Uma definição precisa sobre o desenvolvimento da doutrina cristã é dada pelo apologista católico Dave Armstrong em seu livro Development of Catholic Doctrine:
“A Igreja Católica define o desenvolvimento da doutrina cristã como o crescimento em profundidade e clareza da compreensão das verdades da divina revelação. É importante entender que as verdades substanciais ou essenciais no núcleo de cada doutrina (como parte do único depósito, dado por Cristo aos apóstolos) permanecem imutáveis. A Igreja Católica preserva o depósito, e é a sua Guardiã…” .
Explica em seguida que esse crescimento é o resultado das piedosas reflexões da Igreja, do estudo teológico e, muitas vezes, da investigação (frequentemente ocasionada pelos combates contra a heresia), da experiência prática e da sabedoria coletiva dos bispos da Igreja e do Papa, especialmente quando estão acompanhados de um Concílio Ecumênico.
Esse conceito, que foi muito bem desenvolvido pelo Cardeal John Henry Newman em seu ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, é frequentemente incompreendido por protestantes fundamentalistas e por tradicionalistas radicais, porque ambos cometem o erro de entendê-lo como aquilo que não é: uma evolução da doutrina cristã.
É importante ressaltar enfaticamente a diferença entre desenvolvimento e evolução, porque ambos são conceitos incompatíveis tanto filosófica quanto linguisticamente. A evolução é a transformação ou mudança de algo em outra coisa distinta, ao passo que no desenvolvimento esse algo ou alguém continua sendo o mesmo indivíduo. Um exemplo simples para entendê-lo: poder-se-ia especular que um Tricerátops evoluiu para um rinoceronte, ou um dentes-de-sabre para um tigre moderno (depois de terem evoluído são espécies distintas), mas não se pode dizer o mesmo de um bebê que se torna homem, que continua sendo em si mesmo a mesma pessoa humana, ou de uma semente, que cresce até se converter em uma frondosa árvore.
Alguns exemplos no desenvolvimento da doutrina cristã:
A Trindade
Não será raro encontrar fundamentalistas (testemunhas de Jeová, unitaristas, etc.) negando este dogma de fé. Alegam que nem na Escritura nem nos escritos dos primeiros padres se menciona a palavra “Trindade”. Muito mais poderíamos nos preocupar ao constatar que alguns dos primeiros padres nem sempre ensinaram uma doutrina completamente ortodoxa, beirando em maior ou menor grau o subordinacionismo (Tertuliano, Orígenes, São Justino Mártir, etc.). De um estudo mais profundo deduz-se que o que ocorreu é que a compreensão sobre esta verdade de fé cresceu, sendo inclusive favorecida pelas contínuas controvérsias cristológicas que houve ao longo da história (sabelianismo, arianismo, monotelismo, monofisismo, etc.).
Para mais informações, você pode ler:
A doutrina da Santíssima Trindade na Igreja primitiva e nos Padres da Igreja
O Primado Petrino
No que se refere à doutrina do Primado Petrino, ocorre exatamente o mesmo. Os protestantes se opõem alegando não encontrar um Papa ao estilo moderno nos primeiros séculos cristãos (a quem identificam com alguém portando o título de “Papa”, com esplêndidas e pomposas vestimentas, dando ordens de forma ditatorial e exigindo que todos os cristãos sigam seus decretos sem questionamentos). Um estudo detalhado da história permite ver que, embora seja verdade que o estilo do Papado tenha ido mudando ao longo da história, sua essência, que consiste em exercer o ministério de pastor supremo com poder de jurisdição para manter a unidade universal e a ortodoxia dentro da Igreja Cristã, é e sempre foi a mesma.
Para mais informações, você pode ler:
O Primado de Pedro na história
Onde Jesus chamou Pedro de “Papa”?
Mateus 16,18, o Primado de Pedro e os Padres da Igreja, por José Miguel Arráiz
A Eucaristia, presença Real de Cristo na Eucaristia
Não faltou o desavisado que se pôs a dizer que “aquilo da Transubstanciação é uma invenção de Santo Tomás de Aquino”. Foi o desenvolvimento da doutrina cristã que permitiu, por meio de uma terminologia mais explícita, explicar este Sagrado Mistério.
Para mais informações, você pode ler:
A Transubstanciação e a Igreja primitiva
O Sacramento da penitência
Perdi a conta de quantas vezes amigos protestantes me objetaram que na Igreja primitiva não existia um confessionário como o conhecemos hoje, e muito menos referências ao segredo de confissão. Poderíamos até nos surpreender ao saber que na primitiva disciplina penitencial era preciso confessar os pecados diante da comunidade (segundo consta na Didaqué), ou era preciso deixar nas mãos do sacerdote a decisão de se o pecado devia ser confessado de maneira pública. O importante é distinguir que, embora a confissão auricular como a conhecemos hoje possa ter ido se desenvolvendo em sua forma exterior ao longo do tempo, sua essência, que radica na reconciliação do pecador por meio da autoridade da Igreja, é a mesma e permanece.
Para mais informações, você pode ler:
O sacramento da penitência na história
Mariologia
Outro cavalo de batalha dos protestantes, que não encontram nos escritos dos primeiros cristãos referências à nossa Santa Mãe como Mãe de Deus, Assunta ao céu em corpo e alma, Rainha do Céu, Rainha dos anjos, etc. etc. Inclusive têm enorme dificuldade em compreender que o desenvolvimento da mariologia se deve precisamente ao desenvolvimento das doutrinas cristológicas. Não se trata de tirar a glória de Deus para dá-la a Maria, mas de glorificá-Lo pelo que fez nela.
Para mais informações, você pode ler:
Maria hoje e na Igreja Primitiva
A virgindade de Maria na história
A imaculada conceição, um completo estudo do dogma a partir dos pontos de vista bíblico e histórico
O desenvolvimento do Cânon Bíblico
Que melhor exemplo que o Dânon Bíblico, cujo desenvolvimento e definição definitiva teve que esperar até o Concílio de Trento (No Catálogo mais antigo dos livros do Novo Testamento, datado do século II — o fragmento de Muratori — não se mencionam as epístolas aos Hebreus, de Tiago e a 2ª de Pedro).
Para mais informações, você pode ler:
Exemplos adicionais
O mesmo ocorreu em cada doutrina cristã; entre outros exemplos que se podem mencionar estão:
O Purgatório, a Igreja Primitiva e os Padres da Igreja
A Sola Fides, a Igreja Primitiva e os Padres da Igreja
O inferno na Bíblia e os Padres da Igreja
A Sola Scriptura, a Tradição e a Igreja primitiva
Lefebvrismo, sedevacantismo e tradicionalismo radical, o mesmo problema
O mesmo problema têm os lefebvristas, sedevacantistas e tradicionalistas radicais, com a diferença de que eles deixaram a Tradição congelada no Magistério anterior ao Vaticano II. Dessa noção imperfeita da Tradição alertava o Papa João Paulo II, referindo-se ao ato cismático lefebvrista:
A raiz deste ato cismático pode ser individuada numa imperfeita e contraditória noção de Tradição: imperfeita, porque não tem suficientemente em conta o caráter vivo da Tradição, a qual — como ensina claramente o Concílio Vaticano II — procede dos Apóstolos e progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo; isto é, cresce com a compreensão das coisas e das palavras transmitidas, quando os fiéis as contemplam e estudam, meditando-as em seu coração, quando compreendem interiormente os mistérios que vivem, quando as proclamam os bispos, sucessores dos Apóstolos no carisma da verdade.
Carta Apostólica em forma de “motu proprio” “Ecclesia Dei” de S.S. João Paulo II
Para mais informações, você pode consultar:
O Problema fundamental do Lefebvrismo
Conceber a Tradição desse modo, teríamos ainda que celebrar a Missa em aramaico ao redor de uma mesa, confessar nossos pecados diante de todos, fazer as mulheres levarem sobre a cabeça um símbolo de dependência. Teríamos que reprovar o Papa por não se vestir como o apóstolo Pedro, e quem sabe que outras coisas mais.
Conclusão
É ilógico que os protestantes (divididos ao extremo depois de terem rejeitado a Tradição e o Magistério) se tenham tornado vulneráveis a qualquer vento de doutrina, expondo-se a cair em todas as heresias superadas ao longo da história. Mas também é ilógico que os tradicionalistas radicais pretendam congelar a Tradição até um determinado momento do tempo, aceitando seu desenvolvimento anterior mas rejeitando o posterior. Não em vão o Cardeal Ratzinger, dez anos após o encerramento do Concílio, em 1975 disse: “É preciso deixar bem claro, antes de tudo, que o Vaticano II se apoia na mesma autoridade que o Vaticano I e que o concílio Tridentino: isto é, o Papa e o colégio dos bispos em comunhão com ele. Quanto aos conteúdos, é preciso recordar que o Vaticano II se situa em rigorosa continuidade com os dois concílios anteriores e recolhe literalmente sua doutrina em pontos decisivos.” Informe sobre a fé, capítulo 2, por Cardeal Joseph Ratzinger
Para mais informações, você pode consultar:
Apologia do Concílio Vaticano II
Autor: José Miguel Arráiz