Apresentação das objeções.

Apresentação da objeção materialista.

Tudo o que existe é material.

Deus não é material.

Portanto, Deus não existe.

Apresentação da objeção cientificista.

Tudo o que existe é suscetível de verificação por meio do método científico.

A existência de Deus não é cientificamente verificável.

Portanto, Deus não existe.

Apresentação da objeção lógica.

A noção de “Ser infinito” é absurda, porque implica a predicação simultânea de atributos contraditórios (como P e não-P).

A noção de “Deus” inclui a noção de “Ser infinito”.

Portanto, Deus não existe.

Apresentação da objeção cosmológica.

Se Deus existe, então não pode existir um mundo imperfeito.

O mundo é imperfeito, porque existe o mal.

Portanto, Deus não existe.

Apresentação da objeção antropológica.

Se Deus existe, então não pode existir nenhum ser livre distinto de Deus, porque seu conhecimento e sua liberdade infinitos anulariam a liberdade finita do homem.

O homem é livre.

Portanto, Deus não existe.

II. Refutação das objeções.

Em cada um dos cinco silogismos apresentados na seção I, a premissa maior é falsa. Portanto, embora a premissa menor seja verdadeira e o silogismo esteja bem construído, a conclusão é inválida. Para refutar esses silogismos, devem-se refutar as correspondentes premissas maiores.

Refutação da objeção materialista.

O axioma básico do materialismo (“tudo é matéria”) deve ser rejeitado, ao menos pelas duas razões seguintes:

Esta afirmação do materialista acerca do “todo” é completamente infundada; por isso se deve aplicar aqui a conhecida regra dialética dos escolásticos: Gratis asseritur, gratis negatur (o que se afirma sem prova pode ser rejeitado sem prova).

Existem muitas realidades conhecidas pelo homem (por exemplo, o conhecimento humano e a liberdade humana) acerca das quais não se pode alegar, com algum sentido, que sejam realidades materiais. Isto é, não existe nenhuma noção inteligível de “matéria” que abranja essa classe de realidades.

Refutação da objeção cientificista.

Devemos ter muito em conta que o conceito de “ciência” utilizado pelo cientificista inclui apenas as ciências particulares (matemática, física, química, biologia etc.), excluindo as ciências universais (filosofia e teologia).

Da premissa maior da objeção cientificista deduz-se facilmente esta outra afirmação: “Somente o conhecimento científico é verdadeiro conhecimento”. Ora, esta afirmação é autocontraditória e, portanto, falsa. A contradição está no fato de que, ao negar a existência de afirmações verdadeiras não fundadas na ciência, faz-se uma afirmação não fundada na ciência, mas em uma falsa filosofia. Isto é, nenhuma ciência particular demonstra nem pode demonstrar que o único conhecimento válido é o conhecimento científico. Daqui se deduz a falsidade da premissa maior da objeção cientificista.

Por outro lado, a objeção cientificista pode ser reduzida à objeção materialista, que já refutamos no ponto anterior.

Refutação da objeção lógica.

A premissa maior da objeção lógica só tem validade contra a noção panteísta do Ser infinito, não contra a correspondente noção cristã. O Ser infinito da fé cristã não é o conjunto de todos os entes, mas a Causa primeira (incausada) do ser e do devir de todos os demais entes (os entes criados). Os entes criados são realmente distintos de Deus; por isso não há nenhuma razão para afirmar que Deus seja ao mesmo tempo (por exemplo) sábio e ignorante, misericordioso e cruel, poderoso e fraco etc.

Entre o ser de Deus e o ser das criaturas há analogia, isto é, semelhança em um sentido e dessemelhança em outro. As propriedades transcendentais do ser (unidade, verdade, bondade, beleza) correspondem também a Deus, mas não conhecemos o modo infinito que essas propriedades têm em Deus. Por estas razões, há três vias para o conhecimento dos atributos divinos: causalidade, negação e eminência. Vejamos um exemplo:

Causalidade: A bondade de Deus é a causa primeira da bondade das criaturas (há uma semelhança entre a causa e o efeito).

Negação: A bondade de Deus não é igual à bondade das criaturas (a dessemelhança é maior que a semelhança).

Eminência: A bondade de Deus é eminente, infinita.

Refutação da objeção cosmológica.

Precisamente o contrário do que afirma a premissa maior da objeção cosmológica é verdadeiro: se Deus existe, então não pode criar um mundo absolutamente perfeito, porque um ser absolutamente perfeito (perfeitíssimo) é um ser divino. Se Deus tivesse criado um mundo perfeitíssimo, teria criado um segundo Deus. Mas não pode haver dois deuses distintos, porque então nenhum deles seria Deus, o Ser perfeitíssimo, já que a cada um faltaria algo da perfeição do outro. Portanto, se Deus cria um mundo, deve criar necessariamente um mundo com alguma classe de imperfeição.

Além disso, Deus não pode criar outro Deus, porque a própria noção de “outro Deus criado” é absurda, dado que um Deus criado deveria ser ao mesmo tempo incausado e causado. Isto não supõe nenhuma limitação da onipotência divina, porque esta abrange tudo o que é possível, isto é, tudo o que em si mesmo não implica contradição.

Acrescentaremos breves considerações sobre o problema do mal:

O mal é uma imperfeição, mas nem toda imperfeição é um mal. Denomina-se “mal” aquela imperfeição que priva um ser de uma perfeição que, em princípio, lhe corresponderia segundo sua natureza. Assim, por exemplo, carecer de visão não é um mal para uma pedra, mas é um mal para um leão.

O mal não é um ser, mas uma carência ou privação de ser. Existem duas grandes classes de males: os males físicos (como a dor e a morte) e os males morais (os pecados ou atos humanos maus).

Tudo o que Deus criou é bom. Deus não é o autor do mal, mas permite o mal por razões que Ele, em sua infinita sabedoria, pode julgar muito melhor do que nós. Não faz sentido que o homem pretenda erigir-se em juiz da obra criadora de Deus.

Podemos intuir algumas das razões pelas quais Deus permite o mal (físico ou moral):

Na ordem biológica, a dor cumpre a finalidade de informar o ser vivo acerca de alguma realidade ameaçadora.

A morte das plantas e dos animais irracionais não frustra o cumprimento de sua função no cosmos.

A morte do ser humano não é sua aniquilação, mas sua entrada na vida eterna, que dá sentido à sua vida terrena.

Excetuando o caso particularíssimo de Jesus de Nazaré, podemos dizer que, tal como as coisas são de fato, se um homem, durante sua vida terrena, não pudesse pecar (praticar o mal), tampouco poderia amar (fazer o bem). A liberdade é a grandeza do homem, mas também seu risco. Deus não quis comprazer-se em criar robôs ou escravos, mas em criar seres feitos à sua imagem e semelhança, destinados a ser seus filhos e a participar da natureza divina.

Refutação da objeção antropológica.

Examinaremos duas possíveis tentativas de justificação da premissa maior da objeção antropológica:

Deus é onisciente e eterno; portanto Deus conhece simultaneamente todos os acontecimentos passados, presentes e futuros, incluindo os atos futuros dos homens. Desse modo os predetermina e impede que sejam atos livres.

O erro desta argumentação está em confundir presciência com predeterminação. Deus pode conhecer um ato humano futuro sem eliminar seu caráter de ato livre.

Deus não apenas conhece os acontecimentos futuros, mas é a causa primeira de todos eles. Portanto, a determinação última dos atos humanos (bons ou maus) está em Deus, não no homem. Portanto, se Deus existe, o homem perde sua liberdade.

O erro desta argumentação está em opor a liberdade infinita de Deus e a liberdade finita do homem e em confundir os modos pelos quais essas duas liberdades operam. A liberdade de Deus e a liberdade do homem não se opõem nem operam no mesmo plano. Deus é a causa primeira de tudo o que existe, incluindo os atos humanos; mas a causa divina não suprime as causas criadas. Deus quis que existissem causas segundas e que estas fossem realmente causas, não meras aparências. Em um ato humano não podemos separar uma parte que procederia de Deus como Causa primeira de outra parte que procederia do homem como causa segunda. Todo ato humano procede inteiramente de Deus e inteiramente do homem, mas de tal modo que os planos de ação de ambas as causas não se confundem nem se opõem. O fato de não podermos compreender plenamente como isso é possível não implica que esta concepção cristã seja irracional, mas que é um exemplo da finitude da capacidade cognoscitiva do homem.

Autor: Daniel Iglesias Grèzes

Fonte: revistafeyrazon.wordpress.com/