Miguel: José, gostaríamos de estudar o tema do papado, porque Marlene e eu temos estado lendo alguns dos argumentos da Igreja Católica a respeito, e gostaríamos que você nos esclarecesse algumas dúvidas.
José: Com muito prazer.
Marlene: Até onde pudemos averiguar, vocês os católicos acreditam que Jesus nomeou Pedro “Papa” quando lhe disse: “E eu por minha vez te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: o que ligares na terra ficará ligado nos céus, e o que desligares na terra ficará desligado nos céus.” (Mateus 16,18-19). Ali interpretam que a rocha sobre a qual Jesus edifica a sua Igreja é Pedro, correto?
José: Precisamente[1].
Marlene: Pois bem, segundo o que temos estudado, parece-me que esta interpretação não é a mais acertada. Permita-me explicar.
José: Pode falar.
Marlene: Em primeiro lugar, leiamos o texto completo, porque ambos estamos de acordo em que um texto fora de contexto é um pretexto. A passagem em sua totalidade diz assim: “Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipo, perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Eles disseram: «Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas.» Disse-lhes ele: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Simão Pedro respondeu: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.» Jesus, tomando a palavra, disse-lhe: «Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne nem sangue que te revelou isso, mas meu Pai que está nos céus. E eu por minha vez te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: o que ligares na terra ficará ligado nos céus, e o que desligares na terra ficará desligado nos céus.»” (Mateus 16,13-19)
Observe que tudo começa com a pergunta de Jesus aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” ao que Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Pedro acabava de confessar quem era a rocha sobre a qual se edifica a fé da Igreja. Não era Pedro a rocha, nem nenhum outro homem; antes, era Cristo e sua relação divina com Deus Pai, pelo fato de que Ele é o Filho de Deus.
Há muitos outros textos onde esta interpretação se confirma. Por exemplo, o apóstolo Paulo deixa isso claro quando diz: “Nenhum pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Coríntios 3,11). O profeta Isaías, falando de Jesus Cristo, escreveu: “Por isso, assim diz o Senhor Deus: «Hei de pôr em Sião uma pedra, pedra provada, pedra angular preciosa, de fundamento seguro.” (Isaías 28,16). Na carta aos efésios São Paulo novamente o repete: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Jesus Cristo a própria pedra angular.” (Efésios 2,20).
José: Parece-me muito bem que você vá ao contexto, mas considero que em sua análise há várias coisas que lhe passaram despercebidas.
Marlene: Conte-me…
José: Primeiro observe que nesse episódio Jesus está mudando o nome de Simão para Pedro[2]. Lembre-se de que cada vez que Deus muda o nome de alguém é porque com esse nome vem uma nova identidade e uma nova função. Por exemplo, quando Deus mudou o nome de Abrão para Abraão em Gênesis 17,3-6 é porque seria “pai de nações”; o nome de Sarai mudou para Sara em Gênesis 17,16 porque seria “mãe de reis”, “princesa fecunda”. A Jacó chamou Israel em Gênesis 32,28 porque “lutou com Deus e com os homens e venceu”, inclusive o próprio nome de Jesus em Mateus 1,21 tem um profundo significado: “Deus Salvador”, porque salvaria o povo de seus pecados.
Como você bem disse, Jesus lhe havia perguntado quem era ele, e Simão lhe respondeu indicando-lhe sua identidade: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Cristo, por sua vez, faz o mesmo e lhe diz qual será a identidade de Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja”. Portanto, cabe perguntar: qual é o significado do novo nome de Simão? Qual seria a nova função ou identidade que acompanharia este novo nome? Porque seria muito curioso que ali encontremos a única exceção em toda a Bíblia, onde um novo nome não tem significado algum. E seja qual for esse significado, devemos encontrá-lo ali no contexto, e é aqui que chama muito a atenção o que Jesus lhe diz imediatamente depois: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: o que ligares na terra ficará ligado nos céus, e o que desligares na terra ficará desligado nos céus”.
Observe que esse texto é muito semelhante a uma profecia do profeta Isaías, onde se anuncia um novo mordomo para o povo de Israel: “Naquele dia chamarei o meu servo Eliaquim, filho de Hilcias. Vesti-lo-ei de tua túnica, cingir-lo-ei com teu faixo, entregarei em sua mão tua autoridade, e ele será pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro; abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá. Firmá-lo-ei como prego em lugar seguro, e será trono de glória para a casa de seu pai” (Isaías 22,20-23)[3]. Como certamente saberão, o mordomo ou portador das chaves do Reino era um ministro a serviço do rei com a máxima autoridade subordinada apenas à do próprio rei, e com um papel de paternidade espiritual sobre o povo[4]. “ele será pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá”. Essa era uma figura amplamente conhecida para o povo judeu, razão pela qual era natural entender que Jesus a utilizasse para dar a conhecer qual seria a nova função de Pedro.
Marlene: José, mas você não explicou por que pensam que Jesus se referia ali a Pedro como a Rocha, quando em todos os textos bíblicos que lhe mostrei, Jesus é a Rocha.
José: A isso vou, mas vamos por partes.
Em Mateus 16,18, assim como no restante dos textos que você mencionou, utiliza-se uma figura literária da qual já falamos antes, e é conhecida como metáfora. Como havíamos dito, uma metáfora é uma figura retórica que consiste em identificar um termo real com um simbólico entre os quais existe uma relação de semelhança ou analogia. Na Bíblia abundam as metáforas, por exemplo quando Cristo afirma:
“…Eu sou a luz do mundo…” (João 8,12)
“…Eu sou o bom pastor…” (João 10,11)
“…Eu sou a porta…” (João 10,9)
“…Eu sou a videira verdadeira…” (João 15,1)
E assim poderia mencionar muitos exemplos mais, mas considero que não é necessário, porque todos conhecemos quais metáforas há na Sagrada Escritura.
Contudo, embora na Bíblia haja muitas metáforas, os elementos simbólicos utilizados nelas não têm um significado fixo. É um erro pensar que porque em João 8,12 se diga que Cristo é “a luz do mundo”, cada vez que em uma metáfora apareça a palavra luz, ela se refere a Ele. Um exemplo claro o temos em Mateus 5,14 onde Cristo também nos diz a nós: “Vós sois a luz do mundo”
Isaías 51,1, por exemplo, diz: “olhai para a pedra de que fostes cortados”, e nesta metáfora a pedra não simboliza a Cristo, mas a Abraão, pois a passagem continua “…e para a caverna da cisterna de onde fostes tirados. Olhai para Abraão vosso pai”. Em 1 Pedro 2,5 somos chamados de “pedras vivas”.
É por isso que para encontrar o significado dos elementos metafóricos há que acudir ao contexto e não pretender aplicar o mesmo significado mecanicamente a cada um. Observe, por exemplo, como em Efésios 2,20 os apóstolos e profetas figuram como o fundamento, sendo Cristo figura de Pedra angular: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Jesus Cristo a própria pedra angular” (Efésios 2,20), no entanto, em outra metáfora o fundamento é Cristo: “Nenhum pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.” (1 Coríntios 3,11). E não há nenhuma contradição porque são metáforas diferentes. Na epístola aos efésios (Efésios 2,20) compara-se a Igreja com um edifício; ali todos viemos a ser representados figurativamente como pedras (os crentes, os apóstolos e também Cristo, pois figura aqui como Pedra angular). Na epístola aos Coríntios, em contrapartida (1 Coríntios 3,11), os materiais da construção simbolizam as obras boas ou más de cada crente. Estas (obras), se estiverem edificadas sobre o fundamento (que é Cristo), receberão a sua recompensa.
Na passagem que estudamos (Mateus 16,18), assim como em Efésios 2,20, compara-se a Igreja com um edifício, mas nessa metáfora Cristo está figurando como o construtor, não como parte da construção; vemos isso quando utiliza o verbo “edificar” e o conjuga na primeira pessoa: “edificarei”. Nós somos as pedras que Cristo vai colocando, Pedro a primeira.
É por isso que é um erro misturar as metáforas ou querer estabelecer um significado constante para um elemento literal em todas elas. Com esse método pode-se provar qualquer coisa: toma-se uma palavra daqui, busca-se o significado simbólico, e logo se salta a outra metáfora diferente e se transfere o significado da anterior.
Não esqueçam também que a pedra angular de uma construção NÃO É A MESMA pedra sobre a qual se edifica. A pedra sobre a qual se edifica uma construção está na base; a pedra angular está na parte superior e é a que dá consistência a todas as demais. (Em uma construção, por exemplo, em uma pirâmide, na realidade há 5 pedras angulares, mas a que geralmente se chama pedra angular é a que está no cume, não a que está na base). Assim poderíamos construir uma metáfora geral onde se simboliza a Igreja com um edifício espiritual, Cristo figura como pedra angular, Pedro e os apóstolos como fundamento, sendo Pedro a primeira pedra sobre a qual se edifica, e nós completamos a construção sendo as pedras vivas que constituem o resto do edifício.
Marlene: Mas entendido dessa maneira você está dizendo que o fundamento da Igreja é um homem e não Cristo.
José: Não. O que acontece é que temos que distinguir em que sentido Pedro é a pedra nessa metáfora. Pedro é a pedra sobre a qual se edifica enquanto à autoridade instituída por Jesus Cristo para governar e pastorear a Igreja, como seu “servidor mordomo” portador das chaves, enquanto a confissão de fé é o fundamento doutrinal da mesma. Se não se entende essa diferença, terminamos por não compreender a posição católica, caricaturizando-a ao pensar que temos nossa fé posta sobre um homem.
É por isso que durante toda a história da Igreja os primeiros cristãos e padres da Igreja entenderam este texto em ambos os sentidos sem os excluir mutuamente, e afirmavam ao mesmo tempo que, enquanto Cristo é o fundamento da Igreja, Pedro, em virtude de sua fé, foi instituído como seu mordomo e portador das chaves[5].
Miguel: José, mas lembre-se de que não foi só Pedro quem recebeu as chaves; as recebeu toda a Igreja, porque em outra passagem lemos Jesus dizendo a todos os apóstolos: “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra ficará ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra ficará desligado no céu.” (Mateus 18,18)
José: Mas observe que ali Jesus apenas lhes fala de “ligar e desligar”; não lhes diz que lhes entregará as chaves. Em contrapartida, em Mateus 16,19 Jesus fala de entregar as chaves e diz a Pedro no singular “Eu te darei…”. É verdade que, por meio de Pedro, toda a Igreja em comunhão com ele tem as chaves, mas só ele é nomeado como seu portador em virtude de seu primado. O mesmo acontecia com a figura do mordomo nos antigos reinos, pois havia muitos ministros que podiam ligar e desligar[6] (tomar decisões), mas as decisões do mordomo eram irrevogáveis para o restante dos ministros[7].
Marlene: Entendo, mas ainda há outro elemento nessa passagem que faz a interpretação católica falhar[8]. Permite-me explicar.
José: Pode falar…
Marlene: Quando olhamos o grego de Mateus 16,18, vemos algo que não se observa em português: “…tu és Pedro [Πέτρος, pétros], e sobre esta rocha [πέτρα, pétra] edificarei a minha Igreja”. Em grego, os substantivos têm gêneros (masculino e feminino). É semelhante em uso a “Tu és o ator e com esta atriz filmarei meu novo filme”. Como você entenderia? Percebe como o gênero influencia a forma como uma oração é entendida?
José: O que acontece é que o evangelista, quando traduz ao grego as palavras de Jesus, não pode atribuir a Pedro um nome de gênero feminino, e por isso não utiliza a mesma palavra em ambos os lugares. No entanto, sabemos pelo próprio evangelho que Jesus não disse essas palavras originalmente em grego, mas em aramaico, e nesse idioma não existe essa distinção. Jesus chamou a Pedro realmente כֵּף (Kēphas) e ali não há nenhuma distinção, portanto o que Jesus realmente disse foi: “Tu és Pedro [Kēphas] e sobre esta Pedra [Kēphas] edificarei a minha Igreja”.
Marlene: Como que sabemos pelo próprio evangelho? Não temos o texto em aramaico e só se conservam cópias em grego dos evangelhos, portanto não é adequado referir-se a isso como prova. Por que recorrer a algo que não existe; neste caso, o texto em aramaico?
José: Embora não se conservem mais cópias em aramaico do evangelho de Mateus[9], do texto grego podemos deduzi-lo. Lembre-se de que quando o apóstolo São João nos diz qual foi o novo nome dado a Simão, nos diz que foi Cefas, e não Petros: “E o conduziu a Jesus. Jesus, olhando para ele, disse: Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro)” (João 1,42). E Cefas (em grego Κηφᾶς = Kēphas) é uma transliteração da palavra aramaica (כֵּף = Kēphas) que significa Rocha.
Marlene: Espere um momento, o fato de que João o traduza apoia o ponto de vista de que “Kēphas” não é um nome próprio, visto que geralmente não se traduzem os nomes próprios.
José: Precisamente por isso é tão significativo. “Kēphas” (Cefas), sem ser um nome próprio, ainda assim é atribuído como tal por Jesus a Pedro, e o definiu a tal ponto que o Novo Testamento, mesmo tendo sido escrito em grego, conserva esse nome dado a ele em aramaico. Lembre-se de que assim é que o apóstolo Paulo o chama ao longo de suas cartas (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9; 2,11; 2,14). Portanto, é certo que se Jesus tivesse dito as palavras de Mateus 16,18 diretamente em grego, Pedro não teria conservado seu nome em aramaico.
Vejamos o assunto objetivamente: Jesus ali faz um jogo de palavras ao mudar o nome de Pedro: “Tu és Pedro [que significa “pedra” ou “rocha”] e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Não faria sentido fazer esse jogo de palavras para se referir a outra pedra diferente[10].
Outra evidência de que o evangelista traduziu “Kēphas” a “Petros” e não a “Petra” para não atribuir a Pedro um nome feminino, o temos no fato de que em grego existe uma palavra para fazer referência a uma pedra pequena, que é “lithos”, e o tradutor não a utiliza, o que sim teria marcado uma diferença entre ambas as palavras além do gênero. Em outros textos do Novo Testamento observa-se esse contraste: “Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e eles te tomarão nas mãos, para que nunca tropeces o teu pé em pedra (lithon) alguma».” (Mateus 4,6); “Ou qual é o homem entre vós que, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? (lithon).” (Mateus 7,9); “Para vós, pois, os que credes, a honra; mas para os incrédulos, a pedra (lithos) que os construtores rejeitaram tornou-se em pedra (lithos) angular, em pedra (lithos) de tropeço e rocha (petra) de escândalo. Nela tropeçam porque não creem na Palavra; para isso foram destinados.” (1 Pedro 2,7-8).
É por isso que em Mateus 16,18 sim podemos estar seguros de que Jesus se referia a Pedro como a pedra sobre a qual se edifica a Igreja, enquanto o estava instituindo como o mordomo do seu reino. Hoje a essa figura chamamos “Papa”, mas o nome não é realmente o importante, mas aquilo que significa.
Miguel: José, está muito interessante a conversa, mas temos que ir. Gostaria que pudéssemos continuar depois, pois ficaram muitos pontos que gostaríamos de tratar.
José: Com muito prazer.
Notas
- A Igreja Católica interpreta Mateus 16,18 a partir de distintas perspectivas que se complementam entre si. Pedro é a Pedra sobre a qual se edifica a Igreja no que se refere à autoridade instituída por Jesus Cristo para apascentar a Igreja, ocupando o primado entre os apóstolos, e a fé em Jesus Cristo é o fundamento doutrinal da mesma. Explica o Catecismo a esse respeito: CIC 424: « Movidos pela graça do Espírito Santo e atraídos pelo Pai, cremos e confessamos a respeito de Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Foi sobre a rocha desta fé, confessada por São Pedro, que Cristo edificou a sua Igreja. » CIC 552: « No colégio dos Doze, Simão Pedro ocupa o primeiro lugar. Jesus confiou-lhe uma missão única. Graças a uma revelação do Pai, Pedro confessara: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Então, Nosso Senhor declarou-lhe: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Cristo, “pedra viva” (1 Pe 2,4), assegura à sua Igreja, edificada sobre Pedro, a vitória sobre as potências da morte. Por causa da fé que confessou, Pedro permanecerá a rocha inabalável da Igreja. Terá a missão de guardar esta fé de toda a falha e de confirmar nela os seus irmãos. » CIC 881: « O Senhor fez só de Simão, a quem deu o nome de Pedro, a pedra da sua Igreja. Confiou-lhe as chaves dela e instituiu-o pastor de todo o rebanho. “Esta função de ligar e desligar dada a Pedro foi também atribuída ao colégio dos Apóstolos unido à sua cabeça” (LG 22). Este ofício pastoral de Pedro e dos demais Apóstolos pertence aos fundamentos da Igreja e continua-se pelos bispos sob o primado do Papa. » ↩
- Pedro é o único apóstolo a quem Jesus muda o nome. Recorde-se que, embora Jesus se referisse coletivamente a Tiago e a João como os “filhos do trovão” (Marcos 3,17), eles conservaram seus nomes próprios. ↩
- Embora esta profecia não se referisse a Pedro, mas a Eliaquim, vê-se aqui quais eram as funções do mordomo do Reino; por isso Jesus se serve de uma figura conhecida para dar a conhecer a nova função de Pedro. ↩
- A figura do mordomo era muito comum na cultura dos povos antigos. Os reis e os chefes de família nomeavam um de seus servos de maior confiança como mordomo. Abraão, por exemplo, tinha como mordomo Eliézer de Damasco (Gênesis 15,2); José, o filho de Jacó, foi mordomo de Putifar (Gn 39,4) e posteriormente do Faraó (Gênesis 41,40-41). Assim sucessivamente encontramos numerosas referências a mordomos nos reinados de Judá e Israel ao longo dos séculos em 1 Reis 4,6; 16,9; 18,3; 2 Reis 10,5; 18,18.37; 19,2; 2 Crônicas 28,7; Isaías 22,15; 36,3.22; 37,2. ↩
- Se se estudam os textos dos padres da Igreja, comprovar-se-á que eles faziam uso de ambas as interpretações, ao indicar que Pedro era a pedra sobre a qual se edifica a Igreja (quanto à autoridade instituída por Jesus Cristo), e também a fé em Jesus Cristo (como fundamento doutrinal da mesma). Pode consultar meu outro livro, Compendio de Apologética Católica, onde faço uma compilação dos testemunhos patrísticos a esse respeito. ↩
- Os termos δέω – λύω (atar e desatar) provêm da terminologia rabínica (Alfred E. Tuggy, Léxico Griego-Español del Nuevo Testamento, Editorial Mundo Hispano, Primeira edição 1996, 1210 D): ATAR em hebraico se diz אָסַר (“asar”). A Mishná (que é um corpo exegético de leis judaicas compiladas, que recolhe e consolida a tradição oral judaica desenvolvida durante séculos desde os tempos da Torá ou lei escrita, até sua codificação às mãos de Rabi Yehudá Hanasí, por volta do final do século II) emprega-o (Shabbat 4,1), comentando Números 30,3, como declarar PROIBIDO (Strack-Billerbeck I, 738). DESATAR em hebraico se diz “hittir”; a Mishná emprega-o para declarar PERMITIDO ou LÍCITO. A Sinagoga usava ambos os verbos para indicar quem estava ADMITIDO ou PROSCRITO da Sinagoga (excomunhão) e para a interpretação de certas passagens difíceis da Escritura; é, pois, um emprego “técnico” para indicar “autoridade” não somente em matéria disciplinar (imposição e levantamento do anátema ditado pela Sinagoga; além da Mishná, Josefo fala disso no De Bello Iudaico I, 111), mas também AUTORIDADE “halákica” PARA ENSINAR (quanto ao ensino, significam a interpretação autoritativa da lei PELO RABINO ORDENADO e competente na matéria: “goza de autoridade para proibir e permitir”) (Flávio Josefo, Sobre a Guerra dos Judeus, L. 1, Cap. 5, 111; verbo “deo” (atar) no Dicionário exegético do NT de Balz-Schneider, Salamanca 1996). ↩
- Em Isaías 22,22 descreve-se como as decisões do mordomo do reino não podiam ser revogadas pelo resto dos ministros, quando diz: “abrirá, e ninguém fechará; fechará, e ninguém abrirá”. ↩
- Neste capítulo tomei os argumentos dos irmãos evangélicos nesta conversa do site Web de apologética evangélica www.Miapic.com, que é um ministério bastante reconhecido que publica conteúdo apologético em vários idiomas. ↩
- Embora não se conservem cópias do evangelho de Mateus em aramaico, conservam-se suficientes testemunhos históricos da Igreja primitiva, que datam do século I, de que este evangelho foi escrito primeiramente em aramaico e posteriormente traduzido ao grego. Para uma compilação detalhada destes testemunhos, pode consultar meu livro Compendio de Apologética Católica, Segunda edição, Lulu 2014, p. 83s. ↩
- A construção em grego tampouco permite interpretar que Jesus se refira como a “pedra” ou “rocha” a alguém diferente de Pedro. A esse respeito explica Robert A. Sungenis: “É importante assinalar que aqui Jesus escolhe a frase epi tautee tee petra (“sobre esta rocha”) em vez da redação mais ambígua como epi tee petra (“sobre a rocha”) ou epi petra (“sobre uma rocha”). Utilizando o artigo definido ou indefinido poderia parecer que assinala alguém diferente de Pedro, enquanto o adjetivo demonstrativo tautee (“esta”) é mais provável que identifique alguém na imediata proximidade gramatical ao substantivo “rocha”. A única outra rocha que se ilustra na imediata proximidade é Petros (“Pedro”), o qual é um nome próprio que significa “Rocha”…” (Butler, Dahlgren, Hess, Jesus, Peter & the Keys, Queenship Publishing Company, USA 1996, p. 23-24). ↩