Foi discípulo de São Paulo e São João e o segundo sucessor de São Pedro como bispo na sede de Antioquia. Nasceu entre os anos 30 e 35 d.C. e morreu mártir devorado pelas feras no mês de janeiro do ano 107, durante o reinado do imperador romano Trajano. A caminho de Roma, escreveu sete epístolas dirigidas às Igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia, Esmirna, Roma e uma carta a São Policarpo.
Divindade de Cristo
Graças a Santo Inácio recebemos o testemunho de um discípulo direto dos apóstolos que nos ajuda a compreender quão clara estava na Igreja primitiva a consciência sobre a divindade de Cristo, o que nos é bastante útil na hora de combater os ataques de algumas seitas.
As Testemunhas de Jeová e outras seitas de tipo ariano[1], por exemplo, negam que os primeiros cristãos acreditassem e aceitassem a divindade de Jesus Cristo. Para essas seitas, Jesus Cristo não seria verdadeiro Deus, não teria compartilhado a natureza do Pai e do Espírito Santo, mas seria apenas uma criatura. Os católicos, por sua vez, professamos crer em um só Deus em Três Pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os quais partilham uma mesma natureza divina.
Essas seitas supõem que a doutrina da divindade de Cristo foi imposta como produto das manipulações do imperador Constantino durante o século IV, que queria divinizar a Cristo com fins políticos. Nas epístolas de Santo Inácio, no entanto, encontramos um testemunho de vários séculos de antiguidade que demonstra que para uma época tão precoce já se aceitava a divindade plena de Jesus Cristo. A este respeito escreve Santo Inácio em suas cartas:
“Há um só Deus, o qual se manifestou por meio de Jesus Cristo, seu Filho, que é sua Palavra, que procedeu do silêncio, e em tudo e por tudo agradou àquele que o havia enviado.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 8,2)
“Inácio, com o sobrenome Teóforo: À que foi abençoada na grandeza de Deus com plenitude: à que foi predestinada desde antes dos séculos a servir por sempre para uma glória duradoura e inabalável, glória unida e escolhida pela graça da verdadeira paixão e pela vontade de Deus Pai e de Jesus Cristo nosso Deus; à Igreja digna de toda bem-aventurança, que está em Éfeso da Ásia, minha cordialíssima saudação em Jesus Cristo e na alegria sem mácula.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 1)
Admite com palavras simples os pontos-chave da cristologia católica, incluindo o dogma da encarnação:
“Há um só médico, que é carnal e ao mesmo tempo espiritual, gerado e não gerado, em carne feito Deus, filho de Maria e Filho de Deus, primeiro passível e depois impassível, Jesus Cristo nosso Senhor.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 7,2)
“Desde aquele ponto, toda a magia foi destruída e toda iniquidade desapareceu. A ignorância foi derr뫚, desfeito o antigo domínio, desde o momento em que se manifestou Deus em forma humana” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 19,1)
“A verdade é que nosso Deus Jesus, o Ungido, foi conduzido por Maria em seu seio conforme à dispensação de Deus; da linhagem de Davi, certamente; mas pelo poder do Espírito Santo. O qual nasceu e foi batizado, a fim de purificar a água com sua paixão.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 18,2)
Ao longo de suas epístolas, continua reconhecendo repetidamente Jesus Cristo como seu Deus, ao mesmo tempo que afirma que existe somente um Deus:
“Inácio, com o sobrenome Teóforo: À Igreja que alcançou misericórdia na magnificência do Pai altíssimo e de Jesus Cristo seu único Filho: à que é amada e está iluminada pela vontade daquele que quis todas as coisas que existem, segundo a fé e a caridade de Jesus Cristo Deus nosso.”(Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 1)
“Deixai-me ser imitador da paixão de meu Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 6,3)
“Glorifico a Jesus Cristo, Deus, que é quem assim vos tornou sábios; pois muito bem percebi quão preparados estais de fé inabalável, como se estivésseis cravados, na carne e no espírito, sobre a cruz de Jesus Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas 1,1)
Diante da heresia dos gnósticos, que sustentava que Cristo não tivera corpo real, mas aparente, e portanto, sofreu na cruz em aparência, afirma implicitamente a doutrina tradicional católica explicada posteriormente por meio do termo “união hipostática”: Cristo é verdadeiro Deus mas também verdadeiro homem:
“Eu, por minha parte, sei muito bem, e nisto ponho minha fé, que, depois da sua ressurreição, o Senhor permaneceu em sua carne. E assim, quando se apresentou a Pedro e seus companheiros, lhes disse: Tocai-me, apalpai-me e vede como eu não sou um espírito incorpóreo. E imediatamente o tocaram e creram, ficando compenetrados com sua carne e com seu espírito. Por isso desprezaram a própria morte ou, mais ainda, se mostraram superiores à morte. E mais, depois da sua ressurreição, comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, embora espiritualmente estivesse feito uma coisa só com seu Pai.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas 3,3)
Santo Inácio também rejeita um dos elementos que se tornaria fundamental na doutrina do arianismo, o qual, ao considerar Jesus Cristo como um ser criado, ou seja, supor que houve um momento no tempo em que Jesus Cristo não existiu. Para ele, em contrapartida, Cristo está acima do tempo e é intemporal:
“…Aguarda àquele que está acima do tempo, ao Intemporal, ao Invisível, que por nós se fez visível; ao Impalpável, ao Impassível, que por nós se fez passível: àquele que de todos os modos sofreu por nós?” (Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo 3,2)
Eucaristia
É bastante mais explícito que a Didaquê ao admitir a presença real de Cristo na Eucaristia, doutrina que na antiguidade foi rejeitada também pelas heresias de origem gnóstica. Para os docetas, uma seita gnóstica da época, o pão e o vinho consagrados não podiam se converter realmente em corpo e sangue de Cristo, dado que partiam da concepção já mencionada de que Cristo não teria tido corpo real, mas aparente. Santo Inácio, contra isso, reafirmou a fé tradicional da Igreja:
“Afastam-se [os docetas] também da Eucaristia e da oração, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, a mesma que padeceu pelos nossos pecados, a mesma que, pela sua bondade, o Pai ressuscitou. Assim, pois, os que contradizem o dom de Deus morrem e perecem entre suas disputas. Quanto melhor lhes seria celebrar a Eucaristia, para que ressuscitassem! Convém, portanto, afastar-se de tais pessoas, e nem em particular nem em público falar delas” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas 7,1-2)
A profundidade deste argumento supera em muito um simples apelo à presença real. Inácio está estabelecendo aqui um vínculo indissolúvel entre a doutrina da Encarnação e a doutrina da Eucaristia: são os mesmos hereges —os Docetas— que negam ambas ao mesmo tempo, e o fazem por coerência interna. Se Cristo não teve carne real, também não pode haver no pão e no cálice carne e sangue reais. Se a Encarnação foi apenas aparência, a Eucaristia é também apenas aparência. O Docetismo era pelo menos logicamente consistente: rejeitava a materialidade de Cristo em todos os seus níveis. O que Inácio não podia imaginar —porque ninguém ainda o havia sustentado— é que alguém aceitasse a realidade corporal da Encarnação e ao mesmo tempo rejeitasse a realidade corporal da Eucaristia. Isso é precisamente o que faz o protestantismo evangélico, que confessa sem dificuldade que Jesus Cristo assumiu carne real no ventre de Maria, mas nega que essa mesma carne esteja presente no pão consagrado. Inácio, que combateu os que negavam as duas coisas, teria encontrado inexplicável que alguém negasse apenas uma delas.
Provavelmente inspirado no capítulo 6 do evangelho de João, chama a Eucaristia “medicina da imortalidade” e sua carne o “pão de Deus”:
“…partindo de um único pão, que é medicina de imortalidade, antídoto para não morrer, mas viver eternamente em Cristo Jesus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 20,2)
“Não sinto prazer pela comida corruptível nem me atraem os deleites desta vida. O pão de Deus quero, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de Davi; seu sangue quero por bebida, que é amor incorruptível. (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 7,3)”
“Ponde, pois, todo o empenho em usar de uma só Eucaristia; pois uma só é a carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para nos unirmos com seu sangue, um só altar, assim como não há mais que um só bispo, juntamente com o colégio de presbíteros e com todos os diáconos, meus companheiros de serviço. Assim, tudo o que fizerdes, fazei-o segundo Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadélfios 4)
A palavra grega que Inácio emprega nesta passagem para designar o altar é θυσιαστήριον (thusiastērion), termo derivado do verbo θύω (thyō), que significa precisamente “oferecer em sacrifício”. Na Septuaginta, thusiastērion é a mesma palavra que designa o altar sacrificial do Templo de Jerusalém, onde as vítimas eram oferecidas a Deus. Inácio não usa uma voz genérica nem decorativa: toma o vocabulário do culto sacrificial do Antigo Testamento e o transfere sem ambiguidade para a celebração eucarística. Isso implica que, para Inácio, a Eucaristia não é um simples memorial da Última Ceia, mas uma realidade sacrificial que se celebra sobre um altar genuíno, por um ministro legítimamente ordenado. O protestantismo, que rejeita tanto o sacerdócio ministerial como o caráter sacrificial da Missa, se encontra diante de um texto do ano 107 que contradiz frontalmente seus pressupostos. A unicidade do altar que Inácio exige tampouco é apenas uma norma disciplinar: é a expressão sacramental da unicidade do sacrifício de Cristo, cuja oferta continua presente na Eucaristia celebrada pelo bispo em comunhão com sua Igreja.
Admite como válida somente a Eucaristia celebrada por um bispo que conte com uma legítima sucessão apostólica.
“Somente aquela Eucaristia deve ser tida por válida, que se celebra sob o bispo ou àquele a quem ele o encarregou…Não é lícito sem o bispo nem batizar nem celebrar ágapes.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas 8,1)
Exorta também os cristãos a celebrar a Eucaristia com frequência:
“Portanto, esforçai-vos por reunir-vos com maior frequência para celebrar a Eucaristia de Deus e lhe tributar glória” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 13,1)
A Igreja Católica e sua constituição hierárquica
De Santo Inácio temos o primeiro testemunho conservado onde a Igreja cristã é chamada de “Igreja Católica”. Escreve: “onde quer que estiver Jesus Cristo, ali está a Igreja Católica”. Ela também lança muita luz sobre a organização hierárquica da Igreja de seu tempo, pois dirige suas cartas a Igrejas destinatárias que contavam com uma hierarquia tripartite perfeitamente definida: um bispo que as governava (episcopado monárquico), um colégio de presbíteros subordinado a ele, e umo ou mais diáconos.
“Segui todos o bispo, como Jesus Cristo ao Pai, e o colégio de presbíteros como aos Apóstolos; quanto aos diáconos, reverenciai-os como ao mandamento de Deus. Que ninguém, sem contar com o bispo, faça nada do que diz respeito à Igreja. Somente aquela Eucaristia deve ser tida por válida que se celebra pelo bispo ou por quem dele tenha autorização. Onde quer que apareça o bispo, ali esteja a multidão, assim como onde quer que estiver Jesus Cristo, ali está a Igreja Católica. Sem contar com o bispo, não é lícito nem batizar nem celebrar a Eucaristia; antes, o que ele aprovar, isso é também o que agrada a Deus, a fim de que tudo o que fizerdes seja seguro e válido.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas 8,1-2)
“Como quer que seja, pois, que nas pessoas supramencionadas contemple pela fé toda a vossa multidão e a todos vós amei, exorto-vos a que ponde empenho em fazer tudo na concórdia de Deus, presidindo o bispo, que ocupa o lugar de Deus, e os presbíteros, que representam o colégio dos Apóstolos, e tendo os diáconos, para mim dulcíssimos, encarregados do ministério de Jesus Cristo, o que antes dos séculos estava junto ao Pai e se manifestou no fim dos tempos.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 6,1)
“Segue-se daí que vos convém correr em harmonia com o sentir do vosso bispo, que é justamente o que já fazeis. Com efeito, o vosso colégio de presbíteros, digno do nome que leva, digno também de Deus, assim está harmoniosamente concertado com seu bispo como as cordas de uma lira.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 4,1)
“Assim, pois, a todos vós tive a sorte de vos ver na pessoa de Damas, bispo vosso digno de Deus, e de vossos dignos presbíteros Baco e Apolônio, assim como do diácono Socião, meu companheiro de serviço, de quem oxalá me fosse dado gozar, pois se submete ao seu bispo como à graça de Deus e ao colégio de presbíteros como à lei de Jesus Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 2,1)
O mesmo se observa ao longo de suas epístolas (Carta aos Efésios 1,3; 3,2; 4,1; Carta aos Magnésios 2; 3,1; 6,1; 7,1; 13,1; 15,1; Carta aos Tralianos 1,1; 3,1; 12,2; Carta aos Filadélfios 1; 3,2; 7,1-2; Carta a Policarpo 1; 6,1; Carta aos Esmirniotas 8,1-2; 12,2.)
Algo importante em tudo isso é que Santo Inácio fala a uma audiência da qual assume que, assim como ele, conhece bem que todas as Igrejas cristãs têm esta estrutura hierárquica:
“Mas como quer que a caridade não me permita calar-me a vosso respeito, daí meu propósito de exortar-vos a que corrais todos em harmonia com o pensamento e sentir de Deus, pois Jesus Cristo, nossa vida, do qual nada há de ser capaz de nos separar, é o pensamento do Pai, assim como também os bispos, estabelecidos pelos confins da terra, estão no pensamento e sentir de Jesus Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 3,2)
Isso apoia a tese tradicional de que o episcopado monárquico tem sua origem nos próprios apóstolos, e por tanto, no próprio Jesus Cristo, e não foi, como boa parte da teologia contemporânea tem suposto[2], um tardio desenvolvimento da doutrina cristã. A este respeito explica o historiador e patrólogo Daniel Ruiz Bueno:
“Este foi por longo tempo outro dos tropeços da crítica para admitir a autenticidade das cartas de Santo Inácio, pois com elas havia de se aceitar um episcopado monárquico e uma hierarquia perfeitamente definida no final do século I, com o que caíam por terra muitas caras teorias. Mas as teorias são as teorias e os textos são os textos. Ora bem, os textos das cartas inacianas nos atestam com absoluta clareza e com insistência reiterada que cada Igreja —Antioquia, Esmirna, Éfeso, Trales, Filadélfia— tem à sua cabeça um ἐπίσκοπος, “intendente, inspetor”, autoridade suprema na comunidade, ao qual se agrega como dependente e subordinado um πρεσβυτέριον, colégio de “anciãos” que o assiste como uma espécie de “senado”, e um terceiro corpo de diáconos ou ministros.”[3]
O historiador católico José Orlandis acrescenta:
“Muitas igrejas do século I foram fundadas pelos Apóstolos e, enquanto estes viveram, permaneceram sob sua autoridade superior, dirigidas por um colégio de presbíteros que ordenava sua vida litúrgica e disciplinar. Este regime pode ser atestado especialmente nas Igrejas paulinas, fundadas pelo Apóstolo das Gentes. Mas à medida que os Apóstolos desapareceram, generalizou-se em toda parte o episcopado monárquico, que já havia sido introduzido desde o primeiro momento em outras igrejas particulares. O bispo era o chefe da Igreja, pastor dos fiéis, e enquanto sucessor dos Apóstolos, possuía a plenitude do sacerdócio e a autoridade necessária para o governo da comunidade.”[4]
A heresia e o cisma
Para Santo Inácio a sucessão de bispos em linha direta até os apóstolos é um dos pilares necessários para que a Igreja se mantenha incorruptível e não ceda à tentação de cair em heresias e cismas:
“Assim, estando no meio deles, dei um grito, clamei com voz forte, com voz de Deus: “Atenção ao vosso bispo, ao colégio de anciãos e aos diáconos!” Certo que houve quem suspeitasse que eu disse isso por saber de antemão da cisão de alguns deles; mas tomo como testemunha Aquele por quem carrego estas cadeias, que não o soube pela carne do homem. Foi antes o Espírito quem fez este pregão: “Guardai vossa carne como templo de Deus. Amai a união. Fugi das cisões. Sede imitadores de Jesus Cristo, como também Ele o é de seu Pai.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfios 7,1-2)”
“Ao que sim vos exorto —mas não eu, mas a caridade de Jesus Cristo— é a que useis somente o alimento cristão e vos abstenhais de toda erva alheia, que é a heresia. Os hereges entretecem a Jesus Cristo com suas próprias especulações, apresentando-se como dignos de todo crédito, quando são na realidade como quem oferece um veneno mortífero diluído em vinho com mel. O incauto que com prazer o aceita, bebe em funesto prazer a própria morte. Alerta, pois, contra tais pessoas! E assim será com a condição de que não vos engreçais e vos mantenhais inseparáveis de Jesus Cristo Deus, do vosso bispo e das ordenações dos Apóstolos. O que está dentro do altar é puro; mas o que está fora do altar não é puro. Quero dizer, o que faz algo às costas do bispo e do colégio dos anciãos, esse é o que não está puro e limpo em sua consciência.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos 6-7)
Identifica a heresia como um pecado gravíssimo, inclusive pior que o adultério, porque corrompe a verdadeira fé:
“Ora, se os que cometem esse pecado [adultério] segundo a carne merecem a morte, quanto mais aquele que corrompe, com sua má doutrina, a fé de Deus, pela qual Jesus Cristo foi crucificado! Esse tal, convertido em impuro, irá ao fogo inextinguível e, assim como ele, quem quer que o escutar.
A causa, justamente, porque o Senhor consentiu receber unguento sobre sua cabeça, foi para infundir incorrupção à Igreja. Não vos deixeis ungir com o pestilento unguento da doutrina do príncipe deste mundo, para que não vos leve cativos longe da vida que nos foi proposta como galardão” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 16,2; 17,1-2)
“Que ninguém, pois, vos engane, como, de fato, não vos deixais enganar, sendo como sois, inteiramente de Deus. Porque como seja certo que nenhuma heresia, que pudesse atormentar-vos, tenha assento entre vós, prova é isso de que viveis segundo Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 8,1)
Acrescenta também que aqueles que caíram em heresia podem arrepender-se e voltar ao seio da Igreja Católica:
“Ora, no que me toca, fiz o que me cabia como homem sempre disposto à união; porque onde há cisão e ira não habita Deus. Pois bem, a todos os que se arrependerem o Senhor perdoa, com a condição de que seu arrependimento termine na unidade de Deus e no senado do bispo. Confio na graça de Jesus Cristo, que Ele desatará de vós toda ligadura. Contudo, vos exorto a que nada façais por espírito de contenda, mas como diz aos discípulos de Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfios 8,1-2)
“Afastai-vos das ervas daninhas, que Jesus Cristo não cultiva, pois os hereges não são plantação do Pai. E não digo isso porque houvesse encontrado entre vós cisão; o que encontrei foi pureza. E é assim que, todos os que são de Deus e de Jesus Cristo, esses são os que estão ao lado do bispo. Ora, todos os que, arrependidos, voltarem à unidade da Igreja, também esses serão de Deus, a fim de que vivam conforme a Jesus Cristo. Não vos enganeis, irmãos meus. Se alguém segue um cismático, não herda o reino de Deus. O que caminha contrário à Igreja não pode ter parte na paixão do Senhor.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfios 3,1-3)
É importante também reunir-se em comunidade na Igreja, e contrasta esta atitude com a do soberbo que diz ter fé mas não comparece à reunião dos fiéis:
“Que ninguém se iluda. Se alguém não está dentro do âmbito do altar, priva-se do pão de Deus. Porque se a oração de um ou dois tem tanta força, quanto mais a do bispo juntamente com toda a Igreja! Assim, pois, o que não comparece à reunião dos fiéis já é um soberbo e ele mesmo pronuncia sua própria sentença. Porque está escrito: Deus resiste aos soberbos. Empreguemos, pois, esforço em não resistir ao bispo, a fim de estarmos submetidos a Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 5,2-3)
Justificação pela fé
Sua doutrina sobre a justificação mantém-se em consonância com a de todos os primeiros padres: somos justificados pela fé, mas pela fé que vai unida à caridade, portanto, a fé que salva é aquela que é uma verdadeira fidelidade que nos leva a permanecer unidos e firmes na obediência a Deus e seus mandamentos até o fim:
“Os carnais não podem praticar as obras espirituais, nem os espirituais as carnais, do mesmo modo que a fé não tolera as obras da infidelidade nem a infidelidade as da fé. Contudo, ainda o que fazeis segundo a carne converte-se em espiritual, pois tudo o fazeis em Jesus Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 8,2)
“Nada de tudo isso vos está oculto, como tenhais em grau acabado para com Jesus Cristo aquela fé e caridade que são princípio e termo da vida. O princípio, quero dizer, a fé; o termo, a caridade. As duas, entrelaçadas na unidade, são Deus, e todo o mais, que concerne à perfeição e santidade, delas se segue. Ninguém que proclama a fé peca; nem ninguém que possui a caridade aborrece. A árvore manifesta-se por seus frutos. Do mesmo modo, os que professam ser de Cristo, por suas obras se porão de manifesto. Porque não é agora o negócio proclamar a fé, mas manter-se na força dela até o fim.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 14,1-2)
Está claro que pensava, ao contrário dos reformadores protestantes, que a salvação fosse algo que podia ser perdida se não se permanecia em estado de graça. Tanto é assim que pede orações por sua salvação, para que seja encontrado digno e não reprovado no momento de morrer:
“Peço a Deus que me ouçais com amor, para que minha carta não se converta em testemunho contra vós. Rezai também por mim, pois necessito de vossa caridade ante a misericórdia de Deus, a fim de me tornar digno daquela herança que me cabe alcançar, e não ser declarado réprobo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos 12,3)
Primado da Sé Romana
Embora ao longo de suas cartas Santo Inácio não toque o tema da primazia jurisdicional da Igreja de Roma como sede dos sucessores de São Pedro, não passa despercebido a uma leitura atenta de suas cartas o tom distinto que utiliza ao dirigir-se à Igreja de Roma. Pode fazer o exercício e comparar a saudação que dirige a cada uma das distintas igrejas com a saudação que dirige à aquela que “preside em Roma”, que está “posta à frente da caridade”. O tom ressalta não somente pela quantidade de louvores e elogios, mas pela deferência própria de quem se dirige a um superior, dando por entendido que Roma presidia sobre o restante das igrejas e não somente sobre seu próprio território.
“Inácio, por sobrenome Portador de Deus: à Igreja que alcançou misericórdia na magnificência do Pai altíssimo e de Jesus Cristo seu único Filho; a que é amada e está iluminada pela vontade de Aquele que quis todas as coisas que existem, segundo a fé e a caridade de Jesus Cristo Deus nosso; Igreja, além disso, que preside na capital do território dos romanos; digna ela de Deus, digna de todo decoro, digna de toda bem-aventurança, digna de louvor, digna de alcançar tudo o que deseje, digna de toda santidade; e posta à frente da caridade, seguidora que é da lei de Cristo e adornada com o nome de Deus: minha saudação em nome de Jesus Cristo, Filho do Pai…” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, Prólogo)
E ao estar posta “à frente da caridade” imparte instrução também às demais igrejas e à própria Igreja da qual Santo Inácio é bispo:
“A ninguém jamais tivestes inveja; a outros ensinastes a não tê-la. Ora, pois, o que eu quero é que o que a outros ordenais quando os instruís como discípulos do Senhor, seja também firme em relação a mim. O único que deveis pedir por mim é força, tanto interior como exterior, a fim de que não só fale, mas que esteja também decidido; para que não somente, digo, eu me chame cristão, mas que me mostre como tal.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 3,1)
É significativo também que, embora não deixe o cuidado de sua Igreja a nenhuma outra, sim o faz com Roma, pedindo que ela exerça com ela o ofício de bispo.
“Lembrai-vos em vossas orações da Igreja da Síria, que tem agora, em lugar de mim, a Deus por pastor. Somente Jesus Cristo e vossa caridade exercerão com ela o ofício de bispo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 9)
Depreende-se também que Santo Inácio conhecia bem o fato de que a Igreja de Roma foi governada por São Pedro e São Paulo:
“Não vos dou eu mandamentos como Pedro e Paulo. Eles foram Apóstolos; eu não sou mais que um condenado à morte; eles foram livres; eu, até o presente, sou um escravo…”(Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 4,3)
Virgindade de Maria
Santo Inácio fala da virgindade de Maria como de um milagre tão assombroso que ficou oculto ao próprio Satanás, embora não seja suficientemente explícito para ter certeza de que se referia não só à virgindade antes do parto, mas também à virgindade durante e após o parto:
“Ficou oculta ao príncipe deste mundo a virgindade de Maria e o parto dela, do mesmo modo que a morte do Senhor: três mistérios sonoros que se cumpriram no silêncio de Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 19,1)
O domingo como dia do Senhor
Os adventistas do Sétimo Dia e outras seitas sabatistas acusam a Igreja Católica de substituir o sábado pelo domingo como dia de descanso, violando o mandamento de Deus. Asseguram também que esta mudança se deveu a manipulações do imperador Constantino durante o século IV para impor às “escondidas” o culto ao Deus Sol.
Porém, quase três séculos antes, Santo Inácio afirmou que aqueles que guardavam o sábado e não o domingo como os cristãos tinham se deixado enganar por doutrinas estranhas e terminaram judaizando, mas que os cristãos guardavam como dia do Senhor o domingo em virtude de ter sido o dia em que ressuscitou o Senhor.
“Não vos deixeis enganar por doutrinas estranhas nem por esses contos velhos que não servem para nada. Porque se até o presente vivemos ao estilo dos judeus, confessamos não ter recebido a graça …
Ora, se os que haviam sido criados na antiga ordem das coisas vieram à novidade de esperança, não guardando já o sábado, mas vivendo segundo o domingo, dia em que também amanheceu nossa vida pela graça do Senhor e mérito de sua morte —mistério que alguns negam, sendo assim que por ele recebemos a graça de crer e por ele sofremos, a fim de sermos encontrados discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 8,1; 9,1)
“Coisa absurda é levar Jesus Cristo na boca e viver judaicamente. Porque não foi o cristianismo que acreditou no judaísmo, mas o judaísmo no cristianismo, em que se congregou toda língua que crê em Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 10,3)
“Mas se algum vier a vós com interpretações sobre o judaísmo, não o escuteis. Porque mais vale ouvir o cristianismo dos lábios de um homem com circuncisão do que o judaísmo dos lábios de um incircunciso.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfios 6,1)
É provável que estas advertências se devam ao fato de que ainda havia alguns cristãos que se aferravam às antigas ordenanças da Lei Mosaica (circuncisão, dízimo, sábado como dia de descanso, alimentos impuros), conflito que já deixou marca no Novo Testamento e que desencadeou o Concílio de Jerusalém (At 15). O próprio São Paulo, de quem foi discípulo Santo Inácio, já no Novo Testamento havia advertido na mesma linha: “Portanto, que ninguém vos critique por questões de comida ou bebida, ou a propósito de festas, de novilúnios ou sábados.” (Cl 2,16)
Matrimônio e celibato
Santo Inácio mantém-se na mesma linha de São Paulo a respeito de suas recomendações sobre o celibato e o matrimônio. O apóstolo dos gentios havia escrito à comunidade de Corinto que o celibato era o estado ideal para servir ao Senhor: “Digo aos celibatários e às viúvas: Bem lhes está ficarem como eu. Mas se não podem conter-se, que se casem; melhor é casar do que abrasar-se… O não casado preocupa-se das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se das coisas do mundo, de como agradar à sua mulher; assim dividido.” (1 Cor 7,8-9.33-34). As recomendações de Santo Inácio são praticamente idênticas:
“Da mesma forma, prega a meus irmãos, em nome de Jesus Cristo, que amem a suas esposas como o Senhor à Igreja. Se alguém se sente capaz de permanecer em castidade para honrar a carne do Senhor, que permaneça sem arrogância. Se se ensoberbece, está perdido, e se se estimar acima do bispo, está corrompido. Quanto aos que se casam, esposos e esposas, convém que celebrem sua união com o conhecimento do bispo, a fim de que o casamento seja conforme ao Senhor e não por puro desejo. Que tudo se faça para a honra de Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo 5,1-2)
A frase “convém que celebrem sua união com o conhecimento do bispo, a fim de que o casamento seja conforme ao Senhor” merece atenção especial. Inácio não dá aqui um conselho opcional nem uma norma meramente disciplinar: afirma que o matrimônio cristão, para ser “conforme ao Senhor” —ou seja, para ter seu pleno valor sobrenatural—, requer a mediação da Igreja através do bispo. Esta é a concepção sacramental do matrimônio: o vínculo conjugal não é um assunto puramente civil nem uma transação privada entre dois indivíduos, mas um acontecimento eclesial que entra na vida sacramental da Igreja e exige seu reconhecimento formal. Os reformadores protestantes, ao contrário, dessacramentalizaram o matrimônio, reduzindo-o em alguns casos a um contrato civil com bênção religiosa opcional; Lutero chegou a afirmar que o matrimônio era “um assunto mundano”. Contra esta posição, Inácio —escrevendo no ano 107 com uma cadeia de Tradição direta até os apóstolos— exige que o matrimônio cristão passe pelo bispo. É o testemunho mais antigo fora do Novo Testamento que associa o matrimônio com a autoridade eclesial, antecipando a doutrina que a Igreja desenvolverá nos séculos seguintes.
Despojamento e pobreza espiritual
A perspectiva da Igreja primitiva a respeito da importância dos bens materiais e do despojamento dos mesmos era muito distinta das teologias heréticas contemporâneas que circulam e se popularizam em comunidades eclesiais protestantes e inclusive em algumas comunidades católicas. Ao contrário, por exemplo, do que se conhece como “teologia da prosperidade”, para Santo Inácio os bens deste mundo e inclusive a vida não valem nada em comparação com a vida eterna, de modo que a cobiça é antes um empecilho e um obstáculo:
“Nada de nada me aproveitarão os confins do mundo nem todos os reinos deste século. Para mim, melhor é morrer em Jesus Cristo do que ser rei dos limites da terra. ” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 6,1)
“Não tenhais a Jesus Cristo na boca e depois cobiçeis o mundo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 7,1)
- O arianismo é uma heresia do século IV que recebeu seu nome de Ário (256-336), sacerdote de Alexandria e depois bispo líbio, que desde o ano 318 propagou a ideia de que não há três pessoas em Deus, mas uma única pessoa, o Pai. Jesus Cristo não era Deus, mas havia sido criado por Deus do nada como ponto de apoio para o seu Plano. O Filho é, portanto, criatura, e o ser do Filho tem um princípio; houve, portanto, um tempo em que ele não existia. Ao sustentar essa teoria, negava a eternidade do Verbo, o que equivale a negar sua divindade. Sob essa perspectiva, Jesus não é verdadeiramente Deus. Embora Ário se tenha ocupado principalmente de despojar da divindade a Jesus Cristo, fez o mesmo com o Espírito Santo, que igualmente percebia como criatura, e inclusive inferior ao Verbo. ↩
- Tem-se tornado cada vez mais comum entre os teólogos modernos aceitar a hipótese do tardio desenvolvimento do episcopado monárquico, como explica Francis A. Sullivan (From Apostles to Bishops, The Newman Press, New York 2001). O mesmo autor adere nessa obra a essa hipótese. ↩
- Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos, Biblioteca de Autores Cristianos 65, Quinta Edição, Madrid 1985, p. 421-422 ↩
- José Orlandis, Breve Historia del Cristianismo, Ediciones RIALP, Sexta edição, Madrid 1999, p. 25-26 ↩