Fonte: Extrato de Michael Schmaus, Teologia Dogmática, A Trindade de Deus, Edições Rialp, Madri 1960, § 95
(Revisão Teológica do M. I. Sr. D. JOSÉ M.ª CABALLERO CUESTA, Cônego Letoral de Burgos)
1. O amor de Deus a si mesmo é o sim digno dEle à sua infinita perfeição; o amor às criaturas, o sim às coisas extradivinas, que se realiza de modo íntimo, poderoso e criador. O amor de Deus a si mesmo é a autoafirmação de Deus e corresponde à perfeição e dignidade divinas absolutas; o amor às criaturas é um ato mediante o qual Deus comunica livremente a bondade divina ao extradivino. Como foi dito em outro lugar, o amor divino é um ato simples de força e intimidade infinitas, mas se manifesta em diferentes efeitos, constituindo desse modo o fundamento do ser e, portanto, também o fundamento das diferentes perfeições das criaturas. Daí se deduz que é um amor objetivo, adequado ao ser, isto é, que se realiza de maneira justa.
2. É uma verdade da Revelação que Deus é infinitamente justo. Quando afirmamos que Deus é justo, queremos dizer que conhece e valora devidamente seu próprio ser absoluto. É preciso ter em conta que Deus não descobre em determinado momento o seu valor, como se então o elevasse ao plano da consciência, o percebesse e valorasse devidamente. Antes, sua perfeição e a devida valoração desta são uma única e idêntica realidade: o eu pessoal divino. Deus existe sob a forma de justiça, na medida em que existe sob a forma de valor pessoal, absoluto, afirmando-se a si mesmo com força e intensidade irrevogáveis. Não existe norma nem lei alguma que sirva a Deus para julgar-se a si mesmo. Ele é sua própria lei e norma. Existe sob a forma de lei pessoal.
3. Na esfera do extradivino Deus se manifesta sob a forma de justiça criadora, legisladora e retribuidora.
a) Como justiça criadora se manifesta na medida em que Deus revela de maneira finita e diversa seu valor absoluto, mediante a criação de coisas extradivinas. A justiça de Deus exige que Ele se manifeste a si mesmo nas criaturas e que manifeste seu valor absoluto, de modo que não exista nada que não seja uma manifestação desse valor absoluto. Não se opõe à justiça de Deus o fato de que comunique às coisas graus superiores ou inferiores de existência. Com efeito, Deus determina com absoluta liberdade e soberania o grau do ser de cada uma das criaturas. Se todas as coisas foram criadas por Deus, ao mantê-las na existência, aprecia e valora cada uma delas com estrita justiça objetiva.
b) Ao mesmo tempo, introduz nas coisas forças e inclinações por meio das quais podem se desenvolver de tal modo que a essência inata adquira a forma plena e total desejada por Deus. Às criaturas racionais Ele impôs leis que são caminhos por meio dos quais podem chegar ao estado de consumação desejado por Deus. Essas leis não impõem às criaturas dotadas de razão deveres alheios à essência; antes, são prescrições cujo cumprimento nos conduz até a meta natural ou sobrenatural a que Deus nos destinou ao criar-nos e redimir-nos; isto é, conduzem à realização final da essência humana, ou, o que é o mesmo, à autorrealização do homem determinada e operada por Deus sem detrimento da liberdade humana.
Quem se submete obedientemente a elas, comporta-se de modo adequado à sua essência; quem as rejeita, comporta-se de modo oposto à sua essência. Resulta, pois, que os preceitos de Deus são revelações de seu amor, daquele amor que chama o homem para conduzi-lo à plenitude da vida e da existência. Assim se compreende que o Antigo Testamento, especialmente os Salmos, louve com alegria a lei divina. As leis impostas por Deus, Senhor da Criação, para erigir e conservar sua soberania, não são limitação e opressão da vida humana; antes pelo contrário, livram-na da estreiteza e da opressão. Se ao homem lhe parece que não é assim, a razão disso há que se buscar na autocracia e no orgulho humanos e na consequente cegueira, que o impede de conhecer sua verdadeira vida e existência, bem como a modéstia que estas comportam.
c) A justiça retribuidora é uma atitude mediante a qual Deus premia o bem e castiga a maldade (iustitia remunerativa et vindicativa). Em razão de sua perfeição autoafirmativa e autopossuída, Deus determinou que seja premiado o valor moral e que seja castigado o pecado. A Deus não se pode atribuir a justiça comutativa entendida em sentido ordinário. Com efeito, essa justiça implica uma obrigação jurídica estrita de serviços recíprocos, enquanto Deus não tem obrigação alguma para com ninguém (Rm 11,35; 1 Cor 4,7). Deus castiga a maldade impondo não só penas destinadas a melhorar e escarmentar os maus (Socinianos, Stattler, Hermes), mas também castigos vindicativos (Sb 11,17; Jr 32,18; Rm 12,19). Por meio do castigo fica restabelecida a ordem que o pecado havia perturbado. É certo, não obstante, que Deus poderia perdoar sem impor castigos (o contrário afirmam Santo Anselmo, Tournely, Dieringer), ainda que não sem que preceda o arrependimento. (Veja a doutrina sobre os méritos, Redenção e Novíssimos. No que diz respeito ao conceito de “mérito”, veja o tratado sobre a Graça.)
4. No Antigo Testamento, a justiça de Deus é descrita sobretudo como justiça remunerativa e vindicativa. Cf.: Sl 1; 11 (10); 50 (49); 75 (74); 78 (77); 94 (93),20-23; Na 9; Is 15,16; Sf 1,14-18; Jr 32,17-19. É certo que se diz de Deus que é juiz severo, mas jamais se lhe atribuem arbítrio ou capricho. A norma de seus julgamentos é sua perfeição, afirmada com decisão e incondicionalidade. No Novo Testamento, vejam-se, entre outras passagens: Jo 17,25; At 17,31; Rm 2,2; 1 Cor 4,5; 2 Cor 5,10; 2 Tm 4,8.
Se no Antigo Testamento se acentua mais a rígida severidade de Deus do que o amor divino, a razão disso há que se buscar em uma especial pedagogia divina da salvação. Isso não quer dizer que Deus foi se tornando mais benigno com o passar do tempo, de modo que nEle o amor foi pouco a pouco predominando sobre a justiça. Além disso, convém observar que tampouco no Antigo Testamento falta a revelação do amor. Essa revelação se verifica com tanta clareza que os fiéis a percebem com absoluta evidência, de modo que seus corações transbordam de alegria. Certo é, no entanto, que não chega a alcançar a clareza e a força que apresenta a revelação do amor no Novo Testamento.
5. Em Deus, o amor e a justiça não se encontram em estado de oposição e luta. Nas manifestações do amor, a justiça não fica enfraquecida ou relegada a segundo plano. O amor e a justiça se compenetram totalmente (Sl 25,10). O amor e a justiça não são tampouco duas atitudes paralelas e independentes, mas uma única e idêntica realidade. A justiça de Deus se revela na medida em que nos faz participar de sua glória e perfeição, de modo correspondente à sua bondade; isto é, por via de amor. O amor se manifesta valorizando e tratando às criaturas segundo a medida de sua participação na bondade divina, manifestando-se sob a forma de justiça. Na esfera extradivina, o amor e a justiça aparecem com frequência separados porque não nos possuímos com força suficiente como para nos comunicar devidamente, e porque não somos capazes de apreciar devidamente o valor de uma coisa ou pessoa com tanta exatidão como para que possamos entregar-lhes nosso amor do modo devido.
Deus abarca a todas as criaturas com amor infinito e justo, com força e intimidade infinitas, com justiça amorosa. Deus ama a tudo o que existe, agindo justamente, e amando a tudo o que existe, Deus age com justiça. O amor se manifesta guardando o respeito devido ao homem livre. Deus não o obriga a aceitar seu amor. Não despoja o homem de sua vontade livre, com a qual pode fugir do amor de Deus. Essa fuga — isto é, a rebelião contra Deus — implica consequências fatais para o indivíduo, a comunidade e o mundo inteiro. O pecador se destrói a si mesmo e destrói o mundo. Deus deixa o pecador no estado de perdição que irrompe sobre ele, faz com que experimente o absurdo do pecado e da rebelião contra o amor. Desse modo, adota uma atitude justa perante o pecador. O amor e a justiça de Deus andam, pois, juntos. O amor é prêmio para quem o aceita livremente; converte-se em justiça condenatória para quem lhe fecha as portas de sua alma. O amor é a forma da justiça, e a justiça é a forma do amor.
Com toda clareza aparece a união do amor e da justiça na morte de Cristo na Cruz. (Veja o tratado sobre a Redenção.)
A existência do inferno não contradiz a afirmação de que em Deus o amor e a justiça são formalmente idênticos. Esta forma vital funda-se também num amor que é ao mesmo tempo justiça. Deus não violenta a vontade humana, não trata o homem como se fosse uma máquina, mas o trata como um ser responsável por suas ações; tem do homem um conceito elevado e, por isso, não impõe a vida de amor e de adoração àquele que a rejeita por egoísmo e de maneira autocrática. Na medida em que o homem se aparta de Deus, rejeitando o Valor pessoal absoluto, rebela-se contra as comunicações do amor divino. Se o amor se impusesse contra a vontade do homem, obrigando-o a uma vida de amor e de adoração, produziria no homem endurecido pelo egoísmo tormentos inimagináveis. Deus concede ao homem o que este deseja: uma vida de absoluta autonomia. É, pois, justo que ele experimente o afastamento de Deus sob a forma de dilaceramento desesperado e de triste solidão. Não obstante, o condenado não se arrepende, não pode arrepender-se. Prefere, pois, a vida de rebelião à vida de adoração e suporta as consequências disso. Se, para obter a plenitude da vida, tiver de se submeter a Deus, prefere renunciar a essa plenitude.