Um leitor pergunta:

Bem, quero lhes contar o que me aconteceu. Meu nome é Daniela, tenho 23 anos, estou esperando meu primeiro filho, estou com 22 semanas de gravidez, e detectaram que meu bebê tem múltiplos problemas de malformações. Não há nada a fazer, e suas chances de sobrevivência são nulas; posso perdê-lo antes dos nove meses, ou chegar ao fim, mas com o mesmo desfecho fatal. Não me resta senão esperar o que Deus quiser, mas o que posso fazer? Sinto uma dor e uma amargura muito grandes. O que posso fazer para aliviar, ao menos em parte, esta grande dor que sinto? Por favor, ajudem-me.

Resposta:

Cara Daniela:

Compreendo a sua dor. Por isso não me ocorre nada melhor do que enviar-lhe o testemunho de outra jovem que passou pela mesma situação que você. Ela o escreve a propósito da iníqua lei que foi aprovada na Argentina, permitindo o aborto dos bebês anencéfalos; mas o que diz sobre a relação com seu filho tem um significado mais amplo.

Amor de mãe
Senhor Diretor:

“Minha primeira menininha não viveu muito, apenas sete meses em minha barriga; mas foi tanto o que me ensinou que é por ela que escrevo esta carta.
“Minha menininha tinha anencefalia. Soubemos disso desde a primeira ultrassonografia e, é claro, choramos. Choramos ao saber que ela não conseguiria viver fora de mim, talvez algumas horas, no máximo um dia. Depois nos sentamos para refletir e percebemos que minha menininha teria vida enquanto eu a protegesse, que dentro de mim ela poderia consegui-lo e que aqueles nove meses seriam tudo para ela. E assim, de cabeça erguida, senti-me a orgulhosa mãe de minha primeira filha.
“Passou o tempo e eu desfrutava sentindo-a crescer e mover-se dentro de mim, e fui feliz em sua companhia por uns poucos meses. Fui mãe pela primeira vez, e o fui de um modo muito especial, de alguém que precisava de tudo de mim para viver feliz. No sétimo mês, um dia deixei de senti-la. O esforço de virar-se tinha sido demais para ela, e seu coração parou de bater. E novamente chorei. Choramos sua morte precoce como qualquer pai choraria a morte sempre precoce de um filho.
“Diante da ignorância demonstrada pelos legisladores da Cidade de Buenos Aires, pergunto-me: é deixando morrer o próprio filho que se quer evitar o sofrimento de uma mãe? Não seria melhor para ela poder entregar a seu filho todo o amor de uma vida, ainda que seja apenas por uns poucos meses?”

María Mihura de Kenny

(a carta da Sra. María Mihura de Kenny foi publicada como Carta ao Leitor no jornal La Nación).

Autor: Pe. Miguel Ángel Fuentes

Fonte: O teólogo responde