Reflexões simples sobre o purgatório, a partir de uma perspectiva bíblica.

Pergunta:       

Eu gostaria de saber o seguinte: o purgatório é uma invenção da Igreja Católica para ganhar dinheiro, ou é um ensinamento da Bíblia que nós, cristãos, devemos crer?

Resposta: 

Em uma sociedade e em um país onde há muitas crenças religiosas diferentes, é comum que muitas pessoas católicas se sintam atacadas ou questionadas em sua fé; e algo que frequentemente querem saber é por que cremos no purgatório e se isso tem bases bíblicas. Vejamos quatro razões para crer nele.

 1.- Um ensinamento fundamentado na Palavra de Deus.

A primeira coisa que é preciso mencionar é que há passagens bíblicas que falam com muita clareza sobre a realidade do purgatório. Uma delas, e talvez a principal, é quando o Apóstolo São Paulo nos fala sobre o dia do juízo e sobre o que acontecerá com aquelas pessoas que tiveram fé e serviram a Deus, mas cuja obra não foi tão boa; ele o explica assim:

“A obra de cada um se tornará manifesta; pois o dia a demonstrará, porque será revelada pelo fogo; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se permanecer a obra que alguém edificou, receberá recompensa. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá dano; ele, porém, será salvo, mas como que através do fogo”. 1Cor 3,13-15

Notemos dois aspectos fundamentais do que São Paulo quer ensinar acerca de um crente em Deus: em primeiro lugar, afirma que, se a obra resiste ao ser examinada, a pessoa será salva; neste caso, refere-se a um cristão que vai diretamente salvar-se, sem necessidade de passar por uma purificação. Mas, imediatamente, acrescenta que há outra situação em que a obra da pessoa não resistiu ao juízo; e não diz que ela se condenará, mas que esse cristão terá de pagar ou ser castigado e será salvo, porém como quem passa pelo fogo.

Isto é precisamente o purgatório: uma purificação de que alguns necessitarão para poder desfrutar plenamente da amizade eterna com Deus.

Não é uma invenção da Igreja, como dizem alguns, mas o claro ensinamento da Bíblia por meio do Apóstolo São Paulo, que usa a figura de “sair, pagar, castigar ou escapar através do fogo” para ensinar acerca da purificação.

Assim está escrito em todas as Bíblias do mundo, em palavras muito semelhantes. A essa realidade que a Sagrada Escritura nos mostra chamamos purgatório = purificação. Que esta palavra não apareça na Bíblia não nos preocupa, pois tampouco aparecem as palavras “Trindade” nem “Encarnação”, e o protestante as aceita.

O que importa não é a palavra, mas a realidade que ela significa; e, nesse aspecto, o Purgatório está muito claro na Sagrada Escritura.

2.- No céu não entrará nada manchado.

Ao continuarmos estudando a Bíblia sobre este tema, encontraremos que a existência do purgatório é uma consequência lógica da Santidade de Deus; pois, se Ele é o três vezes santo (Is 6,3), isto é, a plenitude da santidade e da perfeição, então aqueles que estiverem junto d’Ele também devem sê-lo (Mt 5,48). Por isso, quem é fiel a Deus, mas não se encontra em estado de graça plena na hora de morrer, não pode desfrutar do céu, porque a própria Bíblia diz que na cidade celestial:

“Nela jamais entrará algo de impuro” Ap 21,27

Então, se um cristão não pode entrar no céu por ter alguma mancha ou impureza, nem tampouco sofrer o castigo eterno, é claro que terá de “pagar” nesta vida ou na outra. Isto está escrito na Bíblia:

“Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem será perdoado; mas quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste mundo, nem no mundo futuro” Mt 12,32.

Aqui Nosso Senhor Jesus Cristo fala de pecados que não são perdoados na outra vida; portanto, há outros que sim. Esse é o sentido da purificação ou sofrimento no purgatório, e a razão pela qual nós podemos orar (pedir) e oferecer a Missa por eles, para que Deus tenha misericórdia desses irmãos falecidos que dela necessitem, como no caso de Onesíforo mencionado na Bíblia (2 Tim 1,16-18).

3.- Desde os primeiros séculos, os cristãos cremos em sua existência.

O purgatório, como estado temporário de purificação, foi crido desde o princípio pelos primeiros cristãos que se destacaram por sua fé e santidade e aos quais chamamos “Padres da Igreja”. Conheçamos o que alguns deles disseram sobre este tema:

* Ano 211. Tertuliano: “Nós oferecemos sacrifícios pelos mortos…”

* Ano 307. Lactâncio: “O justo cujos pecados permaneceram será atraído pelo fogo (purificação)…”

* Ano 386. João Crisóstomo: “Não devemos duvidar de que nossas oferendas pelos mortos lhes trazem certo consolo…”

* Ano 580. Gregório Magno: “Com respeito a certas faltas leves, é necessário crer que, antes do juízo, existe um fogo purificador…”

Como você perceberá, o testemunho histórico deles é de grande valor, pois dessa maneira qualquer pessoa pode comprovar por si mesma, procurando em uma biblioteca, nos livros de história do cristianismo, onde eles falavam sobre este ensinamento da purificação = purgatório.

4.- O que é o purgatório?

Mais do que um lugar físico, é um estado temporário de vida para a pessoa que morre na graça de Deus, mas imperfeitamente purificada, e onde, mediante o sofrimento, é purificada para desfrutar plenamente da presença de Deus. É uma pessoa salva, que vive no amor de Deus e na salvação, mas não de uma maneira plena.

O caso do malfeitor a quem Jesus diz que estará com Ele no paraíso mostra-nos que essa purificação no sofrimento alguns a terão aqui, e outros a terão na outra vida, como menciona São Paulo (1 Cor 3,13-15) e como comprovamos neste tema.

Não se trata de pensar em chamas, mas em um tipo de sofrimento por não ter plenamente a pessoa que mais nos ama no mundo: Deus.

Qualquer pessoa que tenha amado um ente querido e que, por alguma circunstância, deixa de vê-lo por um tempo sabe o que é o sofrimento de não poder desfrutar, por algum tempo, do amor dessa pessoa. Sabe que ela está viva, que a ama e que voltará a vê-la, mas, por não tê-la plenamente perto, experimenta alegria e, ao mesmo tempo, dor e desejo de tê-la perto para sempre, face a face. Algo semelhante, mas de maior intensidade e forma, será a “purificação”.

Assim, estimado irmão, quando muitos irmãos protestantes dizem que o purgatório é uma invenção da Igreja, simplesmente o dizem porque desconhecem o que a Bíblia e a história nos dizem sobre esse aspecto.

Muitos deles saíram da Igreja Católica sem conhecer a Bíblia e agora continuam lá do mesmo modo, sem conhecê-la. Leem-na muito, mas entendem-na pouco. O pior é que o católico não a entende nada, porque nem sequer a lê. Que incrível. Já é tempo de corrigir isso.

Ânimo, estude mais a Palavra de Deus e decida-se a lutar para ser um autêntico cristão.

Deus o abençoe e obrigado por sua pergunta.

Autor: Martin Zavala M.P.D.

Fonte: Defiendetufe.org