É por todos conhecido o fato de que tantas religiões e movimentos religiosos evangélicos veneram as Sagradas Escrituras com uma reverência e um amor louváveis. Deles, creio eu, muitos católicos podem aprender bastante, pois, por um motivo ou outro, não levam à prática aquelas palavras do último Concílio Universal da Igreja, isto é, o Concílio Vaticano II, quando nos ensina que “é tão grande a força e a virtude da palavra de Deus, que se torna apoio e vigor da Igreja, firmeza da fé para os seus filhos, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual… É necessário que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” (DV 21 e 22).

Ora, também é conhecido por todos o rechaço que estes nossos irmãos manifestam, em geral, por tudo aquilo que não está contido explícita ou, ao menos, implicitamente nas Sagradas Escrituras.

o amor e a veneração às Sagradas EscriturasOu seja, coincidimos com estes nossos irmãos no amor e na veneração às Sagradas Escrituras, mas diferimos quando eles dizem que somente aquilo que se encontra nas Sagradas Escrituras é digno de ser tomado como mensagem certa de Deus para a nossa salvação. O católico afirma que a Palavra de Deus escrita se contém, sim, exclusivamente nas Sagradas Escrituras, mas que a Palavra de Deus não é somente aquela que foi posta por escrito nas Escrituras; a Palavra de Deus excede as Escrituras: a prova está em que Jesus, o grande revelador do Pai, “fez e disse muitas outras coisas que não se encontram escritas neste livro”, e que, obviamente, podemos considerar como Palavra de Deus, embora não escrita, mas oral. Esta Palavra de Deus transmitida por Jesus e pelos Apóstolos oral e literalmente é chamada tecnicamente Tradição, escrita aqui de propósito com maiúscula, para diferenciá-la daquilo que habitualmente entendemos por “tradições”, isto é, costumes de origem mais ou menos desconhecida que se repetem de geração em geração, e cuja única autoridade é “é assim que se faz”, e basta. Semelhantes “tradições”, quando são de caráter religioso, podem ser boas ou más, podem mudar ou permanecer, podem aumentar ou diminuir, podem desaparecer.

A Tradição (com maiúscula) da Igreja tem sua origem em Jesus Cristo e nos Apóstolos e é entregue de geração em geração por meio da pregação e da celebração dos mistérios da salvação, sob a guia do Espírito Santo. A palavra “tradição”, como se sabe, vem do latim “tradere”, que significa “entregar”. Neste sentido, as Sagradas Escrituras são parte da Tradição que recebemos dos nossos antepassados na fé; isto é, a Bíblia é uma mensagem que foi “entregue” de geração em geração, sob a guia do Espírito Santo.

Mas, segundo dissemos, os cristãos assim chamados “evangélicos” negam que devamos dar ouvidos a qualquer outra “Tradição” que não seja esta Tradição escrita, ou seja, a Bíblia. A Igreja Católica, ao contrário, sustenta que aquela Sagrada Tradição (ou “ensinamento de salvação entregue”) que devemos manter e conservar é mais ampla que a Sagrada Escritura, e, digamo-lo desde já, não se opõe a ela nem a contradiz, pois se trata de uma mesma Tradição que se “entrega” sob duas formas distintas: escrita e oral. Creio que não há melhor maneira de dizê-lo do que como o próprio São Paulo o disse: “irmãos, permanecei firmes e conservai as tradições que recebestes como ensinamento, seja de viva voz, seja por nossas cartas” (2 Tes. 2,15). Algumas traduções desta passagem, diga-se de passagem, vertem a palavra do texto original “paradoseis” como “doutrinas”, o que é perfeitamente lícito caso não se trate de uma tradução tendenciosa: não se deve esquecer que a palavra “paradosis” significa inequivocamente “tradição” (à margem do significado de “traição”, “prisão”, que não se aplica aqui), da raiz verbal “para-didomi”, e que é a mesma palavra que Jesus usa ao dizer aos fariseus: “Assim invalidastes a palavra de Deus por causa da vossa tradição (paradosis)”.

Cristo e os apóstolosComo se vê, a palavra “tradição” pode ser tomada como sinônimo da doutrina de Jesus e dos apóstolos e também como sinônimo das doutrinas dos fariseus ou dos seus antepassados. Em uma palavra, o termo “tradição” pode ser usado em sentido positivo e também em sentido mais pejorativo; por isso não há lugar para escandalizar-se quando na Igreja se fala de Tradição, como falava São Paulo. (Em 2 Tes 3,6 também se usa o termo grego “paradosin”, que, outra vez, em algumas versões espanholas se traduz como “doutrinas”: “…conforme às doutrinas que receberam de nossa parte” —Reina de Valera—; também vale aqui o que dissemos para 2,13: sim, podemos traduzir “paradosin” como “doutrina”, mas não percamos de vista que o texto original diz: “…conforme à tradição que receberam de nossa parte”; poderíamos acrescentar que o texto de Mt 15,3 e 6, onde temos no original a mesma palavra que em 2 Tes 3,6, isto é, “paradosin”, é traduzido por quase todas as versões espanholas —inclusive a Reina de Valera— como “tradições”. Perguntamo-nos: por que não traduzir aqui “paradosin” como “doutrinas”, como se traduz 2 Tes 3,6, que faz referência a uma realidade semelhante —ensinamentos, tradições, doutrinas—? Certamente a suspeita de parcialidade da tradução não é de todo infundada: pareceria que, quando o termo “paradosin” aparece para indicar o ensinamento de Jesus ou dos Apóstolos, traduz-se como “doutrinas”, enquanto, quando se trata dos ensinamentos e preceitos humanos dos judeus, traduz-se como “tradições”. Repetimos uma vez mais que, embora o tradutor possa escolher os sinônimos que julgue convenientes, contudo neste caso parece-me que se cumpre o dito “traduttore traditore”, pois pode levar os leitores simples a pensar que “tradição” é uma espécie de “palavrão” que alude às tradições humanas, contra a doutrina de Jesus, quando de fato no texto original se trata de uma mesma palavra, a qual assume seu valor positivo ou negativo segundo o “conteúdo” da mencionada tradição. Entretanto, não era tanto para questões de exegese que eu queria atrair a atenção do leitor, mas antes para questões de história da doutrina cristã em seus primeiros passos, recém recebido o Espírito Santo em Pentecostes.

É um fato óbvio e até registrado nas Sagradas Escrituras que “há muitas outras coisas que Jesus fez; se fossem escritas uma por uma, penso que nem mesmo no mundo caberiam os livros que se deveriam escrever” (Jo 21,25). Jesus passou os anos de sua vida pública pregando e fazendo o bem, coisa que depois fizeram também os Apóstolos do Senhor, que são considerados por todas as igrejas cristãs como fontes da Revelação, isto é, a Revelação pública do mistério de Jesus Cristo culmina com a morte do último dos Apóstolos, que foi João.

Ninguém pode dizer, com base em algum texto bíblico, que os autores dos textos do Novo Testamento quiseram limitar o ensinamento de Jesus ou dos Apóstolos ao que estavam escrevendo. Ou, dito de outro modo, nem Mateus, nem Marcos, nem Lucas, nem João, nem Pedro, nem Paulo, nem Tiago, nem Judas, nem qualquer outro que tenha podido fazer parte dos autores do Novo Testamento jamais pensou em pôr por escrito tudo o que Jesus ensinou, pois isso teria sido algo sem fim, como diz João (21,25). Jesus tampouco lhes havia mandado escrever nada. Nem todos os Apóstolos escreveram algo, mas somente cinco, alguns dos quais escreveram apenas duas ou três páginas (ver a carta de Judas, ou de Tiago; de Pedro temos duas cartas).

sucessão apostólicaJesus, porém, deu a seus Apóstolos o mandamento de ir por todo o mundo anunciando o Evangelho a toda criatura, “ensinando-os a observar tudo o que vos mandei” (Mt. 28,20). Os Apóstolos e também os outros discípulos do Senhor, uma vez recebido o Espírito Consolador, cumpriram o que o Senhor lhes havia ordenado e pregaram dia e noite, mesmo ao preço de seu sangue, aquilo que tinham “visto e ouvido” acerca de Jesus. Ora, como fica claro, os Apóstolos fizeram isso pregando, isto é, entregando oralmente o mistério da Salvação, já que, como dissemos, somente alguns dos Apóstolos, passado já muito tempo de pregação, e sem pretender resumir em seus escritos aquele “tudo” que Jesus lhes havia mandado (ver acima a citação de Mt. 28,20), escreveram algo do que pregavam (notemos que muitos dos escritos do Novo Testamento são cartas circunstanciais). Com isto queremos dizer que:

A nenhum dos Apóstolos ocorreu jamais limitar os ensinamentos de Jesus ao que estavam escrevendo naquele momento;

A comunidade cristã do começo não se fundou sobre os escritos do Novo Testamento, mas sobre o ensinamento oral dos Apóstolos e discípulos do Senhor;

Milhares de cristãos da Igreja primitiva nunca leram nenhum texto do Novo Testamento.

Poderíamos concluir disto que a comunidade dos primeiros cristãos não conhecia a Palavra de Deus? Claro que não. Conhecia-a, e muito bem; mas para eles (e para muitas igrejas particulares durante séculos) a Palavra de Deus foi entregue de maneira oral, ao menos em sua quase totalidade.

Ouvi dizer por aí que, chegado o tempo, Deus fez com que se pusessem por escrito os ensinamentos evangélicos, para que não fossem deturpados pelo correr dos anos; hoje devemos ficar com o que ficou escrito, que sem dúvida não contém erro; todo o resto é perigoso, pouco confiável.

Com respeito a isso digamos que tal afirmação ainda fica por demonstrar: não se baseia em nenhum mandamento —ao menos que conheçamos— do Senhor, nem em nenhuma decisão de algum Concílio da Igreja (como por exemplo o Concílio de Jerusalém, em At 15, onde a Igreja decide questões que iam aparecendo e sobre as quais Jesus, aparentemente, não havia deixado uma norma clara de comportamento). Isto é, a afirmação de que “Deus, vendo que algumas doutrinas corriam o risco de se desviar, nos dá os escritos do Novo Testamento” pode soar muito bem para alguém, mas, a menos que conheçamos diretamente os pensamentos de Deus, não a podemos defender com nenhum dado nem histórico nem bíblico; é uma hipótese. Eu poderia dizer, como hipótese, que não, que esse não foi o pensamento de Deus, que esse não foi o motivo pelo qual apareceram os escritos do Novo Testamento, e quem poderia dizer-me que estou errado?

Sobre este ponto poderíamos aduzir outros aspectos, mas não é o que mais nos concerne agora.

Deixamos assentado, pois, que Jesus e os Apóstolos disseram e fizeram muitíssimo mais do que está escrito, e que na vida dos apóstolos ocorreram fatos importantes que não ficaram por escrito (ou acaso alguém pode pensar que o labor dos Doze se limita ao pouco que o livro dos Atos dos Apóstolos relata, quase exclusivamente, sobre Pedro e Paulo?). E deixamos assentado também que, se alguém pensa que a única coisa importante para nós é o que ficou escrito, esse pensamento não é bíblico —não está em nenhuma parte da Bíblia, nem sequer insinuado; antes, pelo contrário— nem é histórico —nunca ninguém pensou assim até os últimos séculos da nossa era.

Ora, suponhamos que na comunidade cristã do começo aconteça um fato que não ficou por escrito, e ponhamos agora mesmo um exemplo para tornar a questão mais prática e compreensível: digamos que a Mãe do Senhor, conhecida e querida por todos os Apóstolos, que havia estado junto de Jesus durante toda a sua vida, chegado o dia determinado por Deus, morreu, e que, quando foi visitada em seu túmulo por algumas pessoas, digamos para os ritos próprios dos funerais judaicos, encontraram que seu corpo já não estava ali. Este fato, que os católicos tomam por um “ensinamento entregue”, uma “Tradição” com maiúscula (a Assunção da Virgem), tomamo-lo aqui pura e exclusivamente como uma suposição, já que, segundo vimos, certamente sucederam coisas que não ficaram por escrito.

Neste caso suposto, e em todos os demais casos que certamente ocorreram, isto é, nos milhares de fatos acontecidos durante a vida de Jesus e dos Apóstolos, e no extensíssimo ensinamento de Jesus e dos Apóstolos que não ficou por escrito (que “não caberiam no mundo os livros que se escrevessem”, Jo 21,25), que coisa devia fazer a Igreja, isto é, a comunidade dos crentes? Esquecer-se? Por que devia esquecer-se, se sua missão era precisamente transmitir tudo o que eles tinham visto e ouvido? Em que momento da história da Igreja se tomou a decisão de “esquecer” os eventos que os autores sagrados não haviam deixado por escrito?

Que deve fazer um crente do século XX ao ler 2 Tes 2,13-15?

“…assim, pois, irmãos, permanecei firmes e conservai as tradições que aprendestes de nós, de viva voz ou por carta.”

Com base em que princípio devo dizer agora que aquilo que se ensinou “de viva voz” deve ser esquecido e que se deve ficar somente com o que foi entregue “por carta”?

São Paulo não se deu conta do quão “perigoso” era dizer que era preciso obedecer às tradições orais…?

* * *

a veneração às Sagradas EscriturasOs católicos, por sua parte, continuam mantendo que é preciso conservar ambas as doutrinas, a que foi entregue por carta e a que foi entregue oralmente pelos pastores da Igreja; “ambas” doutrinas que são uma mesma doutrina comunicada por canais distintos, mas que se complementam, se aperfeiçoam, se explicam mutuamente. Assim era no começo, e eles não veem por que agora devam limitar o ensinamento ao que ficou escrito. Se Deus assim o ensinasse, por exemplo através de algum dos Apóstolos, então seria preciso aceitá-lo com gosto. Mas, como dissemos, não existe nenhum motivo que nos permita pensar razoavelmente que agora devemos deixar de prestar atenção à Tradição oral.

Em que consiste essa Tradição? Em toda a mensagem evangélica de salvação que a Igreja pregou, começando com os Apóstolos, ao longo dos séculos por meio de seus pastores, que devem pregar a toda criatura, “ensinando-os a observar tudo o que eu vos mandei; e eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo”, mesmo já desaparecidos os Apóstolos do Senhor, como por exemplo no século XX… Também hoje Jesus está com aqueles aos quais os Apóstolos impunham as mãos, bispos, presbíteros e diáconos (1 Tim 5,22; Tt 1,7; Fl 1,1), que têm a obrigação de pregar em nome de Jesus, de tal modo que “quem vos ouve a mim ouve, e quem vos rejeita a mim rejeita, e rejeita aquele que me enviou” (Lc 10,16). Mas esse já é outro tema, que com gosto trataremos, se Deus quiser, em outro escrito.

Querido irmão evangélico que me leste até este ponto: agradeço-te teu interesse e paciência, que falam bem do teu empenho pela verdade que nos fará livres a ti e a mim. Peço-te que reflitas sobre estas coisas, porque são assuntos importantes, de vida eterna. Agradeceria enormemente que me enviasses algumas linhas de resposta a estes interrogantes que te apresentei, ou sobre algum outro tema que estejas aprofundando, ou alguma tradução que queiras corroborar, etc. Graças a Deus posso ler (ao menos tentar!) os textos originais em hebraico e grego, e posso ajudar-te. Tenho um só interesse: fazer-te o bem.

Um abraço a todos em Cristo Jesus.

Autor: Pe. Juan Carlos Sack

Tomado de Apologetica.org