental. A ciência
e a medicina tradicionais são consideradas inferiores aos enfoques
holísticos e igualmente acontece com as estruturas patriarcais e
particulares na política e na religião. Todas estas coisas
serão obstáculos para a vinda da Era de Aquário. Mais
uma vez, está claro que, na realidade, optar pelas alternativas
da Nova Era implica uma ruptura total com a tradição de origem.
Seria necessário perguntar se realmente é uma atitude tão
madura e tão liberada como se costuma pensar.
– As tradições religiosas autênticas promovem a
disciplina com o objetivo último de adquirir sabedoria, equanimidade
e compaixão. A Nova Era reflete um anseio profundo e inextinguível
que existe na sociedade de uma cultura religiosa íntegra, de uma
visão mais geral e iluminadora do que aquilo que os políticos
costumam oferecer. Porém não está claro se os benefícios
de uma visão baseada na permanente expansão do eu são
para os indivíduos ou para as sociedades. Os cursos de formação
da Nova Era (o que costumava-se chamar-se “Cursos de Formação
Erhard” (Erhard Seminar Trainings [EST], etc.) conjugam os valores contraculturais
com a necessidade de triunfar, a satisfação interior com
o êxito externo. O curso de retiro “Espírito de Negócios”
de Findhorn transforma a experiência do trabalho com o fim de aumentar
a produtividade. Alguns adeptos da Nova Era aderem a ela não só
para ser mais autênticos e espontâneos, mas também para
enriquecer-se (mediante a magia, etc.). “Os cursos de formação
da Nova Era têm também ressonâncias de idéias
de certo modo mais humanistas que as estendidas no mundo dos negócios,
o que faz que a pessoa de negócios com mentalidade empresarial o
tornem mais atraentes. As idéias têm a ver com o lugar de
trabalho como “um ambiente de aprendizagem“, que “humaniza o trabalho”,
“humaniza o chefe”, onde “as pessoas ocupam o primeiro lugar” ou “se libera
o potencial”. Tal como as apresentam os formadores da Nova Era, é
provável que atraiam as pessoas de negócios que já
participaram em outros cursos de formação de corte humanista
(leigo) e que queiram dar um passo a mais: interessados em seu crescimento
pessoal, sua felicidade e seu entusiasmo e ao mesmo tempo em sua produtividade
econômica”. Assim, está claro que as pessoas envolvidas buscam
realmente sabedoria e equanimidade em benefício próprio,
porém em que medida as atividades em que participam as capacitam
para trabalhar pelo bem comum? À parte a questão da motivação,
todos estes fenômenos devem ser julgados por seus frutos, e a pergunta
que se deve levantar é se promovem o eu ou promovem a solidariedade,
não somente com baleias, as árvores ou pessoas de mentalidade
similar, mas com o conjunto da criação: incluindo a humanidade
inteira. As piores conseqüências de toda filosofia do egoísmo,
tanto se é adotada pelas instituições como por amplos
setores sociais, são o que o Cardeal Joseph Ratzinger define um
conjunto de “estratégias para reduzir o número dos que se
sentam para comer à mesa da humanidade”. Este é um critério-chave
com o que se deve avaliar o impacto de qualquer filosofia ou teoria. O
cristianismo busca sempre medir os esforços humanos por sua abertura
ao Criador e às demais criaturas, um respeito firmemente baseado
no amor.
2.5. Por que a Nova Era cresceu com tanta rapidez e se difundiu de maneira tão eficaz?
Por mais objeções e críticas que suscite, a Nova
Era é uma tentativa de levar calor a um mundo que muitos experimentam
como cruel e impiedoso. Como reação diante da modernidade,
age quase sempre no nível dos sentimentos, instintos e emoções.
A angústia diante de um futuro apocalíptico de instabilidade
econômica, incerteza política e mudanças climáticas
desempenha um papel importante na busca de uma relação alternativa
e decididamente otimista com o cosmos. Existe uma busca de plenitude e
felicidade, com freqüência num nível explicitamente espiritual.
Porém é significativo que a Nova Era tenha gozado de um êxito
enorme numa era que pode caracterizar-se pela exaltação quase
universal da diversidade. A cultura ocidental deu um passo além
da tolerância – no sentido de aceitar de má vontade ou suportar
a idiossincrasia de pessoas ou grupos minoritários – à erosão
consciente do respeito à normalidade. A normalidade se apresenta
com conotações moralistas, vinculadas necessariamente a normas
absolutas. Para um número crescente de pessoas, as crenças
ou normas absolutas indicam somente a incapacidade de tolerar as idéias
e convicções das demais pessoas. Neste ambiente, tornaram-se
moda os estilos de vida alternativos: ser diferente não só
é aceitável, mas positivamente bom.
É essencial levar em conta que as pessoas se relacionam com a
Nova Era de maneiras muito distintas e em graus diversos. Na maioria dos
casos não se trata realmente de uma “pertença” a um grupo
ou movimento. Tampouco há uma consciência muito clara dos
princípios sobre os quais se baseia a Nova Era. Aparentemente, a
maioria das pessoas se sentem atraídas por terapias ou práticas
concretas, sem conhecimento das posições de fundo que estas
implicam; outros não são mais que consumidores ocasionais
de produtos que levam a etiqueta “Nova Era”. Aqueles que utilizam a aromaterapia
ou escutam música New age, por exemplo costumam estar interessados
pelo efeito que tem na sua saúde ou bem-estar. Somente uma minoria
se aprofunda nestes temas e procura entender seu significado teórico
(ou “místico”). E isto combina perfeitamente com os esquemas das
sociedades de consumo nas quais o ócio e o entretenimento desempenham
um papel fundamental. O “movimento” se adaptou perfeitamente às
leis do mercado e o fato de que a Nova Era se tenha difundido tanto se
deve em parte ao resultado de uma proposta econômica muito atrativa.
A Nova Era, ao menos em algumas culturas, se apresenta como uma etiqueta
para um produto criado, aplicando os princípios da mercadologia
a um fenômeno religioso. Sempre haverá um modo de aproveitar-se
das necessidades espirituais das pessoas. Como muitos outros elementos
da economia contemporânea, a Nova Era é um fenômeno
global que se mantém unido e se alimenta graças à
informação dos meios de comunicação de massas.
Pode-se discutir se foram os meios de comunicação que criaram
este fenômeno ou não; o que está claro é que
a literatura popular e as comunicações de massa garantem
uma rápida difusão, em escala universal das noções
comuns defendidas pelos “crentes” e simpatizantes. No entanto, não
é possível saber se esta difusão tão rápida
das idéias obedece ao acaso ou a um projeto deliberado, já
que se trata de comunidades muito pouco rígidas. Da mesma forma
que acontece nas “cibercomunidades” criadas pela Internet, este é
um âmbito no qual as relações entre as pessoas podem
ser ou muito impessoais ou interpessoais só num sentido muito seletivo.
A Nova Era se fez sumamente popular como um vago conjunto de crenças,
terapias e práticas, escolhidas e combinadas com freqüência
segundo o próprio gosto, independentemente das incompatibilidades
ou incongruências que implique. Além disso é o que
cabe esperar de uma cosmovisão conscientemente baseada no pensamento
intuitivo do “hemisfério direito do cérebro”. Precisamente
por isso é tão importante descobrir e reconhecer as características
fundamentais das idéias da Nova Era. O que esta oferece costuma
descrever-se simplesmente como algo “espiritual”, mais que como pertencente
a uma religião concreta. Não obstante, os vínculos
com algumas religiões orientais concretas são muito mais
estreitos do que imaginam alguns “consumidores”. Naturalmente isto é
importante para os grupos de “oração” nos quais uma pessoa
decide integrar-se, porém é também um problema real
na gestão de um número crescente de empresas, a cujos empregados
se exige fazer meditação e adotar técnicas de expansão
mental como parte da vida profissional.
Valeria a pena acrescentar ainda algumas breves palavras sobre a promoção
organizada da Nova Era como ideologia, porém se trata de um assunto
sumamente complexo. Diante da Nova Era, alguns grupos reagiram com acusações
generalizadas de conspiração”. Costuma-se responder que estamos
assistindo a uma mudança cultural espontânea cuja trajetória
está em grande parte determinada por influências que escapam
do controle humano. Não obstante, basta assinalar que a Nova Era
partilha com um bom número de grupos internacionalmente influentes
o objetivo de substituir ou transcender as religiões particulares
para deixar espaço para uma religião universal que unifique
a humanidade. Estreitamente relacionado com isto, existe um esforço
conjunto concreto por parte de muitas instituições para inventar
Ética Global, um esquema ético que refletiria a natureza
global da cultura, da economia e da política contemporâneas.
Ainda mais, a politização das questões ecológicas
influi em todo o tema das hipóteses Gaia ou culto da mãe
terra.
3 A NOVA ERA E A ESPIRITUALIDADE CRISTÃ
3.1. A Nova Era como espiritualidade
Os promotores da Nova Era a definem como uma « nova espiritualidade ». Parece irônico chamá-la « nova » quando tantas ideias são tomadas das religiões e culturas antigas. O que há de realmente novo na Nova Era é a busca consciente de uma alternativa à cultura ocidental e às suas raízes religiosas judaico-cristãs. « Espiritualidade », neste sentido, indica a experiência interior de harmonia e unidade com a totalidade da realidade, que cura os sentimentos de imperfeição e finitude de toda pessoa humana. As pessoas descobrem sua profunda conexão com a força ou energia universal sagrada que constitui o núcleo de toda vida. Quando realizaram essa descoberta, podem empreender o caminho rumo à perfeição que lhes permitirá ordenar suas vidas e sua relação com o mundo, e ocupar seu próprio lugar no processo universal do devir e na Nova Gênese de um mundo em constante evolução. O resultado é uma mística cósmica51 baseada na tomada de consciência de um universo transbordante de energias dinâmicas. Assim, a energia cósmica, a vibração, a luz, deus, o amor –até mesmo o Ser supremo– tudo se refere à mesma e única realidade, a fonte primária presente em todo ser.
Esta espiritualidade consta de dois elementos distintos: um metafísico, outro psicológico. O componente metafísico procede das raízes esotéricas e teosóficas da Nova Era e é basicamente uma forma nova de gnose. O acesso ao divino se produz por meio do conhecimento dos mistérios escondidos, na busca individual de « o real que há por trás do que é apenas aparente, a origem para além do tempo, o transcendente para além do meramente fugaz, a tradição primordial por trás da tradição meramente efêmera, o outro por trás do eu, a divindade cósmica por trás do indivíduo encarnado ». A espiritualidade esotérica « é uma investigação do Ser para além da separação dos seres, uma espécie de nostalgia da unidade perdida ».52
« Pode-se ver aqui a matriz gnóstica da espiritualidade esotérica. Esta é palpável quando os filhos de Aquário buscam a Unidade Transcendente das religiões. Tendem a escolher das religiões históricas apenas o núcleo esotérico, do qual pretendem ser guardiães. De certo modo negam a história e não aceitam que a espiritualidade possa ter suas raízes no tempo ou em alguma instituição. Jesus de Nazaré não é Deus, mas uma das muitas manifestações do Cristo cósmico e universal ».53
O componente psicológico deste tipo de espiritualidade procede do encontro entre a cultura esotérica e a psicologia (cf. 2.3.2). A Nova Era torna-se assim uma experiência de transformação psicoespiritual pessoal, contemplada como algo análogo à experiência religiosa, depois de uma crise pessoal ou de uma longa busca espiritual. Para outros, procede do uso da meditação ou de algum tipo de terapia, ou de experiências paranormais que alteram os estados de consciência e proporcionam uma penetração na unidade da realidade.54
3.2. Narcisismo espiritual?
Diversos autores veem a espiritualidade da Nova Era como uma espécie de narcisismo espiritual ou pseudomisticismo. É interessante notar que esta crítica foi formulada inclusive por David Spangler, importante expoente da Nova Era, que em suas últimas obras se distanciou dos aspectos mais esotéricos dessa corrente de pensamento.
Spangler escreveu que, nas formas mais populares da Nova Era, « os indivíduos e os grupos vivem suas próprias fantasias de aventura e poder, geralmente de forma ocultista ou milenarista… A característica principal deste nível é a adesão a um mundo privado de satisfação do ego e o consequente afastamento (embora nem sempre seja evidente) do mundo. Neste nível, a Nova Era viu-se povoada por seres estranhos e exóticos, mestres, adeptos, extraterrestres. É um lugar de poderes psíquicos e mistérios ocultos, de conspirações e ensinamentos escondidos ».55
Numa obra posterior, David Spangler enumera o que considera elementos negativos ou « sombras » da Nova Era: « alienação do passado em nome do futuro; adesão à novidade pela novidade…; indiscriminação e falta de discernimento em nome da totalidade e da comunhão, de onde vem a incapacidade de entender ou respeitar o papel dos limites…; confusão dos fenômenos psíquicos com a sabedoria, da “canalização” (cf. Glossário) com a espiritualidade, da perspectiva da Nova Era com a verdade última ».56 Mas, afinal, Spangler está convencido de que o narcisismo egoísta e irracional se limita apenas a poucos membros. Os aspectos positivos que ele sublinha são a função da Nova Era como imagem da mudança e como encarnação do sagrado, movimento no qual a maioria das pessoas são « grandes buscadores da verdade », que trabalham em benefício da vida e do crescimento interior.
David Toolan, um jesuíta americano que passou vários anos no ambiente da Nova Era, analisa o aspecto comercial de muitos produtos e terapias que levam o rótulo Nova Era (New Age). Observa que os seguidores da Nova Era descobriram a vida interior e se sentem fascinados pela perspectiva de serem responsáveis pelo mundo, mas que também se deixam vencer facilmente por uma tendência ao individualismo e a enfocar tudo como objeto de consumo. Nesse sentido, embora não seja cristã, a espiritualidade da Nova Era também não é budista, porquanto não implica a negação de si mesmo. O sonho de uma união mística parece conduzir, na prática, a uma união meramente virtual que, afinal, deixa as pessoas ainda mais sós e insatisfeitas.
3.3. O Cristo cósmico
Nos primeiros dias do cristianismo, os crentes em Jesus Cristo viram-se forçados a enfrentar as religiões gnósticas. Não as ignoraram, mas aceitaram o desafio positivamente e aplicaram ao próprio Cristo os termos utilizados para as divindades cósmicas. O exemplo mais claro é o famoso hino a Cristo na carta de São Paulo aos cristãos de Colossos:
« Ele [Cristo] é imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura;
porque por meio dele foram criadas todas as coisas:
celestes e terrestres, visíveis e invisíveis,
Tronos, Dominações, Principados, Potestades;
tudo foi criado por ele e para ele.
Ele é anterior a tudo, e tudo se mantém nele.
Ele é também cabeça do corpo: da Igreja.
Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos,
e assim é o primeiro em tudo.
Porque nele Deus quis que residisse toda a plenitude.
E por ele quis reconciliar consigo todos os seres:
os do céu e os da terra,
fazendo a paz pelo sangue da sua cruz » (Cl 1, 15-20).
Aqueles primeiros cristãos não esperavam a chegada de nenhuma nova era cósmica. O que celebravam com este hino era que a Plenitude de todas as coisas havia começado em Cristo. « Na realidade, o tempo se cumpriu pelo próprio fato de que Deus, com a encarnação, se introduziu na história do homem. A eternidade entrou no tempo: que « cumprimento » é maior que este? Que outro « cumprimento » seria possível? ».57 A crença gnóstica em forças cósmicas e numa espécie de destino obscuro elimina a possibilidade de uma relação com o Deus pessoal revelado em Cristo. Para os cristãos, o verdadeiro Cristo cósmico é aquele que está presente ativamente nos diversos membros do seu corpo, que é a Igreja. Não dirigem seu olhar a forças cósmicas impessoais, mas ao amor afetuoso de um Deus pessoal. Para eles, o biocentrismo cósmico deve ser transferido a um conjunto de relações sociais (na Igreja). E não se encerram num esquema cíclico de acontecimentos cósmicos, mas se centram no Jesus histórico, especialmente em sua crucifixão e em sua ressurreição. Na Carta aos Colossenses e no Novo Testamento encontramos uma doutrina de Deus distinta daquela que está implícita no pensamento da Nova Era: a concepção cristã de Deus é a de uma Trindade de Pessoas que criou a raça humana desejando compartilhar a comunhão da vida trinitária com as pessoas criadas. Entendido adequadamente, isto significa que a autêntica espiritualidade não consiste tanto em nossa busca de Deus, mas em que Deus nos busca.
Nos círculos da Nova Era tornou-se popular outra visão, completamente distinta, do significado cósmico de Cristo. « O Cristo Cósmico é o modelo divino que se conecta na pessoa de Jesus Cristo (mas não se limita de modo algum a tal pessoa). O modelo divino de conectividade fez-se carne e acampou entre nós (Jo 1, 14)… O Cristo Cósmico é o guia de um novo êxodo da servidão e das ideias pessimistas de um universo mecanicista, newtoniano, cheio de competitividade, vencedores e perdedores, dualismos, antropocentrismo, e do tédio que sobrevém quando nosso maravilhoso universo é descrito como uma máquina privada de mistério e misticismo. O Cristo Cósmico é local e histórico, indubitavelmente íntimo à história humana. O Cristo Cósmico poderia viver na casa ao lado ou até mesmo no interior mais profundo e autêntico do próprio eu ».58 Embora possivelmente nem todos os que estão relacionados com a Nova Era concordem com esta afirmação, ela, contudo, acerta no ponto e mostra com absoluta clareza onde residem as diferenças entre estas duas visões de Cristo. Para a Nova Era, o Cristo Cósmico aparece como um modelo que pode repetir-se em muitas pessoas, lugares ou épocas. É o portador de uma enorme mudança de paradigma. É, em definitivo, um potencial dentro de nós.
Segundo a doutrina cristã, Jesus Cristo não é um simples modelo. É uma pessoa divina cuja figura humano-divina revela o mistério do amor do Pai por cada pessoa ao longo da história (Jo 3, 16). Vive em nós porque compartilha sua vida conosco, mas esta nem nos é imposta nem é automática. Todos os seres humanos são convidados a compartilhar sua vida, a viver « em Cristo ».
3.4. Mística cristã e mística Nova Era
Para os cristãos, a vida espiritual consiste numa relação com Deus que se vai tornando cada vez mais profunda com a ajuda da graça, num processo que ilumina também a relação com nossos irmãos. A espiritualidade, para a Nova Era, significa experimentar estados de consciência dominados por um sentido de harmonia e fusão com o Todo. Assim, « mística » não se refere a um encontro com o Deus transcendente na plenitude do amor, mas à experiência provocada por um voltar-se sobre si mesmo, um sentimento exaltante de estar em comunhão com o universo, de deixar que a própria individualidade se afunde no grande oceano do Ser.59
Esta distinção fundamental é evidente em todos os níveis de comparação entre a mística cristã e a mística da Nova Era. O método de purificação da Nova Era baseia-se na consciência do mal-estar ou da alienação, que deve ser vencido mediante a imersão no Todo. Para converter-se, uma pessoa precisa fazer uso de técnicas que conduzem à experiência da iluminação. Isto transforma a consciência da pessoa e a abre ao contato com a divindade, entendida como a essência mais profunda da realidade.
As técnicas e métodos oferecidos neste sistema religioso imanentista, que carece do conceito de Deus como pessoa, procedem « de baixo ». Embora impliquem uma descida até as profundezas do próprio coração ou da própria alma, constituem uma empresa essencialmente humana por parte da pessoa que busca elevar-se até a divindade mediante seus esforços. Com frequência é uma « ascensão » do nível de consciência até aquilo que se entende como uma percepção libertadora do « deus interior ». Nem todos têm acesso a tais técnicas, cujos benefícios ficam restritos a uma « aristocracia » espiritual privilegiada.
Pelo contrário, o elemento essencial da fé cristã é que Deus se abaixa até as suas criaturas, particularmente até os mais humildes, os mais fracos e menos favorecidos segundo os critérios do « mundo ». Há algumas técnicas espirituais que convém aprender, mas Deus é capaz de contorná-las e até de prescindir delas. Para um cristão, « seu modo de aproximar-se de Deus não se fundamenta numa técnica, no sentido estrito da palavra. Isso iria contra o espírito de infância exigido pelo Evangelho. A autêntica mística cristã nada tem a ver com a técnica: é sempre um dom de Deus, cujo beneficiário se sente indigno ».60
Para os cristãos, a conversão consiste em voltar-se ao Pai, por meio do Filho, dóceis ao poder do Espírito Santo. Quanto mais se avança na relação com Deus –que é sempre e em todos os casos um dom gratuito–, mais aguda é a necessidade de converter-se do pecado, da miopia espiritual e da autocomplacência, coisas todas que impedem um abandono confiante de si em Deus e uma abertura aos outros.
Todas as técnicas de meditação precisam purificar-se da presunção e da ostentação. A oração cristã não é um exercício de contemplação de si mesmo, quietude e esvaziamento de si, mas um diálogo de amor, que « implica uma atitude de conversão, um êxodo do eu do homem para o Tu de Deus ».61 Conduz a uma submissão cada vez mais completa à vontade de Deus, mediante a qual somos convidados a uma solidariedade profunda e autêntica com nossos irmãos e irmãs.62
3.5. O « deus interior » e a « theosis »
Este é um ponto de contraste entre a Nova Era e o cristianismo. Na literatura New Age abunda a convicção de que não existe um ser divino « aí fora » ou que seja de alguma maneira distinto do resto da realidade. Desde Jung em diante, houve toda uma corrente que professava uma crença em « o deus interior ». Da perspectiva da Nova Era, nosso problema consiste na incapacidade de reconhecer nossa própria divindade, uma incapacidade que pode ser superada com a ajuda de um guia e usando toda uma série de técnicas para liberar nosso potencial (divino) escondido. A ideia fundamental é que « Deus » se encontra no fundo do nosso interior. Somos deuses e descobrimos o poder ilimitado que há dentro de nós despojando-nos das camadas de inautenticidade.63 Quanto mais se reconhece esse potencial, mais ele se realiza. Nesse sentido, a Nova Era tem sua própria ideia de theosis: transformar-nos em deuses ou, mais exatamente, reconhecer e aceitar que somos divinos. Alguns dizem que estamos vivendo em « uma época em que nossa compreensão de Deus tem de ser interiorizada: de um Deus onipotente e externo a um Deus, força dinâmica e criativa que se encontra no próprio centro de todo ser: Deus como Espírito.64
No Prefácio ao Livro V de Adversus Haereses, Santo Irineu refere-se a « Jesus Cristo, que, por meio do seu amor transcendente, se tornou o que somos, para poder levar-nos a ser o que ele mesmo é ». Aqui a theosis, o modo cristão de entender a divinização, não se realiza somente em virtude de nossos esforços, mas com o auxílio da graça de Deus, que atua em nós e por meio de nós. Naturalmente, isto implica uma consciência inicial de nossa imperfeição, inclusive de nossa condição pecadora, tudo o contrário da exaltação do eu. Além disso, desenvolve-se como uma introdução à vida da Trindade, um caso perfeito de distinção no próprio coração da unidade: sinergia e não fusão. Tudo isto acontece como resultado de um encontro pessoal, da oferta de um novo gênero de vida. A vida em Cristo não é algo tão pessoal e privado que fique restrito ao âmbito da consciência. Nem é tampouco um novo nível de consciência. Implica uma transformação de nosso corpo e nossa alma mediante a participação na vida sacramental da Igreja.
4 NOVA ERA E FÉ CRISTÃ FRENTE A FRENTE
É difícil separar os elementos individuais da religiosidade da Nova Era, por inocentes que possam parecer, da estrutura geral que penetra todo o mundo conceitual do movimento Nova Era. A natureza gnóstica desse movimento exige que ele seja julgado em sua totalidade. Do ponto de vista da fé cristã, não é possível isolar alguns elementos da religiosidade da Nova Era como aceitáveis por parte dos cristãos e rejeitar outros. Uma vez que o movimento da Nova Era insiste tanto na comunicação com a natureza, no conhecimento cósmico de um bem universal –negando assim os conteúdos revelados da fé cristã–, não pode ser considerado como algo positivo ou inócuo. Num ambiente cultural marcado pelo relativismo religioso, é necessário alertar contra as tentativas de colocar a religiosidade da Nova Era no mesmo nível da fé cristã, fazendo com que a diferença entre fé e crença pareça relativa e criando maior confusão entre os desprevenidos. Nesse sentido, é útil a exortação de São Paulo: « advertir alguns que não ensinem doutrinas estranhas, nem se ocupem com fábulas e genealogias intermináveis, que servem mais para promover disputas do que para realizar o plano de Deus, fundado na fé » (1 Tim 1, 3-4). Algumas práticas levam erroneamente o selo Nova Era, simplesmente como estratégia de mercado para se venderem melhor, sem que estejam realmente associadas à sua cosmovisão. Isso apenas cria maior confusão. Por isso é necessário identificar com precisão os elementos que pertencem ao movimento Nova Era, que não podem ser aceitos por aqueles que são fiéis a Cristo e à sua Igreja.
As perguntas seguintes podem ser o modo mais simples de avaliar alguns dos elementos centrais do pensamento e da prática da Nova Era a partir de uma perspectiva cristã. O termo Nova Era refere-se às ideias que circulam acerca de Deus, do homem e do mundo, às pessoas com quem os cristãos podem dialogar sobre temas religiosos, ao material publicitário para grupos de meditação, terapias e assim por diante, às declarações explícitas sobre a religião, etc. Algumas dessas perguntas, aplicadas a pessoas e ideias que não tragam explicitamente o rótulo Nova Era, poriam de manifesto outros vínculos, implícitos ou inconscientes, com todo o ambiente da Nova Era.
• Deus é um ser com quem mantemos uma relação, algo que se pode utilizar, ou uma força que se deve dominar?
O conceito de Deus próprio da Nova Era é um tanto vago, ao passo que o conceito cristão é muito claro. O Deus da Nova Era é uma energia impessoal, na realidade uma extensão ou componente particular do cosmos; Deus, nesse sentido, é a força vital ou alma do mundo. A divindade encontra-se em cada ser, numa gradação que vai « desde o cristal inferior do mundo mineral até e inclusive para além do próprio Deus Galáctico, do qual não podemos dizer absolutamente nada, salvo que não é um homem, mas uma Grande Consciência ».65 Em alguns escritos « clássicos » da Nova Era, fica claro que os seres humanos devem considerar-se a si mesmos como deuses, o que se desenvolve em algumas pessoas mais plenamente do que em outras. Já não se deve buscar Deus para além do mundo, mas no fundo do meu eu.66 Mesmo quando « Deus » é algo exterior a mim, está ali para ser manipulado.
Isto é muito diferente da concepção cristã de Deus, Criador do céu e da terra e fonte de toda vida pessoal. Deus é em si mesmo pessoal, Pai, Filho e Espírito Santo, e criou o universo a fim de compartilhar a comunhão de sua vida com as pessoas criadas. « Deus, que “habita uma luz inacessível”, quer comunicar sua própria vida divina aos homens livremente criados por ele, para fazer deles, em seu Filho único, filhos adotivos. Ao revelar-se a si mesmo, Deus quer tornar os homens capazes de lhe responder, de conhecê-lo e de amá-lo para além do que seriam capazes por suas próprias forças ».67 Deus não se identifica com o princípio vital entendido como o « Espírito » ou « energia básica » do cosmos, mas é esse amor, absolutamente diferente do mundo, que está, contudo, presente em tudo e conduz os seres humanos à salvação.
• Há um único Jesus Cristo ou existem milhares de Cristos?
Na literatura da Nova Era, Cristo é apresentado com frequência como um sábio, um iniciado ou um avatar entre muitos, ao passo que na tradição cristã é o Filho de Deus. Eis alguns pontos comuns das abordagens New Age:
– O Jesus histórico, pessoal e individual, é distinto do Cristo universal, eterno, impessoal;
– Jesus não é considerado o único Cristo;
– A morte de Jesus na Cruz, ou é negada, ou é reinterpretada para excluir a ideia de que pudesse ter sofrido como Cristo;
– Os documentos extrabíblicos (como os evangelhos neognósticos) são considerados fontes autênticas para o conhecimento de aspectos da vida de Cristo que não se encontram no cânon da Escritura. Outras revelações sobre Cristo, fornecidas por entidades, guias espirituais e mestres veneráveis ou até pelas Crônicas Akáshicas, são básicas para a cristologia da Nova Era;
– Aplica-se um tipo de exegese esotérica aos textos bíblicos para purificar o cristianismo da religião formal que impede o acesso à sua essência esotérica.68
Na tradição cristã, Jesus Cristo é o Jesus de Nazaré de quem falam os Evangelhos, o filho de Maria e Unigênito de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, revelação plena da Verdade divina, único Salvador do mundo: « por nossa causa foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu ao céu, e está sentado à direita do Pai ».69
• O ser humano: existe um único ser universal ou há muitos indivíduos?
« O objetivo das técnicas da Nova Era é reproduzir os estados místicos à vontade, como se fossem uma questão de material de laboratório. O renascer, o biofeedback, o isolamento sensorial, os mantras, o jejum, a privação do sono e a meditação transcendental são tentativas de controlar esses estados e experimentá-los continuamente ».70 Todas essas práticas criam uma atmosfera de debilidade (e vulnerabilidade) psíquica. Quando o objeto do exercício consiste em reinventar-nos a nós mesmos, coloca-se realmente a pergunta acerca de quem sou « eu ». O « Deus interior » e a união holística com todo o cosmos sublinham essa pergunta. As personalidades individuais isoladas seriam patológicas para a Nova Era (segundo sua particular psicologia transpessoal). Mas « o verdadeiro perigo é o paradigma holístico. A Nova Era é um pensamento baseado numa unidade totalitária e precisamente por isso é um perigo… ».71 Num tom mais suave: « Somos autênticos quando nos “assumimos” a nós mesmos, quando nossa opção e nossas reações fluem espontaneamente de nossas necessidades mais profundas, quando nosso comportamento e nossos sentimentos manifestos refletem nossa plenitude pessoal ».72 O Movimento do Potencial Humano é o exemplo mais claro da convicção de que os seres humanos são divinos, ou contêm uma centelha divina dentro de si mesmos.
A abordagem cristã procede dos ensinamentos da Escritura a respeito da natureza humana. Homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 27) e Deus os trata com grande consideração, para surpresa do salmista (cf. Sl 8). A pessoa humana é um mistério plenamente revelado somente em Jesus Cristo (cf. GS 22) e, de fato, torna-se autêntica e adequadamente humana em sua relação com Cristo por meio do dom do Espírito.73 Isto está muito longe da caricatura do antropocentrismo atribuído ao Cristianismo e rejeitado por muitos autores e seguidores da Nova Era.
• Salvamo-nos a nós mesmos ou a salvação é um dom gratuito de Deus?
A chave está em descobrir o que ou quem acreditamos que nos salva. Salvamo-nos a nós mesmos por nossas próprias ações, como costuma ser o caso nas explicações da Nova Era, ou nos salva o amor de Deus? As palavras-chave são autorrealização, plenitude do eu e autorredenção. A Nova Era é essencialmente pelagiana em sua maneira de entender a natureza humana.74
Para os cristãos, a salvação depende da participação na paixão, morte e ressurreição de Cristo, e de uma relação pessoal direta com Deus, mais do que de qualquer técnica. A condição humana, afetada como está pelo pecado original e pelo pecado pessoal, só pode ser retificada pela ação de Deus: o pecado é uma ofensa contra Deus, e só Deus pode reconciliar-nos consigo. No plano salvífico divino, os seres humanos foram salvos por Jesus Cristo, que, como Deus e homem, é o único mediador da redenção. No cristianismo, a salvação não é uma experiência do eu, uma imersão meditativa e intuitiva dentro de si mesmo, mas muito mais: o perdão do pecado, o ser levantado das profundas ambivalências do próprio ser, o apaziguamento da natureza mediante o dom da comunhão com um Deus amoroso. O caminho para a salvação não se encontra simplesmente numa transformação autoprovocada da consciência, mas na libertação do pecado e de suas consequências, que conduz a lutar contra o pecado que há em nós mesmos e na sociedade que nos rodeia. Isso nos conduz necessariamente a uma solidariedade amorosa com nossos irmãos necessitados.
• Inventamos a verdade ou a abraçamos?
A verdade para a Nova Era tem a ver com boas vibrações, correspondências cósmicas, harmonia e êxtase, experiências prazerosas em geral. Trata-se de encontrar a própria verdade em função do bem-estar. A avaliação da religião e das questões éticas está obviamente relacionada com as próprias sensações e experiências.
Na doutrina cristã, Jesus Cristo apresenta-se como « o Caminho, a Verdade e a Vida » (Jo 14, 6). A seus seguidores pede-se que abram toda a sua vida a ele e a seus valores, em outras palavras, a um conjunto objetivo de exigências que fazem parte de uma realidade objetiva acessível, em definitivo, a todos.
• A oração e a meditação: falamos conosco ou com Deus?
A tendência a confundir a psicologia e a espiritualidade aconselha salientar que muitas das técnicas de meditação agora em uso não são oração. Muitas vezes são uma boa preparação para a oração, e nada mais, ainda que conduzam a um estado de placidez mental ou de bem-estar corporal. As experiências que se obtêm são realmente intensas, mas permanecer nesse plano é permanecer sozinho, sem estar ainda na presença do Outro. Alcançar o silêncio pode confrontar-nos com o vazio mais do que com o silêncio contemplativo do amado. Também é verdade que as técnicas para aprofundar-se na própria alma são, em última análise, um apelo à nossa própria capacidade de alcançar o divino, ou até de nos tornarmos divinos. Se descuidam que é Deus quem vai em busca do coração humano, não são oração cristã. Ainda quando se considera como um vínculo com a Energia Universal, « esta “relação” fácil com Deus, na qual a função de Deus é concebida como a satisfação de todas as nossas necessidades, revela o egoísmo que há no coração da Nova Era ».75
As práticas da Nova Era não são realmente oração, pois costumam tratar-se de introspecção ou de fusão com a energia cósmica, em contraste com a dupla orientação da oração cristã, que compreende a introspecção, mas é, sobretudo, um encontro com Deus. A mística cristã, mais do que um mero esforço humano, é essencialmente um diálogo que « implica uma atitude de conversão, um êxodo do eu do homem para o Tu de Deus ».76 « O cristão, também quando está só e ora em segredo, tem a convicção de rezar sempre em união com Cristo, no Espírito Santo, junto com todos os santos para o bem da Igreja ».77
• Somos animados a negar o pecado ou aceitamos que exista tal coisa?
Na Nova Era não existe um verdadeiro conceito de pecado, mas antes o de conhecimento imperfeito. O que se necessita é iluminação, que pode ser alcançada mediante técnicas psicofísicas particulares. Aos que participam de atividades da Nova Era não lhes dirão o que têm de crer, o que têm de fazer ou não fazer, mas sim: « Há mil maneiras de explorar a realidade interior. Vá aonde o conduzam sua inteligência e sua intuição. Confie em si mesmo ».78 A autoridade deslocou-se de Deus para o interior do eu. Para a Nova Era, o problema mais sério é a alienação em relação à totalidade do cosmos, em vez de um fracasso pessoal ou pecado. O remédio consiste em conseguir estar cada vez mais imerso na totalidade do ser. Em alguns escritos e práticas da Nova Era, fica claro que uma só vida não basta, pelo que deve haver reencarnações que permitam às pessoas realizar seu potencial pleno.
Na perspectiva cristã, « a realidade do pecado, e mais particularmente do pecado das origens, só se esclarece à luz da Revelação divina. Sem o conhecimento que esta nos dá de Deus, não se pode reconhecer claramente o pecado, e sente-se a tentação de explicá-lo unicamente como um defeito de crescimento, como uma fraqueza psicológica, um erro, a consequência necessária de uma estrutura social inadequada, etc. Só no conhecimento do desígnio de Deus sobre o homem se compreende que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente ».79 « O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é faltar ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana… ».80 « O pecado é uma ofensa a Deus… levanta-se contra o amor que Deus nos tem e afasta dele os nossos corações… O pecado é assim “amor de si até o desprezo de Deus” ».81
• Somos encorajados a rejeitar ou a aceitar o sofrimento e a morte?
Alguns autores da Nova Era veem o sofrimento como algo imposto ao eu, como um mau karma (ver Glossário) ou, ao menos, como uma falha no domínio de nossos próprios recursos. Outros se concentram nos métodos para alcançar o sucesso e a riqueza (e.g. Deepak Chopra, José Silva et al.). Na Nova Era, a reencarnação é vista com frequência como um elemento necessário para o crescimento espiritual, uma etapa da evolução espiritual progressiva que começou antes de nascermos e continuará depois de morrermos. Em nossa vida presente, a experiência da morte de outras pessoas provoca uma crise saudável.
Tanto a unidade cósmica como a reencarnação são irreconciliáveis com a crença cristã de que a pessoa humana é um ser único, que vive uma só vida da qual é plenamente responsável: esse modo de entender a pessoa põe em questão tanto a responsabilidade pessoal como a liberdade. Os cristãos sabem que « na cruz de Cristo não só se cumpriu a redenção mediante o sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano ficou redimido. Cristo –sem culpa alguma própria– carregou sobre si “o mal total do pecado”. A experiência desse mal determinou a medida incomparável do sofrimento de Cristo que se converteu no preço da redenção… O Redentor sofreu em vez do homem e pelo homem. Todo homem tem sua participação na redenção. Cada um é chamado também a participar desse sofrimento mediante o qual se realizou a redenção. É chamado a participar desse sofrimento por meio do qual todo sofrimento humano foi também redimido. Levando a efeito a redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou juntamente o sofrimento humano ao nível da redenção. Consequentemente, todo homem, em seu sofrimento, pode tornar-se também participante do sofrimento redentor de Cristo ».82
• Deve-se evitar o compromisso social ou buscá-lo positivamente?
Boa parte do que há na Nova Era é uma descarada autopromoção, mas algumas figuras relevantes do movimento defendem que é injusto julgar todo o movimento por uma minoria de pessoas egoístas, irracionais e narcisistas, ou deixar-se deslumbrar por algumas de suas práticas mais extravagantes, que são um obstáculo para ver na Nova Era uma busca espiritual e uma espiritualidade autênticas.83 A fusão dos indivíduos no eu cósmico, a relativização ou abolição da diferença e da oposição numa harmonia cósmica é inaceitável para o cristianismo.
Onde há verdadeiro amor, tem de haver um « outro », uma pessoa, diferente. Um verdadeiro cristão busca a unidade na capacidade e na liberdade do outro para dizer « sim » ou « não » ao dom do amor. No cristianismo, a união é vista como comunhão e a unidade como comunidade.
• Nosso futuro está nas estrelas ou devemos ajudar a construí-lo?
A Nova Era que agora está amanhecendo será povoada por seres perfeitos, andróginos, que estejam no comando total das leis cósmicas da natureza. Nesse cenário, o cristianismo deve ser eliminado e dar lugar a uma religião global e a uma nova ordem mundial.
Os cristãos estão em estado de vigilância constante, preparados para os últimos dias, quando Cristo voltar. A Nova Era dos cristãos começou há dois mil anos com Cristo, que não é outro senão « Jesus de Nazaré; ele é a Palavra de Deus feita homem para a salvação de todos ». Seu Espírito Santo está presente e ativo nos corações dos indivíduos, na « sociedade e na história, nos povos, nas culturas e nas religiões ». Na realidade, « o Espírito do Pai, derramado abundantemente pelo Filho, é quem tudo anima ».84 Vivemos já nos últimos tempos.
Por um lado, está claro que muitas práticas da Nova Era não apresentam problemas doutrinais para aqueles que as realizam; mas, ao mesmo tempo, é inegável que essas práticas, ainda que apenas indiretamente, comunicam uma mentalidade que pode influenciar o pensamento e inspirar uma visão particular da realidade. Certamente, a Nova Era cria sua própria atmosfera e pode ser difícil distinguir entre coisas inócuas e coisas realmente objetáveis. Contudo, convém perceber que a doutrina acerca de Cristo difundida nos círculos da Nova Era se inspira nas doutrinas teosóficas de Helena Blavatsky, na antroposofia de Rudolf Steiner e na « Escola Arcana » de Alice Bailey. Seus seguidores contemporâneos não só promovem hoje as ideias desses pensadores, mas também trabalham com os adeptos da Nova Era para desenvolver uma compreensão completamente nova da realidade, uma doutrina conhecida como « a verdade da Nova Era ».85
5 JESUS CRISTO OFERECE A ÁGUA DA VIDA
O único fundamento da Igreja é Jesus Cristo, o Senhor. Ele está no coração de toda ação cristã e de toda mensagem cristã. Por isso a Igreja regressa constantemente ao encontro do seu Senhor. Os Evangelhos narram-nos muitos encontros de Jesus: desde os pastores de Belém até aos dois ladrões crucificados com ele, desde os doutores que o escutavam no Templo até aos discípulos que caminhavam entristecidos para Emaús. Mas um episódio que indica com especial clareza aquilo que Ele nos oferece é o relato do seu encontro com a samaritana junto ao poço de Jacó, no quarto capítulo do evangelho de São João. Este encontro foi descrito até como « um paradigma do nosso compromisso com a verdade ».86 A experiência do encontro com um desconhecido que nos oferece a água da vida é uma chave para compreender a maneira como podemos e devemos iniciar o diálogo com quem não conhece Jesus.
Um dos elementos mais atraentes do relato de João (Jo 4) é a demora da mulher em captar o que Jesus quer dizer com essa « água da vida » ou água « viva » (v. 11). Mesmo assim, sente-se fascinada — não só pelo próprio desconhecido, mas também pela sua mensagem —, e isso a leva a escutá-lo. Depois do impacto inicial, ao perceber o que Jesus sabe dela (« tens razão ao dizer que não tens marido; pois tiveste cinco homens, e o que tens agora tampouco é teu marido. Nisso disseste a verdade », vv. 7-18), abre-se completamente à sua palavra: « Senhor, vejo que és profeta » (v. 19). Começa o diálogo sobre a adoração a Deus: « Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus » (v. 22). Jesus tocou o seu coração e preparou-a para escutar o que tinha a dizer acerca de si mesmo como Messias: « Sou eu, que falo contigo » (v. 26). Dispôs-na para abrir o coração à verdadeira adoração em Espírito e à manifestação de Jesus como Ungido de Deus.
A mulher « deixou o cântaro, foi à aldeia e contou aos vizinhos » a respeito daquele homem (v. 28). O extraordinário efeito que este encontro com o desconhecido produziu nela despertou a curiosidade deles, de modo que também « foram ter com ele » (v. 30). Em pouco tempo aceitaram a verdade da sua identidade: « Já não cremos pelo que nos contaste, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo » (v. 42). Passam de ouvir falar de Jesus a conhecê-lo pessoalmente, compreendendo então o significado universal da sua identidade. E tudo isto porque se envolveram com a mente e com o coração.
O fato de a história acontecer junto a um poço é significativo. Jesus oferece à mulher « uma fonte que jorra para a vida eterna » (v. 14). A delicadeza com que Jesus trata a mulher é um modelo de eficácia pastoral: ajudar os outros a serem sinceros consigo mesmos sem sofrerem inutilmente no doloroso processo de reconhecimento próprio (« contou-me tudo o que fiz », v. 39). Esta abordagem poderia produzir frutos abundantes com aqueles que se sentem atraídos pelo « aguadeiro » (Aquário) e continuam buscando sinceramente a verdade. Seria preciso convidá-los a escutar Jesus, que não só oferece água para saciar a nossa sede, mas também as profundidades espirituais ocultas da « água viva ». É importante reconhecer a sinceridade das pessoas que buscam a verdade; não se trata de falsidade ou de autoengano. Também é importante ser paciente, como sabe todo bom educador. Uma pessoa possuída pela verdade vê-se repentinamente cheia de uma sensação de liberdade completamente nova, especialmente diante dos erros e temores do passado. « Quem se esforça por conhecer-se a si mesmo, como a mulher junto ao poço, infundirá nos outros um desejo de conhecer a verdade que também pode libertá-los ».87
O convite a seguir Cristo, portador da água da vida, terá um peso muito maior se aquele que o faz tiver sido profundamente tocado pelo seu próprio encontro com Jesus, porque não se trata de alguém que se limitou a ouvir falar dele, mas de quem está seguro de « que é realmente o Salvador do mundo » (v. 42). Trata-se de deixar que as pessoas reajam à sua maneira, no seu próprio ritmo, e deixar Deus fazer o resto.
6 INDICAÇÕES IMPORTANTES
6.1. Uma necessidade: acompanhamento e formação sólida
Cristo ou Aquário? A Nova Era quase sempre tem a ver com « alternativas »: uma visão alternativa da realidade, ou uma maneira alternativa de melhorar a própria situação presente (magia).88 As alternativas não oferecem duas possibilidades, mas unicamente a possibilidade de escolher uma coisa em vez de outra. Em termos religiosos, a Nova Era oferece uma alternativa à herança judaico-cristã. A Era de Aquário é concebida como a que substituirá a Era de Peixes, predominantemente cristã. Os pensadores da Nova Era são plenamente conscientes disso. Alguns deles estão convencidos de que a mudança que se aproxima é inevitável, enquanto outros estão, além disso, ativamente comprometidos com sua chegada. Aqueles que se perguntam se é possível crer ao mesmo tempo em Cristo e em Aquário convém que saibam que se encontram diante de uma alternativa excludente, « aut-aut, ou isto ou aquilo ». « Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque odiará a um e amará o outro; ou se dedicará a um e desprezará o outro » (Lc 16, 13). Aos cristãos basta pensar na diferença entre os Magos do Oriente e o rei Herodes para perceber os tremendos efeitos que comporta a opção a favor ou contra Cristo. Nunca devemos esquecer que muitos dos movimentos que alimentaram a Nova Era são explicitamente anticristãos. Sua postura diante do cristianismo não é neutra, mas neutralizadora: apesar do que se costuma dizer sobre a abertura a todos os pontos de vista religiosos, o cristianismo tradicional não é considerado sinceramente uma alternativa aceitável. De fato, com frequência fica bem claro que não « há espaço tolerável para o cristianismo autêntico », inclusive com argumentos que justificam um comportamento anticristão.89 Essa oposição, que inicialmente se limitava aos ambientes rarefeitos daqueles que vão além de uma vinculação superficial com a Nova Era, começou recentemente a penetrar em todos os níveis da cultura « alternativa », que exerce uma poderosa fascinação, sobretudo nas sofisticadas sociedades ocidentais.
Fusão ou confusão? As tradições da Nova Era consciente e deliberadamente diluem as diferenças reais: entre Criador e criação, entre humanidade e natureza, entre religião e psicologia, entre realidade subjetiva e objetiva. Idealmente, a intenção é sempre superar o escândalo da divisão, mas para a teoria da Nova Era trata-se da fusão sistemática de elementos que normalmente estiveram claramente diferenciados na cultura ocidental. Talvez seja mais justo chamá-la « confusão ». Dizer que a Nova Era se alimenta da confusão não é um mero jogo de palavras. A tradição cristã sempre valorizou o papel da razão para justificar a fé e compreender Deus, o mundo e a pessoa humana.90 A Nova Era acerta quando sintoniza com um estado de ânimo que rejeita a razão fria, calculista, desumana. E embora recorde a necessidade de um equilíbrio entre todas as nossas faculdades, isso não justifica a marginalização de uma faculdade que é essencial para uma vida plenamente humana. A racionalidade tem a vantagem da universalidade: está ao alcance de todos, gratuitamente, diferentemente do caráter misterioso e fascinante da religião « mística », esotérica ou gnóstica. Tudo aquilo que alimenta a confusão conceitual ou o secretismo deve ser examinado com extremo cuidado, pois, em vez de revelar a natureza última da realidade, a esconde. Corresponde à perda de confiança nas sólidas certezas de outrora própria da pós-modernidade, que com frequência leva a refugiar-se no irracionalismo. O grande desafio consiste em mostrar como uma colaboração sadia entre a fé e a razão melhora a vida humana e promove o respeito à criação.
Crie sua própria realidade. A convicção generalizada na Nova Era de que cada um cria sua própria realidade é atraente, mas ilusória. Cristaliza-se na teoria de Jung, segundo a qual o ser humano é uma via de acesso desde o mundo exterior a um mundo interior de infinitas dimensões, onde cada pessoa é um Abraxas que dá à luz seu próprio mundo ou o devora. A estrela que brilha nesse mundo interior infinito é o deus e meta do homem. A consequência mais dolorosa e problemática da aceitação da ideia de que as pessoas criam sua própria realidade é a questão do sofrimento e da morte: as pessoas com graves deficiências ou doenças incuráveis sentem-se enganadas e degradadas quando se lhes sugere que foram elas que fizeram cair a desgraça sobre si mesmas, ou que sua incapacidade de mudar as coisas indica uma fraqueza em sua maneira de enfrentar a vida. Tudo isso está longe de ser um tema puramente acadêmico: tem profundas implicações na abordagem pastoral da Igreja diante das difíceis questões existenciais que todos se colocam. Nossas limitações são parte da vida, inerentes à condição de criatura. A morte e o sofrimento constituem um desafio e uma oportunidade, pois a tentação de refugiar-se numa reelaboração ocidentalizada da reencarnação é uma prova clara do temor diante da morte e do desejo de viver para sempre. Aproveitamos ao máximo essas oportunidades para recordar o que Deus nos promete na ressurreição de Jesus Cristo? Até que ponto é real a fé na ressurreição da carne que os cristãos proclamam todos os domingos no credo? Aqui se coloca sobretudo a ideia da Nova Era de que, em certo sentido, também somos deuses. Toda a questão depende, naturalmente, da própria definição de realidade. É preciso fortalecer de maneira adequada uma abordagem sólida da epistemologia e da psicologia em todos os níveis de educação, formação e pregação católicas. É importante concentrar-se constantemente nos modos mais eficazes de falar da transcendência. A dificuldade fundamental de todo o pensamento da Nova Era é que essa transcendência é estritamente uma autotranscendência que deve ser alcançada num universo fechado em si mesmo.
Recursos pastorais. No capítulo 8 oferecem-se indicações sobre os principais documentos da Igreja Católica, nos quais se pode encontrar uma avaliação das ideias da Nova Era. Em primeiro lugar figura a alocução do papa João Paulo II citada no Prefácio. O papa reconhece nessa tendência cultural alguns aspectos positivos, tais como a « busca de um novo significado da vida, uma nova sensibilidade ecológica e o desejo de superar uma religiosidade fria e racionalista ». Mas também chama a atenção dos fiéis para certos elementos ambíguos que são incompatíveis com a fé cristã: esses movimentos « prestam pouca atenção à Revelação », « tendem a relativizar a doutrina religiosa em favor de uma cosmovisão difusa », « com frequência propõem um conceito panteísta de Deus », « substituem a responsabilidade pessoal diante de Deus por nossas ações por um sentido de dever em relação ao cosmos, subvertendo assim o verdadeiro conceito do pecado e da necessidade da redenção por meio de Cristo ».91
6.2. Iniciativas práticas
Em primeiro lugar, convém recordar mais uma vez que, dentro do vasto movimento da Nova Era, nem todas as pessoas nem todas as coisas estão vinculadas da mesma maneira às teorias do movimento. Igualmente, o próprio rótulo de « Nova Era » com frequência é mal aplicado ou estendido a fenômenos que podem ser classificados de outra maneira. Inclusive abusou-se do termo Nova Era para demonizar certas pessoas e práticas. É essencial examinar se os fenômenos vinculados a esse movimento, ainda que de maneira tangencial, refletem uma visão cristã de Deus, da pessoa humana e do mundo ou estão em conflito com ela. A mera utilização do termo « Nova Era » por si só nada significa. O que conta é a relação da pessoa, do grupo, da prática ou do produto com os princípios do cristianismo.
• A Igreja católica dispõe de redes próprias, muito eficazes, que ainda poderiam ser melhor utilizadas. Por exemplo, o grande número de centros pastorais, culturais e de espiritualidade. Além de servir às necessidades da Igreja, esses mesmos poderiam ser empregados para abordar de forma criativa a confusão a respeito da religiosidade da Nova Era, por exemplo, com fóruns de discussão e estudo. Infelizmente, é preciso admitir que em muitos casos alguns centros de espiritualidade especificamente católicos estão ativamente comprometidos na difusão da religiosidade da Nova Era dentro da Igreja. É necessário corrigir essa situação, não só para deter a propagação da confusão e do erro, mas também para que se tornem promotores eficazes da verdadeira espiritualidade cristã. Os centros culturais católicos, em particular, não são apenas instituições doutrinais, mas espaços para o diálogo sincero.92 Algumas instituições especializadas abordam todas essas questões de modo excelente. São recursos valiosíssimos que deveriam ser compartilhados generosamente com zonas mais desfavorecidas.
• Não poucos grupos da Nova Era aproveitam qualquer oportunidade para expor sua filosofia e suas atividades. Convém abordar com cuidado os encontros com esse tipo de grupos, incluindo sempre pessoas capazes tanto de explicar a fé e a espiritualidade católicas, como de refletir criticamente sobre o pensamento e as práticas da Nova Era. É sumamente importante comprovar as credenciais das pessoas, grupos e instituições que pretendem oferecer orientação e informação sobre a Nova Era. Em alguns casos, o que havia começado como uma investigação imparcial acaba convertendo-se numa promoção ativa ou numa defesa das « religiões alternativas ». Algumas instituições internacionais estão realizando ativamente campanhas de promoção do respeito à « diversidade religiosa » e reivindicam o caráter religioso para algumas organizações mais que duvidosas. Isso concorda com a visão da Nova Era, de passar a uma época em que a limitação das religiões particulares ceda o lugar à universalidade de uma nova religião ou espiritualidade. Pelo contrário, o diálogo sincero deve respeitar sempre a diversidade desde o princípio e nunca tentará apagar as distinções fundindo em uma só todas as tradições religiosas.
• Alguns grupos locais da Nova Era qualificam seus encontros como « grupos de oração ». Quem for convidado a esses grupos deve buscar os sinais de uma espiritualidade autenticamente cristã e comprovar que não haja cerimônias de iniciação de nenhum tipo. Tais grupos se aproveitam da falta de preparação teológica ou espiritual das pessoas para atraí-las gradualmente ao que, na realidade, pode ser uma forma de culto falso. É preciso educar os cristãos a respeito do verdadeiro objeto e conteúdo da oração –dirigida ao Pai, por meio de Jesus Cristo, no Espírito Santo–, para julgar retamente a intenção de um « grupo de oração ». A oração cristã e o Deus de Jesus Cristo são facilmente reconhecíveis.93 Muitas pessoas estão convencidas de que não há perigo algum em « tomar emprestados » elementos da sabedoria oriental. Contudo, o caso da Meditação Transcendental (MT) deveria convidar os cristãos a serem mais cautelosos diante da possibilidade de se afiliarem, sem o saber, a outra religião (neste caso, o Hinduísmo), embora os promotores da MT insistam em sua neutralidade religiosa. A aprendizagem da meditação em si mesma não apresenta problema algum, mas o objeto ou o conteúdo do exercício determinam claramente se se estabelece uma relação com o Deus revelado por Jesus Cristo, ou então com alguma outra revelação, ou simplesmente com as profundezas ocultas do eu.
• Também se deve prestar o devido reconhecimento aos grupos cristãos que promovem o cuidado da terra como criação de Deus. O respeito à criação também deve ser abordado criativamente nas escolas católicas. Contudo, grande parte do que propõem os elementos mais radicais do movimento ecológico dificilmente é conciliável com a fé católica. O cuidado do meio ambiente, em geral, é um sinal oportuno de uma renovada preocupação pelo que Deus nos deu, talvez inclusive um sinal do necessário cuidado cristão da criação. A « ecologia profunda », porém, baseia-se com frequência em princípios panteístas e, por vezes, gnósticos.94
• O início do Terceiro Milênio oferece um autêntico kairós para a evangelização. As mentes e os corações estão abertos como nunca antes a receber informação séria sobre a visão cristã do tempo e da história da salvação. A prioridade não deveria consistir tanto em pôr em relevo as carências de outros enfoques, mas antes em voltar constantemente às fontes de nossa própria fé, para poder oferecer uma apresentação adequada e sólida da mensagem cristã. Podemos orgulhar-nos do que nos foi confiado e, por isso, devemos resistir às pressões da cultura dominante e não enterrar esses dons (cf. Mt 25, 24-30). Um dos instrumentos mais úteis de que dispomos é o Catecismo da Igreja Católica. Temos também uma imensa herança de caminhos de santidade nas vidas dos cristãos do passado e do presente. Ali onde o rico simbolismo cristão, suas tradições artísticas, estéticas e musicais é desconhecido ou ignorado, os cristãos têm de realizar um enorme trabalho em benefício próprio e, em última análise, de todos aqueles que buscam uma experiência ou uma maior consciência da presença de Deus. O diálogo entre os cristãos e as pessoas seduzidas pela Nova Era terá maiores garantias de êxito se levar em conta a atração que exercem o mundo das emoções e a linguagem simbólica. Se nossa tarefa consiste em conhecer, amar e servir a Jesus Cristo, é de capital importância começar com um bom conhecimento da Sagrada Escritura. Mas, sobretudo, sair ao encontro do Senhor Jesus na oração e nos sacramentos, que são precisamente os momentos de santificação de nossa vida ordinária e o caminho mais seguro para encontrar o sentido de toda a mensagem cristã.
• Talvez a medida mais simples, a mais óbvia e urgente que se deve tomar, e talvez também a mais eficaz, seja aproveitar ao máximo as riquezas da herança espiritual cristã. As grandes ordens religiosas são depositárias de ricas tradições de meditação e espiritualidade, que poderiam tornar-se mais acessíveis mediante cursos ou períodos de permanência em suas casas, oferecidos a pessoas com autêntico espírito de busca. Isso já se está realizando, mas é preciso ir além. Ajudar as pessoas em sua busca espiritual oferecendo-lhes técnicas já aprovadas e experiências de autêntica oração poderia abrir um diálogo que revelaria as riquezas da tradição cristã e talvez esclarecesse, nesse mesmo processo, muitas das questões levantadas pela Nova Era.
Com uma imagem sugestiva e direta, um dos próprios expoentes do movimento da Nova Era comparou as religiões tradicionais às catedrais, e a Nova Era a uma feira mundial. O Movimento Nova Era é um convite aos cristãos para que levem a mensagem das catedrais à feira que agora ocupa o mundo inteiro. Essa imagem apresenta aos cristãos um desafio positivo, pois qualquer momento é bom para levar a mensagem das catedrais às pessoas da feira. Os cristãos, com efeito, não devem aguardar um convite para levar a Boa Nova de Jesus Cristo àqueles que andam buscando respostas para suas perguntas, um alimento espiritual que os satisfaça, a água viva. Seguindo a imagem proposta, os cristãos devem sair da catedral, alimentados pela palavra e pelos sacramentos, para levar o Evangelho a todos os âmbitos da vida cotidiana. « Ite, Missa est, Ide, a missa terminou ». Na carta apostólica Novo Millennio Ineunte, o Santo Padre destaca o grande interesse pela espiritualidade que se descobre no mundo de hoje, e como as demais religiões estão respondendo a essa demanda de modo atraente. Em seguida lança um desafio aos cristãos: « Nós, que temos a graça de crer em Cristo, revelador do Pai e Salvador do mundo, devemos ensinar a que grau de interiorização pode nos levar a relação com ele » (n. 33). Para aqueles que fazem suas compras na feira mundial de propostas religiosas, o chamado do cristianismo se manifestará, em primeiro lugar, através do testemunho dos membros da Igreja, de sua confiança, sua calma, sua paciência e seu otimismo, e de seu amor concreto ao próximo. Tudo isso, fruto de uma fé alimentada na oração pessoal autêntica.
7 APÊNDICE
7.1. Algumas formulações breves de ideias da Nova Era
Formulação da Nova Era segundo William Bloom, 1992, citada em Heelas, p. 225s.:
• Toda vida, –toda existência– é a manifestação do Espírito, do Incognoscível, a Consciência suprema conhecida com diferentes nomes em tantas culturas distintas.
• O propósito e a dinâmica de toda existência é levar o Amor, a Sabedoria, a Iluminação… à sua plena manifestação.
• Todas as religiões são expressão desta mesma realidade interior.
• Toda vida, tal como a percebemos com os cinco sentidos humanos ou com os instrumentos científicos, não é senão o véu externo de uma realidade invisível, interior e causal.
• Igualmente, os seres humanos são criaturas duplas com: (i) uma personalidade exterior temporal, e (ii) um ser interior multidimensional (alma ou eu superior).
• A personalidade exterior é limitada e tende ao amor.
• O propósito da encarnação do ser interior é atrair as vibrações da personalidade exterior para uma ressonância de amor.
• Todas as almas encarnadas são livres para escolher sua própria senda espiritual.
• Nossos mestres espirituais são aqueles que, tendo a alma libertada da necessidade de encarnar-se, expressam amor incondicional, sabedoria e iluminação. Alguns desses grandes seres são bem conhecidos e inspiraram as religiões do mundo. Outros são desconhecidos e atuam invisivelmente.
• Toda vida, em suas diferentes formas e estados, é energia inter-relacionada, e inclui nossas ações, sentimentos e pensamentos. Portanto, colaboramos com o Espírito e com essas energias na criação de nossa realidade.
• Embora sustentados pela dinâmica do amor cósmico, somos conjuntamente responsáveis pelo estado de nosso próprio eu, de nosso ambiente e de toda vida.
• Durante este período de tempo, a evolução do planeta e da humanidade alcançou um ponto em que estamos experimentando uma profunda mudança espiritual em nossa consciência individual e coletiva. Por isso falamos de uma Nova Era. Esta nova consciência é resultado de uma encarnação cada vez mais bem-sucedida daquilo que alguns chamam energias do amor cósmico. Esta nova consciência se manifesta numa compreensão instintiva da sacralidade de toda existência e, em particular, de sua inter-relação.
• Esta nova consciência e esta nova compreensão da interdependência de toda vida são o sinal de que atualmente está em gestação uma nova cultura planetária.
Heelas cita (p. 226) a « formulação complementar » de Jeremy Tarcher:
1. O mundo, incluindo a raça humana, é expressão de uma natureza divina superior, mais completa.
2. Oculto no interior de cada ser humano, existe um Eu divino superior, que é a manifestação desta natureza divina superior e mais completa.
3. Esta natureza superior pode ser despertada e converter-se no centro da vida cotidiana do indivíduo.
4. Este despertar é a razão de ser de cada vida individual.
David Spangler citado em Actualité des religions n. 8, setembro de 1999, p. 43, sobre as principais características da visão da Nova Era, que é:
• holística (globalizadora, porque só há uma energia-realidade)
• ecológica (a Terra, Gaia, é nossa mãe, cada um de nós é um neurônio do sistema nervoso central da terra)
• andrógina (o arco-íris e o Yin Yang são símbolos NE, que têm a ver com a complementaridade dos contrários, especialmente o masculino e o feminino)
• mística (que encontra o sagrado em todas as coisas, nas mais ordinárias)
• planetária (as pessoas devem estar, ao mesmo tempo, enraizadas em sua própria cultura e abertas à cultura universal, buscando amor, compaixão, paz, e o estabelecimento de um governo mundial).
7.2. Glossário seletivo
Androginia: não é hermafroditismo, isto é, a presença de características físicas dos dois sexos numa pessoa, mas uma consciência da presença dos elementos masculinos e femininos em cada pessoa. É descrita como um estado equilibrado de harmonia interior do animus e da anima. Na Nova Era, é um estado resultante de uma nova consciência deste modo duplo de ser e existir característico de todo homem e de toda mulher. Quanto mais se difundir, mais ajudará a transformar a conduta interpessoal.
Antroposofia: doutrina teosófica popularizada originalmente pelo croata Rudolf Steiner (1861-1925), que abandonou a Sociedade Teosófica depois de ser dirigente de seu ramo alemão de 1902 a 1913. É uma doutrina esotérica que tem por objeto iniciar as pessoas no « conhecimento objetivo » na esfera divino-espiritual. Steiner estava convencido de que ela o havia ajudado a explorar as leis da evolução do cosmos e da humanidade. Cada ser físico tem um ser espiritual correspondente, e a vida terrena é influenciada pelas energias astrais e pelas essências espirituais. Diz-se que a Crônica Akasha é uma « memória cósmica » acessível aos iniciados.95
Canalização (v. Channeling)
Xamanismo: práticas e crenças vinculadas à comunicação com os espíritos da natureza e com os espíritos dos mortos mediante a possessão ritual do xamã (por parte dos espíritos), aos quais este serve de médium. O atrativo dessas práticas nos círculos da Nova Era se deve ao fato de porem o acento na harmonia com as forças da natureza e na cura. A isso se acrescenta também uma imagem « romântica » das religiões indígenas e de sua proximidade com a terra e com a natureza.
Channeling (canalização): os médiuns psíquicos sustentam que atuam como canais de informação de outros eus, normalmente entidades incorpóreas que vivem em outro plano. Põe em relação seres tão diversos como mestres excelsos, anjos, deuses, entidades coletivas, espíritos da natureza e o Eu Superior.
Consciência planetária: esta cosmovisão desenvolveu-se nos anos 1980 para promover o sentimento de lealdade à comunidade humana em vez de às nações, tribos ou outros grupos tradicionais. Pode ser considerada herdeira de movimentos do começo do século XX que promoviam um governo mundial. A consciência da unidade da humanidade se ajusta perfeitamente à hipótese Gaia.
Cristais: considera-se que vibram com frequências particulares. Daí que sejam úteis para a autotransformação. São utilizados em várias terapias, bem como na meditação, visualização, na « viagem astral » ou como amuletos da sorte. Vistos de fora, não têm poder intrínseco, mas são simplesmente belos.
Cristo: na Nova Era, a figura histórica de Jesus não é mais que uma encarnação de uma ideia, uma energia ou um conjunto de vibrações. Para Alice Bailey, faz falta uma grande jornada de súplica, na qual todos os crentes consigam criar uma concentração de energia espiritual tal que se produza uma nova encarnação que revelará aos homens o modo de salvar-se… Para muitos, Jesus não é senão um mestre espiritual que, como Buda, Moisés e Maomé, ou outros, foi penetrado pelo Cristo cósmico. O Cristo cósmico também é conhecido como a energia crística presente em cada ser e no ser total. Os indivíduos precisam ser iniciados gradualmente na consciência das características crísticas que possuem. Cristo representa –para a Nova Era– o estado mais elevado de perfeição do eu.96
Eneagrama: (do grego ennéa = nove + gramma = sinal) o nome designa um diagrama composto por um círculo com nove pontos em sua circunferência, unidos entre si por um triângulo e um hexágono circunscritos. Originariamente foi utilizado para a adivinhação, mas recentemente se popularizou como símbolo de um sistema de tipologia da personalidade que consta de nove tipos caracterológicos básicos. Tornou-se popular após a publicação do livro The Enneagram de Helen Palmer,97 mas a autora reconhece sua dívida com o médico e pensador esotérico russo G. I. Gurdjieff, o psicólogo chileno Claudio Naranjo, e o autor Óscar Icazo, fundador de Arica. A origem do eneagrama permanece envolta em mistério, embora alguns sustentem que procede da mística sufi.
Era de Aquário: cada era astrológica, de cerca de 2146 anos, recebe o nome de um dos signos do zodíaco, mas os « grandes dias » seguem uma ordem inversa, de modo que a atual Era de Peixes está a ponto de acabar e se instaurará a Era de Aquário. Cada Era tem suas próprias energias cósmicas. A energia de Peixes fez dela uma era de guerras e conflitos. Mas Aquário está destinada a ser uma era de harmonia, justiça, paz, unidade, etc. Neste sentido, a Nova Era aceita o caráter inevitável da história. Alguns veem na era de Áries a época da religião judaica, em Peixes a do cristianismo e em Aquário a era de uma religião universal.
Esoterismo (do grego esotéros = o que há no interior): designa geralmente um conjunto de conhecimentos antigos e ocultos acessível somente a grupos de iniciados, que se descrevem a si mesmos como guardiões das verdades ocultas à maioria da humanidade. O processo de iniciação conduz de um conhecimento da realidade meramente externo, superficial, até a verdade interior e, mediante esse processo, desperta a consciência para um nível mais profundo. As pessoas são convidadas a empreender esta « viagem interior » para descobrir a « centelha divina » que há dentro delas. Neste contexto, a salvação coincide com a descoberta do eu.
Espiritismo: embora sempre tenha havido tentativas de estabelecer contato com os espíritos dos mortos, considera-se que o espiritismo do século XIX é uma das correntes que desembocam na Nova Era. Desenvolveu-se no ambiente das ideias de Swedenborg e Mesmer, e chegou a converter-se numa nova religião. Madame Blavatsky era uma médium, razão pela qual o espiritismo exerceu grande influência na Sociedade Teosófica, embora neste caso o acento recaísse no contato com entidades do passado remoto mais do que com pessoas que haviam morrido recentemente. Allan Kardec influenciou a difusão do espiritismo nas religiões afro-brasileiras. Em alguns novos movimentos religiosos do Japão há também elementos espíritas.
Evolução: na Nova Era vai muito além da evolução dos seres para formas de vida superiores. O modelo físico é projetado sobre o âmbito espiritual, de modo que uma força imanente do interior dos seres humanos os impulsiona para formas superiores de vida espiritual. Diz-se que os seres humanos não têm controle sobre esta força, mas suas boas ou más ações podem acelerar ou retardar o processo. Pensa-se que a criação inteira, incluindo a humanidade, avança inexoravelmente para uma fusão com o divino. A reencarnação, naturalmente, ocupa um lugar importante nesta visão de uma evolução espiritual progressiva que, segundo se diz, começa antes do nascimento e continua depois da morte.98
Expansão da consciência: se o cosmos é concebido como uma cadeia contínua de ser, todos os níveis da existência –minerais, vegetais, animais, humanos, seres cósmicos e divinos– são interdependentes. Diz-se que os seres humanos se tornam conscientes de seu lugar nesta visão holística da realidade global expandindo sua consciência para além de seus limites normais. A Nova Era oferece uma enorme variedade de técnicas para ajudar as pessoas a alcançar um nível de percepção da realidade mais elevado, uma maneira de superar a separação entre os sujeitos e entre os objetos no processo cognoscitivo, concluindo numa fusão total daquilo que a consciência normal, inferior, vê como realidades separadas ou distintas.
Feng-shui: forma de geomancia, neste caso um método oculto chinês de decifrar a presença escondida de correntes positivas e negativas nos edifícios e outros lugares, baseada no conhecimento das forças terrenas e atmosféricas. « Assim como no corpo humano ou no cosmos, em cada lugar se cruzam influxos cujo equilíbrio correto é fonte de saúde e de vida ».99
Gnose: em sentido amplo, uma forma de conhecimento não intelectual, mas visionária ou mística, que se crê revelada e capaz de unir o ser humano ao mistério divino. Nos primeiros séculos do cristianismo, os Padres da Igreja lutaram contra o gnosticismo, porquanto se opunha à fé. Alguns veem um renascer das ideias gnósticas em grande parte do pensamento da Nova Era, alguns de cujos autores de fato citam o gnosticismo primitivo. Contudo, a acentuação do monismo e até do panteísmo ou panenteísmo típica da Nova Era leva alguns a utilizar o termo neo-gnosticismo para distinguir a gnose da Nova Era do gnosticismo antigo.
Grande Fraternidade Branca: Madame Blavatsky afirmava manter contatos com os mahatmas ou mestres, seres excelsos que, conjuntamente, constituem a Grande Fraternidade Branca. Segundo ela, eram estes que dirigiam a evolução da raça humana e orientavam o trabalho da Sociedade Teosófica.
Hermetismo: práticas e especulações filosóficas e religiosas vinculadas aos escritos do Corpus Hermeticum e aos textos alexandrinos atribuídos ao mítico Hermes Trismegistos. Quando foram conhecidos pela primeira vez durante o Renascimento, pensou-se que revelavam doutrinas pré-cristãs; contudo, estudos posteriores demonstraram que datam do primeiro século da era cristã. 100 O hermetismo alexandrino é uma fonte fundamental do esoterismo moderno, com o qual tem muito em comum: o ecletismo, a refutação do dualismo ontológico, a afirmação do caráter positivo e simbólico do universo, a ideia da queda e posterior restauração da humanidade. A especulação hermética reforçou a crença numa antiga tradição fundamental, a chamada philosophia perennis, falsamente considerada comum a todas as tradições religiosas. As formas elevadas e rituais da magia desenvolveram-se a partir do hermetismo renascentista.
Holismo: conceito-chave do « novo paradigma », que pretende oferecer uma estrutura teórica que integra toda a cosmovisão do homem moderno. Em contraste com a experiência de uma fragmentação crescente na ciência e na vida cotidiana, acentua-se o « holismo », o « totalismo », como conceito metodológico e ontológico central. A humanidade integra-se no universo como parte de um único organismo vivo, uma trama harmoniosa de relações dinâmicas. Diversos cientistas que tendem uma ponte entre a ciência e a religião rejeitam a distinção clássica entre sujeito e objeto, da qual se costuma culpar Descartes e Newton. A humanidade faz parte da trama universal (o ecossistema, a família), da natureza e do mundo e deve buscar a harmonia com todos os elementos desta autoridade quase transcendente. Quando se compreende qual é o próprio lugar na natureza, também se entende que a « totalidade » e a « santidade » são uma mesma e única coisa. A articulação mais clara deste conceito se encontra na hipótese « Gaia ». 101
Iniciação: em etnologia religiosa é a viagem cognitiva e experimental, mediante a qual uma pessoa é admitida, individualmente ou como membro de um grupo, por meio de rituais particulares, a fazer parte de uma comunidade religiosa, uma sociedade secreta (p.ex. a Maçonaria) ou uma associação mistérica (mágica, esotérico-oculta, gnóstica, teosófica, etc.).
Karma: (da raiz sânscrita Kri = ação, obra) noção-chave no hinduísmo, jainismo e budismo, cujo significado nem sempre foi o mesmo. No antigo período védico referia-se à ação ritual, especialmente o sacrifício, mediante a qual uma pessoa obtinha acesso à felicidade ou à bem-aventurança na outra vida. Quando apareceram o jainismo e o budismo (aproximadamente seis séculos antes de Cristo), Karma perdeu seu sentido salvífico: o caminho para a libertação era o conhecimento do Atman ou « eu ». Na doutrina do samsara, era entendido como o ciclo incessante do nascimento e da morte humanas (hinduísmo) ou do renascer (budismo). 102 Nos ambientes da Nova Era, a « lei do karma » é concebida frequentemente como o equivalente moral da evolução cósmica. O Karma já não tem a ver com o mal ou o sofrimento –ilusões que devem ser experimentadas como parte de um « jogo cósmico »–, mas é a lei universal da causa e efeito, e faz parte da tendência de um universo inter-relacionado para o equilíbrio moral. 103
Mística: a mística da Nova Era consiste em voltar-se para o interior do próprio eu mais do que numa comunhão com Deus, que é o « totalmente outro ». É uma fusão com o universo, a aniquilação definitiva do indivíduo na unidade do todo. A experiência do Eu é tomada como experiência da divindade, razão pela qual se deve olhar para dentro para descobrir a autêntica sabedoria, criatividade e força.
Monismo: doutrina metafísica segundo a qual as diferenças entre as coisas são ilusórias. Só há um ser universal único, do qual cada coisa e cada pessoa são apenas uma parte. Na medida em que o monismo da Nova Era inclui a ideia de que a realidade é fundamentalmente espiritual, é uma forma contemporânea do panteísmo (que rejeita às vezes explicitamente o materialismo, em especial o marxismo). Sua pretensão de resolver todo dualismo não deixa lugar para um Deus transcendente, de maneira que tudo é Deus. Para o cristianismo surge um problema ulterior quando se levanta a questão da origem do mal. C. G. Jung viu o mal como o « lado sombrio » de Deus, que, no teísmo clássico, é todo bondade.
Movimento do Potencial Humano: desde seus começos (Esalen, Califórnia, nos anos 1960), converteu-se numa rede de grupos que promovem a libertação da capacidade humana inata de criatividade mediante a realização do eu. Cada vez mais empresas utilizam diversas técnicas de transformação pessoal em programas de formação de dirigentes, em última análise por puras razões econômicas. Embora as Tecnologias Transpessoais, o Movimento por uma Consciência Espiritual Interior, o Desenvolvimento Organizacional, e a Transformação Organizacional se apresentem como não religiosos, na realidade os empregados das empresas podem encontrar-se submetidos a uma « espiritualidade » estranha numa situação que suscita conflitos com sua liberdade pessoal. Há vínculos evidentes entre a espiritualidade oriental e a psicoterapia, enquanto a psicologia junguiana e o Movimento do Potencial Humano exerceram sua influência sobre o xamanismo e formas « reconstruídas » do paganismo, como o druidismo e a wicca. Em sentido amplo, o « crescimento pessoal » pode ser entendido como a forma que assume a « salvação religiosa » no movimento da Nova Era: afirma-se que a libertação do sofrimento e da fraqueza humanas será alcançada desenvolvendo nosso potencial humano, o que resulta em que nos encontremos cada vez mais em contato com nossa divindade interior. 104
Música New Age: trata-se de uma indústria florescente. Este tipo de música costuma ser promovido como um meio para alcançar a harmonia consigo mesmo e com o mundo. Em parte costuma ser música « celta » ou druídica. Alguns compositores New Age sustentam que sua música tem por objeto estender pontes entre o consciente e o inconsciente, o que é especialmente certo quando, além de melodias, há uma repetição meditativa e rítmica de refrões-chave. Como ocorre com muitos outros fenômenos da Nova Era, algumas dessas músicas se propõem como uma introdução a este movimento, mas a maioria tem simplesmente uma finalidade comercial ou artística.
Neopaganismo: termo rejeitado com frequência por aqueles a quem se aplica. Refere-se a uma corrente que segue um trajeto paralelo ao da Nova Era e com a qual costuma relacionar-se. Na onda de reação contra as religiões tradicionais, especialmente a herança judaico-cristã do ocidente, são muitos os que voltaram o olhar para as antigas religiões indígenas, tradicionais, pagãs. Considera-se que o que precedeu o cristianismo era mais conforme ao espírito da terra e da nação, ou que era uma forma pura da religião natural, em contato com as forças da natureza, frequentemente matriarcal, mágica ou xamânica. Segundo dizem, a humanidade será mais saudável se retornar ao ciclo natural das festas (agrícolas) e à afirmação geral da vida. Algumas religiões « neopagãs » são reconstruções recentes cuja verdadeira relação com as formas originais pode ser discutível, particularmente nos casos em que são dominadas por componentes ideológicos modernos como a ecologia, o feminismo ou, em casos raros, pelos mitos de pureza racial. 105
Ocultismo: o conhecimento oculto (escondido) e as forças da mente e da natureza se acham na base das crenças e práticas vinculadas a uma suposta « filosofia perene » oculta, derivada, por uma parte, da magia e da alquimia grega antiga, e da mística judaica por outra. Conservam-se ocultas mediante um código secreto imposto aos iniciados nos grupos e sociedades que conservam o conhecimento e as técnicas que implicam. No século XIX, o espiritismo e a Sociedade Teosófica introduziram novas formas de ocultismo que, por sua vez, influenciaram várias correntes da Nova Era.
Panteísmo: (em grego pan = tudo e theós = Deus) a crença de que tudo é Deus ou, às vezes, que tudo está em deus e deus está em tudo (panenteísmo). Todo elemento do universo é divino, e a divindade está presente igualmente em tudo. Nesta visão não há lugar para Deus como um ser distinto no sentido do teísmo clássico.
Parapsicologia: trata de coisas como a percepção extrassensorial, a telepatia mental, a telequinesia, a cura psíquica e a comunicação com espíritos mediante médiuns ou o channeling. Apesar das duras críticas dos cientistas, a parapsicologia foi crescendo e se encaixa perfeitamente na mentalidade popular de certos setores da Nova Era, segundo a qual os seres humanos têm habilidades psíquicas extraordinárias, embora com frequência em um estágio pouco desenvolvido.
Pensamento Novo: movimento religioso do século XIX fundado nos Estados Unidos da América. Teve sua origem no idealismo, do qual era uma forma popularizada. Dizia-se que Deus era completamente bom e o mal uma mera ilusão; a realidade básica era a mente. Visto que é a mente que causa os acontecimentos da própria vida, o indivíduo deve assumir a responsabilidade última sobre cada um dos aspectos de sua situação.
Pensamento Positivo: convicção de que as pessoas podem mudar a realidade física ou as circunstâncias externas alterando sua atitude mental, pensando de maneira positiva e construtiva. Às vezes é um modo de perceber conscientemente crenças inconscientes que determinam nossa situação vital. Aos adeptos do Pensamento Positivo prometem-se saúde, integridade e até imortalidade.
Psicologia profunda: a escola de psicologia fundada por C. G. Jung, antigo discípulo de Freud. Jung reconhecia que a religião e os temas espirituais eram importantes para a integridade e a saúde. A interpretação dos sonhos e a análise dos arquétipos foram elementos-chave de seu método. Os arquétipos são formas que pertencem à estrutura herdada da psique humana. Aparecem nos temas ou imagens recorrentes dos sonhos, fantasias, mitos e contos de fadas.
Rebirthing: (v. Renascer)
Reencarnação: no contexto da Nova Era, a reencarnação está vinculada ao conceito da evolução ascendente até converter-se num ser divino. Diferentemente das religiões da Índia, ou derivadas delas, a Nova Era concebe a reencarnação como o progresso da alma individual para um estado mais perfeito. O que se reencarna é essencialmente algo imaterial ou espiritual; mais exatamente, é a consciência, a centelha de energia que na pessoa compartilha a energia cósmica ou « crística ». A morte não é senão a passagem da alma de um corpo a outro.
Renascer: no começo dos anos 1970, Leonard Orr descreveu o renascer (rebirthing) como um processo mediante o qual uma pessoa pode identificar e isolar áreas de sua consciência sem resolver e que são origem de seus problemas atuais.
Rosacruzes: são grupos ocultos ocidentais relacionados com a alquimia, a astrologia, a teosofia e as interpretações cabalísticas da Sagrada Escritura. A Fraternidade Rosacruciana contribuiu para o renascimento da astrologia no século XX, enquanto a Antiga e Mística Ordem da Rosae Crucis (AMORC) vinculou o sucesso a uma suposta capacidade de materializar as imagens mentais de saúde, riqueza e felicidade.
Teosofia: termo antigo, que se referia originalmente a uma espécie de mística. Foi relacionada com os gnósticos e os neoplatônicos gregos, com o Mestre Eckhart, Nicolau de Cusa e Jacob Boehme. A Sociedade Teosófica, fundada por Helena Petrovna Blavatsky e outros em 1875, conferiu grande importância ao termo. A mística teosófica tende ao monismo, acentua a unidade essencial dos componentes espirituais e materiais do universo. Busca também as forças ocultas responsáveis pela interação entre a matéria e o espírito, de modo que a mente humana e a divina acabem por encontrar-se. É aqui que a teosofia oferece a redenção mística ou a iluminação.
Transcendentalismo: movimento de escritores e pensadores do século XIX da Nova Inglaterra, que compartilhavam um conjunto idealista de crenças na unidade essencial da criação, na bondade inata da pessoa humana, e na superioridade da intuição frente à lógica e à experiência para descobrir as verdades mais profundas. A figura principal é Ralph Waldo Emerson, que se afastou do cristianismo ortodoxo, e através dos Unitários passou a um novo misticismo natural que integrava conceitos do hinduísmo com outros de caráter popular americano, tais como o individualismo, a responsabilidade pessoal e a necessidade de triunfar.
Wicca: antigo termo inglês para designar as bruxas, aplicado a um ressurgir neopagão de alguns elementos da magia ritual. Cunhado em 1939 por Gerhard Gardner na Inglaterra: baseava-se em alguns textos eruditos, segundo os quais a bruxaria europeia medieval era uma antiga religião natural perseguida pelos cristãos. Com o nome « the Craft », difundiu-se rapidamente nos Estados Unidos durante os anos 1960, onde se vinculou à « espiritualidade das mulheres».
7.3. Lugares-chave da Nova Era
Esalen: comunidade fundada em Big Sur, Califórnia, em 1962, por Michael Murphy e Richard Price, cujo objetivo fundamental era chegar à autorrealização do ser mediante o nudismo, as visões e a « medicina suave ». Converteu-se em um dos centros mais importantes do Movimento do Potencial Humano, e difundiu suas ideias a respeito da medicina holística no mundo da educação, da política e da economia. Realiza esta tarefa mediante cursos sobre religião comparada, mitologia, misticismo, meditação, psicoterapia, expansão da consciência, etc. Junto com Findhorn, é considerado o ponto-chave do crescimento da consciência de Aquário. O Instituto Soviético-Americano de Esalen cooperou com funcionários soviéticos no Projeto de Promoção da Saúde.
Findhorn: esta comunidade agrícola holística iniciada por Peter e Eileen Caddy conseguiu o crescimento de plantas enormes mediante métodos não convencionais. A fundação da comunidade Findhorn na Escócia em 1965 constituiu um importante marco no movimento que leva a etiqueta de Nova Era. De fato « considerou-se que Findhorn encarnava suas principais ideias de transformação ». A busca de uma consciência universal, o ideal da harmonia com a natureza, a visão de um mundo transformado, e a prática do channeling, tudo isso elementos-chave do Movimento da Nova Era, encontravam-se presentes em Findhorn desde sua fundação. O sucesso desta comunidade levou-a a converter-se em modelo e inspiração de outros grupos, tais como as Alternativas de Londres, Esalen em Big Sur, Califórnia, e o Centro Aberto e o Instituto Omega de Nova York ». 106
Monte Verità: comunidade utópica perto de Ascona, Suíça. Desde o final do século XIX foi ponto de encontro dos expoentes europeus e americanos da contracultura em âmbitos tais como a política, a psicologia e a ecologia. As conferências Eranos vêm sendo celebradas ali todos os anos desde 1933, reunindo grandes luminares da Nova Era. Seus anuários manifestam claramente a intenção de criar uma religião mundial integrada. 107 É fascinante ver a lista dos que se reuniram em Monte Verità ao longo dos anos.
8 RECURSOS
8.1. Documentos do Magistério da Igreja Católica
João Paulo II, Alocução aos Bispos Norte-Americanos do Kansas, Missouri e Nebraska em sua visita “ad limina”, 28 de maio de 1993.
Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre alguns aspectos da meditação cristã (Orationis Formas), Cidade do Vaticano (Libreria Editrice Vaticana) 1989.
Comissão Teológica Internacional, Algumas questões atuais de escatologia, 1992, n. 9-10 (sobre a reencarnação).
Comissão Teológica Internacional, Algumas questões sobre a teologia da Redenção, 1995, I29 e II35-36.
Comitê para a Cultura da Conferência Episcopal Argentina, Frente a uma Nova Era. Desafio à pastoral no horizonte da Nova Evangelização, 1993.
Comissão Teológica Irlandesa, A New Age of the Spirit? A Catholic Response to the New Age Phenomenon, Dublin 1994.
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Norberto Rivera Carrera, Instrução Pastoral sobre a New Age, 7 de janeiro de 1996.
Christoph von Schönborn, Risurrezione e reincarnazione, Casale Monferrato (Piemme) 1990.
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Grupo de Trabalho sobre Novos Movimentos Religiosos, Cidade do Vaticano (ed.), Seitas e Novos Movimentos Religiosos. Antologia de documentos da Igreja Católica, Santafé de Bogotá (CELAM) 1996.
8.2. Estudos cristãos
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Raúl Berzosa Martínez, Nueva Era y Cristianismo. Entre el diálogo y la ruptura, Madri (BAC) 1995.
André Fortin, Les Galeries du Nouvel Age: un chrétien s’y promène, Ottawa (Novalis) 1993.
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9 BIBLIOGRAFIA GERAL
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Fonte: Página do Vaticano
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Notas
(1) Paul Heelas, The New Age Movement. The Celebration of the Self and the Sacralization of Modernity. Oxford (Blackwell) 1966, p. 137.
(2) Cf. P. Heelas, op. cit., p. 164s.
(3) Cf. P. Heelas, op. cit., p. 173.
(4) Cf. João Paulo II, Carta Encíclica Dominum et vivificantem (18 de maio de 1986), 53.
(5) Cf. Gilbert Markus o.p., « Celtic Schmeltic » (1), em Spirituality, vol. 4, novembro-dezembro de 1998, n. 21, pp. 379-383; e (2) em Spirituality, vol. 5, janeiro-fevereiro de 1999, n. 22, pp. 57-61.
(6) João Paulo II, Cruzando o limiar da esperança, Barcelona (Plaza & Janés) 1994, pp. 103-104.
(7) Cf. especialmente Massimo Introvigne, New Age & Next Age, Casale Monferrato (Piemme) 2000.
(8) M. Introvigne, op. cit., p. 267.
(9) Cf. Michel Lacroix, L’Ideologia della New Age, Milano (il Saggiatore) 1998, p. 86. A palavra « seita » é usada aqui não em sentido pejorativo, mas antes para denotar um fenômeno sociológico.
(10) Cf. Wouter J. Hanegraaff, New Age Religion and Western Culture. Esotericism in the Mirror of Secular Thought, Leiden-New York-Köln (Brill) 1996, p. 377 et passim.
(11) Cf. Rodney Stark e William Sims Brainbridge, The Future of Religion. Secularisation, Revival and Cult Formation, Berkeley (University of California Press) 1985.
(12) Cf. M. Lacroix, op. cit., p. 8.
(13) O curso suíço « Theologie für Laien », intitulado Faszination Esoterik, apresenta-o com clareza. Cf. « Kursmappe 1 – New Age und Esoterik », texto acompanhado de diapositivos, p. 9.
(14) O termo já aparece no título de The New Age Magazine, publicado pelo Antigo Rito Maçônico Escocês Aceito na jurisdição meridional dos Estados Unidos da América, remontando a 1900. Cf. M. York, « The New Age Movement in Great Britain », em Syzygy. Journal of Alternative Religion and Culture, 1:2-3 (1992), Stanford CA, p. 156, nota 6. A datação exata e a natureza da mudança para a Nova Era são interpretadas de maneiras distintas segundo os diversos autores. As estimativas para tal data oscilam entre 1967 e 2376.
(15) No fim de 1977, Marilyn Ferguson enviou um questionário a 210 « pessoas comprometidas com a transformação social », às quais também chama « Conspiradores de Aquário ». É interessante o que se segue: « Quando se pedia aos entrevistados que dessem o nome dos indivíduos cujas ideias os haviam influenciado, seja por contato pessoal, seja por meio de seus escritos, os mais citados, por ordem de frequência, foram: Pierre Teilhard de Chardin, C. G. Jung, Abraham Maslow, Carl Rogers, Aldous Huxley, Roberto Assagioli e J. Krishnamurti. Também aparecem mencionados com frequência: Paul Tillich, Hermann Hesse, Alfred North Whitehead, Martin Buber, Ruth Benedict, Margaret Mead, Gregory Bateson, Tarthang Tulku, Alan Watts, Sri Aurobindo, Swami Muktananda, D. T. Suzuki, Thomas Merton, Willis Harman, Kenneth Boulding, Elise Boulding, Erich Fromm, Marshall McLuhan, Buckminster Fuller, Frederic Spiegelberg, Alfred Korzybski, Heinz von Foerster, John Lilly, Werner Erhard, Oscar Ichazo, Maharishi Mahesh Yoghi, Joseph Chilion Pearce, Karl Pribram, Gardner Murphy e Albert Einstein »: The Aquarian Conspiracy. Personal and Social Transformation in Our Time, Los Angeles, (Tarcher) 1980, p. 50 (nota 1) e p. 434. (Trad. esp. La conspiración de Acuario. Transformaciones personales y sociales en este fin de siglo, Barcelona [Kairós] 1985).
(16) W.J. Hanegraaff, op. cit., p. 520.
(17) Comissão Teológica Irlandesa, A New Age of Spirit? A Catholic Response to the New Age Phenomenon, Dublin 1994, capítulo 3.
(18) Cf. La estructura de las revoluciones científicas, México, FCE, 1995.
(19) Cf. Alessandro Olivieri Pennesi, Il Cristo del New Age. Indagine critica, Cidade do Vaticano (Libreria Editrice Vaticana) 1999, passim, mas especialmente pp. 11-34. Ver também a seção 4 mais adiante.
(20) Vale a pena recordar a letra desta canção, que ficou imediatamente gravada na mente de toda uma geração, tanto na América do Norte como na Europa ocidental: « When the Moon is in the Seventh House, and Jupiter aligns with Mars, then Peace will guide the Planets, and Love will steer the Stars. This is the dawning of the Age of Aquarius… Harmony and understanding, sympathy and trust abounding; No more falsehoods or derision –golden living, dreams of visions, mystic crystal revelation, and the mind’s true liberation. Aquarius… ».
(« Quando a Lua estiver na Sétima Casa, e Júpiter se alinhar com Marte, então a Paz guiará os Planetas, e o Amor conduzirá as Estrelas. É o alvorecer da Era de Aquário… Abundarão a harmonia e a compreensão, a simpatia e a confiança; não haverá mais enganos nem zombarias: uma vida dourada, sonhos de visões, uma revelação mística cristalina e a autêntica libertação da mente. Aquário… »).
(21) Paul Heelas, op. cit., p. 1 e s. A publicação de agosto de 1978 da Coalizão Cristã de Berkeley exprime-o deste modo: « Há exatamente dez anos, a espiritualidade “funky” à base de drogas dos hippies e a mística dos iogues ocidentais limitavam-se à contracultura. Hoje, ambas abriram caminho na corrente fundamental da nossa mentalidade cultural. A ciência, as profissões da saúde, as artes, sem falar da psicologia e da religião, estão todas comprometidas numa reconstrução fundamental de suas premissas básicas ». Citado em Marilyn Ferguson, The Aquarian Conspiracy. Personal and Social Transformation in Our Time, Los Angeles (Tarchner) 1980, p. 370 e ss.
(22) Cf. Chris Griscom, Ecstasy is a New Frequency: Teachings of the Light Institute, New York, (Simon & Schuster) 1987, p. 82.
(23) Ver o Glossário de termos, § 7.2 Glossário seletivo.
(24) Cf. W.J. Hanegraaff, op. cit. capítulo 15 (« The Mirror of Secular Thought »). O sistema de correspondências é claramente herdado do esoterismo tradicional, mas tem um significado novo para os que seguem (consciente ou inconscientemente) Swedenborg. Enquanto, para a doutrina esotérica tradicional, cada elemento natural possuía em seu interior a vida divina, para Swedenborg a natureza é um reflexo morto do mundo espiritual vivo. Esta ideia está profundamente inserida no coração da visão pós-moderna de um mundo desencantado e nas diversas tentativas de « reencantá-lo ». Blavatsky rejeitou as correspondências e Jung relativizou fortemente a causalidade em favor da cosmovisão esotérica das correspondências.
(25) W.J. Hanegraaff, op. cit., pp. 54-55.
(26) Cf. Reinhard Hümmel, « Reinkarnation », em Hans Gasper, Joachim Müller, Friederike Valentin (eds.), Lexikon der Sekten, Sondergruppen und Weltanschauungen. Fakten, Hintergründe, Klärungen, Freiburg-Basel-Wien (Herder) 2000, pp. 886-893.
(27) Michael Fuss, « New Age and Europe. A Challenge for Theology », em Mission Studies Vol. VIII-2, 16, 1991, p. 192.
(28) Ibid., loc. cit.
(29) Ibid., p. 193.
(30) Ibid., p. 199.
(31) Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre alguns aspectos da meditação cristã (Orationis Formas), 1989, 14. Cf. Gaudium et Spes, 19; Fides et Ratio, 22.
(32) W.J. Hanegraaff, op. cit., p. 448s. Os objetivos são citados segundo a versão definitiva (1896); as versões anteriores sublinhavam a irracionalidade do « fanatismo » e a urgência de promover uma educação não sectária. Hanegraaff cita a descrição que J. Gordon Melton faz da religião da Nova Era como enraizada na tradição « oculto-metafísica » (ibid., p. 455).
(33) W.J. Hanegraaff, op. cit., p. 513.
(34) Thomas M. King SJ, « Jung and Catholic Spirituality », em America, 3 de abril de 1999, p. 14. O autor assinala que os adeptos da Nova Era « citam passagens que tratam do I Ching, da astrologia e do Zen, enquanto os católicos citam passagens que tratam dos místicos cristãos, da liturgia e do valor psicológico do sacramento da reconciliação » (p. 12). Também inclui uma lista de personalidades e instituições espirituais claramente inspiradas e guiadas pela psicologia de Jung.
(35) Cf. W.J. Hanegraaff, op. cit., p. 501s.
(36) C. J. Jung, Wandlungen und Symbole der Libido, citado em Hanegraaff, op. cit., p. 503.
(37) Sobre este ponto, cf. Michael Schooyans, L’Évangile face au désordre mondial, com prefácio do Cardeal Joseph Ratzinger, Paris (Fayard) 1997.
(38) Citado em The True and the False New Age. Introductory Ecumenical Notes, da Comunidade Maranatha, Manchester (Maranatha) 1933, 8.10; não se especifica a numeração original das páginas.
(39) Michel Lacroix, L’Ideologia della New Age, Milão (il Saggiatore) 1998, pp. 84ss.
(40) Cf. a seção sobre as ideias de David Spangler em Actualité des religions n. 8, setembro de 1999, p. 43.
(41) M. Ferguson, op.cit., p. 407.
(42) Ibid., p. 411.
(43) « Ser americano… é precisamente imaginar um destino mais do que herdá-lo. Sempre fomos habitantes do mito mais do que da história »: Leslie Fiedler, citado em M. Ferguson, op. cit., p. 142.
(44) Cf. P. Heelas, op. cit., p. 173s.
(45) David Spangler, The New Age, Issaquah (Morningtown Press) 1988, p. 14.
(46) P. Heelas, op. cit., p. 168.
(47) Ver o prefácio ao livro de Michel Schooyans, L’Évangile face au désordre mondial, escrito pelo Cardeal Joseph Ratzinger, Paris (Fayard) 1997. A citação está traduzida do italiano, Il nuovo disordine mondiale, Cinisello Balsamo (San Paolo) 2000, p. 6.
(48) Cf. Our Creative Diversity. Report of the World Commission on Culture and Development, Paris (UNESCO) 1995, que ilustra a importância conferida à celebração e promoção da diversidade.
(49) Cf. Christoph Bochinger, « New Age » und moderne Religion: Religionswissenschaftliche Untersuchungen, Gütersloh (Kaiser) 1994, especialmente o capítulo 3.
(50) As limitações destas técnicas que, contudo, não são oração são discutidas mais adiante, § 3.4. Mística cristã e mística Nova Era.
(51) Cf. Carlo Maccari, « La ‘mistica cosmica’ del New Age », em Religioni e Sette nel Mondo 1996/2.
(52) Jean Vernette, « L’avventura spirituale dei figli dell’Acquario », em Religioni e Sette nel Mondo 1996/2, p. 42s.
(53) J. Vernette, loc. cit.
(54) Cf. J. Gordon Melton, New Age Encyclopedia, Detroit (Gale Research) 1990, pp. xiii-xiv.
(55) David Spangler, The Rebirth of the Sacred, Londres (Gateway Books) 1984, p. 78s.
(56) David Spangler, The New Age, Issaquah (Morningtown Press) 1988, p. 13s.
(57) João Paulo II, Carta apostólica Tertio Millennio Adveniente (10 de novembro de 1994), 9.
(58) Matthew Fox, The Coming of the Cosmic Christ. The Healing of Mother Earth and the Birth of a Global Renaissance, San Francisco (Harper & Row) 1988, p. 135.
(59) Cf. o documento publicado pelo Comitê para a Cultura da Conferência Episcopal Argentina Frente a una Nueva Era. Desafío a la pastoral en el horizonte de la Nueva Evangelización, 1993.
(60) Congregação para a Doutrina da Fé, Orationis Formas, 23.
(61) Ibid., 3. Ver as seções sobre a meditação e a oração contemplativa no Catecismo da Igreja Católica, 2705-2719.
(62) Cf. Orationis Formas, 13.
(63) Cf. Brendan Pelphrey, « I said, You are Gods. Orthodox Christian Theosis and Deification in the New Religious Movements » em Spirituality East and West, Páscoa de 2000 (N. 13).
(64) Adrian Smith, God and the Aquarian Age. The new era of the Kingdom, Great Wakering (Mc Crimmons) 1990, p. 49.
(65) Cf. Benjamin Creme, The Reappearance of Christ and the Masters of Wisdom, Londres (Tara Press) 1979, p. 116.
(66) Cf. Jean Vernette, Le New Age, Paris, (P.U.F.) 1992 (Collection Encyclopédique Que sais-je?), p. 14.
(67) Catecismo da Igreja Católica, 52.
(68) Cf. Alessandro Olivieri Pennesi, Il Cristo del New Age. Indagine Critica, Cidade do Vaticano (Libreria Editrice Vaticana) 1999, especialmente as páginas 13-34. A lista de pontos comuns está na p. 33.
(69) Credo de Niceia-Constantinopla.
(70) Michel Lacroix, L’Ideologia della New Age, Milão (Il Saggiatore) 1998, p. 74.
(71) Ibid., p. 68.
(72) Edwin Schur, The Awareness Trap. Self-Absorption instead of Social Change, Nova York (McGraw Hill) 1977, p. 68.
(73) Cf. Catecismo da Igreja Católica, 355-383.
(74) Cf. Paul Heelas, The New Age Movement. The Celebration of the Self and the Sacralization of Modernity, Oxford (Blackwell) 1996, p. 161.
(75) A Catholic Response to the New Age Phenomenon, Comissão Teológica Irlandesa 1994, capítulo 3.
(76) Congregação para a Doutrina da Fé, Orationis Formas, 3.
(77) Ibid., 7.
(78) William Bloom, The New Age. An Anthology of Essential Writings, Londres (Rider) 1991, p. xvi.
(79) Catecismo da Igreja Católica, 387.
(80) Ibid., 1849.
(81) Ibid., 1850.
(82) João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris sobre o sofrimento humano (11 de fevereiro de 1984), 19.
(83) Cf. David Spangler, The New Age, op. cit., p. 28.
(84) Cf. João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990), 6, 28, e a Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé Dominus Jesus (6 de agosto de 2000), 12.
(85) Cf. R. Rhodes, The Counterfeit Christ of the New Age Movement, Grand Rapids (Baker) 1990, p. 129.
(86) Helen Bergin o.p., « Living One’s Truth », em The Furrow, janeiro de 2000, p. 12.
(87) Ibid., p. 15.
(88) Cf. Paul Heelas, op. cit., p. 138.
(89) Elliot Miller, A Crash Course in the New Age. Eastbourne (Monarch) 1989, p. 122. Para uma documentação sobre a postura veementemente anticristã do espiritismo, cf. R. Laurence Moore, « Spiritualism », em Edwin S. Gaustad (ed.), The Rise of Adventism: Religion and Society in Mid-Nineteenth-Century America, Nova York 1974, pp. 79-103, e também R. Laurence Moore, In Search of White Crows: Spiritualism, Parapsychology, and American Culture, Nova York (Oxford University Press) 1977.
(90) Cf. João Paulo II, Carta encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), 36-48.
(91) Cf. João Paulo II, Alocução aos Bispos Norte-Americanos de Iowa, Kansas, Missouri e Nebraska em sua visita « ad limina », 28 de maio de 1993.
(92) Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Ecclesia in Africa, 103. O Pontifício Conselho para a Cultura publicou um guia que contém uma lista desses centros em todo o mundo: Centros Culturais Católicos (3ª edição, Cidade do Vaticano, 2001).
(93) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Orationis Formas, e § 3 supra.
(94) Este é um campo em que a falta de informação pode desorientar os responsáveis pela educação por causa dos grupos cujo verdadeiro programa é contrário à mensagem do Evangelho. É o caso particularmente dos colégios e escolas, onde os jovens, cheios de curiosidade e obrigados a escutar, constituem presa fácil e alvo ideal para o comércio ideológico. Cf. a chamada de atenção em Massimo Introvigne, New Age & Next Age, Casale Monferrato (Piemme) 2000, p. 277s.
(95) Cf. J. Badewien, Antroposofia, em H. Waldenfels (ed.) Nuovo Dizionario delle Religioni, Cinisello Balsamo (San Paolo) 1993, p. 41.
(96) Cf. Raúl Berzosa Martínez, Nueva Era y Cristianismo, Madri (BAC) 1995, p. 214.
(97) Helen Palmer, The Enneagram, Nova York (Harper-Row) 1989.
(98) Cf. o documento do Comitê para a Cultura da Conferência Episcopal Argentina, op. cit.
(99) 2 J. Gernet, em J.-P. Vernant et al., Divination et Rationalité, Paris (Seuil) 1974, p. 55.
(100) Cf. Susan Greenwood, « Gender and Power in Magical Practices », em Steven Sutcliffe e Marion Bowman (eds.), Beyond New Age. Exploring Alternative Spirituality, Edimburgo (Edinburgh University Press) 2000, p. 139.
(101) Cf. M. Fuss, op. cit., pp. 198-199.
(102) Cf. C. Maccari, La “New Age” di fronte alla fede cristiana, Leumann-Torino (LDC) 1994, p.168.
(103) Cf. W.J. Hanegraaff, op. cit., pp. 283-290.
(104) Para um estudo breve, mas esclarecedor, do Movimento do Potencial Humano, ver Elizabeth Puttik, « Personal Development: the Spiritualisation and Secularisation of the Human Potential Movement », em Steven Sutcliffe e Marion Bowman (eds.), Beyond New Age. Exploring Alternative Spirituality, Edimburgo (Edinburgh University Press) 2000, pp. 201-219.
(105) Sobre este último ponto, sumamente delicado, ver o artigo « Neonazismus » de Eckhard Türk em Hans Gasper, Joachim Müller, Friederike Valentin (eds.), Lexikon der Sekten, Sondergruppen und Weltanschauungen. Fakten, Hintergründe, Klärungen, Freiburg-Basel-Wien (Herder) 2000, p. 726.
(106) Cf. John Saliba, Christian Responses to the New Age Movement. A Critical Assessment, Londres (Geoffrey Chapman) 1999, p. 1.
(107) Cf. M. Fuss, op. cit., pp. 195-196.