Miguel: José, gostaria que você nos explicasse por que vós confessais os vossos pecados a um homem quando na Bíblia não aparece absolutamente nada parecido.

Marlene: Aliás, a Bíblia é muito clara em que é Deus quem perdoa o pecado, não o homem: “Eu, eu mesmo devo apagar as tuas rebeldias por amor de mim, e não me recordarei dos teus pecados” (Isaías 43,25); “Bendize, ó minha alma, o Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas maldades, o que sara todas as tuas enfermidades” (Salmo 103,2-3).

José: Um momento; antes de começar, deixemos algo claro. Nós, os católicos, acreditamos que é Deus quem perdoa os pecados, mas ali não termina a história. Parece-me bem que você tenha começado tomando alguns textos do Antigo Testamento, porque eu quero dar-te alguns exemplos tirados também dali para que os analisemos:

“Se um homem se deitar com uma mulher que é escrava de outrem, que ainda não foi resgatada nem recebeu a liberdade, serão castigados, mas não com pena de morte, porque ela não era livre. Ele oferecerá ao Senhor, à entrada da Tenda do Encontro, um carneiro como sacrifício de reparação. E com o carneiro da reparação o sacerdote fará a expiação por ele diante do Senhor pelo pecado que cometeu, e ser-lhe-á perdoado o pecado.” (Levítico 19,20-22)

Há muitos outros textos do Antigo Testamento onde ocorre algo semelhante, por exemplo em Levítico 4,27-35, nos quais se observa que, embora seja Deus quem perdoa o pecado, um sacerdote é utilizado como instrumento para conceder o perdão; portanto, o fato de ser Deus quem perdoa o pecado em Isaías 43,25 ou no Salmo 103 de modo algum elimina a possibilidade da existência de um sacerdócio ministerial estabelecido por Deus para comunicar esse perdão.

Marlene: Posso entender que Deus se servisse de sacerdotes no Antigo Testamento para administrar o perdão dos pecados, mas o Novo Testamento ensina que todos os crentes são sacerdotes: “Mas vós sois a raça eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido por Deus, para proclamar as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável.” (1 Pedro 2,9). Também diz: “fez de nós um reino e sacerdotes para o seu Deus e Pai; a ele glória e poder pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 1,6), e também: “fizeste de nós, para o nosso Deus, um reino e sacerdotes, e reinaremos sobre a terra” (Apocalipse 5,10).

Na Antiga Aliança, os fiéis tinham de se aproximar de Deus por meio dos sacerdotes. Os sacerdotes eram mediadores entre Deus e o povo. Os sacerdotes ofereciam sacrifícios a Deus em nome do povo. Isso já não é necessário, porque pelo sacrifício de Jesus Cristo podemos nos aproximar confiadamente do trono de Deus: “Aproximemo-nos, pois, com plena confiança do trono da graça, para obter misericórdia e encontrar graça em tempo oportuno.” (Hebreus 4,16). Com a morte de Jesus, o véu do templo se rasgou ao meio, destruindo assim o símbolo da parede divisória entre Deus e a humanidade. Podemos aproximar-nos de Deus diretamente por nós mesmos, sem o uso de um mediador humano, porque Jesus Cristo é o nosso Sumo Sacerdote (Hebreus 4,14-15; 10,21), e o único mediador entre Deus e nós (1 Timóteo 2,5). O Novo Testamento ensina que deve haver presbíteros (1 Timóteo 3), diáconos (1 Timóteo 3), bispos (Tito 1,6-9) e pastores (Efésios 4,11), mas não sacerdotes.[1]

José: Na Igreja Católica também acreditamos que todos os cristãos somos sacerdotes, mas distinguimos entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial[2]. Lembrem-se de que Cristo, “mediador da nova aliança” (Hebreus 9,15), estabelece, em consequência, os “ministros da nova aliança” (2 Coríntios 3,6), que o representam ao longo do espaço e do tempo, ou seja, em todos os lugares e em todas as épocas. A sua capacidade não é de origem humana, mas divina (2 Coríntios 3,5).

Mas dessa distinção podemos falar mais adiante; o que quero fazer notar é que na Nova Aliança, assim como na Antiga, o fato de Cristo ser o único mediador entre Deus e os homens não exclui que ele se sirva instrumentalmente de seus ministros para comunicar o perdão. Lembrem-se de que São Paulo, referindo-se ao ministério que eles exercem como apóstolos, diz “que os homens nos considerem como servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1 Coríntios 4,1), e além disso afirma que a eles foi concedido o ministério da reconciliação: “tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo e nos deu o ministério da reconciliação” (2 Coríntios 5,18).

É a eles a quem envia com o poder que recebeu do Pai e lhes concede a autoridade de perdoar os pecados: “Jesus disse-lhes outra vez: «A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, assim eu vos envio.» Dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.” (João 20,21-23).

Marlene: Mas em todo o Novo Testamento não se vê ninguém confessando os seus pecados a nenhum homem; pelo contrário, em 1 João 1,8-9 vemos que o pecado se confessa diretamente a Deus: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”.

José: Vamos por partes. Em primeiro lugar, esse texto não diz a quem se deve confessar o pecado; apenas diz que deve ser confessado.

Em segundo lugar, não é verdade que no Novo Testamento não apareça em nenhuma parte alguém confessando seus pecados a um ministro de Deus. Já nos tempos de João Batista, “a ele acorria gente de toda a região da Judeia e todos os de Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados” (Marcos 1,5).

Embora em João 20,23 não se mencione explicitamente que o pecado deva ser confessado, isso está fortemente implícito no fato de que, para um ministro poder absolver ou reter um pecado, tem de primeiro conhecê-lo por meio da confissão do pecador. Precisamente por isso, no livro dos Atos dos Apóstolos se narra como os crentes recorriam aos apóstolos para lhes confessar os seus pecados: “E muitos dos que tinham crido vinham confessar e contar publicamente as suas práticas.” (Atos 19,18). Querias um texto bíblico onde ver cristãos confessando seus pecados aos apóstolos — e aí o tens.

Miguel: José, lá não se menciona um confessionário como o que os católicos têm hoje; ali eles confessavam publicamente os pecados que tinham cometido como sinal de arrependimento.

José: Mas então fica claro que não se cumpre aquilo de que na Nova Aliança somente se confessava o pecado diretamente a Deus; ali temos um testemunho tirado da Bíblia de que não era assim.

Agora bem, quando falamos do sacramento da penitência, temos de distinguir entre o substancial e o circunstancial. O substancial é que Cristo instituiu o ministério da reconciliação, outorgando a seus apóstolos e sucessores o poder de perdoar pecados; e para que o sacerdote possa absolver o pecado, tem de primeiro conhecê-lo. Se o faz dentro de um confessionário ou ao ar livre, isso é algo que não é substancial e pode mudar ao longo da história. Por exemplo, na Igreja primitiva, a confissão do pecado era pública[3]: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para que sejais curados. A oração fervorosa do justo tem grande poder” (Tiago 5,16). Posteriormente, o sacerdote era quem, após ouvir o pecado, decidia se este tinha de ser confessado em público ou bastava a confissão ao sacerdote; e finalmente o sacramento se desenvolveu tal como o conhecemos hoje, que busca preservar a privacidade da pessoa por meio da confissão exclusivamente privada e do sigilo de confissão.[4]

Marlene: Suponhamos que você tem razão e que Cristo concedeu aos apóstolos o poder de perdoar pecados. Em nenhuma parte da Bíblia se vê que esse poder tenha passado a seus sucessores. A promessa de Jesus era especificamente dirigida aos apóstolos.

José: O apostolado é um ministério, e os ministérios na Igreja são permanentes porque foram instituídos para a edificação dos fiéis que fazem parte do corpo de Cristo (1 Coríntios 12,27-29). Enquanto existir a Igreja nesta terra, existirão os ministérios, entre eles o apostolado, agora exercido pelos bispos: “E ele próprio «deu» a uns ser apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e doutores, para aperfeiçoamento dos santos, no intuito de realizar o serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4,11-13). De nada teria servido que Cristo lhes concedesse esse poder enquanto viviam apenas os apóstolos, quando a missão deles superaria a duração de suas vidas. Lembra-te de que foram mandados fazer discípulos de todas as nações (Mateus 28) e prometeu assisti-los e estar com eles até o fim do mundo.

A Palavra de Deus é sagrada, e não devemos permitir que os nossos preconceitos nos impeçam de ser honestos com o que a Escritura verdadeiramente ensina[5]. É o próprio Cristo quem concede a seus apóstolos o poder de perdoar pecados, e vemos os primeiros cristãos recorrendo a eles para se confessar, sem que isso contradiga de modo algum o fato de ser Deus quem perdoa o pecado. Não sejamos como aqueles que se escandalizavam quando Jesus perdoava os pecados com a autoridade que recebeu do Pai, quando os apóstolos e seus sucessores o fazem com a autoridade que receberam de Cristo: “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio” (João 20,21).

Notas

  1. Este argumento o tomei do artigo “O que a Bíblia diz acerca da confissão de pecados a um sacerdote?” disponível no site GotQuestions.org.
  2. O sacerdócio comum dos fiéis não exclui o sacerdócio ministerial ou hierárquico, mas «ordenam-se um para o outro, pois um e outro participam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. A sua diferença é essencial e não apenas de grau. Porque o sacerdote ministerial, em virtude do poder sagrado de que goza, modela e dirige o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico na pessoa de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, por sua vez, em virtude do seu sacerdócio real, concorrem para a oblação da Eucaristia; e exercem-no também na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho de uma vida santa, na abnegação e caridade operante» (Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 10).
  3. Alguns irmãos evangélicos interpretam Tiago 5,16 entendendo que se refere ao pedido de perdão de uns aos outros quando se ofendiam. Essa interpretação não é justa com o texto, pois ali se fala de confessar pecados, não de pedir perdão pelas ofensas. É necessário distinguir que, embora uma ofensa ao próximo seja um pecado, nem todo pecado é uma ofensa ao próximo.
  4. Para uma explicação mais detalhada do desenvolvimento do Sacramento da penitência ao longo da história, pode consultar o meu livro: Compendio de Apologética Católica, Segunda Edição, Editorial Lulu, Venezuela 2014.
  5. Inicialmente as Igrejas evangélicas não rejeitavam a confissão dos pecados ao confessor, e os luteranos não o fazem tampouco hoje em dia. A Confissão de Augsburgo, que é considerada a Confissão Protestante mais antiga, é a base sobre a qual se funda a Igreja Luterana e o modelo mais universalmente aceito por essas Igrejas (escrita por Lutero e Melâncton no ano de 1530), sustentava: «A respeito da confissão, ensina-se que a absolvição privada deve conservar-se na igreja e que não deve cair em desuso, ainda que na confissão não seja necessário relatar todas as transgressões e pecados, porquanto isso é impossível. ‹Os erros, quem os entenderá?› (Salmo 19,12).» No seu Catecismo Menor, Martinho Lutero reafirma a necessidade de confessar os pecados, e no seu Catecismo Maior dedica uma breve exortação à confissão, na qual trata duramente e chama de «porcos que não deveriam ter parte no evangelho» aqueles que rejeitam o sacramento da confissão: «Mas, agora, estas coisas qualquer um as sabe. Infelizmente, aprenderam-nas bem demais, de modo que fazem o que querem e usam da liberdade como se jamais tivessem o dever ou a necessidade de confessar. Porque muito depressa captamos o que nos agrada, e onde o evangelho é suave e benigno penetra em nós com suma facilidade. Mas, como disse, semelhantes porcos não deveriam viver sob o evangelho, nem deveriam ter parte nele, mas permanecer sob o papado e, mais do que antes, deixar-se levar e mortificar, de maneira que tenham de confessar, jejuar, etc., mais do que nunca. Quem não quer crer no evangelho, nem viver de acordo com ele, nem fazer o que deve fazer um cristão, tampouco deve desfrutar o evangelho. Que aconteceria se quisesses unicamente tirar proveito de alguma coisa, sem fazer nem aplicar nada de ti mesmo? Portanto, não queremos ter pregado a semelhantes homens, nem temos a vontade de conceder-lhes algo de nossa liberdade, nem permitir que dela gozem. Antes, voltaremos a entregá-los ao papa e aos seus adeptos, para que os forcem, como sob um verdadeiro tirano. À populaça que não quer obedecer ao evangelho não corresponde senão tal torturador, que é um diabo e um carrasco de Deus. Mas aos demais, que aceitam a sua palavra, havemos de pregar sempre e devemos animá-los, estimulá-los e atraí-los para que não deixem passar em vão um tesouro tão precioso e consolador, apresentado a eles pelo evangelho. Em consequência, diremos também algo sobre a confissão para ensinar e exortar a gente simples.»