O Concílio de Trento formulou a fé da Igreja sobre o pecado original num texto solene.
Na catequese anterior consideramos o ensinamento conciliar relativo ao pecado pessoal dos primeiros pais. Vamos agora refletir sobre o que diz o Concílio acerca das consequências que o pecado teve para a humanidade. O texto do decreto tridentino faz uma primeira afirmação a esse respeito.

O pecado de Adão passou a todos os seus descendentes, isto é, a todos os homens enquanto procedentes dos primeiros pais e seus herdeiros na natureza humana, já privada da amizade com Deus.

O Decreto tridentino o afirma explicitamente: o pecado de Adão causou dano não só a ele, mas também a toda a sua descendência. A santidade e a justiça originais, fruto da graça santificante, Adão não as perdeu somente para si, mas também “para nós” (“nobis etiam”). Por isso transmitiu a todo o gênero humano não só a morte corporal e outras penas (consequências do pecado), mas também o próprio pecado como morte da alma (“peccatum, quod mors est animae”).

Aqui o Concílio de Trento recorre a uma observação de São Paulo na Carta aos Romanos, à qual já fazia referência o Sínodo de Cartago, acolhendo, além disso, um ensinamento já difundido na Igreja.

Na tradução atual do texto paulino lê-se assim: “Como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). No texto grego original lê-se: “ef w pantez hmaton”, expressão que na antiga Vulgata latina se traduzia: “in quo omnes peccaverunt” — “no qual (nele somente) todos pecaram”; contudo, os gregos, desde o princípio, entendiam claramente o que a Vulgata traduz “in quo” como um “por causa de” ou “enquanto”, sentido já comumente aceito nas traduções modernas. Entretanto, essa diversidade de interpretações da expressão “ef w” não muda a verdade de fundo contida no texto de São Paulo, isto é, que o pecado de Adão (dos progenitores) teve consequências para todos os homens. Além disso, no mesmo capítulo da Carta aos Romanos, o Apóstolo escreve: “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (Rm 5,19). E no versículo anterior: “pela transgressão de um só veio a condenação para todos” (5,18). Assim, pois, São Paulo vincula a situação de pecado de toda a humanidade à culpa de Adão.

As afirmações de São Paulo que acabamos de citar, e às quais se remeteu o Magistério da Igreja, iluminam, portanto, a nossa fé sobre as consequências que o pecado de Adão tem para todos os homens. Este ensinamento orientará sempre os exegetas e teólogos católicos para avaliar, com a sabedoria da fé, as explicações que a ciência oferece sobre as origens da humanidade.

Em particular, continuam válidas e estimulantes as palavras que o Papa Paulo VI dirigiu a um simpósio de teólogos e cientistas: “É evidente que vos parecerão irreconciliáveis com a genuína doutrina católica as explicações que alguns autores modernos dão do pecado original, os quais, partindo do pressuposto, que não foi demonstrado, do poligenismo, negam, mais ou menos claramente, que o pecado, do qual deriva tamanha quantidade de males para a humanidade, tenha sido antes de tudo a desobediência de Adão — primeiro homem, figura daquele que havia de vir — cometida no princípio da história” (1966).

O Decreto tridentino contém outra afirmação: o pecado de Adão passa a todos os descendentes por causa da sua origem nele, e não apenas pelo mau exemplo. O Decreto afirma: “Este pecado de Adão, que é único por sua origem e transmitido por propagação, e não somente por imitação, está em cada um como próprio”.

Assim, pois, o pecado original transmite-se por geração natural. Esta convicção da Igreja se manifesta também na prática do batismo dos recém-nascidos, à qual se remete o Decreto conciliar. Os recém-nascidos, incapazes de cometer um pecado pessoal, recebem, contudo, de acordo com a Tradição secular da Igreja, o batismo pouco depois do nascimento para a remissão dos pecados. O Decreto diz: “São verdadeiramente batizados para a remissão dos pecados, a fim de que sejam purificados na regeneração do pecado contraído por geração”.

Neste contexto fica claro que o pecado original, em nenhum descendente de Adão, tem o caráter de culpa pessoal. É a privação da graça santificante numa natureza que, por culpa dos progenitores, se desviou do seu fim sobrenatural. É um “pecado da natureza”, referível apenas analogicamente ao “pecado da pessoa”. No estado de justiça original, antes do pecado, a graça santificante era como o “dote” sobrenatural da natureza humana. Na “lógica” interior do pecado, que é rejeição da vontade de Deus, doador deste dom, está incluída a perda dele. A graça santificante deixou de constituir o enriquecimento sobrenatural dessa natureza que os primeiros pais transmitiram a todos os seus descendentes no estado em que se encontrava quando deram início às gerações humanas. Por isso o homem é concebido e nasce sem a graça santificante. Precisamente este “estado inicial” do homem, vinculado à sua origem, constitui a essência do pecado original como herança (Peccatum originale originatum, como se costuma dizer).

Não podemos concluir esta catequese sem afirmar o que dissemos no início deste ciclo: a saber, que devemos considerar o pecado original em constante referência ao mistério da redenção realizada por Jesus Cristo, Filho de Deus, o qual “por nós, homens, e para nossa salvação se fez homem”. Este artigo do Símbolo sobre a finalidade salvífica da Encarnação refere-se principal e fundamentalmente ao pecado original.

Também o Decreto do Concílio de Trento tem, em todo o seu conjunto, referência a esta finalidade, inserindo-se assim no ensinamento de toda a Tradição, que tem o seu ponto de partida na Sagrada Escritura e, antes de tudo, no chamado “protoevangelho”, isto é, na promessa de um futuro vencedor de satanás e libertador do homem, já vislumbrada no livro do Gênesis (3,15) e depois em tantos outros textos, até a expressão mais plena que São Paulo nos dá na Carta aos Romanos. Com efeito, segundo o Apóstolo, Adão é “figura daquele que havia de vir” (Rm 5,14). “Pois, se pela transgressão de um só morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom gratuito (conferido) pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundaram em benefício de muitos” (Rm 5,15).

“Pois como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos” (Rm 5,19). Por conseguinte, como pela transgressão de um só veio a condenação para todos, assim também pela justiça de um só chega a todos a justificação da vida” (Rm 5,18).

O Concílio de Trento refere-se particularmente ao texto paulino da Carta aos Romanos 5,12 como eixo do seu ensinamento, vendo afirmada nele a universalidade do pecado, mas também a universalidade da redenção. O Concílio remete-se também à prática do batismo dos recém-nascidos, e o faz por causa da forte referência do pecado original — como herança universal recebida dos progenitores com a natureza — à verdade da redenção operada em Jesus Cristo.

Fonte: Encuentra.com