Nos capítulos anteriores estive tratando o tema do castigo, especificamente como a ideia de que Deus nunca castiga foi se infiltrando no povo católico ao ponto de ser frequentemente ouvida em pregações, homilias, inclusive de pessoas muito bem preparadas. Mas de onde veio essa alergia à palavra “castigo” ou ao que essa palavra significa, mesmo entre pessoas muito boas e bem formadas? O Papa Bento XVI deu um diagnóstico lúcido que pode nos esclarecer:
“O arcebispo de Dublin me comentou algo muito interessante. Disse que o direito penal eclesiástico funcionou até os últimos anos da década de 1950 e que, embora não fosse perfeito — muito há nele para criticar —, era aplicado. Mas desde meados da década de 1960, simplesmente deixou de ser aplicado. Prevalecia a consciência de que a Igreja não devia ser mais Igreja do direito, mas Igreja do amor, que não devia castigar. Assim, perdeu-se a consciência de que o castigo pode ser um ato de amor.
Nessa época, houve também entre pessoas muito boas uma peculiar obscurecimento do pensamento. Hoje temos de aprender novamente que o amor ao pecador e ao prejudicado está em seu justo equilíbrio mediante um castigo ao pecador aplicado de forma possível e adequada. Nesse sentido houve no passado uma transformação da consciência através da qual se produziu um obscurecimento do direito e da necessidade do castigo, e em última instância também um estreitamento do conceito de amor, que não é, precisamente, apenas simpatia e amabilidade, mas que se encontra na verdade, e da verdade faz parte também ter de castigar aquele que pecou contra o verdadeiro amor.”[1]
Dessa maneira, quis-se erradicar tanto a ideia de um Deus que possa castigar se assim o decidir, como a imagem de uma Igreja que castiga com as penas medicinais a quem assim o merece. Simplesmente, não resulta politicamente correto falar do castigo divino nos dias de hoje.
Será apenas um problema de semântica?
Assim, para encerrar este fio de reflexões, quero abordar com mais detalhe o problema da terminologia, pois algumas das pessoas que ouvi opinar sobre este tema me disseram que talvez se trate tudo de um problema de semântica: que provavelmente estamos todos dizendo a mesma coisa com palavras diferentes.
E não seria melhor ensinar somente que Deus “corrige” sem utilizar a palavra “castigo”, evitando assim o risco de que pessoas pouco formadas façam uma ideia de um Deus “castigador” e “vingativo”? Não seria mais conveniente apresentar um Deus “bonzinho” que, por ser pura misericórdia, jamais nos vai castigar? Uma palavra mais “suave” que diga essencialmente a mesma coisa talvez pudesse ajudar, pensam alguns?
Pois bem, em minha opinião não se trata apenas de um problema de terminologia, mas de uma má compreensão da doutrina católica, que se manifesta em uma incapacidade de entender a justiça divina à luz de sua misericórdia. Mas antes de tratar disso, revisemos brevemente o significado da palavra “castigo”.
Clarificando mais uma vez o significado da palavra “castigo”
Em meu primeiro comentário dizia que as questões terminológicas são de segunda ordem em relação às questões de fundo ou de conteúdo e porque cada um tem o direito de escolher sua própria terminologia, dentro de certos limites. Mas… É conveniente que neste caso cada um use sua própria terminologia? Sabemos que um “castigo” é simplesmente a “pena que se impõe a quem cometeu um delito ou falta” (RAE); se alguém quiser chamá-lo de correção, talvez não haja problema. Apontarei agora por que penso que isso não é conveniente:
1) Ainda que o castigo possa ter caráter corretivo, como é o caso do castigo temporal, também tem caráter vindicativo, pois busca além disso a conversão do pecador e expiar a ofensa infligida a Deus e restaurar a ordem moral perturbada pelo pecado. Portanto, é correto dizer que a palavra “castigo” não é sinônimo de “correção”, embora possa compreendê-la. O castigo pode ter somente caráter vindicativo, como é o caso do castigo eterno ou da condenação.
2) O povo de Deus sempre entendeu o castigo divino nesse sentido, compreendendo ao mesmo tempo seu caráter corretivo e vindicativo, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, bem como na Igreja primitiva, nos escritos dos Santos e Padres da Igreja e no Magistério. Nunca se deve deixar de pregar a verdade mesmo que não seja o politicamente correto. O que entenderá um fiel que leia as obras dos santos e encontre que se fala nitidamente da noção de que Deus pode castigar, e depois veja que agora se propaga a doutrina contrária? Não seria melhor ensinar a verdade conforme as Escrituras e a Tradição, de modo que os fiéis possam compreender retamente que a justiça divina não entra em conflito com sua misericórdia? Não diz acaso a Bíblia que “o Senhor corrige a quem ama, e açoita todo filho que recebe” (Hb 12,6)?
3) É um erro assumir que houve um “desenvolvimento” da doutrina cristã alterando a posição da Igreja nesse ponto. Em primeiro lugar, há que se recordar que a doutrina se desenvolve sempre no mesmo sentido e não de maneira transformista. Em segundo lugar, não há nada no Magistério que permita inferir ou suspeitar isso. Muito pelo contrário: se os que afirmam que Deus não castiga pudessem citar um único documento magisterial onde se afirme tal coisa, já o teriam feito e não teriam precisado recorrer a citações parafraseadas nas quais nem sequer aparece a palavra “castigo”. Não é difícil encontrar muitas referências explícitas do Magistério, incluindo Concílios Ecumênicos, dizendo o contrário, como foi evidenciado nas entregas anteriores.
Esclarecimentos pertinentes
Por último, quero esclarecer um ponto desagradável. Fiquei sabendo pelas redes sociais que Alejandro Bermúdez entendeu que o acusei a ele e a nosso irmão Frank Morera de serem “hereges” ou de estarem contra a doutrina católica. Aproveito para esclarecer-lhe que isso não é verdade. Apontei que estão equivocados nesse ponto, e que por sua relevância nos meios de comunicação isso faz com que seu erro afete mais pessoas, mas para ser herege são necessários certos elementos que ele certamente conhece tão bem quanto eu, e não me cabe fazer esse tipo de julgamentos. Este problema transcende em muito o erro pontual que dois comunicadores católicos possam cometer; trata-se de um erro que se encontra na pregação inclusive de sacerdotes — sem ir muito longe, minha própria irmã, na Missa do dia em que eu escrevia isso, ouviu o sacerdote pregar na homilia que Deus não castiga.
Minha exortação é que ensinemos a doutrina católica tal como a Escritura, o Magistério e a Tradição sempre a ensinaram, não cedendo à tentação do politicamente correto, nem nos apegando a uma ideia da moda que, como disse Bento XVI, ainda que se encontre entre pessoas muito boas, não é senão uma “peculiar obscurecimento do pensamento” que “perdeu a consciência de que o castigo pode ser um ato de amor”.
- Bento XVI, A Luz do Mundo, Herder 2010, p. 16-17 ↩