Analisar de maneira exaustiva a compreensão protestante do “novo nascimento” é bastante complexo. Antes de tudo, porque a contínua divisão sofrida pelo protestantismo em razão de sua livre interpretação das Escrituras é enorme e de caráter exponencial, de tal modo que o que para uns protestantes é considerado doutrina pura e verdadeira, para outros é heresia.
Ainda assim, correndo o risco de abordar o tema de maneira simplista, ousarei tentar sintetizar sua compreensão do novo nascimento nas suas principais linhas de pensamento:
Luteranismo: O novo nascimento se dá no batismo
A doutrina protestante inicial — à qual se oporia depois o protestantismo de tendência calvinista e, de forma mais radical, o de tendência anabatista — ensina que o novo nascimento ocorre no batismo. Reconhecido como um sacramento em que a água é o elemento material unido à Palavra divina, o batismo é reconhecido como uma obra de Deus que produz uma verdadeira regeneração no crente, apagando seus pecados e fazendo-o participar da adoção como filho de Deus pela fé.
Nessa perspectiva, o batismo é necessário para a salvação e costuma-se enfatizar a necessidade de batizar também as crianças para torná-las participantes do pacto da graça.
Já nos tempos da Reforma Protestante, sua figura mais importante, Martinho Lutero, se opôs frontalmente a toda compreensão distinta do sacramento. Em seu Catecismo Maior, identifica como “seitas” aqueles que afirmavam que o batismo era apenas um símbolo do novo nascimento.[1][2]
«É, portanto, de suma importância que o batismo seja considerado uma coisa excelente, gloriosa e ilustre; pois é por causa disso que lutamos e combatemos mais, já que o mundo está cheio de seitas que clamam que o batismo é uma coisa externa e que, portanto, não serve para nada…
Posso proclamar com segurança que o batismo não é coisa humana, mas que foi instituído pelo próprio Deus, que além disso ordenou séria e severamente que devemos ser batizados; caso contrário, não seremos salvos… Isso não se pode captar melhor do que nas palavras de Cristo citadas antes: “Quem crer e for batizado será salvo.” Daí deves compreender da maneira mais simples que a força, a obra, o benefício, o fruto e a finalidade do batismo consistem em nos fazer salvos.
Quanto aos que creem saber tudo melhor que ninguém — os novos espíritos — objetam que somente a fé salva, enquanto as obras e todo elemento externo nada contribuem para isso. Responderemos que certamente é a fé que em nós opera a salvação, como ainda ouviremos a seguir.
No entanto, esses guias cegos não querem ver que a fé precisa ter algo em que possa crer, isto é, algo a que se ater e sobre o qual se fundar e basear. Assim, pois, a fé está ligada e crê que ela é o batismo que encerra em si pura salvação e vida; mas, como antes se disse suficientemente, não pela água em si, mas pelo fato de estar unida à palavra e ao mandado divino e porque o nome de Deus está nela inscrito. E quando creio nisso, não creio eu, porventura, em Deus como aquele que deu e implantou sua palavra no batismo e que nos propõe essa coisa externa para que possamos captar ali tal tesouro?
Ora, são tão insensatos que separam uma coisa da outra, a fé e o objeto ao qual está ligada e relacionada a fé, ainda que seja algo externo. Deve e tem necessariamente de ser externo, a fim de que se possa captar e compreender com os sentidos e, por meio disso, entre no coração, assim como também o evangelho inteiro é uma pregação exterior e oral. Em suma, o que Deus faz e opera em nós, quer fazê-lo valendo-se de tais meios externos por Ele instituídos.»[3]
Entre algumas importantes confissões de fé protestante que se mantiveram nessa linha podem-se mencionar:
Confissão de Augsburgo (ano 1530)
A Confissão de Augsburgo é uma confissão de fé que constitui a primeira exposição oficial dos princípios do luteranismo, redigida em 1530 por Filipe Melanchthon, estreito colaborador de Martinho Lutero, para ser apresentada na Dieta de Augsburgo (cidade do Sacro Império Romano-Germânico) na presença de Carlos V. Ainda hoje é considerado um dos textos basilares das igrejas protestantes em todo o mundo e a ele aderem muitas igrejas luteranas. Faz parte do Livro de Concórdia luterano.
Em seu terceiro artigo ensina que, por causa do pecado original, o ser humano não pode se salvar se não nascer de novo pelo batismo:
«Além disso, ensina-se entre nós que, desde a queda de Adão, todos os homens que nascem segundo o curso natural estão concebidos e nascidos em pecado. Isto é, todos, desde o ventre materno, estão cheios de maus desejos e inclinações e por natureza não podem ter verdadeiro temor de Deus nem verdadeira fé nEle. Além disso, essa doença inata e pecado hereditário é verdadeiramente pecado e condena sob a eterna ira de Deus a todos aqueles que não nascem de novo pelo batismo e pelo Espírito Santo.»[4]
No nono artigo reitera a necessidade do batismo para a salvação e condena a rejeição dos anabatistas ao batismo de crianças:
«Quanto ao batismo, ensina-se que é necessário e que por meio dele se oferece a graça, e que as crianças devem ser batizadas; pelo batismo elas são confiadas a Deus e tornam-se-lhe agradáveis. Por esse motivo rejeitam-se os anabatistas, que ensinam que o batismo de crianças é ilícito.»[5]
A Confissão Escocesa (ano 1560)
A Confissão Escocesa é uma confissão de fé escrita em 1560 por seis promotores da Reforma Protestante na Escócia, tornando-se a primeira norma da igreja protestante naquele país. Tem sua origem quando, em agosto de 1560, o parlamento escocês acordou reformar a religião do país. Para lhes permitir decidir como deveria ser a Fé Reformada, o Parlamento encarregou John Knox e outras cinco pessoas — John Winram, John Spottiswoode, John Willock, John Douglas e John Row — de preparar uma Confissão de Fé. Tornou-se lei em 1567 e permaneceu como a Confissão da Igreja da Escócia até ser substituída pela Confissão de Fé de Westminster em 1648.
No que se refere ao batismo, essa confissão de fé também condena aqueles que não admitem que ele produz verdadeiramente uma regeneração do crente, reduzindo os sacramentos a um caráter meramente simbólico:
«Reconhecemos e confessamos que agora, no tempo do evangelho, temos dois sacramentos principais, os únicos instituídos pelo Senhor Jesus e ordenados para serem praticados por todos aqueles que serão contados como membros de seu corpo: o Batismo e a Ceia ou Mesa do Senhor Jesus, também chamada Comunhão de seu Corpo e de seu Sangue. Esses Sacramentos, tanto do Antigo como do Novo Testamento, foram instituídos por Deus, não apenas para fazer uma distinção visível entre seu povo e aqueles que estavam fora do Pacto, mas para fortalecer a fé de seus filhos e, pela participação neles, selar em seus corações a certeza de sua promessa, e essa mais que bendita conjunção, união e associação que os eleitos têm com sua Cabeça, Cristo Jesus. E assim, condenamos absolutamente a vaidade daqueles que afirmam que os Sacramentos não são mais que meros símbolos vazios e despidos. Não: cremos firmemente que pelo Batismo somos enxertados em Cristo Jesus, participamos de sua justiça, pela qual nossos pecados são cobertos e perdoados.»[6]
Calvinismo e Anabatismo: O novo nascimento não se dá no batismo
Expostos à livre interpretação da Bíblia, a doutrina protestante não evoluiu da mesma forma nem mesmo entre os próprios reformadores, o que afetou também sua compreensão dos sacramentos.
Ao contrário de Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio rebaixa os sacramentos à categoria de pactos entre os crentes. João Calvino adota a antiga definição escolástica e concorda com Lutero em recomendar seu uso, mas separa os elementos visíveis de todos eles da graça, que somente os eleitos podem desfrutar. Em sua perspectiva, o batismo não confere graças espirituais, mas é um símbolo ineficaz quanto ao seu significado.
É nesse contexto que surgem outras confissões de fé protestantes. Menciono a seguir algumas das mais importantes:
Confissão de Westminster (ano 1646)
A Confissão de Fé de Westminster é um resumo teológico e doutrinal do credo cristão protestante calvinista promulgado em 1646. Recolhe a doutrina das igrejas protestantes reformadas nascidas do movimento calvinista na Grã-Bretanha, cujas raízes históricas estão na doutrina exposta pelo reformador protestante João Calvino durante o século XVI em Genebra, Suíça. Foi elaborada primeiramente para a Igreja da Inglaterra, mas permanece também como um padrão subordinado de doutrina para a Igreja da Escócia, e influenciou as igrejas presbiterianas em todo o mundo. A Confissão de Westminster permanece até hoje como a declaração de fé autoritativa da maioria das igrejas presbiterianas.
Embora identifique o batismo como sacramento, entende-o apenas como símbolo ou sinal do novo nascimento:
«O Batismo é um sacramento do Novo Testamento, instituído por Jesus Cristo, não apenas para admitir solenemente na igreja visível a pessoa batizada, mas também para ser para ela um sinal e um selo do pacto da graça, de seu enxerto em Cristo, de sua regeneração, da remissão de seus pecados e de sua entrega a Deus por Jesus Cristo, para andar em novidade de vida. Este sacramento, por instituição própria de Cristo, deve continuar em sua Igreja até o fim do mundo.»[7]
Aceita como válidos o batismo por imersão, efusão ou aspersão, desde que seja feito em nome da Santíssima Trindade e se utilize a água como elemento material:
«O elemento externo a ser usado neste sacramento é a água, com a qual a pessoa deve ser batizada em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, por um ministro do Evangelho devidamente chamado para isso.
Não é necessária a imersão da pessoa na água; contudo, o batismo é corretamente administrado pela aspersão ou efusão da água sobre a pessoa.»
Aceita também o batismo de crianças e rejeita rebatizar mais de uma vez uma pessoa, costume praticado pelos anabatistas:
«Não apenas os que de fato professam fé em Cristo e obediência a Ele devem ser batizados, mas também os filhos de um ou de ambos os pais crentes.»
«Ainda que o desprezo ou descuido deste sacramento seja um pecado grave, a graça e a salvação não estão tão inseparavelmente ligadas a ele, de modo que não possa alguma pessoa ser regenerada ou salva sem o batismo, ou que todos os que são batizados sejam indubitavelmente regenerados.
… O sacramento do batismo deve ser administrado uma única vez a cada pessoa.»[8]
Na mesma linha da Confissão de Westminster, outras confissões de fé protestantes dela derivadas mantiveram a mesma posição, como, por exemplo, a Declaração de Savoia de 1658.
Confissão de Fé Batista de Londres (ano 1689)
Muitos protestantes, incluindo os batistas que não se sentiam satisfeitos com a Confissão de Westminster e a Declaração de Savoia, redigiram sua própria confissão de fé em 1677, e posteriormente a modificaram para produzir a de 1689, que é utilizada atualmente por grande número de congregações ao redor do mundo.
Nessa confissão de fé observa-se mais claramente uma evolução transformista da compreensão protestante do batismo. Já nem mesmo se reconhece o batismo como sacramento, mas se o reduz à categoria de ordenança.
Nessa perspectiva, o crente não é regenerado (nascido de novo) no batismo, nem este confere a remissão dos pecados, mas é apenas um sinal do novo nascimento. Adota a rejeição anabatista ao batismo de crianças e às formas de batismo por infusão e aspersão, reconhecendo como válido somente o batismo por imersão:
«O batismo é uma ordenança do Novo Testamento instituída por Jesus Cristo, com o fim de ser para a pessoa batizada um sinal de sua comunhão com Ele em sua morte e ressurreição, de estar enxertada nEle, da remissão dos pecados e de sua entrega a Deus por meio de Jesus Cristo para viver e andar em novidade de vida.
Os que realmente professam arrependimento para com Deus e fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e obediência a Ele são os únicos adequados para receber esta ordenança.
O elemento externo a ser usado nesta ordenança é a água, na qual a pessoa deve ser batizada em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A imersão da pessoa na água é necessária para a correta administração desta ordenança.»[9]
Caminho ao Calvinismo extremo
Dessa forma, a doutrina protestante sobre os sacramentos e o batismo foi mudando até manter, em alguns casos, posições irreconciliáveis. O primeiro elemento para compreender essa evolução é, talvez, a doutrina do reformador Martinho Lutero sobre a salvação pela fé somente, que, interiorizada até suas últimas consequências, levou outros a conclusões contraditórias.
É que, se como pensava Lutero somente a fé fiducial é necessária para se salvar, com razão outros protestantes concluíram que os sacramentos não eram realmente necessários e deveriam ser reduzidos ao nível de símbolos pedagógicos.[10]
Por essa razão supõem que, quando Jesus disse a Nicodemos que para ver o Reino dos Céus é preciso nascer de novo, não poderia estar se referindo ao batismo, mas estaria falando somente de crer nEle. Daí que, para responder à pergunta, em vez de buscar a resposta no contexto, a buscassem em outros textos bíblicos como este: «pois, se confessares com a tua boca que Jesus é Senhor e creres no teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo» (Rm 10,9), ou «Quem crê no Filho tem a vida eterna» (Jo 3,36; cf. Jo 6,47), textos que não falam de nascer de novo, mas da fé como necessária para a salvação.
O silogismo conduz-se desta maneira: se nascer de novo é necessário para se salvar, e Jesus fala de que para se salvar é preciso crer nEle, então é no momento de ter fé que nascemos de novo. Nessa perspectiva, o novo nascimento e a fé ocorrem ao mesmo tempo. No momento em que uma pessoa crê no Senhor Jesus Cristo, é regenerada (nascida de novo). No momento em que recebe a Cristo pela fé, recebe também o dom de Deus da vida eterna.
Mas havia outro elemento fundamental da doutrina luterana e calvinista que faria com que outros protestantes rejeitassem até mesmo essa postura: o que denominam depravação total. Essa doutrina ensina que, em razão do pecado original, o livre-arbítrio do homem ficou totalmente destruído, deixando-o morto espiritualmente e, portanto, incapaz de crer em Cristo. Então Deus, num ato soberano, opera no morto a vida espiritual, que é o que identificam como novo nascimento. Nesse ato o pecador é totalmente passivo; Deus age de maneira ativa em seu coração, mudando sua natureza e tornando-o capaz de perceber as coisas do Espírito. O novo nascimento produz a fé, e não o contrário.
É assim que o calvinismo chega a um de seus pontos mais controvertidos: a dupla predestinação, na qual é Deus quem, por um decreto antecedente e absoluto, destinou uns à salvação — e a eles os regenera concedendo-lhes o novo nascimento —, enquanto predestina os demais à condenação eterna.
Nesse ponto de vista, Jesus Cristo morreu somente pelos eleitos e quer que somente eles se salvem, enquanto os demais, por mais que busquem a Deus e vivam religiosamente, jamais poderão nascer de novo, nem haverá nada que possam fazer para consegui-lo. Se alguém tem fé é porque foi regenerado gratuitamente por Deus. Se não a tem, não pode fazer mais do que esperar que Deus o regenere, caso esteja entre os predestinados, e somente a partir desse momento terá fé.
- Em seu Catecismo Maior, Lutero escreve: «O batismo não é obra nossa, mas de Deus… As obras de Deus são salutares e necessárias para a salvação e não excluem, antes pelo contrário, exigem a fé, já que sem a fé não seria possível captá-las.» ↩
- Nota editorial: as citações do Catecismo Maior de Lutero a seguir foram traduzidas a partir do original. A edição de referência em português brasileiro é publicada pela Editora Sinodal. ↩
- Martinho Lutero, Catecismo Maior, Quarta Parte: O Batismo ↩
- Confissão de Augsburgo, 3 ↩
- Ibid. ↩
- Confissão Escocesa de 1560, 21 ↩
- Westminster Confession of Faith, Capítulo 28, Seção 1 (1646) ↩
- Westminster Confession of Faith, Capítulo 28, Seção 3 (1646) ↩
- Confissão de Fé Batista de Londres de 1689, 29 ↩
- Para Lutero, o homem é justificado pela fé fiducial, que é a confiança única em que a divina misericórdia remitirá os pecados pelos méritos de Jesus Cristo. Hoje muitos cristãos evangélicos, sem o saber, não partilham das teses de Lutero; quando afirmam que o homem é justificado pela fé, entendem implicitamente que a graça pode sanar a natureza humana e que a vontade pode cooperar livremente com ela. ↩