O testemunho de Clemente Romano acerca da doutrina da sucessão apostólica é importantíssimo por várias razões. Em primeiro lugar, por ter sido discípulo e colaborador direto dos apóstolos segundo atesta a Tradição, ao ponto de identificá-lo com o Clemente mencionado no Novo Testamento (Filipenses 4,3). Ordenado sacerdote pelo próprio apóstolo Pedro, foi reconhecido por toda a tradição cristã primitiva como o quarto bispo de Roma. Em segundo lugar, pela clareza com que atesta a existência de uma intenção expressa dos apóstolos de estabelecer sucessores para que continuassem seu ministério, o que junto com as epístolas de Santo Inácio de Antioquia[1], também discípulo de Pedro e Paulo, escritas no ano 106, nos dão uma informação valiosíssima de como estava organizada e constituída a Igreja Católica no final do século primeiro e início do segundo.
Carta de Clemente aos coríntios – ano 96
«Os Apóstolos nos pregaram o Evangelho da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado da parte de Deus. Cristo, portanto, foi enviado por Deus, e os Apóstolos por Cristo; as duas coisas aconteceram, pois, ordeiramente, por vontade de Deus. Tendo, pois, recebido os mandatos, e adquirida a plena convicção pela ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo e confirmados pela palavra de Deus, com plena segurança do Espírito Santo, saíram a proclamar o Evangelho de que o reino de Deus estava próximo. Pregando, pois, de aldeia em aldeia e de cidade em cidade, foram estabelecendo as suas primícias, depois de prová-las pelo Espírito, como bispos e diáconos dos que haveriam de crer.»
E que há de estranho nisso que aqueles a quem foi confiada obra tal da parte de Deus, estabelecessem os supramencionados, quando o bem-aventurado Moisés, o servo fiel em toda a sua casa, consignava nos livros sagrados tudo quanto lhe era por Ele ordenado? E a Moisés seguiram os demais profetas, acrescentando seu testemunho ao que por ele foi legislado. E foi assim que Moisés, na ocasião em que havia estourado a inveja acerca do sacerdócio, e contendiam as tribos sobre qual delas haveria de se adornar com esse glorioso nome, mandou aos doze chefes de tribo que lhe trouxessem varas com o nome de cada tribo escrito sobre elas. E tomando-as Moisés, fez delas um feixe, selou-as com anéis dos chefes de tribo e as depositou na tenda do testemunho sobre a mesa de Deus. E tendo fechado a tenda, selou as chaves, assim como fizera com as varas, e lhes disse: «Irmãos, aquela tribo cuja vara brotar, essa é a que o Senhor escolheu para o sacerdócio e para seu serviço». Vindo a manhã seguinte, convocou a todo Israel, aqueles seiscentos mil homens, e mostrou os selos aos chefes de tribo; abriu depois a tenda do testemunho e tirou as varas. E verificou-se que a vara de Aarão não só havia brotado, mas também levava fruto.
Que vos parece, caríssimos? Acaso não sabia Moisés de antemão o que havia de s컞r? Certamente que sabia. Mas fez assim para que não houvesse sedição em Israel e para que o nome do verdadeiro e único Deus fosse glorificado. A Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.»
Também nossos Apóstolos tiveram conhecimento, por inspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo, de que haveria contenda por esse nome e dignidade do episcopado. Por essa causa, pois, como tivessem perfeito conhecimento do por vir, estabeleceram os supramencionados e juntamente impuseram para o futuro a norma de que, morrendo estes, outros que fossem varões aprovados, lhes s컞ssem no ministério. Agora, pois, os homens estabelecidos pelos Apóstolos, ou posteriormente por outros eximios varões com consentimento de toda a Igreja; homens que serviram irrepreensivamente ao rebanho de Cristo com espírito de humildade, pacífica e desinteressadamente; atestados além disso por muito tempo por todos; a tais homens, dizemos, não cremos que se os possa expulsar justamente de seu ministério. E é assim que cometeremos um pecado nada pequeno se depusermos de seu posto de bispos a quem intachável e religiosamente ofereceram os dons. Felizes os anciãos que nos precederam na viagem da eternidade, os quais tiveram um fim frutífero e perfeito, pois já não têm que temer que ninguém os expulse do lugar que ocupam. O qual dizemos porque vemos que vós removestes de seu ministério a alguns que o honraram com conduta santa e irrepreensível»[2]
- O aporte singular de Santo Inácio é principalmente atestar como já para a data de seu martírio (ano 106) a Igreja estava estruturada hierarquicamente com bispos, presbíteros e diáconos, e como o bispo era o centro da unidade da comunidade cristã local. ↩
- Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos, Edição Bilíngue, Biblioteca de Autores Cristãos, Quinta edição, Madrid, 1985, pág. 515-517 ↩