Sempre Fiel

Não há dúvida de que a pergunta que mais escuto das pessoas é: por que o senhor não se casa? Jovens, senhoras, taxistas, vendedores de chiclete, garçonetes, meninos, meninas e até alguma vovó já me perguntaram.

A curiosidade os aguilhoa e querem saber o que acontece com os padrezinhos para que não tenham mulher.

Todo mundo sabe que nós, sacerdotes católicos, não nos casamos, mas poucos sabem por quê. Alguns se surpreendem, outros se admiram e há ainda outros, sobretudo os evangélicos, que se assustam.

Os protestantes evangélicos atacam muitas tradições da Igreja porque não as compreendem. E como atiram pedras ao celibato dos padres católicos! (O celibato é o compromisso de não se casar.) Vejamos o que dizem e como podemos responder-lhes. É uma lei de Deus?

A megasseita de Guadalajara, La Luz del Mundo, distribui um folheto que denigre o celibato. A primeira coisa que diz é: o celibato dos sacerdotes é uma lei divina ou uma lei dos homens? Com essa pergunta querem nos fazer pensar que, se não é uma lei de Deus, está errado.

O curioso é que a Igreja Católica nunca acreditou nem ensinou que o celibato fosse uma lei divina! É uma simples norma disciplinar.

Ou seja, minha Igreja me pede que não me case para que eu me dedique em tempo integral às almas que devo servir como sacerdote. Como não tenho a preocupação de uma família própria, posso estar 100% pelos e para os fiéis.

Nem sempre foi assim. Sabemos que São Pedro era casado porque tinha sogra. Sabemos que alguns dos primeiros papas, bispos e sacerdotes da Igreja que Cristo fundou também eram casados. Mas, pouco a pouco, fomos percebendo que todos poderiam servir melhor a Deus e a seus irmãos se fossem celibatários. Assim, no ano 303 d.C., no Concílio de Elvira, na Espanha, estabeleceu-se a norma do celibato, embora a tradição já existisse em toda a Igreja.

Mas será que a Igreja pode impor uma norma como o celibato? Por que não? Toda instituição humana tem suas normas. O exército pede a seus membros que cortem o cabelo da forma estabelecida pela norma. Quem discute a legitimidade dessa norma? Que eu goste ou não é outra questão…mas está claro que o exército pode exigir o que considere necessário ou proveitoso para seus membros.

O argumento de que o celibato vai contra a natureza do homem nasce de um pobre conceito do homem. Somente quem acha que o homem não é melhor do que um animal completamente dominado por seus instintos pode pensar que o celibato é algo desumano.

Tantos homens que viveram o celibato feliz e fielmente são testemunhos de que se pode educar e elevar a sexualidade da pessoa humana em prol de uma entrega maior. O que diz a Bíblia?

Os evangélicos afirmam que o celibato é proibido pela Bíblia. Mas o matrimônio nunca foi obrigatório, e a Bíblia o demonstra: Jesus nunca se casou, nem João Batista, nem a maioria dos Apóstolos, nem São Paulo. A frase do Gênesis, “Sede fecundos e multiplicai-vos”, é um preceito geral para a humanidade, não um mandato divino a cada indivíduo. De outra forma, qualquer um que chegasse à idade de casar e não o fizesse cairia em pecado.

Jesus recomendou o estado celibatário para os que queriam segui-lo de forma mais próxima: “Porque há eunucos que nasceram assim do ventre materno; há eunucos que foram feitos tais pelos homens; e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem é capaz de entender, entenda!” (Mt 19,11-12) (eunuco, neste contexto, significa uma pessoa que vive sem ter relações sexuais)

Cristo também disse: “Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos ou irmãs, pai ou mãe, esposa, filhos ou campos por causa do meu nome receberá o cêntuplo e herdará a vida eterna.” (Mt 19,29; Mc 10,28; Lc 18,28)

São Paulo torce por nós!

O próprio São Paulo, o apóstolo predileto dos protestantes, escreveu: “Quereria que todos os homens fossem como eu…Aos solteiros e às viúvas digo que lhes convém permanecer como eu; mas, se não podem guardar a continência, casem-se.” (1Cor 7,8-9) E, mais adiante: “Estás solteiro? Não te cases….Quero-vos livres de preocupações. O solteiro se preocupa com as coisas do Senhor e com o modo de lhe agradar. O casado se preocupa com as coisas do mundo e com o modo de agradar à esposa; e está, pois, dividido…Em conclusão, quem casa com sua noiva faz bem, e quem não se casa faz melhor.” (1Cor 7,27.32-33.38)

O fato de Paulo ordenar a Timóteo que o bispo tenha uma só esposa (como em 1Tm 3,2) não significa que seja obrigado a casar-se. O sentido pleno do que Paulo diz é que o bispo seja um homem exemplar em todos os aspectos de sua vida. Se for casado, que o seja com uma só mulher e não com várias. É a mesma mensagem que Paulo transmite um pouco mais adiante, quando diz: “…que saiba governar bem a sua própria casa e ter os filhos submissos com toda dignidade; pois quem não sabe governar a própria casa, como cuidará da Igreja de Deus?” (1Tm 3,4-5)

Mas nem os papas cumpriam!

O folheto da Luz del Mundo que ataca o celibato apresenta alguns exemplos de papas que não conseguiram viver segundo essa norma da Igreja. A verdade é que essa seita nunca se preocupou muito com a verdade das coisas ou com o contexto dos dados.

Mas imaginemos por um momento que algumas ou todas as acusações feitas no folheto contra os diversos papas fossem verdadeiras. O que provam? Que o celibato não é uma norma legítima para o sacerdote católico? Que o celibato não passa de uma maquinação dos papas para submeter os sacerdotes à sua vontade? Que Cristo não fundou a Igreja?

Não. Apenas nos mostra que o homem, por mais alta e sagrada que seja a sua responsabilidade, continua sendo homem.

Sabemos, de fato, pela história que houve papas que se entregaram à imoralidade e aos costumes indecentes em épocas em que ser bispo de Roma era um privilégio político. Atraídas pelo poder material, as famílias ricas e pouco escrupulosas da antiga Itália faziam o possível para colocar algum de seus membros no Vaticano. É claro que a retidão e a temperança não contavam entre as qualidades exigidas do candidato.

Dizer que a norma do celibato não vale porque alguns homens não sabem cumpri-la seria como retirar todos os semáforos das ruas do México porque algumas pessoas não os respeitam.

Mas o papa não é infalível? Infalível, sim, quando ensina oficialmente em matéria de fé e moral. Mas impecável, não. Nunca.

E dos 264 papas que houve na história desde que Jesus Cristo colocou Pedro como cabeça visível de sua Igreja, como é que a Luz del Mundo só se lembra dos poucos que escandalizaram crentes e não crentes igualmente com seu estilo de vida? A imensa maioria dos sucessores de Pedro foi digna do cargo e deu ao mundo inteiro um exemplo de coerência moral. Basta repassar a lista dos papas dos últimos 200 anos para se dar conta.

Oxalá saibamos, nós, fiéis católicos, agradecer ao Senhor esse dom do Espírito que nos deu: o de que milhares e milhares de homens e mulheres católicos fizeram o sacrifício de não ter família própria para serem nossos pais.

Fonte: Churchforum.org