É uma opinião bastante generalizada que a obra mais significativa de Lutero foi a tradução que fez das Sagradas Escrituras para o idioma alemão, circunstância que permitiu que numerosas pessoas de qualquer condição pudessem ter acesso ao conhecimento direto da Palavra de Deus. Também é uma opinião, ou melhor, uma acusação bastante difundida –e o próprio Lutero foi um dos que de forma mais reiterada a propagou– que a Igreja Católica, movida por um excesso de zelo, não facilitava a leitura da Bíblia aos seus fiéis, para evitar que sua mensagem fosse deformada se fosse deixada à livre interpretação de cada pessoa.

Consideramos, no entanto, que essa acusação é algo injusta e não fundamentada se for afirmada de forma indiscriminada. Em primeiro lugar, será o próprio Lutero quem nos informará que, ao ingressar no convento dos agostinianos da cidade alemã de Erfurt, movido por seu desejo de fazer-se frade, o mestre de noviços desse convento, Fr. Johann Greffenstein, pôs em suas mãos “uma Bíblia forrada de couro vermelho”, e o novo noviço entusiasmou-se de tal maneira em sua leitura que quase a aprendeu de cor. É preciso lembrar que o estudo e o conhecimento das Sagradas Escrituras era uma norma obrigatória nas comunidades religiosas e constituía a fundamental fonte de inspiração para os frades de vida ascética e contemplativa. Ao mesmo tempo, nas diversas bibliotecas das escolas, universidades e mosteiros da Idade Média, existiam Bíblias de várias edições, já que era a base do ensino teológico e elemento essencial da pregação e da liturgia. São testemunhos dessa atividade bíblica os mais de 8.000 antigos manuscritos que se conservaram da “Vulgata” latina, e entre o período de 1450 a 1522 imprimiu-se mais de 160 vezes a denominada “Biblia pauperum”, que era como o catecismo das pessoas menos instruídas.

Quanto às publicações de Bíblias na língua alemã, é preciso ressaltar que, muito antes de a Bíblia de Lutero ser publicada, já haviam sido catalogadas não menos de 18 traduções: 14 traduzidas para o alto-alemão e 4 para o baixo-alemão. Delas se pode destacar a tradução completa que se fez da Bíblia no séc. XIV na Baviera, cuja publicação teve tão boa acolhida que o impressor Johann Mentelin a fez estampar em mais de 13 ocasiões, convertendo-a numa espécie de “Vulgata” alemã. Poder-se-ia acrescentar a este balanço as numerosas edições parciais de saltérios, epistolários e evangeliários, muitos deles traduzidos para diferentes línguas vernáculas. Um dos múltiplos poemas populares existentes na Alemanha do séc. XV, intitulado “A nau dos insensatos”, referia-se em um de seus versos a este dinamismo bíblico: “Todos os países estão atualmente cheios das Sagradas Escrituras, e daquelas coisas que afetam a saúde das almas”.

Se este conjunto de dados desmente a acusação generalizada feita à Igreja Católica sobre seu suposto desinteresse em dar a conhecer a Bíblia, será o historiador Franz Falk quem esclarecerá, ainda melhor, a falta de fundamento dessas acusações, por meio de seu livro “Die Bibel am Ausgange des Mittelalters” (As Bíblias realizadas na Idade Média), publicado em Mogúncia no ano de 1905. Nesta obra descreve que, no trecho cronológico que há entre a invenção da imprensa por volta do ano 1450 até o de 1520, traduziram-se mais de 156 edições de Bíblias católicas, coisa que naquela época não estava nada mal. Lembremos também a tradução da Bíblia dirigida pelo cardeal Jiménez de Cisneros, publicada com 6 volumes em julho de 1517, com a denominação de “Bíblia Poliglota Complutense”, em cuja confecção interveio uma prestigiada equipe de humanistas, filólogos e orientalistas, que, entre outras coisas, tiveram o acerto de transcrever de forma paralela os textos originais do grego, hebraico e caldeu com a correspondente tradução latina.

Retomando a questão de Lutero e sua tradução da Bíblia, é conveniente enquadrá-la no âmbito da situação social e tecnológica do séc. XV na Europa, uma vez que, graças à invenção da imprensa, multiplicaram-se as traduções da Bíblia para as línguas vernáculas. Esse evento facilitou a possibilidade de pôr o povo simples e de poucas letras em contato com a Bíblia, o que incrementou a tendência biblicista e antiescolástica que se manifestava em muitos mosteiros e universidades alemãs do séc. XVI. Um dos mais importantes impulsionadores desse ambiente foi o afamado filólogo holandês Erasmo, que em 1515 escrevia em sua “Paraclesis”: “Não estou de acordo com aqueles que se opõem a que os ignorantes leiam as divinas letras traduzidas para a língua vulgar. Desejaria que todas as mulheres simples lessem o Evangelho e as epístolas paulinas. E oxalá que o agricultor com a mão no arado fosse cantando alguma passagem da Bíblia e fizesse o mesmo o tecelão em seu tear, e o caminhante aliviasse com essas histórias a fastidiosa viagem! Disso deveriam tratar as conversas de todos os cristãos”.[1]

No mosteiro de Wittenberg, Lutero havia lido e feito sua esta exortação de Erasmo e, à maneira de braço executor do humanista holandês, propor-se-á a levar a cabo a tradução da Bíblia para dá-la a conhecer a todos os alemães. Essa tarefa iniciou-a em primeiro lugar com a tradução do Novo Testamento para a língua alemã, aproveitando os últimos meses que lhe restavam de sua estada no bem-guarnecido castelo de Wartburg, situado na comarca da Turíngia, lugar em que se escondeu, fugindo da sentença condenatória do Édito de Worms. Nesta exigente tarefa pôs de manifesto sua capacidade de trabalho, pois no período de três meses (de dezembro de 1521 até princípios de março de 1522, data em que saiu de seu esconderijo para aportar de novo em Wittenberg) já tinha praticamente acabada a tradução do Novo Testamento.

Seis meses depois, concretamente em setembro de 1522, saiu impressa esta tradução do Novo Testamento, com o título de “Das Newe Testament Deutzsch, Wittemberg”, no qual não aparecia nem o ano nem o nome do impressor, nem tampouco o de seu autor, talvez para conseguir uma maior difusão do livro. Nesta primeira edição imprimiram-se 3.000 exemplares, que se esgotaram rapidamente, pois no final do ano seguinte já saiu publicada a segunda edição. Segundo cálculos de um dos biógrafos de Lutero, Hartmann Grisar, até o ano de 1537 fizeram-se 16 edições em Wittenberg, sem contar as mais de 50 edições em outras cidades alemãs. Lutero realizou a versão germânica do Novo Testamento utilizando os procedimentos correntes daquele tempo, que consistiam em partir da “Vulgata” latina, do original grego dos Setenta –apesar de Lutero não ser um especialista na língua helênica– e também das anteriores traduções alemãs da Bíblia.[2]

Arrastado por seu ardor evangelista, que se alimentava de suas subjetivas vivências interiores, Lutero considerava que as anteriores traduções da Bíblia não refletiam o sentido teológico que desejava dar-lhes e, atendendo mais ao sentido do que à letra dos textos, utilizou uma linguagem tão viva, natural e popular que qualquer leitor podia entendê-lo sem excessivas dificuldades. Com a tradução do Novo Testamento, Lutero pretendeu corroborar suas próprias doutrinas, e aproveitou a circunstância para acusar a Igreja de que não havia entendido o autêntico Evangelho e, de passagem, para desacreditar e injuriar o papado e a sé romana, especialmente através das polêmicas ilustrações que acompanhavam algumas páginas da edição, realizadas pelo afamado desenhista Lucas Cranach “o Velho”.

Quanto à tradução do Antigo Testamento, sua edição atrasou-se algum tempo, devido em parte ao insuficiente conhecimento que Lutero tinha da língua hebraica. Isto o obrigou a pedir a colaboração de uma equipe formada por ilustrados colaboradores reformistas e por alguns reconhecidos linguistas.[3] Tal como já fez com o Novo Testamento, voltará a servir-se da tradução grega dos Setenta, da “Vulgata” latina e das velhas versões alemãs. A tradução completa da Bíblia não a teve acabada e impressa até o ano de 1534, e estava dividida em seis partes. Esta primeira edição vinha acompanhada de prefácios e notas à margem, junto com várias gravuras, muitas delas realizadas por artistas desconhecidos, que eram altamente ofensivas para os católicos. Esta edição teve uma boa acolhida em todas as comarcas da Germânia, o que obrigou a realizar uma nova edição no ano seguinte. Calcula-se que entre o período de 1534 a 1584 venderam-se uns 100.000 exemplares, uma cifra considerável naquela época.

Com o intento de melhorar estas traduções, Lutero continuou revisando sua Bíblia nos anos sucessivos, ajudado por seus clássicos colaboradores. Graças a isso conseguiu que a correção linguística de sua Bíblia superasse muitas das edições das antigas Bíblias germânicas, pois estas utilizavam um alemão bastante tosco e rudimentar, que dependia dos dialetos existentes. Por outra parte, estas velhas traduções copiavam quase literalmente da “Vulgata”, reproduzindo uma série de latinismos e hebraísmos de difícil compreensão que já não se adaptavam suficientemente à língua popular da Germânia do séc. XVI.

É indubitável que Lutero pôs em tensão todas as forças de seu espírito, e também de seu corpo, na tradução da Bíblia para a língua alemã, com o objetivo de que não perdesse nada de seus típicos matizes e de sua estrutura sintática. Isto lhe exigiu traduzir de forma literal e dar a muitas das frases originais das Sagradas Escrituras uns giros diferentes dos tradicionais, obrigando-o a introduzir termos que não correspondiam aos textos originários e modificavam seu significado conceitual, com o que a Palavra de Deus adquiria um sentido suspeitosamente subjetivista. Lutero nos descreve o método simples e direto no qual se inspirava sua peculiar tradução: “Não se deve perguntar às sílabas da língua latina como se tem de falar em alemão; a quem se deve perguntar é à mãe de família em sua casa, às crianças na rua, ao homem comum na praça, e olhar-lhes a boca para comprovar como falam, e, segundo tudo isso, traduzir”.[4]

Impressionados os católicos pela grande difusão da Bíblia de Lutero, tentaram contrarrestar essa influência publicando diferentes edições da Bíblia. Talvez as mais conhecidas tenham sido as do dominicano Johann Dietenberger, publicada em Mogúncia em 1534, e que teve uma boa acolhida. Embora se ajuste à “Vulgata” latina, é preciso assinalar que se beneficia consideravelmente da tradução luterana. Outra edição da Bíblia foi a do prestigiado teólogo Johann Eck[5]: “Bibel auf hochteusch verdolmetsch, Ingolstadt”, 1537. Esta tradução é mais exata e independente do que a de Dietenberger, embora não gozasse de tanto êxito, talvez por sua linguagem mais ilustrada, áspera e difícil. Alguns anos antes, Hieronymus Emser, que faleceu em 1527, havia publicado um Novo Testamento utilizando uma linguagem clara e acessível, que em alguns aspectos se inspirou no estilo popular do Novo Testamento luterano.

Os adversários de Lutero acusaram-no de falta de ortodoxia doutrinal e de forçar os textos sagrados para acoplá-los às suas próprias e subjetivas opiniões teológicas. O citado Hieronymus Emser afirma que, na tradução luterana do Novo Testamento, havia encontrado mais de 1.400 erros e falsidades de todo tipo. Diante destes ataques, Lutero respondia com desafiadora arrogância: “Minha doutrina é a de Cristo, e a de Cristo não é outra senão a contida na Bíblia; se me argumentam com um texto da Escritura, eu lhes responderei com Cristo, contra a letra da Escritura”.[6] Do ponto de vista teológico e doutrinal, são de maior gravidade as acusações referidas à arbitrária seleção que fez do Cânon dos livros bíblicos, de tal forma que aqueles em que encontrava apoio suficiente para confirmar suas doutrinas exalta-os como verdadeiros, divinos e proféticos; em contrapartida, os que não expressavam essa concordância mereciam sua rejeição. O profeta de Wittenberg não terá reparo em sustentar que sua própria interpretação da Bíblia está inclusive acima da autoridade dos Apóstolos: “Aquilo que não favorece o conhecimento de Cristo não é apostólico, ainda que o diga Pedro ou Paulo; em contrapartida, aquilo que prega Cristo é apostólico, ainda que o diga Judas, Anás, Pilatos e Herodes”.[7]

Para Lutero, o Novo Testamento estava constituído principalmente pelo Evangelho de São João e pelas cartas de São Paulo e São Pedro; em contrapartida, os três evangelhos sinóticos não lhe mereciam muito apreço. No prólogo de uma de suas edições do Novo Testamento escreve: “É preciso distinguir entre livros e livros. Os melhores são o evangelho de S. João e as epístolas de S. Paulo, especialmente a dos Romanos, os Gálatas e os Efésios, e a 1ª epístola de S. Pedro; estes são os livros que te manifestam Cristo e te ensinam tudo o que necessitas para a salvação, ainda que não conheças nenhum outro livro. A epístola de Tiago, diante destas, não é mais que palha, pois não apresenta nenhum caráter evangélico”.[8] Por outra parte, nega que a epístola aos Hebreus pertença a S. Paulo; e da epístola de S. Judas diz que é um extrato da de S. Pedro e que, portanto, é desnecessária. Quanto ao Apocalipse, expressará sua rejeição, pois lhe desagrada que Cristo atue como um severo Juiz: “Eu não encontro neste livro nada que seja apostólico nem profético”.[9] Quanto aos livros do Antigo Testamento, utilizará o mesmo procedimento arbitrariamente seletivo de aceitá-los ou rejeitá-los, conforme coincidam ou não com suas próprias interpretações teológicas.[10] Apesar disso, a Bíblia de Wittenberg seguirá seu imparável curso e continuará sendo aceita por um amplo setor do povo.

Autor: Lluís Pifarré

NOTAS

  1. Opera Omnia, VI 3
  2. O texto grego que lhe serviu de base foi o Novum Testamentum graece de Nikolaus Gerbel, que dependia do Novum Testamentum de Erasmo. Também se serviu das Anotações de Lorenzo Valla e das Postilas de Nicolau de Lira.
  3. Esta equipe, que era uma espécie de Academia luterana, estava formada pelo helenista Philipp Melanchthon, o professor de exegese bíblica Kaspar Cruciger, o professor de hebraico J. Jonas, o do humanista e hebraísta de Leipzig, Bernhard Ziegler, o do pregador J. Bugenhagen, e o destacado discípulo de Reuchlin, Johann Forster, autor de um dicionário hebraico. O diácono J. Rörer fazia de corretor e redator do protocolo.
  4. Sendbrief, 637. As citações de Lutero correspondem às Obras Completas da Edição de Weimar.
  5. Johann Eck, conhecido como “o teólogo de Ingolstadt”, enfrentou de forma exitosa Lutero na famosa disputa teológica que teve lugar em Leipzig, no mês de julho de 1519, na grande sala do castelo de Pleissenburg, regido então pelo duque da Saxônia, Jorge o Barbudo.
  6. WA 39, 1.
  7. Prólogo às epístolas de Tiago e Judas (Bibel VII, 384).
  8. Prólogo do Novo Testamento de 1546 (Bibel VI, 10).
  9. (Bibel VII, 404).
  10. Do Antigo Testamento rejeitará como livros apócrifos o de Judite, a Sabedoria de Salomão, o de Tobias, o Eclesiástico, Baruc, o primeiro e segundo livro dos Macabeus, algumas partes do livro de Ester e outros fragmentos.