O crescimento contínuo do movimento New Age é uma entre tantas manifestações do retorno religioso em forma de neopaganismo e de gnose. O New Age propõe uma forma nova de religiosidade que, por algumas manifestações próprias, que analisaremos, coincide com o sentimento religioso contemporâneo.
Mas o que é exatamente o New Age? Uma nova moda religiosa? Uma evasão do mundo real ou a projeção de um mundo cheio de ilusão? É aquilo que alguns chamam de retorno ao IV Reich? Ou antes é uma nova mentalidade religiosa que surge no mundo científico, frio e sem sentido transcendental do Ocidente?
Neste escrito, quero apresentar as linhas filosófico-teológicas gerais do que é na realidade o New Age e mediante que sinais ou características se manifesta ao homem de hoje.
Nós, crentes católicos, devemos conhecer realmente estas novas sensibilidades religiosas que falam de sincretismo, negam a revelação cristã e defendem o culto do eu e de numerosas falsificações da verdadeira fé cristã.
I. Definição e origem
A. O que é o New Age?
O New Age é um conjunto de práticas aparentemente heteróclitas, mas unificadas por uma visão de humanização total (holística): técnicas de “ampliação da consciência” e medicina da alma, astrologia ou channelling (comunicação com a entidade do mundo invisível), controle do corpo por meio de artes marciais e mediante o isolamento sensorial ou as terapias inócuas; controle da natureza com a arte floral, a ecologia ou o vegetarianismo. O New Age é um novo modo de ver a realidade das coisas. Segundo o definem os próprios fundadores do New Age, este movimento é “um novo paradigma”.
Por outro lado, Donald Leonard afirma que é um “lago esotérico e misterioso onde fluem as correntes dos anos 60: ecologistas, movimentos radicais, ambientalistas e pacifistas”. O movimento da Nova Era busca a libertação da natureza humana e cósmica de suas múltiplas moléstias e sofrimentos, não através de paradigmas políticos ou ideológicos—se bem que o New Age de fato esteja unido ao partido verde—mas por meio da meditação e do conhecimento. Faz com que a humanidade penetre no nível de conhecimento espiritual-planetário, para entrar em uma “nova era” caracterizada pela paz e pela felicidade.
A conhecida newager Marilyn Ferguson afirma que o New Age é uma “rede sem líderes, que trabalha para realizar mudanças radicais nos Estados Unidos”. Mas, segundo Franc Rodé, trata-se de um “supermercado de religiões onde cada um toma o que gosta e deixa o resto”. E segundo os levantamentos sociológicos, trata-se de uma religiosidade destinada a converter-se em fenômeno de massas por sua ambiguidade, sua força e sua capacidade de servir ao romantismo e ao sentimentalismo religioso da sociedade atual.
B. Origem e seus inspiradores
À pergunta de como nasce o New Age, podemos responder que possui duas fontes principais de nascimento: a corrente do Aquário com Paul Le Cour e a Sociedade Teosófica com Alice Bailey, que veremos mais adiante.
M. F. Jacques define com o nome de “precursores da era do Aquário” as correntes esotero-ocultistas, nascidas na segunda metade do século XIX. Este pensamento esotérico trata sobre a transformação da civilização: cada vez que o sol entra em um novo signo zodiacal, isto é, cerca de cada 2.160 anos. A última transformação ocorrida foi a do cristianismo na era de Peixes. Por isso, a próxima grande mudança que acompanhará o advento da era do Aquário corresponderá a uma hecatombe, à qual se seguirá a vinda de um “grande Rei”, o retorno do Cristo-Aquário, que marcará o início de uma nova idade de ouro. A nova religião, então, será um esoterismo cristão e gnóstico, baseado no Evangelho de São João, o verdadeiro evangelho do Aquário.
Também, Alice Bailey (1880-1949), discípula da Sociedade Teosófica, esperava a transição para uma nova era, onde se reconciliariam todas as religiões na identidade de suas origens, baseadas no que ela denominava a verdade eterna. Bailey desenvolveu as ideias gnósticas de Helena Blavatsky (1831-1891), como a nova encarnação do Cristo cósmico. “A doutrina teosófica da Sra. Blavatsky assenta em um esquema de tipo gnóstico-neoplatônico: unidade essencial de tudo, lei cósmica (karma), manifestações do espírito na matéria (avatara) e o regresso do homem ao espírito.” Criar-se-á uma religião mundial onde Deus será similar ao Brahman hindu, anunciado por todos os avatares, como Cristo, era após era. O espírito da Nova Era está na lei da reencarnação e continuará a revelação pelo novo Salvador ou avatar.
II. Características
A característica principal do New Age é sua preferência pela reflexão oriental de estilo panteísta, como caminho para viver uma nova religiosidade. Propugna um sistema religioso onde Deus se dissolve no Divino e vem a ser uma “energia cósmica”. Deus identifica-se com o último da realidade das coisas, especialmente com a psique humana. O movimento da Nova Era busca o transcendente, e não o sensível, para libertar-se em sua totalidade do terreno, e une-se à consciência cósmica ou consciência coletiva. Exclui a noção de criação e refuta toda visão dualista da realidade.
Trata-se também de uma visão “científica” da realidade baseando-se no holismo e na evolução. O holismo da física moderna, que identifica a matéria com as ondas da energia, faz do universo, segundo Fritjof Capra, um “oceano de energia” onde tudo nasce, participa da mesma realidade e se encontra em evolução constante.
Como técnicas, o New Age adota a música, a dança, a arte em geral, as artes marciais, o yoga, o budismo zen, o misticismo, a busca da sabedoria nas civilizações antigas, a magia, a droga, o contato com a natureza (a deusa Gaia) e outros métodos e técnicas. Utiliza a psicologia de Jung (consciência coletiva) e a psicologia humanística de Maslow, que se baseia na experiência da unidade com o cosmos.
O New Age busca uma transformação cultural da sociedade, que inclui a substituição de todas as religiões em nome de uma Nova Era (tal como é a tradução própria na língua inglesa: new age). Este movimento também nega as verdades mais fundamentais da fé cristã, se bem que tenha como texto básico de estudo a Bíblia, especialmente o Evangelho segundo São João.
III. A fé do New Age
O New Age expressa uma concepção inovadora do mundo (do cosmos, em sua concepção mais extensa) com os seguintes adjetivos:
· holística (a realidade das coisas se encontra no Todo),
· ecológica (a deusa Gaia é a mãe Terra, que deve ser adorada),
· andrógina (o mundo é uma união do masculino e do feminino),
· mística (o divino pertence a um Todo),
· mundial (consciência coletiva).
No movimento da Nova Era, transita-se da fé singela ao gnóstico ou crenças ocultas, da religião à espiritualidade, da oração-súplica à oração-mantra, da obediência à experiência… A fé está fundamentada em uma espiritualidade esotérico-mística, onde se busca a unidade com uma visão totalizante da realidade das coisas. Também se promove um complexo de técnicas para explorar as fontes do Ser e do Um, onde se reforça o narcisismo do ego.
Na fé do New Age há um sentido de profundo vazio existencial e de um desejo divino não colmado, onde se buscam as razões para viver. O espiritual identifica-se com o emocional, aparece o culto de si mesmo, e existe um misticismo pagão, no qual se adora uma divindade sem nome.
Segundo o New Age, o mundo caminha “para uma maior unidade” (nas palavras de Teilhard de Chardin). A cosmogênese, ou a organização da matéria em aglomerações sempre diversificadas, com o passar do tempo produz a biogênese, ou a vida na terra. A vida cria a biosfera, que se desenvolve em formas mais complexas até chegar à criação do cérebro. Aqui nos encontramos com a antropogênese, a ascensão rumo ao homem. O homem é o resultado final acima de todos os seres do universo. Por isso, o homem é pessoa enquanto é consciência que pensa a si mesma. Depois origina-se um desenvolvimento de nível cósmico: a consciência não é somente vida, mas reflexão. Então, a unidade alcança o domínio absoluto sobre a própria evolução e pode decidir sobre si mesma. Posteriormente, o homem evolui rumo à noogênese, ou a gênese do espírito, criando uma nova era de luz e de amor.
O objetivo planetário do New Age é a criação de um verdadeiro e próprio sistema nervoso da nova humanidade: a comunidade científica mundial (educação mundial). Esta é a transformação da era do Aquário que nos levará à Ômega, que é a realidade total e totalizante, o primeiro motor da atividade humana que possui dimensões universais. Também é incorruptível, transcendente, unificadora; é o Amor divino.
Gnose e razão encontram-se relacionadas entre si, e isto se deve a uma dúvida fundamental a respeito da capacidade da razão e da consciência moderna de responder aos mais profundos interrogantes do homem. O objetivo dos neognósticos do New Age é reconduzir o rasgão que o saber puramente racionalista (positivismo e materialismo ateu) produziu em um mundo ainda desiludido e sem esperança.
O semanário NEWSWEEK publicava não faz muito tempo uma análise sobre as inclinações espirituais e religiosas nos Estados Unidos, indicando que a lei da oferta e da procura e os truques comerciais já estão sendo aplicados às diferentes comunidades religiosas cristãs.
Desse modo, a lei do mercado faz com que a eficácia de um pastor protestante ou de um sacerdote católico não se meça por seu exemplo fiel às Sagradas Escrituras ou à pregação própria, mas pela quantidade de gente que acode à igreja e pela quantidade de dólares arrecadados nas cerimônias religiosas. Assim, para que a religião convença, deverá observar as “prescrições de qualidade” próprias de um mercado competitivo, porque aparentemente é disto que se trata: ganhar clientela. A NEWSWEEK anota três:
1. Apresenta-se como um cardápio de restaurante. As diversas confissões e igrejas oferecem doutrinas entre as quais cada pessoa escolhe, segundo seus gostos. Não se trata de pertencer a uma fé determinada, mas de ir fazendo-a sob medida, escolhendo um pouco desta religião e um pouco da outra.
2. Religiosidade entendida como feeling, sentimento. Não existe nenhum interesse pela formação religiosa nem pelo aprofundamento na fé ou nos fundamentos próprios da religião. As crenças que se admitem são epidérmicas e não exigem uma adesão comprometedora a nenhuma religião em concreto.
3. Religião fácil. É uma religiosidade baseada em uma intensa vida social, com vistas a satisfazer o sentimento religioso próprio de todos os homens.
Por outro lado, o Credo do New Age é ambíguo e busca a satisfação de todos os gostos e medidas espirituais à escolha. Evidentemente, possui “dogmas” ou diretrizes doutrinais, embora não se sustentem como tais, e são estes que fundamentam o seu Credo:
1. Rejeição radical da filosofia e da religião da “Old Age”, Era Antiga. Isto significa uma oposição frontal à civilização judaico-cristã. Promove as religiões pagãs (ritos celtas, mitologia germânica…).
2. Enfrenta o dualismo criado pelo Ocidente denominado “Deus e homem”, considerando que a humanidade é uma, que a natureza e a humanidade são uma só realidade, que o Universo e Deus são um.
3. Propõe o livre exame da percepção da realidade, onde cada um interpreta como quer as religiões e a realidade existencial que as rodeia, frente ao dogmatismo religioso das religiões tradicionais.
4. Prega a Era do Aquário, que teoricamente nos trará uma era de harmonia e paz cósmica ao longo do Terceiro Milênio. Nascerá assim uma nova religião, sob a chegada de um Cristo Aquário libertador.
Frente a este Credo, encontramo-nos com outra realidade, e é o fato palpável da expansão vertiginosa do New Age por todo o globo terrestre: múltiplos seminários, um sem-fim de cursos, revistas e livrarias. Concretamente, criaram-se uns 50.000 centros e livrarias New Age que, com imagens e rótulos diversos, se reproduzem por toda parte, comercializando todo tipo de objetos, plantas, curiosidades diversas. Existem atualmente mais de 100.000 livros publicados sobre qualquer tema que desenvolva o pensamento newager, como se se tratasse de um apostolado escrito. Além de possuir numerosos supermercados e farmácias especializados em alimentos newagers (alimentos ecológicos, vegetarianos, de relaxamento…) e medicina alternativa.
Conclusão
Realizei uma explicação breve da Era de Aquário, do New Age. Devido ao fator tempo, não foi uma explicação completa nem exaustiva. Isto poderia fazer-se em um Seminário sobre esta temática. Há de fato abundante bibliografia. Precisamente em uma coleção dirigida por Mons. González será publicado um trabalho meu sobre o New Age e sua relação atual com o cristianismo.
Ao longo desta conferência caminhamos pela senda da Nova Era. Conhecemos as ideias básicas da espiritualidade do New Age, quais são suas características fundamentais e como se manifesta ao homem e à mulher do século XXI. Mas surge-me uma pergunta que me inquieta: como podemos viver a nossa religião católica ante o influxo irremediável deste novo movimento sincrético, esotérico e ocultista?
Por um lado, convém reconhecer que a Era do Aquário nos propõe uma visão ambígua do mundo no espiritual e no religioso. Intrinsecamente, é uma resposta às perguntas e à sede de transcendência do homem atual. Mas a água que o New Age apresenta é uma água não potável, contaminada do pagão, do gnóstico e do sincrético.
Por outro lado, João Paulo II insiste em uma nova evangelização que supere o New Age, e também todos os novos movimentos religiosos denominados “seitas”.
Urge defender a fé frente a estas novas concepções descristianizadoras. Considero que tal defesa consiste em efetuar um reforço da identidade cristã, ligar de novo a relação autêntica entre fé e obras (práxis), fé e vida cristã, e uma consciência vital daquilo a que oramos e no que cristãmente cremos. Potenciar as nossas crenças cristãs basicamente a partir da reflexão do Credo da nossa fé católica, completada através de uma catequese profunda e a partir da vivência da fé pessoal, que consiga introduzir todo crente na autêntica senda do itinerarium Dei. A catequese está destinada a levar a cabo esta função evangelizadora, frente ao mundo atual, necessitado de dar resposta a questões inquietantes da existência humana.
Neste sentido, Francesc Torralba afirma: “Há um redescobrimento da dimensão invisível do ser humano, da interioritas agostiniana. (…) Depois do eclipse de Deus que caracterizou o século XX, o homem contemporâneo parece abrir-se, desde múltiplas perspectivas, ao Reino do Espírito, à esfera do sagrado, mas faltam-lhe pedagogos, mestres espirituais.”
E podemos acrescentar: Tais pedagogos ou mestres espirituais encontramo-los em Edith Stein, John Henry Newman, Teresa de Lisieux, von Balthasar, Henri de Lubac, Teresa de Calcutá… e tantos outros. Estes pensadores e testemunhos cristãos do século XX oferecem-nos sua peculiar espiritualidade, amadurecida após a experiência pessoal com o Deus-Amor, e após os duros golpes da vida. Apresentam-nos uma catequese desde a vivência coerente da fé, levada inclusive até o extremo de dar a vida heroicamente, como Edith Stein ao morrer na câmara de gás de Auschwitz em 1942. Urge uma nova proclamação entusiasta e com convicção clara do Evangelho, sem medos, escutando constantemente em nosso interior a mensagem esperançosa do Papa Wojtyła: “Abrir as portas dos vossos corações a Cristo”.
Fonte: Conoze.com