A Reforma que Deformou

Percorremos um longo caminho. Desde as páginas severas e luminosas da Didaquê —esse catecismo da Igreja nascente— até a robusta eclesiologia de Cipriano de Cartago, ouvimos falar a Igreja dos primeiros séculos. Não um teólogo isolado nem uma corrente particular: ouvimos o coro unânime de homens que conheceram os Apóstolos, ou que conheceram os que os conheceram, ou que beberam diretamente das fontes que eles abriram. Homens que morreram pelo que acreditavam, ou que viveram toda a sua vida dispostos a morrer por isso.

O veredicto desse coro é inequívoco. A Igreja que eles viveram, defenderam e pela qual derramaram seu sangue é a Igreja Católica: hierárquica, episcopal, sacramental, fundada sobre a Cátedra de Pedro, depositária de uma Tradição Apostólica que é norma da fé juntamente com as Escrituras, possuidora de um Magistério vivo com autoridade para interpretar e defender a verdade revelada. Diante desse panorama, podemos compreender com maior clareza o que o protestantismo significou e significa na história do cristianismo.

Uma tentativa genuína que terminou em deformação

Seria injusto negar que na origem do movimento reformador do século XVI houve impulsos genuínos e, em muitos casos, preocupações legítimas. A Igreja desse período atravessava uma crise moral de proporções graves: a simonia, o nepotismo na cúria romana, o afrouxamento da vida religiosa, a ignorância do clero rural e o abuso das indulgências como instrumento financeiro eram males reais que os reformadores apontaram com razão. Nesse sentido, a indignação que deu origem à Reforma não era de todo infundada.

Mas existe uma diferença fundamental entre reformar e deformar; entre purificar o corpo da Igreja de suas enfermidades humanas e amputar-lhe os membros que Cristo lhe deu para subsistir. Os reformadores, ao rejeitar a autoridade do Magistério e a validade normativa da Tradição Apostólica, não podaram a Igreja: arrancaram-lhe duas de suas três raízes. E uma árvore sem raízes não floresce: fragmenta-se.

O resultado está à vista da história. O que começou como um protesto moral contra os abusos de Roma converteu-se, em poucas décadas, em uma explosão de doutrinas contraditórias, cismas internos e denominações multiplicadas ao infinito. O próprio Lutero, antes de morrer, contemplou com horror a dispersão que seu princípio do livre exame havia desencadeado. Calvino e Zuinglio não conseguiam chegar a um acordo entre si. Os anabatistas rejeitavam a todos os demais. E assim, de ruptura em ruptura, o protestantismo chegou ao século XXI com mais de quarenta mil denominações distintas, muitas delas em aberta contradição doutrinal umas com as outras.

Isso não é reforma. Isso é deformação.

O tripé e o sistema imune da fé

Para entender por que o protestantismo terminou onde terminou, convém deter-se na arquitetura interna da fé cristã.

A Igreja Católica conservou durante dois mil anos sua unidade doutrinal graças a um sistema de três pilares que se sustentam mutuamente: as Sagradas Escrituras, a Tradição Apostólica e o Magistério vivo. Esses três pilares não são redundantes nem competitivos entre si: são complementares e inseparáveis. As Escrituras são a Palavra de Deus expressa em forma escrita; a Tradição é essa mesma Palavra transmitida e vivida na comunidade eclesial desde os tempos apostólicos; o Magistério é a autoridade que Cristo conferiu à sua Igreja para interpretar autenticamente uma e outra. Separar qualquer um dos três não simplifica o sistema: o destrói.

Esta estrutura pode ser entendida também, com toda precisão, como o sistema imune do Corpo de Cristo.

Todo organismo vivo necessita um sistema de defesa capaz de identificar os agentes patogênicos que tentam penetrar nele e destruí-los antes de comprometerem sua integridade. A Igreja não é diferente. Ao longo de seus dois milênios de história deparou-se com inúmeros vírus doutrinais —as heresias— que tentaram corromper o depósito da fé. O arianismo, o gnosticismo, o donatismo, o pelagianismo, o nestorianismo, o modalismo: cada um desses erros foi, em seu momento, uma ameaça grave para a fé cristã. E cada um foi identificado, combatido e vencido. Como? Graças ao funcionamento coordenado dos três pilares: as Escrituras para mostrar a incoerência do erro com a Palavra revelada; a Tradição para demonstrar que a novidade herética não tinha raízes na fé apostólica; o Magistério para definir com autoridade a verdade e excluir o erro.

Este sistema imune é precisamente o que o protestantismo desmantelou. Ao proclamar a Sola Scriptura, os reformadores amputaram dois dos três pilares: rejeitaram a Tradição Apostólica como norma vinculante e negaram ao Magistério a capacidade de interpretar a Escritura com autoridade definitiva. O que restou foi um único pilar, privado de seus complementos necessários e exposto a toda interpretação possível.

As consequências foram inevitáveis. Sem Tradição não há memória imunológica: a Igreja cura porque recorda como combateu erros semelhantes no passado. Sem Magistério não há diagnóstico autorizado: cada pastor, cada pregador, cada fiel individual converte-se em seu próprio médico, com a mesma Bíblia na mão, mas sem os anticorpos que somente a Tradição e o Magistério podem fornecer.

As heresias que retornaram

Um dos aspectos mais reveladores da história do protestantismo é a maneira pela qual, privado de suas defesas doutrinais, foi reproduzindo, sob novos nomes e novas formas, os mesmos erros que os Padres dos primeiros séculos combateram com tanta clareza e energia.

O arianismo —a heresia que negava a plena divindade de Cristo e que o Concílio de Niceia (325) condenou com a fórmula homoousios, “da mesma substância que o Pai”— foi o grande inimigo teológico do século IV. Santo Atanásio consagrou sua vida a combatê-lo. Pois bem: o arianismo caminha hoje com plena liberdade em milhões de comunidades protestantes. As Testemunhas de Jeová são, em sua cristologia, arianas puras. E numerosas correntes do protestantismo liberal moderno, que reduzem Cristo a um mestre moral particularmente iluminado, reproduzem em substância o mesmo erro que Ário formulou no século III.

O modalismo ou sabelianismo —que ensina que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são três Pessoas distintas, mas três “modos” ou “manifestações” de um único Deus— é hoje a cristologia oficial do movimento pentecostal Oneness (“Somente Jesus”), com dezenas de milhões de seguidores em todo o mundo. Esta heresia foi condenada já no século III. Mas sem Tradição que conserve essa condenação e sem Magistério que a torne vinculante, nada impede que ressurja com novo vigor.

O pelagianismo —que negava a necessidade da graça para a salvação e afirmava que o ser humano pode, por suas próprias forças, alcançar a vida eterna— foi combatido por Santo Agostinho com uma intensidade extraordinária e condenado no Concílio de Cartago (418). O paradoxo do protestantismo é que, tendo começado com Lutero e Calvino com uma insistência quase obsessiva na graça e na predestinação, acabou produzindo em seu seio correntes massivas de pelagianismo prático: o chamado evangelho da prosperidade, com sua teologia de que o sucesso espiritual e material depende do esforço e da “fé positiva” do crente, não é mais que pelagianismo com instrumentos elétricos.

O gnosticismo antigo privilegiava a iluminação pessoal e o conhecimento privado acima da doutrina comunitária e apostólica. Seu herdeiro moderno é toda a espiritualidade protestante que antepõe a “experiência pessoal” com Deus à doutrina recebida, que valida qualquer “revelação direta do Espírito” como critério de verdade, e que converte a subjetividade religiosa individual em árbitro supremo da fé.

O padrão é sempre o mesmo: os erros que a Igreja venceu nos séculos II, III e IV ressurgem no seio do protestantismo porque o protestantismo, ao ter destruído seu sistema imune doutrinal, carece dos anticorpos necessários para combatê-los.

A Sola Scriptura e a torre de Babel doutrinal

O princípio da Sola Scriptura foi, para os reformadores, a alavanca que devia libertar o cristianismo do peso das tradições humanas. Sua apelação à Escritura como único critério de fé tinha o aspecto de um retorno à pureza apostólica.

Mas os Padres que lemos ao longo deste livro tinham uma visão radicalmente diferente. Para Ireneu, para Tertuliano, para Cipriano, a Escritura e a Tradição não são duas fontes em competição: são uma única revelação transmitida de duas maneiras complementares. E a interpretação dessa revelação não pode ser abandonada ao livre exame individual, porque o resultado inevitável é a multiplicação de interpretações contraditórias. Que é exatamente o que os Padres viam nos gnósticos de seu tempo. E exatamente o que vemos no protestantismo hoje.

A Sola Scriptura não produziu unidade em torno da Palavra de Deus: produziu dispersão. Converteu a Bíblia em uma pedreira da qual cada um extrai os blocos de que precisa para construir sua própria teologia. E onde cada um é seu próprio intérprete supremo, não há modo de resolver nenhuma disputa doutrinal com autoridade: somente mediante maiorias, persuasão, ou novas rupturas. A história do protestantismo é a história dessas rupturas multiplicadas sem fim.

A soberba e o adversário

Há, finalmente, uma dimensão desta história que nenhuma análise puramente histórica ou teológica pode ignorar.

Por trás de toda heresia, por trás de todo cisma, por trás de toda ruptura com a unidade visível da Igreja, os Padres que percorremos reconheciam invariavelmente a mão do mesmo adversário. Inácio de Antioquia advertia contra os que se afastavam da Eucaristia e da oração para seguir ensinamentos estranhos. Ireneu via nos gnósticos os instrumentos do pai da mentira. Cipriano identificava no cisma a obra direta do diabo. Não era retórica: era teologia. A unidade da Igreja não é um valor meramente organizativo; é o reflexo da unidade trinitária de Deus. Quem divide a Igreja atenta contra esse reflexo.

E a ferramenta que o inimigo empregou com maior eficácia ao longo dos séculos —com Ário no século IV, com Lutero no século XVI, com os milhares de “pastores ungidos” do século XXI que fundam congregações novas a cada semana baseados em sua própria visão privada— é sempre a mesma: a soberba. Não a soberba grosseira de quem despreza abertamente a Deus, mas a soberba sutil e muito mais perigosa de quem ama genuinamente a Deus, mas se recusa a submeter-se à autoridade que Ele instituiu para custodiar sua verdade. A soberba de quem antepõe seu próprio discernimento à Tradição viva recebida dos Apóstolos. A soberba de quem, Bíblia na mão, conclui que entende o que Cristo quis dizer melhor do que dezesseis séculos de Concílios, de Padres e de santos.

Não há dúvida de que entre os reformadores protestantes houve homens de fé sincera, de vida austera e de zelo genuíno pela glória de Deus. Isso não está em discussão, e Deus somente pode julgar suas almas. Mas a sinceridade não é garantia da verdade. E a história demonstrou que as melhores intenções, quando não estão ancoradas na obediência à autoridade apostólica, podem ser instrumentalizadas para os fins do adversário. A divisão do Corpo de Cristo não foi o fruto desejado da Reforma: foi sua consequência inevitável. E por trás dessa inevitabilidade —assim nos ensina toda a história patrística que percorremos— está sempre o mesmo autor da confusão e da dispersão.

A voz que permanece

Este livro teve um objetivo modesto, mas preciso: escutar a voz dos primeiros séculos. Não para usá-la como arma arremessada contra ninguém, mas para que essa voz fale por si mesma, com a autoridade que somente dá o fato de ter sido contemporânea dos Apóstolos ou de seus discípulos imediatos.

Essa voz disse, com uma clareza que o passar do tempo não pôde obscurecer, que a Igreja de Cristo é uma, santa, católica e apostólica; que se governa por bispos em comunhão com o sucessor de Pedro; que transmite a fé através da Escritura e da Tradição; que celebra a Eucaristia como verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor; que fora dela não existe a plenitude dos meios de salvação para quem a conhece e a rejeita.

Aos irmãos separados que nasceram nas comunidades surgidas dessas rupturas, que buscam a Cristo com sinceridade de coração e que não são responsáveis pelas divisões que herdaram, a Igreja os olha com amor e com esperança. Os Padres que lemos ao longo dessas páginas não os condenam: os chamam. Os chamam de volta à casa que Cristo construiu sobre a rocha, que as tempestades da história golpearam sem cessar, e que permanece de pé.

Essa casa continua sendo a mesma.