Voltemos agora à conversa de Jesus e Nicodemos, retirando antes os óculos do protestantismo.
Na introdução desta obra mencionou-se como fato marcante que Jesus, assim como em outras ocasiões, começa utilizando uma figura literária impossível de ser interpretada literalmente, despertando assim o interesse de Nicodemos:
«Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.» (Jo 3,3)
Mas «Como pode um homem nascer, sendo já velho? Pode porventura entrar de novo no seio de sua mãe e nascer?», é a resposta natural que Jesus esperava de Nicodemos, que apenas lhe pede para explicar o que quis dizer. A isso Jesus responde novamente:
«Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.» (Jo 3,5)
Tudo parece indicar que seja lá o que Jesus quis dizer com “nascer de novo”, isso tem de estar compreendido no que significa “nascer da água e do Espírito”. Não teria sido lógico esclarecer um enigma com outro enigma, nem dissipar o significado de uma figura simbólica com outra igualmente simbólica.
É comum, ao longo do Evangelho, encontrar Jesus utilizando o mesmo método pedagógico para explicar o significado oculto de um ensinamento, que depois esclarecia a seus discípulos quando não o entendiam. Não deveria ter sido difícil, pelo menos para seus discípulos, compreender, após sua explicação, o que quis dizer com “nascer da água e do Espírito”.[1]
Outro elemento presente no contexto desse discurso, que lança muita luz sobre ele, é a ordem em que o evangelista registrou como os acontecimentos se s컞ram. Por um lado, o discurso de Jesus começa falando da necessidade de “nascer da água e do Espírito” e, imediatamente a seguir, apresenta Jesus e seus discípulos batizando:
«Quando Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele fazia mais discípulos e batizava mais do que João — embora não fosse o próprio Jesus quem batizava, mas os seus discípulos —» (Jo 4,1-2)
O que faria muito sentido se a menção à necessidade de nascer da água e do Espírito fosse uma referência ao batismo cristão, cuja água é o elemento material, e a regeneração e recepção do Espírito Santo o elemento espiritual. Afinal, se para entrar no Reino dos Céus era necessário ser batizado, isso seria a primeira coisa que Jesus coerentemente faria e mandaria seus discípulos fazerem em relação aos novos crentes.
E é precisamente essa a compreensão católica desse discurso ao longo dos séculos, confirmada em outras passagens da própria Sagrada Escritura, onde se observa que os próprios apóstolos interpretaram nesse sentido as palavras de Jesus.
Um exemplo encontramos na primeira grande pregação apostólica, na qual se converteram mais de 3.000 pessoas. Quando os novos convertidos perguntam o que devem fazer para se salvar, o apóstolo Pedro responde:
«Pedro lhes respondeu: «Arrependei-vos e cada um de vós se faça batizar em nome de Jesus Cristo, para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo; pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos os que estão longe, tantos quantos o Senhor nosso Deus chamar.»» (At 2,38-39)
Algo semelhante ocorreu com o apóstolo Paulo, que no momento de sua conversão é exortado por Ananias a lavar seus pecados por meio do batismo:
«E agora, que esperas tu? Levanta-te, sê batizado e lava os teus pecados, invocando o seu nome.» (At 22,16)
E no futuro será o próprio apóstolo quem explicará explicitamente que é por meio do batismo que o cristão nasce para uma vida nova:
«Ou não sabeis que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, o fomos na sua morte? Com ele fomos, pois, co-sepultados pelo batismo na morte, a fim de que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos em novidade de vida.» (Rm 6,3-4)
«Pois todos vós que fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes.» (Gl 3,27)
«Pois todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito para formarmos um único corpo; e todos bebemos de um único Espírito.» (1Cor 12,13)
«Sepultados com ele no batismo, com ele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos.» (Cl 2,12)
«Ele nos salvou, não em razão de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas por sua misericórdia, pelo banho de regeneração e de renovação do Espírito Santo.» (Tt 3,5)
As últimas instruções solenes de Jesus Cristo a seus apóstolos antes de subir ao Céu incluem o mandato de batizar os crentes:
«Ide, portanto, e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.» (Mt 28,19)
«Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado.» (Mc 16,16)
Se Jesus se referia ao batismo como requisito para nascer “da água e do Espírito”, compreende-se por que em cada conversão registrada na Bíblia a primeira coisa que os convertidos faziam era pedir o batismo. Entre alguns exemplos que o Novo Testamento recolhe, podem-se mencionar o do carcereiro de Filipos, o de Crispo, o chefe da sinagoga, o de Lídia, comerciante de púrpura, e o do etíope:
«Eles responderam: «Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa.» E anunciaram-lhe a palavra do Senhor, a ele e a todos os de sua casa. Àquela hora da noite, o carcereiro os tomou consigo, lavou-lhes as feridas e imediatamente foi batizado com toda a sua família.» (At 16,31-33)
«Crispo, o chefe da sinagoga, creu no Senhor com toda a sua casa; e muitos coríntios que ouviram Paulo creram e foram batizados.» (At 18,8)
«Uma delas, de nome Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, temente a Deus, estava escutando; o Senhor abriu-lhe o coração para aceitar o que Paulo dizia. Depois que foi batizada ela e toda a sua casa, pediu-nos insistentemente: «Se julgastes que sou fiel ao Senhor, vinde hospedar-vos em minha casa.» E nos forçou a ficar.» (At 16,14-15)
«Tomando a palavra, Filipe, partindo desta Escritura, anunciou-lhe a boa nova de Jesus. Enquanto prosseguiam o caminho, chegaram a um lugar com água, e o eunuco disse: «Aqui há água; o que impede que eu seja batizado?» Mandou parar a carruagem e ambos, Filipe e o eunuco, desceram à água; e Filipe o batizou.» (At 8,35-38)
Na conversa de Jesus com Nicodemos encontra-se uma preparação prévia para a compreensão do sacramento, como sinal visível por Ele instituído para receber a sua graça. O batismo não é um rito mágico que, pelo simples fato de mergulhar alguém na água, produz o novo nascimento, pois em todos esses casos o batismo está sempre ligado à fé e à Palavra de Deus, tanto no caso do adulto convertido como das crianças que são batizadas em virtude da fé de seus pais. Contudo, na perspectiva católica, quando numerosos textos bíblicos fazem referência à necessidade da fé para se salvar, mais do que ensinar que a fé é a única coisa necessária, ou que é no momento de crer que ocorre o novo nascimento, o que pretendem transmitir é que a fé, como dom gratuito de Deus, é o primeiro ato salutar do homem necessário para a sua salvação.[2][3][4]
A este respeito ensina o Catecismo:
«A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por ele: “Para dar esta resposta de fé, é necessária a graça de Deus que se adianta e nos ajuda, juntamente com o auxílio interior do Espírito Santo, que move o coração, o dirige para Deus, abre os olhos do espírito e concede a todos a docilidade em aceitar e crer na verdade” (DV 5).»[5]
Explica também:
«”Ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor!’ senão pelo Espírito Santo” (1Cor 12,3). “Deus enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Abba! Pai!” (Gl 4,6). Este conhecimento de fé não é possível senão no Espírito Santo. Para entrar em contacto com Cristo, é necessário ter sido primeiramente atraído pelo Espírito Santo. É ele quem nos precede e suscita em nós a fé.»
«Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina: “Crer é um acto do entendimento que assente à verdade divina por impulso da vontade, movida por Deus mediante a graça” (S. Tomás de A., s.th. 2-2, 2,9; cf. Cc. Vaticano I: DS 3010).»
Há que acrescentar, porém, que a fé não exclui, antes pressupõe, o uso dos meios que o próprio Deus instituiu para a nossa salvação (os sacramentos), sendo o primeiro deles o batismo, porta da vida espiritual.
[Catecismo da Igreja Católica §1265, citando Ireneu de Lyon, Demonstração da Pregação Apostólica, 7] «O nosso novo nascimento, o batismo, realiza-se com estes três artigos e nos dá o novo nascimento em Deus Pai, por meio de seu Filho no Espírito Santo. Porque os que portam o Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho; o Filho os apresenta ao Pai, e o Pai lhes confere a incorruptibilidade. Por conseguinte, sem o Espírito não é possível ver o Filho de Deus e, sem o Filho, ninguém pode chegar ao Pai, porque o conhecimento do Pai é o Filho, e o conhecimento do Filho de Deus obtém-se por meio do Espírito Santo.»[6][7]
«O Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito (vitae spiritualis ianua) e a porta que abre o acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus, tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados à Igreja e tornados participantes da sua missão (cf. Cc. de Florença: DS 1314; CIC, can 204,1; 849; CCEO 675,1): “Baptismus est sacramentum regenerationis per aquam in verbo” (“O batismo é o sacramento do novo nascimento pela água e a palavra”, Cath. R. 2,2,5).»[8]
A doutrina católica ensina também que o batismo é necessário para a salvação daqueles a quem o Evangelho foi anunciado e que tiveram a possibilidade de pedir este sacramento. Reconhece igualmente a existência do batismo de sangue e de desejo:
«O próprio Senhor afirma que o Batismo é necessário para a salvação (cf. Jo 3,5). Por isso mandou os seus discípulos anunciar o Evangelho e batizar todas as nações (cf. Mt 28,19-20; cf. DS 1618; LG 14; AG 5). O Batismo é necessário para a salvação daqueles a quem o Evangelho foi anunciado e que tiveram a possibilidade de pedir este sacramento (cf. Mc 16,16). A Igreja não conhece outro meio que o Batismo para assegurar a entrada na bem-aventurança eterna; por isso está obrigada a não descuidar a missão que recebeu do Senhor de fazer “renascer da água e do espírito” todos os que podem ser batizados. Deus vinculou a salvação ao sacramento do Batismo, mas a sua intervenção salvífica não se reduz aos sacramentos.
Desde sempre, a Igreja possui a firme convicção de que os que sofrem a morte por causa da fé, sem terem ainda recebido o Batismo, são batizados pela sua morte com Cristo e por Cristo. Este Batismo de sangue, como o desejo do Batismo, produz os frutos do Batismo sem ser sacramento.
Aos catecúmenos que morrem antes do seu Batismo, o desejo explícito de receber o batismo unido ao arrependimento de seus pecados e à caridade assegura-lhes a salvação que não puderam receber pelo sacramento.
“Cristo morreu por todos e a vocação última do homem é, na realidade, uma só, ou seja, a vocação divina. Em consequência, devemos defender que o Espírito Santo oferece a todos a possibilidade de que, de um modo conhecido só por Deus, se associem a este mistério pascal” (GS 22; cf. LG 16; AG 7). Todo o homem que, ignorando o evangelho de Cristo e a sua Igreja, busca a verdade e faz a vontade de Deus segundo o que dela conhece, pode ser salvo. Pode supor-se que semelhantes pessoas teriam desejado explicitamente o Batismo se tivessem conhecido a sua necessidade.
Quanto às crianças mortas sem Batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericórdia divina, como faz no rito das exéquias por elas. Com efeito, a grande misericórdia de Deus, que quer que todos os homens se salvem (cf. 1Tm 2,4), e a ternura de Jesus para com as crianças, que o fez dizer: “Deixai as crianças virem a mim, não as impeçais” (Mc 10,14), permitem-nos confiar que existe um caminho de salvação para as crianças que morrem sem Batismo. Por isso, é ainda mais urgente o apelo da Igreja para não impedir as crianças pequenas de vir a Cristo pelo dom do santo batismo.»[9]
- Veja, por exemplo, Jo 4,32-34 ou Mt 16,6-12 ↩
- Um recurso pedagógico similar utiliza Jesus Cristo por meio do discurso do pão da vida (Jo 6) para ajudar a compreender o significado do sacramento da Eucaristia. ↩
- O tema do batismo de crianças e uma análise completa das objeções anabatistas ficam fora do alcance desta obra. O leitor pode consultar meus livros Compêndio de Apologética Católica e Conversas com meus amigos evangélicos, nos quais dedico, em cada um, um capítulo a este tema. ↩
- Entende-se por «ato salutar» todo ato que conduz diretamente à salvação da pessoa. É doutrina católica que para cada ato salutar é absolutamente necessária a graça interna e sobrenatural de Deus. ↩
- Catecismo da Igreja Católica, 153 ↩
- São Ireneu de Lyon, Demonstração da Pregação Apostólica, 7 / Catecismo da Igreja Católica, 683 ↩
- Ireneu de Lyon, Demonstração da Pregação Apostólica, 7 / José Vives, Los Padres de la Iglesia, Herder Editorial, 4.ª edição, Barcelona 1971, p. 159 ↩
- Catecismo da Igreja Católica, 1213 ↩
- Catecismo da Igreja Católica, 1257-1261 ↩