A pergunta sobre se o Papa é escolhido pelo Espírito Santo tende a despertar paixões intensas. Para alguns, é evidente que sim, porque sempre se disse assim, a tal ponto que quem afirmar o contrário não é católico. Para outros, a resposta é forçosamente negativa, e dizer que o Papa é escolhido pelo Espírito Santo é pouco menos que uma blasfêmia. Poucas perguntas receberiam respostas tão díspares e contraditórias de católicos ortodoxos, desejosos de professar a fé católica em sua totalidade e sem descontos.
Correndo o risco de desiludir os que desejam que eu lhes dê razão de forma simplista num sentido ou noutro, temo que a resposta adequada seja: ambas as coisas. Ou, melhor dizendo, a resposta correta depende do que a pergunta quer dizer.
Como diz o princípio escolástico, pensar é distinguir. Para dar uma boa resposta à pergunta, primeiro temos de entendê-la bem e precisar o seu significado, que não é unívoco. Do contrário, perdemo-nos em questões de verbis, isto é, de mera linguagem, e não chegamos a conclusão alguma.

O Papa é escolhido pelo Espírito Santo?
1) Não, no sentido de que Deus aja coartando a liberdade dos cardeais eleitores para eleger o “seu candidato”. Deus respeita profundamente a nossa liberdade. De fato, seu Filho se fez homem e morreu na cruz precisamente como consequência desse amor respeitoso de Deus. Os cardeais têm uma graça especial de estado, concedida pelo Espírito Santo, para cumprir bem sua missão de eleitores, mas essa graça não suprime sua liberdade. Portanto, os purpurados podem resistir à graça de Deus (e é de supor que, em muitos casos, assim o tenham feito ao longo da história da Igreja), dando seu voto por razões mundanas.
Os cardeais elegem quem querem e podem agir mal ao fazê-lo, rejeitando a Vontade de Deus e elegendo um candidato pouco apropriado, seja por buscar o próprio benefício, por usar critérios do mundo, por deixar-se levar por amizades ou inimizades ou por qualquer outra causa. Nada há de estranho nisso, e daí a grandíssima responsabilidade dos cardeais eleitores, da qual deverão prestar contas a Deus no dia do Juízo.
Consciente de que, para eleger bem, é necessária a inspiração do Espírito de Deus e de que essa inspiração não é automática, a Igreja prevê que, antes de começarem as votações, os cardeais rezem o Veni Creator, para pedir que a dureza de seus corações não obstaculize a iluminação do Paráclito. Os demais católicos, por sua vez, rezam também intensamente nesses dias, enquanto esperam a fumaça branca, rogando que os cardeais elejam bem e se deixem guiar pelo Espírito Santo.
2) Sim, no sentido de que é Deus quem confere a missão de apascentar a Igreja. Um Papa validamente eleito não recebe sua missão de mãos humanas, mas do Espírito Santo. É o próprio Cristo quem lhe diz: Apascenta as minhas ovelhas. O Sucessor de Pedro não é um “representante” dos cardeais, nem dos bispos, nem dos fiéis, mas recebeu um chamado especial de Deus.
Nesse sentido se expressa a liturgia tradicional da Igreja: Deus, omnium fidelium pastor et rector, famulum tuum N., quem pastorem Ecclesiae tuae praeesse voluisti, propitius réspice… Isto é, “Deus, pastor e governante de todos os fiéis, olha propício para o teu servo N., que quiseste pôr à frente de tua Igreja como pastor…”. Essa mesma afirmação se repete em multidão de lugares, nos textos litúrgicos relacionados com o Papa: “Ó Deus […] dá à tua Igreja um pontífice” (Ordo rituum conclavis 18), “tu que o elegeste como sucessor de Pedro” (ORC 70), “nosso Papa N., a quem confiaste o cuidado pastoral do teu rebanho” (Ordo exsequiarum Romani Pontificis, 39), “que [Deus] estabeleceu como Bispo de Roma, sucessor de Pedro no governo pastoral da Igreja” (OERP 33), “tu que o puseste como fundamento visível da unidade da Igreja” (OERP 135).
Como consequência dessa missão dada por Deus, ele “tem na Igreja, em virtude de sua função de Vigário de Cristo e Pastor de toda a Igreja, o poder pleno, supremo e universal, que pode exercer sempre com inteira liberdade” (Lumen Gentium 22) e “goza […] da infalibilidade em virtude de seu ministério quando, como Pastor e Mestre supremo de todos os fiéis, que confirma na fé os seus irmãos, proclama por um ato definitivo a doutrina em questões de fé e moral” (LG 25). Isto é, sua autoridade vem de Deus e não dos homens, de modo que não depende dos cardeais eleitores, do bom ou mau discernimento que esses cardeais tenham mostrado ao elegê-lo, de suas próprias qualidades humanas ou do apoio que tenha entre os fiéis.
Assim, pois, o Papa merece sempre um grande respeito, como Vigário de Cristo. O mesmo acontece com teu pai terreno, porque, mesmo que fosse um desastre, permaneceria em vigor o quarto mandamento: Honra teu pai e tua mãe. De fato, o dever de respeitar e honrar o Papa é parte desse quarto mandamento. Convém não nos enganarmos: se não guardamos o respeito sobrenatural devido ao Papa, estamos faltando ao nosso dever de católicos.
3) Não, no sentido de que, por obra do Espírito Santo, seja eleito como Papa o mais prudente, o mais sábio ou o mais santo dos possíveis candidatos. Basta ler os livros de história para se dar conta disso. Houve Papas santos, bons, medíocres, meio ruins e desastrosos.
Tampouco significa que o eleito vá se converter magicamente em santo, bom e piedoso. O Papado não é um oitavo sacramento, no qual Deus garanta a transformação de quem o recebe, como no Batismo. A impecabilidade papal nunca fez parte da fé católica: o Papa se confessa regularmente como todos, porque precisa disso. No dia seguinte ao de sua eleição, o Papa é o mesmo que era no dia anterior, mas com uma missão especial de Deus.
Tampouco é verdade que o Papa acerte em tudo o que diz por obra do Espírito Santo. A infalibilidade papal, como estabeleceu o Concílio Vaticano I, só atua em situações muito concretas e limitadas (temas de fé e moral definidos de forma solene e ex cathedra). No restante, o Papa pode se equivocar e, de fato, se equivoca. Um Papa com conhecimentos teológicos medíocres continuará tendo esses conhecimentos medíocres depois de ser eleito para reger a Igreja, e um que tenha sido um grande sábio continuará sendo-o depois de sentar-se no trono de Pedro.
Como dizíamos no ponto 1, a Igreja é muito consciente de tudo isso e por isso faz com que rezemos frequentemente pelo Papa. Especialmente em todas as Missas, que incluem uma oração “pelo teu servo o Papa N.”. Constantemente, em toda a terra, os católicos elevam suas preces a Deus para que ilumine o Papa, o guie, o conforte, lhe dê discernimento e o ajude a guiar a Igreja. Como assinalei há muito tempo, o Papa conta com muitas ajudas, humanas e divinas, para cumprir sua missão, mas permanece sempre o fato escandaloso (no bom sentido) de sua fragilidade humana: é na fraqueza que se manifesta a minha força.
4) Sim, no sentido de que o Papa que houver em cada momento é o que Deus te deu e faz parte do desígnio amoroso de sua Providência para a tua vida.
Esta quarta resposta nos resulta muito complicada de entender, porque a graça, por sua própria natureza, supera o nosso entendimento. Além disso, não acabamos de acreditar no que diz a Escritura: todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus.
E tudo é tudo. Não só a nomeação dos Papas santos e maravilhosos, mas também a dos Papas desastrosos que já houve. Também a daquele Papa que teve sabe-se lá quantos filhos e a daquele outro que vendia ou distribuía os cargos como se fossem bombons? Também. Cristo é o Senhor da história e nada escapa ao seu poder. O desígnio do Senhor permanece para sempre. Os cardeais podem errar feio (e terão de prestar contas disso no dia do Juízo), mas, de alguma forma que supera a nossa limitada inteligência, Deus leva em conta essas falhas e pecados humanos e os integra em seu plano para fazer algo ainda mais maravilhoso.
Pode ser que os cardeais se equivoquem ou ajam mal, mas Deus não se equivocou ao te dar um Papa, como víamos no item 2. O Papa que tens é o que Ele tinha preparado para ti antes da criação do mundo. Pode ser que seja um santo, ou talvez uma catástrofe ambulante, ou nem carne nem peixe, mas é o que Deus te deu, e Ele sabe o que faz. É o Papa de que tu precisas para ser santo, que é o que importa. Deus perscruta os corações e sabe do que o teu necessita, ainda que tu não o entendas.
É necessário, portanto, ter sempre em conta estes quatro possíveis sentidos da aparentemente simples pergunta sobre se o Papa é escolhido pelo Espírito Santo, porque fazem com que ela tenha respostas paradoxais, que parecem contraditórias, mas não são. Como todas as vocações cristãs, o chamado a ser Sucessor de Pedro implica ao mesmo tempo a grandeza do dom e a pequenez de quem recebe esse dom, a força de Deus e a fraqueza humana, o plano divino e a liberdade do homem.
Além destas respostas conceituais, creio que, para entender bem a questão, convém dar um exemplo mais próximo de nós: o nosso pároco. O caso do Papa nos confunde, porque o temos muito longe, e a distância o envolve num halo de mistério. Em contrapartida, o pároco nós conhecemos bem: seus defeitos e qualidades saltam à vista. São-nos familiares a sua história, os seus problemas, o quão mal ou bem prega, a sua predileção pela sidra de barril e o fato de que o nomearam porque havia fracassado na paróquia anterior, ou porque é amigão do bispo, ou porque sempre foi um santo.
Pois bem, embora pareça surpreendente, o certo é que o teu pároco é escolhido pelo Espírito Santo no mesmo sentido em que o Papa é escolhido pelo Espírito Santo e não é escolhido pelo Espírito Santo no mesmo sentido em que o Papa não o é. Isto é, sim nos sentidos 2 e 4, mas não nos sentidos 1 e 3. Assim como acontece com o Papa, sua nomeação pode dever-se a decisões equivocadas e, como é evidente, ele não tem por que ser um santo nem um grande sábio. No entanto, recebeu do próprio Deus a sua missão de colaborar com um Sucessor dos Apóstolos e de apascentar os fiéis de uma paróquia, e é também o pároco que Deus tinha planejado para ti desde antes de criar o mundo, precisamente aquele de que tu precisas.
Se nos parece que algo assim é muito pouco glamouroso para um Papa, talvez seja porque pensamos como os homens e não como Deus. Se cremos que a eleição do Papa é substancialmente diferente da escolha do nosso pároco, talvez estejamos confundindo o Papa com uma espécie de superestrela religiosa. Se os defeitos de um Papa nos tiram a fé, pode ser que a nossa fé seja mais humana que sobrenatural. Se não somos capazes de tratar o Papa (e o nosso pároco) com respeito, talvez nos faça falta um pouco mais de ascese. Afinal de contas, neste tema como em tantos outros, é possível equivocar-se tanto por excesso quanto por falta.
Em definitivo, a nossa compreensão da missão do Papa e a nossa relação com ele devem ser guiadas pela fé, pela esperança e pela caridade. Como essas três virtudes são teologais e se recebem de Deus, o que nos cabe é orar sem esmorecer, de modo que o Espírito Santo ilumine o Papa… e nos ilumine também a nós.
Autor: Bruno Moreno Ramos
Fonte: Infocatolica