Pepe Rodríguez é um jornalista espanhol, autor de vários panfletos anticristãos e antirreligiosos e, segundo declara em seu site (pepe-rodriguez.com), é considerado um dos maiores especialistas em “problemática sectária”.

Suas obras variam em conteúdo e teor, mas a grande maioria é anticristã e, mais a fundo, ANTICATÓLICA. Rodríguez desenvolve uma potente onda de ataques contra o cristianismo em geral e contra o catolicismo em particular.
Entre suas obras figuram os seguintes títulos: La vida sexual del clero, Mentiras fundamentales de la Iglesia Católica, Mitos y ritos de la Navidad, Dios nació mujer etc.

De suas obras entende-se que o senhor Rodríguez é ateu, paladino do ataque à fé dos crentes e dotado de um sensacionalismo ávido por atenção. Basta ver os títulos antes mencionados, os quais evidentemente foram elaborados com o fim de atrair a atenção dos leitores, num ato de publicidade característico dos best-sellers sensacionalistas.

Comecemos por esclarecer que o sr. Rodríguez pretende que a cultura e a doutrina cristãs estejam EQUIVOCADAS numa série de pontos essenciais, e até em detalhes irrelevantes: uma atitude semelhante à das Testemunhas de Jeová, que, em seu afã de chamar a atenção, sugerem que o cristianismo está equivocado e propõem uma nova série de crenças, tais como não doar nem receber sangue, não prestar serviço militar, não crer no inferno, ou que Cristo “morreu num madeiro e não numa cruz”; enfim, contradizer ícones e doutrinas que não haviam sido atacados antes que eles o fizessem, e assim dar a impressão de que proclamam uma verdade “oculta” aos olhos do mundo durante séculos. É o mesmo que pretende Rodríguez.

«Mentiras fundamentales de la Iglesia Católica»

Na nota correspondente a este livro, explica-se que o autor fez uma leitura “rigorosa” da Bíblia, deixando claro que “a mensagem da Bíblia se opõe ao que diz a Igreja Católica”.

Antes de começar a comentar os pontos, assinalamos que o sr. Rodríguez não é a primeira pessoa que lê a Bíblia e que conclui algo como: Todos os demais estão equivocados, eu é que sei DE VERDADE o que diz a Bíblia!

A problemática sectária, na qual supostamente é especialista, surgiu precisamente por causa de gente que leu a Bíblia (ou outros escritos religiosos) e recebeu uma “centelha de iluminação”, que a levou a sentir que ela, sim, entendeu o texto em questão, e que os demais não.
A Bíblia é estudada desde há muito por teólogos, filósofos e estudiosos de muito mais renome que Rodríguez, e resulta bastante presunçoso pensar que TODOS eles se equivocaram e que um só (Rodríguez nem sequer é teólogo, mas jornalista) a entendeu melhor.

Entre os pontos que aborda está, por exemplo, o seguinte:

Deus não crê na sobrevivência post mortem dos humanos, nem tampouco no inferno.

Já assinalávamos antes a semelhança entre Pepe Rodríguez e a seita das Testemunhas de Jeová. Estas últimas negam a existência do inferno e creem que, depois da morte, vem um período de inconsciência que só terminará no Armagedom.

Baste dizer que o ensinamento de que há um inferno é uma doutrina clara na Bíblia; basta ler versículos tais como (Ap 19,20; Ap 20,10; Ap 21,8 etc.).

Sobre a sobrevivência post mortem: quantas vezes aparecem no Novo Testamento expressões como “vida eterna”, “Reino dos céus”, “ressurreição” etc.?

Maria, a mãe de Jesus, teve no mínimo sete filhos.

Também nisto Rodríguez imita várias seitas (incluindo as Testemunhas de Jeová). Estas últimas estão especialmente interessadas em afirmar que Maria “teve outros filhos”, de maneira que, se Rodríguez acreditava ensinar-nos algo novo, chega um pouco tarde; várias seitas anteriores a ele já nos vieram com esse assunto entre mãos, e a Igreja teve motivos suficientes para não o aceitar.

A Igreja mantém desde há muito o dogma de que Maria é a SEMPRE VIRGEM, e existem razões bíblicas para justificá-lo. Diz Rodríguez que Maria teve “no mínimo, sete filhos”. Convido qualquer um a buscar em qualquer Bíblia a expressão “filhos de Maria”; depois me digam como se saíram.

E, se Maria tinha outros filhos, por que Cristo, ao morrer na Cruz, a colocou sob os cuidados do apóstolo São João?

Além disso, notemos alguns ditos que soam contraditórios entre os pontos que Rodríguez maneja:

Jesus foi um judeu, fiel cumpridor da Lei hebraica, que jamais instituiu — nem quis fazê-lo — nenhuma nova religião nem Igreja. Jesus nunca foi cristão nem, menos ainda, católico.

Jesus foi executado quando tinha entre 41 e 45 anos, não aos 33 de que fala a tradição.

Primeiro: se Jesus foi um judeu comum e corrente, de onde saiu o cristianismo? Diversos testemunhos (muito mais antigos que Rodríguez) nos deixam claros os inícios da doutrina cristã, precisamente com Cristo; basta ler a Didaqué, São Clemente Romano, Pápias, Santo Inácio de Antioquia etc.

De resto, a História não registraria um judeu como todos os demais, nem se saberia nada sobre ele. Jesus teve de ser um personagem de ENORME influência histórica, já que o próprio calendário (ocidental) se rege a partir de seu nascimento.

Nem é preciso dizer que pouco importa a idade em que Jesus foi crucificado. O fato é que foi crucificado para nos Redimir e Salvar, tenha sido na idade que for.

Contradição ou falsidade?: se Jesus era “fiel cumpridor da Lei Hebraica”, por que o executaram?

Esperamos que Rodríguez saiba dizer-nos o que motivava os judeus (ou mesmo os romanos) a executar os “fiéis cumpridores da Lei Hebraica”.

Moisés não é o autor de nenhum dos cinco livros básicos da Bíblia.

O Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) é certamente atribuído a Moisés, mas essa não é uma afirmação rigorosamente histórica.

Para começar, o estilo revela que Moisés não foi seu autor, já que se fala dele na terceira pessoa do singular. No Deuteronômio narra-se brevemente a morte de Moisés (que o próprio Moisés não poderia ter escrito).

Mas, embora Moisés não tenha sido o autor, os livros do Pentateuco baseavam-se em escritos anteriores (originais ou cópias) que, esses sim, eram de Moisés. A Lei de Moisés é seguida pelos judeus desde há bastante tempo, e não há dúvida de que têm razões para fazê-lo. Entre essas razões pode estar a tradição oral, que funcionaria de maneira semelhante à composição do Alcorão, pois tampouco foi Maomé quem pessoalmente escreveu o Alcorão, embora a ele se atribua.

Nem “católica” significa “universal”, nem o Jesus dos Evangelhos pretendeu que sua mensagem tivesse esse caráter.

(Καθολικον): significa UNIVERSAL, segundo o Diccionario Manual Griego-Español, de José M. Pabón Urbina, ex-catedrático de Língua e Literatura Gregas na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Madri, Editorial Bibliograf, 1969.
Que credenciais mostra Rodríguez para contradizer um catedrático de Língua Grega?

Seu currículo (que ele exibe em sua página e que revisei atentamente) não contém sequer um cursinho on-line de grego. E agora vem nos dizer que católica “não significa universal”!!

Nesse ritmo, que outro conhecimento de grego nos trará? Expomo-nos a que um dia nos diga que “Alfa não é a primeira letra do alfabeto grego”.

Quanto a Cristo não ter a intenção de que Sua mensagem fosse católica (universal), recordemos suas palavras:
“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

Segue um sensacionalismo próprio das seitas (que supostamente são seu principal objeto de crítica) e contradiz, tal como elas, 20 séculos de uniformidade teológica e doutrinal na Igreja Católica.
Ora, sejamos lógicos! Se realmente a Igreja Católica estivesse fundada sobre tantos enganos e “mentiras fundamentais”, como é que sobreviveu durante dois milênios?
E que estudos teológicos, paleolinguísticos ou bíblicos tem Rodríguez? NENHUM.

A Taxa Camarae, o “ponto culminante da corrupção humana”

A Taxa Camarae é um documento (evidentemente falso) atribuído ao papa Leão X, que dataria do século XVI, e consiste numa série de tarifas que seriam pagas para obter a absolvição de toda uma diversidade de pecados.

Pepe Rodríguez expõe a Taxa Camarae e defende sua autenticidade em seu site, atribuindo-lhe o qualificativo de “ponto culminante da corrupção humana”.

Eu, pessoalmente, não posso dizer grande coisa sobre este assunto. O que me interessa assinalar é que uma equipe de investigação estudou a questão e elaborou uma magnífica relação de dados, interessantes ao extremo para demonstrar a falsidade desse simoníaco documento.

Foram membros de apologetica.org que realizaram uma minuciosa investigação, mantendo correspondência com Rodríguez, trabalho do qual se depreende:

  • Que a Taxa Camarae publicada por Rodríguez não tem respaldo em nenhum documento pontifício.
  • Que o sr. Rodríguez, por fora, utiliza palavras muito seletas e cultas ao expor o tema, mas, quando alguém o enfrenta, sua aparente seriedade se esfuma e se converte em respostas absurdas, ataques pessoais e desvios do tema.

A seguir expõem-se alguns fragmentos do trabalho de apologetica.org, que pode ser encontrado completo seguindo este link.

Intercâmbios de apologetica.org com Pepe Rodríguez (Fragmentos)

A. Tapfer: estimado sr. Pepe […] queria saber se pode me dar a informação sobre esse tremendo edito do papa taxa camarae para um amigo católico, para que ele veja a luz de onde está, essa igreja é tremenda. ele diz que isso não é verdade, por favor me diga de onde o senhor o tirou, assim ele pode ir ver e se convencer. algum livro ou biblioteca, meu amigo me desafiou, […]

Pepe Rodríguez: 1) A Taxa Camarae pode ser encontrada em qualquer boa biblioteca de história religiosa e/ou medieval, incluída a Vaticana e a dos seminários importantes. Talvez também em bibliotecas protestantes, já que este documento e outros semelhantes forçaram a compreensível ruptura de Lutero.

A. Tapfer: senhor Pepe, […] meu amigo católico diz que está disposto a aceitar esse documento se eu lhe der uma fonte, ou seja, de onde o senhor tirou esse documento, ele mora perto de uma biblioteca do papa muito grande, e agora me joga na cara que eu acredito em qualquer um, e diz que com os dados que lhe dei, que o senhor me deu, não encontra nada, que eu lhe dê a fonte, foi isso que me repetiu.

Pepe Rodríguez: Eu fotocopiei esse documento há uns 30 anos, mais ou menos, numa biblioteca de Paris. Que teu amigo o busque onde quiser. Em todo caso, o mais provável é que só se encontre em livros editados durante o século XIX e, talvez, em algum da primeira ou segunda década do XX.

Nino Mendoza: Há algo importante: o senhor parece exigir, para a retirada de tal documento de suas publicações e para a oportuna retratação, que se apresentem ao senhor o autor, a data e as circunstâncias da verdadeira produção do documento. Isso, por pouco que se pense, é completamente absurdo. Não somos nós que devemos vasculhar toda a literatura do mundo produzida nos últimos quinhentos anos para ver se encontramos o autor de um documento que ninguém sabe de onde vem, de que ano é, nem como se chama (os dados que o senhor fornece, a saber, Leão X, 1517 e Taxa Camarae, não levam a nada em nenhum sentido). Pelo contrário, é o senhor quem dá a conhecer o documento e quem deve procurar a fonte verificável antes de publicá-lo, ou ao menos, como neste caso, tirá-lo de circulação imediatamente por não ter a fundamentação oportuna. Não creio ser necessário estender-me mais em algo tão evidente, sobretudo para uma pessoa que, a julgar por seu currículo, conhece perfeitamente o proceder científico.

A atitude do sr. Rodríguez em relação ao tema

Em sua reação à nossa posição de dúvida acerca do documento que ele publicou sem apresentar nenhum fundamento, encontram-se repetidas manifestações pejorativas a respeito desta equipe de investigação e do site que a hospeda (apologetica.org), tais como: “grupo integrista”, “seita católica fanática”, “descaramento e nula honestidade histórica e científica”, “má-fé, fanatismo e ignorância”, “presumem de grande rigor acadêmico e investigativo”, “faltar à verdade com sumo descaramento”, “seita católica extremista”, “demagogia, fanatismo, ultraconservadorismo e virulência”, “cretinice supina”.

É assim que o Sr. Rodríguez encara sua resposta acadêmica contra os que puseram em dúvida um documento por ele publicado.

Uma “tradução” que cheira a cópia (Fragmentos)

A versão espanhola da Taxa trazida pela obra anticlerical de 1936, e cujas fotocópias o Sr. Rodríguez publica no site de sua autoria, é obviamente uma tradução (do francês? do alemão? do latim? Não sabemos nada). A tradução seria, pelo menos, de 1936. Pois bem, essa tradução (deixando de lado a numeração dos trinta e cinco parágrafos) consta de 962 palavras, enquanto a tradução do francês feita pelo Sr. Rodríguez consta de… 962 palavras; os tipos empregados (letras e sinais de pontuação) da versão do “livrinho” de 1936 somam 4699, enquanto a versão do francês do Sr. Rodríguez soma… 4699.

Há alguma diferença entre a tradução do livro de 1936 e a “tradução do francês” do Sr. Rodríguez? Pelo que pudemos verificar, há só 3 diferenças em 962 palavras, a saber:

– parágrafo 11 da Taxa: a tradução de 36 diz hubiese, a tradução do Sr. Rodríguez diz hubiere;

– parágrafo 15 da Taxa: a tradução de 36 diz obispo, a tradução do Sr. Rodríguez diz Obispo;

– parágrafo 24 da Taxa: a tradução de 36 diz en, a tradução do Sr. Rodríguez diz con.

As diferenças são mínimas, como se pode ver, e facilmente explicáveis. Notemos:

– hubiese/hubiere: são formas facilmente intercambiáveis. A tradução do “livrinho” usa cinco vezes a forma “hubiese” e uma só vez “hubiere”, precisamente no parágrafo 11, onde o Sr. Rodríguez traz “hubiese”, como em todas as demais cinco vezes.

– obispo/Obispo: uma diferença que a duras penas pode chamar-se “diferença”, sobretudo se se considera que o substantivo “obispo” aparece duas vezes no texto da Taxa, e que o livro de 36 o traduz, sem motivo aparente (provavelmente por erro), uma vez com maiúscula (parágrafo 15) e outra com minúscula (parágrafo 16).

– en/con: outra diferença, a mais substancial em 962 palavras, embora facilmente explicável por… um erro do copista?

Confrontando ambas as traduções, chama a atenção (por assim dizer) que não só são idênticos o uso de vírgulas, pontos e pontos e vírgulas (virtualmente nenhuma diferença em 4699 caracteres!), a escolha dos verbos e dos substantivos para cada palavra traduzida, o emprego de tempos e modos verbais idênticos, a ordem das palavras em longas orações etc., mas também — por força — o estilo!, sendo que, como diz acertadamente o adágio, “o estilo é o homem”.

Mais ainda: ambas as “traduções” trazem esta expressão curiosa (parágrafo 17 da Taxa):
“El obispo u abad que cometiese…”. Notemos o uso de “u” entre “obispo” e “abad”, uso que é incorreto, ou ao menos anacrônico, como consta nas sucessivas edições do Diccionario de la Real Academia Española: a única edição desse dicionário que traz esse uso de “u” para não cair em cacofonia por causa do “o” final da palavra anterior é a edição de 1791, enquanto todas as demais o excluem (podem-se consultar todas as versões históricas do dicionário, com os fac-símiles das páginas, no interessantíssimo site da Real Academia: http://www.rae.es).

A reforçar a ideia de que se trataria de um erro ou anacronismo vem a constatação de que as duas traduções da Taxa em questão não usam “u” depois de “o” e antes de “a” (como em “obispo u abad”): no parágrafo 19, tanto o Sr. Rodríguez como o livro de 36 traduzem “El hijo de hereje quemado o ahorcado o ajusticiado…”, isto é, na mesma situação vocálica ambos usam “o”, enquanto os dois, uns parágrafos antes, haviam usado “u”. Comprovamos, finalmente, que o Sr. Rodríguez, em outros escritos seus, não usa o “u” em vez do “o” na mesma situação vocálica, mas usa o que deve ser usado, a saber, “o” (por exemplo, no capítulo 5 de seu livro Mentiras… lemos “no al Jesús divinizado o a cualquier otro”).

Em resumo, ambas as traduções são idênticas em tudo, inclusive nos erros ou anacronismos.

Isso é cientificamente inexplicável. Qualquer pessoa que tenha feito na vida a mais mínima tradução concordará que é humanamente impossível que duas pessoas (e com meio século de distância!) façam uma tradução idêntica de um texto de três a quatro páginas.

O Arquivo Secreto do Vaticano: guardas suíços armados com metralhadoras custodiam a Taxa Camarae! (Fragmentos)

Eis aqui parte de uma mensagem de Rodríguez (que pode ser localizada em seu site: http://www.pepe-rodriguez.com/Mentiras_Iglesia/Taxa/Taxa_taxacamarae_falsa.htm):

Os membros de apologetica.org, que presumem de trabalhar com rigor, honestidade e academicismo, faltam à verdade com sumo descaramento quando afirmam que não há fontes melhores. Sim, há muitas e melhores, mas nem eles, nem suas fontes de consulta, nem ninguém pode ter acesso a elas para comprovar quem tem razão. Sabem perfeitamente em apologetica.org, embora o calem em defesa de seus interesses católicos, que junto à biblioteca vaticana existe um edifício contíguo que abriga o chamado “arquivo secreto” — para chegar à sua sala é preciso passar por seis rigorosos controles de segurança, três deles protegidos por guardas suíços armados com metralhadoras —, ao qual só têm acesso investigadores devidamente autorizados, mas que estão limitados a trabalhar unicamente com os documentos repertoriados nos catálogos que lhes são oferecidos. A primeira conclusão é que qualquer documento que não figure num catálogo não pode ser solicitado para estudo porque oficialmente “não existe”.

Segundo se depreende da investigação de apologetica.org, o Arquivo Secreto Vaticano está aberto ao público, não há NENHUM posto de controle custodiado por “guardas suíços armados” e, efetivamente, ali não está a famigerada Taxa Camarae.

A parte final deste comentário serve para que se perceba (finalmente) como o sr. Rodríguez enfrenta as investigações que se opõem às suas — que a duras penas podem chamar-se assim:

Continua o Sr. Rodríguez:

Sem dúvida não é casualidade que as centenas de documentos que “não existem” sejam dos séculos XVI e XVII, uma época com demasiados aspectos obscuros e com uma corrupção que a Igreja continua querendo ocultar.

Centenas de documentos? Temos de acreditar nessa afirmação gratuita porque assim lhe ocorre dizê-lo hoje? Que dirá amanhã, talvez milhões? Por que não? Já ninguém lhe pode pôr limites! Uma vez entrado em seu bunker vaticano, quem sabe quantos documentos ali encontrará o Sr. Rodríguez, diante dos quais nós, pobres humanos, não poderemos senão assentir?

A realidade supera a ficção, Sr. Rodríguez.

Ninguém, hoje, sabe o que contêm esses arquivos, de modo que ninguém, hoje, pode afirmar ou negar nada de forma taxativa a respeito da veracidade ou não da Taxa Camarae (ou dos “documentos similares” que meus críticos buscavam e, logicamente, não encontraram); tampouco podem fazê-lo, claro está, os que nos séculos citados trabalharam nos arquivos vaticanos, mas sem poder ter acesso a um material sem o qual toda conclusão ou afirmação não pode ser mais que provisória.

Outra vez ficamos surpresos: se “ninguém sabe o que contêm esses arquivos”, como sabe o Sr. Rodríguez das “centenas” de documentos que ali estão? Ora, o leitor perceberá que este é o cerne da questão, razão pela qual o Sr. Rodríguez nos explica com tanto detalhe o acesso aos arquivos e o seu conteúdo: ninguém, hoje, pode afirmar ou negar nada de forma taxativa a respeito da veracidade ou não da Taxa Camarae.

Em outras palavras, o que o Sr. Rodríguez está dizendo é isto: num primeiro momento a Taxa estava em qualquer boa biblioteca, segundo havia pontificado solenemente pouco mais de um mês antes; mas, depois de se buscar intensamente nas melhores bibliotecas do mundo, verifica-se que não há nenhuma prova, não há nenhum documento, nenhum historiador o encontrou, não se encontra em nenhum dos 230 arquivos europeus revisados por dezenas de historiadores católicos e protestantes, nenhuma história da Igreja o menciona, não aparece em nenhuma coleção de documentos, não a encontrou nenhuma das tantas pessoas que revisaram todos os documentos do tempo de Leão X… E que conclui o Sr. Rodríguez? Está num bunker custodiado por um regimento de guardas suíços armado com metralhadoras!

«Mitos y Ritos de la Navidad»

Esta obra de Rodríguez centra-se em tentar demonstrar, em vários pontos, que a celebração cristã do Natal é falsa ou então de origem pagã.
Novamente cai-se no sensacionalismo sectário, próprio das Testemunhas de Jeová, que, tal como Rodríguez, negam enfaticamente que Cristo “tenha nascido em 25 de dezembro”.

Tema que, é preciso esclarecer, não é de maior importância para a Teologia Cristã, dentro do mistério da Encarnação. Cristo nasceu e morreu para nos salvar, e pouco importa a data exata de seu nascimento ou de sua morte. O fato é que a sociedade tomou o dia 25 de dezembro como data para celebrar o Natal, mas de nenhum modo se afirma que o Natal se celebre rigorosamente apegado ao nascimento real de Cristo.

Dentre os pontos que “estuda”, comento um exemplo:

Baltasar foi branco até o século XVI, época a partir da qual passou a ser representado como de raça negra por necessidades estratégicas da Igreja.

Pergunto-me eu: qual é a extraordinária importância de Baltasar “ser negro ou branco”? E quando foi que a Igreja disse “Baltasar foi branco” e depois o trocou por “Baltasar foi negro”?

O fato é que, negro ou branco, a Igreja, em nenhum documento sobre doutrina ou liturgia natalinas, diz que Baltasar seja negro. Não é a Igreja, pois, quem o apresenta negro “por razões estratégicas”.

E, no século XX, Baltasar também foi representado como de raça branca, por exemplo, no famoso clássico Ben-Hur, tanto no romance como no filme, pois no romance se diz que Baltasar é egípcio, e no filme ele aparece apresentando-se como “Baltasar de Alexandria”, de tez branca e olhos azuis.

Diz Rodríguez, na introdução deste livro:

E é menos casual ainda que o natalício de Jesus-Cristo, o Salvador cristão, tenha se fixado em 25 de dezembro, data na qual, até fins do século IV de nossa era, se comemorou o nascimento do Sol Invictus no Império Romano.

A explicação é muito simples. Os cristãos deviam ser cautelosos. As perseguições contra os cristãos eram frequentes (e terríveis) no Império antes de Constantino. Escolher uma data de festa romana para uma festa cristã permitia aos cristãos celebrar suas festividades sem atrair a suspeita dos romanos.

Rodríguez inclui em sua obra um breve mas significativo erro histórico. Com o caso da Taxa Camarae ficou patente o raquítico rigor histórico e documental de Rodríguez, e os detalhes, um a um, vão-se acumulando contra ele. Diz Rodríguez:

Os festejos romanos em honra de Saturno, as Saturnalia, foram em sua origem festas campestres — sementivae feriae, consualia larentalia, paganalia —, mas adquiriram muita importância a partir do ano 217 a.C., após a derrota do exército romano pelo cartaginês Aníbal perto do lago Trasimeno, prelúdio do desastre da batalha de Canas (216 a.C.), que pôs fim à segunda guerra púnica e contribuiu para despertar o espírito religioso dos romanos.

Qual é o erro? O erro é que a Batalha de Canas não pôs fim à Segunda Guerra Púnica.

Na batalha de Canas, Aníbal derrotou o exército romano comandado pelo cônsul Terêncio Varrão (impressiona o fato de que os romanos dobravam em número os cartagineses e seus aliados).

Aníbal realizou uma manobra envolvente com a qual esmagou as legiões romanas. Essa foi uma das datas mais trágicas que os romanos recordariam na posteridade. No entanto, a Segunda Guerra Púnica continuava. Depois de sua vitória, Aníbal não se decidiu a atacar Roma e esperava reforços da África e da Grécia; além disso, confiava em que os aliados de Roma vacilariam e romperiam com a República (Romana).
Durante 13 anos, Aníbal permaneceu na Itália fustigando os romanos, os quais, entretanto, tomaram Siracusa (tomada na qual morreu Arquimedes) e derrotaram os exércitos macedônios.

No ano 207 a.C., os romanos derrotaram Asdrúbal, irmão de Aníbal, que vinha em seu auxílio. E, posteriormente, Públio Cornélio Cipião propôs ao senado uma expedição contra Cartago.

Cartago chamou em sua ajuda Aníbal, que abandonou a Itália e voltou à África; mas, em 202 a.C., Cipião derrotou Aníbal na batalha de Zama, vitória que lhe valeu o cognome de Cipião, o Africano, e com essa batalha, sim, terminou a Segunda Guerra Púnica.

Um pouco de história nunca faz mal.

«Morir es nada»

Esta obra de Rodríguez centra-se, basicamente, em negar que haja vida depois da morte; em poucas palavras, em afirmar que a morte é a passagem do ser humano da vida a uma inexistência total, definitiva e absoluta. É fácil perceber o interesse de Rodríguez neste tema: é que a vida post mortem é um conceito nitidamente religioso, e não exclusivamente cristão, mas também comentado e estudado por outras religiões.

Começarei comentando o seguinte: Ninguém tem um conhecimento exato do que há depois da morte; pode-se ter intuições, indícios, crenças, fé, suposições, teorias, hipóteses etc., mas NINGUÉM (e, como cristão que sou, digo-o com clareza), ninguém tem o conhecimento comprovado e definitivo do que há depois da morte.

Conhecimentos objetivos, comprovados e verificáveis pela ciência são, por exemplo: as leis que regem a eletricidade, o movimento e a dinâmica das máquinas, o conteúdo nutricional dos alimentos, a existência de radiações invisíveis ao olho humano etc. Esses conhecimentos partem de uma comprovação que não deixa lugar a dúvidas quanto à sua realidade, suas causas e seus efeitos.

Não ocorre o mesmo em todos os aspectos da vida cotidiana: coisas como o que há depois da morte, a própria origem do universo, a forma pela qual um ser humano adquire consciência ao nascer, entre muitas outras incógnitas que escapam (por enquanto) à análise científica.
Isto me conduz à seguinte afirmação: o que Rodríguez pensa acerca da morte não é senão mais uma proposição, ao lado das diversas proposições que, estas sim, contemplam vida depois da morte.

Deixa-me alerta a seguinte expressão de Rodríguez:

Buscamos explicações para o amor? Indagamos sobre o mecanismo da amizade? Seguramente não.

Seguramente não? De onde tira Rodríguez esse “seguramente”? Terá se posto a levantar estatísticas a respeito?
Pois me surpreendeu, porque, pessoalmente, eu, sim, busquei explicações para o amor, e presumo que não sou o único. A poesia e a psicologia também lhe buscaram explicações… O QUE É O AMOR? é uma pergunta formulada vezes demais para que Rodríguez venha agora dogmatizar que “seguramente não se buscam explicações para ele”.

Precisamente em diálogos sobre ateísmo e racionalismo, nos quais há quem proponha que tudo é questão de Química, não se pode evitar a pergunta: amar alguém, ou algo, é uma simples reação química?
Poderia o ser humano gerar reações químicas que produzissem algo como o AMOR? Existirá algo como um composto que nos fará apaixonar-nos, se o bebermos?

Questionamentos como esses são, precisamente, buscar explicações para o amor, e é claro que há quem o faça. Isso se estende ao carinho, ao respeito, à amizade, ao temor e, enfim, a toda uma gama de sentimentos e emoções que, com muita frequência, se chocam com a razão natural.

Rodríguez inclui expressões POUCO SÉRIAS, ou pelo menos pouco ACADÊMICAS; notemos:

Isso era tomado então como um elogio, mas hoje seria um convite a fugir espavoridos do lugar para ir buscar alojamento em qualquer outra parte. Que diabos nos aconteceu em tão pouco tempo?

Esse tipo de expressões é característico de uma linguagem científica, séria, adulta, estudiosa?

Comentarei brevemente outro ponto:

Jamais topei com nada parecido com a “alma” em tudo o que estudei de psicologia ou biopsicologia; tampouco senti nada em mim, nem percebi em outros, que precisasse de uma alma para expressar-se; bastam e sobram os maravilhosos mecanismos cerebrais que temos, capazes de dar suporte físico e percepção de realidade a todas as nossas emoções

Correto. Mas o sr. Rodríguez não é a única pessoa que estudou psicologia e biopsicologia. O fato de ele não ter “topado” com nada parecido com a alma não significa que NINGUÉM tenha “topado” com tal coisa.
Pessoalmente, ouvi testemunhos de diversa índole acerca da sobrevivência post mortem: relatos de aparecidos, encontros com gente que já morreu, visões de fantasmas etc. etc. Colocá-los aqui, tal como os ouvi, seria cair no mesmo sensacionalismo de Rodríguez, e certamente me guardarei de fazê-lo.
Basta-me dizer que os ouvi e que não tenho motivos para duvidar das pessoas que me os contaram. Eu não passei por experiências semelhantes, mas creio que não posso subordinar minhas crenças somente às MINHAS experiências, senão que DEVO levar em conta as das outras pessoas.

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Até aqui meus comentários sobre o sr. Rodríguez, terminando com uma pequena reflexão:

O ser humano é religioso há milhares de anos. Sinceramente, creio que a religiosidade é mais antiga que o ateísmo.
Pois bem, imaginemos por um instante que não existem Deus, nem o sobrenatural, nem um “além”. Supondo-se isso, nunca ocorreriam acontecimentos inexplicáveis, milagres ou, pelo menos, intuições do sobrenatural. Quanto tempo duraria a religiosidade humana, se assim fosse?
Se não há Deus, então não haveria nenhum indício de que ele existe e, por falta disso, a religiosidade já teria se extinguido há muito tempo…

Autor: Jesús Hernández

Fonte: Luxdomini.com

Agradeço a Apologetica.org por me permitir usar material de seu site