A teoria da Sola Scriptura é, evidentemente, a afirmação de que se deveria basear todos os ensinamentos cristãos (tudo o que concerne à fé e à moral) unicamente na Escritura. Essa doutrina foi criada e definida como uma reação deliberada contra o ensinamento cristão histórico e como sua rejeição.
Desde os dias mais antigos da história da Igreja, os cristãos têm sustentado que a Teologia deve ser formulada de acordo com três princípios – Escritura Apostólica, Tradição Apostólica e Magistério Apostólico (autoridade doutrinal) da Igreja. Os dois primeiros forneciam os dados necessários para conduzir as investigações teológicas, ao passo que o terceiro servia para formular com autoridade a interpretação correta dos dados apresentados pelas duas fontes materiais. Assim, a Escritura e a Tradição serviam como princípios materiais da teologia, enquanto o Magistério, ao permitir-nos conhecer com segurança o significado correto desse material, servia como princípio formal da teologia.
Como os Reformadores protestantes desejavam sustentar ensinamentos que eram completamente estranhos à teologia cristã histórica, tiveram de rejeitar o método cristão histórico de formular a teologia e, assim, não podiam continuar aceitando os três princípios de Escritura, Tradição e Magistério. Tiveram de rejeitar os ensinamentos do Magistério porque o Magistério não concordava com eles e, do mesmo modo, tiveram de rejeitar a Tradição como fonte, porque tampouco concordava com eles. Assim, ficaram com a posição de tentar formular a teologia em termos de um único princípio – a Escritura – e, dessa maneira, nasceu a doutrina da Sola Scriptura.
Tudo isso é admitido, com ressalvas variadas, pelos historiadores protestantes, pois é simplesmente um fato histórico que a doutrina da Sola Scriptura apareceu na história depois dos ensinamentos originais dos Reformadores. Os Reformadores propuseram esses ensinamentos à Igreja e, quando o Magistério se opôs a mudar sua posição e reafirmou os ensinamentos cristãos históricos nesses temas, os Reformadores viram-se forçados a eliminar o Magistério e a História (Tradição) de seu método teológico.
Se o Magistério, contrariamente à sua missão e à sua indefectibilidade, tivesse mudado sua posição e rejeitado os ensinamentos cristãos históricos em favor dos novos ensinamentos protestantes, então, hipoteticamente, o Magistério não teria precisado ser rejeitado.
Poderia ter surgido uma versão da Sola Scriptura na qual somente a Tradição Apostólica fosse eliminada.
A Sola Scriptura poderia ter significado que se deveria basear a teologia no material apresentado somente nas Escrituras; mas tal como são interpretadas pelo Magistério cristão vivo.
Contudo, o Magistério não cedeu às novas doutrinas protestantes, por causa de sua indefectibilidade em sua missão de manter os ensinamentos cristãos históricos e, assim, tal versão da Sola Scriptura nunca apareceu.
O Magistério, juntamente com a Tradição Apostólica, tinha de sair e ser excluído do método teológico protestante.
Assim, se alguém hoje propusesse um modelo para a teologia que consistisse em “a Escritura somente, mas tal como é interpretada por um Magistério”, seria imediatamente e por completo rejeitado pela comunidade protestante (exceto, talvez, por algumas poucas e pequenas seitas radicais), que tomariam tal proposta como uma doutrina que não é Sola Scriptura de modo algum.
O termo “somente” em “a Escritura somente” deve ser tomado não apenas para excluir outros princípios materiais da teologia (como a Tradição), mas também outros princípios formais da teologia (como o Magistério).
Mas, se é preciso desvincular-se dos princípios cristãos históricos de formular a matéria da teologia em doutrinas distintivas e concretas, então, o que se deve usar em seu lugar? Como se vai formular doutrinas se foi rejeitado o que historicamente tem sido o princípio formal? Que princípio formal você proporia em seu lugar?
Essa era a pergunta que os católicos faziam a Lutero e aos demais protestantes, os quais responderam que, na ausência de algum grupo de cristãos que fosse divinamente incumbido da tarefa de formular o material da teologia, o próprio indivíduo devia ser divinamente incumbido dessa tarefa. Assim foi criada a doutrina de um direito absoluto ao livre exame – de decidir por si mesmo qual é a interpretação correta da Escritura. Os cristãos, por certo, desde sempre fomos ensinados a ter direito ao juízo próprio – que todo indivíduo tem o direito de pensar e interpretar as Escrituras por si mesmo (é por isso que as Escrituras sempre foram lidas em voz alta na Missa, para que até os analfabetos pudessem ouvi-las e pensar em seu significado). O exercício do juízo particular era concreto e robusto, e devia ser promovido por todos os meios possíveis, contanto que não fosse usado para rejeitar aquelas doutrinas que haviam sido determinadas pelos Mestres que Cristo escolheu (o Magistério) para representar os ensinamentos autênticos da Bíblia.
Assim, os cristãos historicamente fomos ensinados a ter um direito ao juízo particular, mas não um direito absoluto que anule a autoridade doutrinal que o próprio Cristo estabeleceu em sua Igreja ao lhe dar mestres oficiais, como o próprio Novo Testamento declara (Ef 4,11-12). Em qualquer área na qual a autoridade doutrinal da Igreja de Cristo não tenha feito um pronunciamento definitivo (o que era e é o caso na maioria das áreas), o juízo particular é permitido. Era somente quando uma doutrina que já havia sido estabelecida como verdade – tal como a Trindade, a plena Divindade e humanidade de Cristo, a morte expiatória e a ressurreição de Cristo, a eficácia dos sacramentos etc. – que o juízo particular era limitado. Para poder descartar os ensinamentos do Magistério, os Reformadores tinham de superar essa limitação, e assim se apegaram a um direito incondicional e absoluto ao juízo particular, segundo o qual o indivíduo tinha o direito de discordar e de publicamente ensinar o contrário até mesmo daquelas doutrinas que as autoridades doutrinais estabelecidas por Cristo já haviam declarado como verdade.
Isso era necessário como resposta à pergunta católica: “Quem é você para abolir um ensinamento cristão histórico que já foi resolvido pelo Magistério? Você não é sequer um membro desse corpo, muito menos a totalidade dele, e tais doutrinas jamais poderiam mudar, para começar.”
Em resposta a essa pergunta, os Reformadores viram-se obrigados a responder: “Nós não precisamos ser a totalidade do Magistério, nem sequer membros individuais dele, porque todo cristão tem o direito – e a capacidade – de resolver toda e qualquer doutrina por si só, e não está obrigado em consciência a aceitar as resoluções de mestres que, admitimos, Cristo estabeleceu que sua Igreja tivesse (Ef 4,11-12).”
Assim, a doutrina do juízo particular tornou-se um componente necessário da doutrina da Sola Scriptura. As próprias Escrituras seriam o único princípio material para a teologia, e o juízo do indivíduo seria o único princípio formal, pois nenhuma outra fonte poderia, em última instância e com autoridade, dizer ao crente qual era a interpretação correta das Escrituras. Qualquer teoria que mencionasse a existência de um grupo magisterial de cristãos que devessem interpretar as Escrituras pelo indivíduo receberia vigorosa oposição.
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Isso é estranho porque, de muitas maneiras, é exatamente assim que a doutrina se aplica nas Igrejas protestantes. Ainda que cada membro da congregação tenha o direito teórico de interpretar as Escrituras por si só, a imensa maioria deles não o faz.
Pode haver, em toda congregação, um certo número de pessoas com inclinações teológicas ativas, que fazem um estudo bíblico sério, mas a pessoa média simplesmente escuta a exposição dada às Escrituras no sermão dominical ou nos estudos bíblicos semanais e a aceita. O pastor ou o líder dos estudos bíblicos expõe seu próprio ponto de vista a respeito das Escrituras, e não é rigorosamente questionado pelo ouvinte médio. A pessoa média normalmente não procura obter comentários de pontos de vista opostos para compará-los com os pontos de vista do pastor e, depois, fazer uma análise rigorosa dos argumentos de ambos os lados.
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Isso é assim mesmo nas denominações que tentam incentivar o desenvolvimento do raciocínio teológico em seus membros, tais como a tradição presbiteriana conservadora da qual eu fazia parte. Eu estava num ambiente teológico muito mais rico do que qualquer outro em que já estivera antes, onde havia uma proporção maior de pessoas na congregação que estavam teologicamente atentas; contudo, quase todas eram oficiais da Igreja de uma forma ou de outra (pastores, presbíteros, diáconos, ministros de jovens), e nem sequer todos os oficiais tinham inclinação teológica. Ao olhar para trás, para aquela situação, dou-me conta de que eu era a única pessoa da congregação que não era um oficial da Igreja e que se dedicava a um estudo teológico sério.
E isso é o mesmo em toda congregação da Cristandade. Não existe a “Igreja de Teólogos” em lugar nenhum e, se houvesse, deveria ser desintegrada imediatamente para que o talento teológico que ela inclui pudesse ser espalhado por outros grupos teologicamente desprivilegiados.
O fato de que o cristão médio simplesmente não tem inclinação para a teologia é algo que era óbvio até em minha denominação, que era altamente pró-intelectual. É uma realidade básica da vida eclesial, e nada na história do mundo pôde mudá-la. Meu pastor presbiteriano uma vez me disse em particular, e com lamento: “As pessoas são ovelhas. É por isso que a Bíblia as retrata assim, e é por isso que é tão importante que elas tenham um bom pastor.”
Essa necessidade imperativa de ser guiado por um pastor é a “realidade amarga” (do ponto de vista protestante) que é “varrida para debaixo do tapete” com a doutrina da Sola Scriptura. Aqueles que ocupam a liderança em toda e qualquer Igreja protestante sabem que o membro médio não vai, façam o que fizerem, tornar-se um teólogo avançado, muito menos um intérprete plenamente maduro das Escrituras; contudo, continuam a fazer um grande alarde da ideia de que você pode interpretar por si mesmo, uma interpretação sugerida para que você a leve em conta enquanto avalia as Escrituras por si mesmo.
Desse modo, a interpretação particular mantém-se apenas hipoteticamente, um sonho para algum mundo cristão idealizado, mas não algo praticado neste mundo. A Sola Scriptura acaba significando que o cristão médio tem o direito de interpretar a Bíblia por si mesmo, mas este é um direito exercido muito raramente de maneira consistente.
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Quando esse direito é exercido de maneira consistente, quando o indivíduo realmente submete os ensinamentos de seu pastor e de sua denominação a uma análise rigorosa, é muito provável que se dê conta de que sua prévia apatia teológica não é a única barreira ao exercício do direito absoluto ao juízo particular. Há uma segunda barreira, porque, se ele chega à conclusão de que o pastor ou a denominação estão simplesmente equivocados a respeito de algo que ele considere importante, então o indivíduo quase sempre se vê diante de duas opções: manter a boca fechada a respeito e não sair tentando defender sua interpretação particular na congregação (isso produziria uma crise de liderança e perturbaria a tranquilidade das ovelhas), ou simplesmente abandonar a congregação e ir com sua interpretação particular para algum outro lugar.
Qualquer leigo que tente permanecer numa congregação defendendo uma posição diferente em algum tema que o pastor ou a denominação considere importante vai receber uma pressão primeiro sutil e depois nada sutil para que se mantenha calado ou se retire e, se ele não fizer nenhuma das duas coisas, então o indivíduo é finalmente expulso do corpo eclesial.
E, evidentemente, isso é totalmente necessário. Todo grupo se mantém unido por ter certos princípios fundamentais em que estão de acordo, os quais formam a base de sua união e, se alguém insiste em negar um desses axiomas básicos que são compartilhados e que mantêm o grupo unido, então ele deve ser expulso, ou o grupo inteiro corre o perigo de se dissolver – um fenômeno bastante familiar, dada a multidão de divisões no mundo protestante.
(Algo que sempre surpreende os protestantes [sobretudo nos EUA, onde os católicos são minoria] quando começam a frequentar paróquias católicas é o tamanho da paróquia média – que costuma ser constituída por vários milhares de pessoas. A razão é que as paróquias não se dividem como as Igrejas protestantes; por isso, basta que haja um número suficiente delas para cobrir as necessidades pastorais da comunidade católica local; o número de paróquias multiplica-se somente por essa razão, e não por divisões doutrinais.)
A hipocrisia não é a expulsão de dissidentes, mas o fato de que a promessa de permitir o juízo próprio não se cumpre, de promovê-la com um contínuo bater retórico na tecla e de incentivar os fiéis a criticar e condenar outras denominações que não pregam esse princípio, quando, na realidade, a promessa é: “Você tem o direito absoluto de interpretar as Escrituras por si só, mas vamos expulsá-lo se não concordar conosco em algo que consideremos importante.”
“Espere um momentinho”, alguém poderia dizer. “A acusação de hipocrisia não é um pouco forte? Afinal, se uma pessoa chega a conclusões opostas às do grupo em que está, ela pode sempre ir juntar-se a outro grupo com pontos de vista
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Mas a pessoa que exerceu seu direito ao juízo particular pode responder: “Mas não quero afastar-me deste grupo de pessoas que vim a conhecer e a amar ao longo dos anos, entre as quais fui criado, escolhi minha esposa, casei-me, tive meus filhos e planejava ser sepultado, e entre as quais tenho todos os meus amigos. O custo pessoal para mim e minha família, se nos afastarmos, é bastante grande.
“Além disso, precisamente porque amo essas pessoas é que quero que tenham a verdade, e creio que, neste tema importante, elas estão sendo seriamente mal conduzidas. E, mesmo que eu decida afastar-me e ir para algum outro lugar, pode ser que não haja nenhum grupo de pessoas que compartilhe minhas crenças. Suponhamos que eu tenha decidido que o falar em línguas é para hoje, que o calvinismo é verdadeiro, que as crianças não devem ser batizadas e que o sacramento do batismo regenera.
“Aonde vou eu? Não há muitas Igrejas calvinistas carismáticas batistas que ensinem a regeneração sacramental. Cada uma dessas doutrinas é um dos ensinamentos principais de denominações protestantes diferentes, mas nenhuma denominação sustenta todas as minhas crenças nessas questões claramente importantes. E, ainda que houvesse uma igreja que ensinasse todas essas doutrinas, certamente não há uma na minha cidade.
“Deveria eu começar minha própria igreja? Nãoooo, isso seria pastoralmente irresponsável ao extremo. Eu sou apenas um leigo que exerceu seu direito absoluto ao juízo particular. Eu não sou um erudito bíblico; não sou um pregador treinado; não sou um conselheiro pastoral; não tenho nenhum conhecimento em administração e finanças de uma igreja. Seria um verdadeiro desastre como plantador de igrejas.
“Assim, a sugestão de ‘ir para algum outro lugar onde as pessoas creem como você’ é, na verdade, uma promessa vazia para mim, e minhas opções ainda são ‘Cale-se e não exerça publicamente seu direito absoluto ao juízo particular’ ou ‘Seja um estranho para nós e para qualquer outra congregação à qual queira unir-se.’ Assim, é hipócrita que me diga que tenho esse direito absoluto que devo apreciar, atesourar e defender – mas que me vai proibir de utilizá-lo aqui, em minha própria comunidade.
“Além disso, você não deve falar de outras comunidades que creem em coisas diferentes como se isso fosse algo normal ou desejável – um “valor de folga” perfeitamente aceitável para o exercício do juízo particular. Só pode haver um único conjunto de doutrinas verdadeiras, e Jesus quer que as tenhamos e sigamos. A existência de múltiplos conjuntos de ensinamentos cristãos contraditórios e concorrentes entre si é uma tragédia, a realização da profecia de Paulo: ‘Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si mestres conforme os seus próprios desejos’ (2Tm 4,3). É exatamente isso que você está me incentivando a fazer – vá e procure mestres que concordem com seus próprios gostos. Você está me aconselhando a cumprir a profecia de Paulo sobre a separação das verdadeiras doutrinas de Cristo!.
“Nunca deve falar de ir juntar-se a um grupo que ensine doutrinas diferentes como se fosse uma questão de indiferença e dizer: ‘Bem, se você não gosta desta, vá e experimente aquela outra’! Os ensinamentos de Cristo não são questão de indiferença! Se você crê que os possui, então deve fazer todo o possível por “reeducar-me” e, se tiver de expulsar-me da congregação, não deve incentivar-me a pensar que ir a outra denominação aceitar suas doutrinas – as quais você afirma serem falsas – é uma questão de indiferença. Você está procurando uma saída fácil para uma situação pastoral difícil! Você está tentando livrar-se desse dilema me direcionando a ir a outra igreja!.”
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De minha parte, eu aconselharia a pessoa a aproximar-se com o coração tão suavemente quanto possível dos líderes de sua igreja, por mais que tenha sido maltratada ao ser impedida de usar um direito absoluto que lhe é proibido exercer na prática, ainda que ela tenha razão no que disse. Pois, embora seus pastores estejam mergulhados em hipocrisia, é em grande parte uma hipocrisia inconsciente.
Eles devem pregar o direito absoluto ao juízo particular para garantir seu próprio direito de interpretar e explicar em detalhe as Escrituras em público. Não têm nenhuma outra base para fazê-lo. Se concluíssem que a pessoa média não tem o direito absoluto de interpretar as Escrituras por si mesma, então como saberiam se eles próprios têm esse direito absoluto? Não poderiam sabê-lo. Ver-se-iam forçados a unir-se a uma igreja cujos líderes foram incumbidos da tarefa de interpretar as Escrituras, teriam de abandonar suas próprias posições de autoridade e tornar-se parte do rebanho. Os pastores teriam de tornar-se ovelhas.
A doutrina do juízo particular é, assim, o que justifica suas próprias posições de autoridade, o que quer dizer que eles precisam manter e desenvolver essa doutrina em teoria. Ao mesmo tempo, reconhecem que devem proteger seu grupo, evitando que se divida por causa de dissidência e, assim, devem proibir na prática o exercício livre e público desse direito absoluto dentro de seu grupo. Estão entre a cruz e a espada. Devem ensinar a existência desse direito para justificar sua própria liderança do grupo; contudo, não podem permitir que outros exerçam publicamente esse direito dentro do grupo, ou, do contrário, ele se dividiria. Têm de permitir somente a si mesmos o livre exercício de um direito que ensinam que todos os cristãos possuem inatamente.
Em vez de enfrentar essa horrível realidade – que, quando vista de frente, é uma hipocrisia grotesca –, eles desviam dela os olhos e simplesmente nunca pensam a respeito. Assim, é uma hipocrisia inconsciente, ao menos em sua maioria. Podem passar todo o seu tempo expondo a doutrina do juízo particular, sabendo que só ocasionalmente alguém na congregação vai causar tumulto ao apegar-se pertinazmente a seu direito de exercer o juízo particular. O problema mais normal e comum é, na realidade, o contrário – conseguir que as pessoas analisem as Escrituras e as doutrinas; e, para conseguir que o façam, a pregação da doutrina do juízo particular de fato vai ajudar, porque, se Deus lhes confiou a tarefa de interpretar as Escrituras por si mesmas, então elas certamente precisam ser exortadas a cumprir essa tarefa.
Assim, pregar a doutrina do juízo particular tem um papel construtivo nas igrejas protestantes, pois vai conseguir que a ovelha empregue ao menos algum tempo nas Escrituras e na teologia, e só ocasionalmente uma ovelha vai tentar exercer seu direito ao juízo particular de maneira consistente e pública e tentar usurpar o papel do pastor. E, evidentemente, essas pessoas são simplesmente teologicamente presunçosas para começar, não é? Do contrário, não teriam sido tão problemáticas e ter-se-iam mantido caladas ou ter-se-iam ido embora calmamente, em vez de perturbar a tranquilidade do rebanho sob o pastor.
Por isso, os pastores protestantes sentem-se à vontade para pregar a doutrina do juízo próprio – e até pública e orgulhosamente criticam com força aquelas igrejas que não a pregam – e muito raramente ou nunca analisam seriamente a contradição entre a teoria dessa doutrina e o fato de ser ou não possível implementá-la na prática. Sua hipocrisia é inconsciente, o que a torna perdoável, porque não é aberta, nem deliberada, nem maliciosa.
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E assim as igrejas protestantes se desenvolvem, ensinando a seus membros que eles têm o direito absoluto de interpretar as Escrituras por si mesmos; contudo, continuam a atuar como se houvesse uma classe especial de pessoas dentro delas – um Magistério – a quem realmente foi confiada a tarefa de interpretar as Escrituras pela e para a gente. E, para que o grupo sobreviva, as interpretações desse Magistério têm força de lei, de modo que aqueles que entram em dissidência aberta e pública podem ser expulsos para manter a saúde do corpo.
A igreja protestante típica, desse modo, reinventa o sistema católico que conscientemente despreza. Fá-lo por necessidade, pois não há forma de manter um grupo organizado e saudável que trabalhe em harmonia sem ter alguém com a autoridade de determinar o que o grupo vai fazer e de expulsar aqueles que não colaboram. Não se pode ter uma turma com estudantes, um grupo de trabalhadores, um clube social ou uma nação sem alguém que tenha algum tipo de autoridade, e certamente não se pode ter uma igreja sem autoridade tampouco. Alguém, em qualquer grupo, deve poder dizer: “Isto é o que o grupo vai fazer” e “Se vocês não o fizerem e vão constantemente opor-se publicamente, então não podem ser parte do grupo. Devem deixar a turma, o grupo de trabalho, o clube social, a sociedade ou a igreja.”
Uma vez que o Novo Testamento claramente indica que Jesus quis que organizássemos igrejas – os argumentos do movimento não denominacional “Igreja Doméstica” não são válidos –, Ele indicou que alguém dentro dessas igrejas devia ter algum tipo de autoridade.
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Dessa maneira, lemos no Novo Testamento a respeito de evangelistas ou supervisores (bispos), presbíteros ou anciãos (sacerdotes) e diáconos. Lemos como os diáconos devem assistir aos líderes mais elevados e aliviá-los de tarefas que os afastariam da Palavra de Deus e da oração (At 6,2-4). Lemos como os presbíteros (sacerdotes) devem trabalhar no ensino e na administração (1Tm 5,17b). Lemos como os evangelistas/bispos (cf. 2Tm 5,4) devem designar (1Tm 5,22; Tt 1,5) e disciplinar os presbíteros, premiando aqueles que “governam bem” (1Tm 5,17a) e repreendendo abertamente aqueles que persistem no pecado (1Tm 5,20). E, o mais importante, lemos a orientação aos leigos para “obedecer a seus líderes e submeter-se à sua autoridade” (Hb 13,17a) porque eles “estão à frente deles no Senhor” (1Ts 5,12).
Desse modo, Jesus proveu as necessidades de sua Igreja, deu pastores a seu rebanho. “E ele mesmo constituiu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e mestres, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo, … para que já não sejamos crianças flutuantes, levados ao redor por todo vento de doutrina …” (Ef 4,11-14).
Por causa das necessidades da Igreja, porque as pessoas teriam sido levadas ao redor por todo vento de doutrina, inseguras do que crer e muitas vezes caindo em erro, Deus proveu mestres. Não se supõe que o indivíduo médio deva fazer tudo sozinho. Supõe-se que ele deva ter um mestre. Quando virmos a Deus plenamente no reino, então a promessa se cumprirá: “Ninguém mais ensinará o seu próximo, nem ninguém a seu irmão, dizendo: ‘Conhecei o Senhor’; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior, diz o Senhor” (Jr 31,34).
A promessa da Nova Aliança ainda está para se cumprir, mas, por ora, Cristo constituiu que deveria haver “alguns evangelistas, alguns pastores e mestres”, e o propósito expresso disso é que “já não sejamos … levados ao redor por todo vento de doutrina”.
Cristo, assim, estabeleceu um Magistério – uma autoridade doutrinal – em sua Igreja, como reconhecem até os protestantes, pois eles têm pastores e mestres que proclamam ter sido chamados por Deus para desempenhar esses papéis.
Esta é a segunda razão pela qual a hipocrisia que deriva da doutrina do juízo particular é inconsciente. Esses líderes protestantes leem a Bíblia. Todos eles conhecem e sabem a respeito desses versículos. É claro para eles, como o é para todos os demais, que Deus quis que houvesse mestres em sua Igreja, pessoas que ensinariam em nome de Deus e que foram chamadas por Deus a fazer isso. Assim, eles sabem, porque a Bíblia o diz, que teria de haver pessoas em suas posições; simplesmente nunca pensam nas implicações disso e não conseguem perceber a dissonância cognitiva que isso gera com a doutrina do juízo particular.
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Cristo claramente quis que houvesse uma autoridade doutrinal, um Magistério operacional na comunidade cristã, e ambas as comunidades (católica e protestante) o possuem. A diferença é que os católicos reconhecem abertamente que a autoridade doutrinal é uma entidade, ao passo que os protestantes tendem a rebaixá-la e minimizá-la por causa da doutrina do juízo particular.
Essa situação de ignorar uma função que se deve desempenhar leva a más consequências, tal como o faz o exercício desatento da autoridade e, como resultado, a comunidade protestante sofre.
Uma vez que a Igreja Católica é aberta a respeito do papel da autoridade doutrinal na comunidade cristã, teve a oportunidade de analisar mais a fundo o assunto e tem uma compreensão muito melhor dele; por isso, administra o papel muito melhor. O Magistério católico, porque se dá conta de que suas decisões obrigam as consciências dos crentes para que não sejam levados ao redor por todo vento de doutrina, é muito precavido e cuidadoso quando fala (mesmo quando não se trata de resoluções infalíveis). Utiliza uma linguagem muito precisa e faz pronunciamentos muito cuidadosos e restritos em qualquer matéria.
Em contraste, uma vez que estão exercendo a autoridade magisterial de maneira significativamente inconsciente e irrefletida, os Magistérios das igrejas protestantes tendem a medir-se muito menos em seus pronunciamentos, e os pastores das igrejas protestantes muitas vezes ensinam a largas pinceladas, sem reflexão cuidadosa e sem especificar ressalvas importantes, e dizem a seu povo que devem crer, como revelada por Deus, alguma interpretação que meramente pareceu uma boa ideia ao pastor.
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Isso é especialmente problemático em denominações menos intelectuais, onde os pastores não recebem um treinamento acadêmico que lhes ensine a importância de matizes e ressalvas em seus ensinamentos. Por exemplo, o indivíduo sob cujo ministério eu me introduzi pela primeira vez no mundo cristão falava com frequência de como havia crescido numa Igreja das Assembleias de Deus, que era uma das doze naquela cidade, as quais haviam se separado de uma igreja das Assembleias de Deus original, a raiz naquela cidade. As divisões haviam sido causadas por razões insignificantes que foram apresentadas como divisões doutrinais importantes. Uma divisão foi causada quando começaram a ensinar que era pecado tomar café. Outra foi causada quando apareceu um ensinamento que dizia que não se deveria usar gravata. Uma terceira divisão deu-se por um desacordo sobre usar ou não bainha nas calças. De fato, o pai desse indivíduo era o pastor da Igreja das Assembleias de Deus “sem gravata” naquela cidade.
Tudo isso são coisas que o Magistério da Igreja Católica não toleraria; contudo, os Magistérios dessas igrejas pentecostais não somente toleram essas questões sem sentido, mas as transformam em razões para dividir suas igrejas e, uma vez que as pessoas se apegam pertinazmente a seu direito de interpretar os oráculos de Deus, os próprios membros da congregação são a causa de que se deem essas divisões. Baseados em seu direito absoluto ao juízo particular, unido à concepção de que sempre se pode arrancar as estacas e começar sua própria igreja, uma congregação original e unificada foi dividida em treze corpos eclesiais concorrentes que tentam roubar ovelhas uns dos outros.
Ora, a maioria dos Magistérios protestantes não toleraria esse tipo de coisas que aconteceram ali, mas toleram outras que não deveriam, e até dividem suas igrejas por coisas que eles mesmos reconhecem não serem matéria de doutrina. Às vezes, uma igreja se divide por desacordos sobre construir ou não um novo edifício, ou por razões de administração do dinheiro para o edifício, ou pela localização do novo edifício, ou pela arquitetura do edifício, ou pela cor do carpete, ou por discussões sobre se a igreja está se concentrando no grupo socioeconômico correto na comunidade. Às vezes, um pastor de jovens popular ou até o regente do coro tem um desentendimento com o pastor principal, e se separa da igreja e vai para outro lugar, e leva metade da congregação consigo (de fato, isso aconteceu quando o regente do coro saiu do que havia sido a maior igreja protestante da cidade de onde eu venho, uma igreja batista que tinha vários milhares de membros).
Quando eu estava numa das primeiras fases da investigação que eventualmente me levaria à Igreja Católica, a plena conotação dos mandamentos de Jesus a respeito da unidade da Igreja me afetou pela primeira vez; comecei a agonizar a respeito do estado da denominação em que me encontrava, que era a Igreja Presbiteriana da América (PCA). A denominação irmã da PCA chama-se Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC), e as duas subscrevem a mesma edição da Confissão de Fé de Westminster, o que quer dizer que tinham o mesmo padrão de ensino; contudo, mantinham-se separadas. A PCA achava que a OPC era estrita demais; a OPC achava que a PCA era progressista demais. A PCA achava que a OPC era burocrática demais, formando comitês para cada coisinha; a OPC achava que a PCA era frouxa demais no governo da igreja. Contudo, apesar de as duas igrejas terem as mesmas crenças doutrinais, diferindo apenas em matérias de estilo, administração e ênfase, elas não estavam fazendo nenhuma iniciativa e até resistiam a iniciativas que pudessem culminar na união delas. Eu me perguntava: “Como podemos nós, nessas duas denominações que têm os mesmos padrões de ensino, afirmar que estamos seguindo os ensinamentos de Jesus na unidade da Igreja se não podemos sequer unir-nos a nós mesmos?.”
Essas duas denominações estavam dispostas a permanecer separadas, em flagrante violação aos ensinamentos de Jesus sobre a unidade visível da Igreja, por razões que já não eram doutrinais, mas que tinham a ver com estilo, administração e ênfase. A razão, evidentemente, era a atitude mental de “Se você não gosta, comece sua própria igreja”, que, neste contexto, seria a atitude mental de “Se é um inconveniente unir-se, mantenha-se separado.” Este é o efeito de deslocamento do que era originalmente um princípio que advogava a divisão da igreja por matérias doutrinais. Agora havia se deteriorado e apodrecido até se converter numa disposição à separação por razões não doutrinais e numa correspondente indisposição a unir-se se isso for um inconveniente devido a matérias não doutrinais.
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Por tempo demais, o mundo protestante havia advogado um princípio que sugeria que a solução para o mau ensino era o cisma, e agora esse princípio mutou para uma forma que sugere que a solução para problemas administrativos, desacordos políticos e inconveniências é também o cisma. Ao meditar a respeito, tornou-se cada vez mais óbvio para mim que tais situações que governam as decisões sobre se os cristãos devem ou não filiar-se nunca deveriam ser permitidas. Concluí que a solução de Cristo para o mau ensino não era o cisma, mas o bom ensino.
Contudo, porque a prática de entrar em cisma havia se tornado tão pandêmica nos círculos protestantes, gerara uma grande quantidade de Magistérios concorrentes que estão totalmente fora de controle e dispostos a dividir igrejas por razões doutrinais insignificantes (como no caso das igrejas das Assembleias de Deus que mencionei), ou por projetos e razões de personalidade (como no caso da igreja batista que mencionei), ou para se opor a sequer tentar obedecer aos ensinamentos de Cristo sobre a unidade da Igreja por causa do inconveniente que isso representa (como no caso das igrejas presbiterianas que mencionei).
Cada grupo tem seu próprio Magistério – sua própria autoridade doutrinal –, mas, porque estão baseados na doutrina do juízo particular, eles incentivam divisões e acabam operando de maneira caprichosa e descuidada, ignorando grosseiramente os ensinamentos de Cristo e, de fato, incentivando que os crentes sejam levados ao redor por todo vento de doutrina. Eles são os que criam os ventos de ensinamento. Por meio de seus ensinamentos, publicações e mecanismos de publicidade, eles, com efeito, apontaram suas grandes máquinas de fazer neve para o mundo cristão, tentando varrer para sua própria esfera de influência quantos lhes for possível. Ao gerar os ventos de doutrina, estão atuando contra o propósito pelo qual Cristo estabeleceu um Magistério em primeiro lugar, o qual era prevenir a confusão doutrinal e dar às pessoas comuns segurança em suas crenças.
Por isso, vi-me forçado a concluir que o princípio do juízo particular – uma parte inerente e indispensável do protestantismo – leva inevitavelmente à formação de múltiplos Magistérios concorrentes, o que torna obsoleto o propósito de ter Magistérios em primeiro lugar. Uma vez que “Deus não é Deus de confusão, mas de paz” (1Cor 14,33), Ele não pode ser o autor do caos doutrinal no mundo protestante e, uma vez que esse caos está enraizado na própria essência do protestantismo, por causa do princípio do juízo particular, Deus não pode ser o autor do protestantismo.
Ele não fundou sua Igreja sobre princípios que, por sua própria natureza, garantem trazer caos e confusão. Em vez disso, Ele “constituiu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e mestres … para que já não sejamos crianças flutuantes, levados ao redor por todo vento de doutrina.” Ele estabeleceu um Magistério precisamente para prevenir a confusão doutrinal causada por uma multidão de pessoas expondo em público seus juízos particulares.
A – A U T O R I D A D E – D O – M A G I S T É R I O – E – O – L I V R E – E X A M E
Uma vez que o Magistério é um componente essencial da Igreja e autorizado por Deus, deve ter uma autoridade correspondente e deve poder restringir o juízo particular para que não vá além de certos limites. O juízo particular sem limites é precisamente o problema que Deus estabeleceu que o Magistério curasse. Simplesmente não há forma de harmonizar a existência de um Magistério divinamente autorizado e um direito absoluto ao juízo particular.
Pode haver, e há, uma harmonia entre o Magistério e um direito limitado ao juízo particular, e é isso que encontramos na Igreja Católica. Indivíduos leigos e teólogos podem exercer seu juízo particular ao ler as Escrituras o quanto quiserem, contanto que não transgridam o que o Magistério já resolveu conclusivamente. Existe livre domínio para o juízo particular e a opinião dentro dos limites do ensino cristão estabelecido. É a transposição desses limites que o Magistério foi estabelecido para prevenir.
Esta é a maneira pela qual o intelecto do indivíduo é harmonizado com a autoridade doutrinal de Cristo, exercida por meio de sua Igreja. Deus deu a cada indivíduo uma alma racional que, se não for impedida, lhe permitirá aprender, entender e conhecer as Escrituras e os ensinamentos de Cristo. Esse exercício de interpretação particular deve ser incentivado e desenvolvido. As pessoas receberam uma faculdade de Deus, e devem ser incentivadas a cumprir a responsabilidade que essa faculdade acarreta.
Mas às pessoas não foi dada a faculdade ou a responsabilidade de construir a teologia cristã desde os fundamentos por si sós. O cristão médio não tem a responsabilidade de fazer isso, nem a habilidade para fazê-lo. Nem sequer os bispos que constituem o Magistério têm a responsabilidade ou a habilidade de fazer isso como indivíduos. Nem sequer o próprio Papa tem essa responsabilidade ou habilidade, pois ele mesmo tem de ater-se a todas as decisões anteriores do Magistério. Nenhum indivíduo, desde o dia em que a revelação pública ou universal (católica) cessou, teve o direito ou a responsabilidade de decidir toda a fé cristã por si só, nem sequer os órgãos do Magistério que Deus criou.
O – D E S E N V O L V I M E N T O – D A – D O U T R I N A – C R I S T Ã
Assim, não é o caso de que o Magistério possa simplesmente decidir o que quer que as pessoas ensinem e obrigá-las a crer nisso. O próprio Magistério tem de ater-se aos ensinamentos infalíveis definidos previamente e, embora possa aprofundar-se mais na matéria e acrescentar-lhe mais clareza, não pode negar o que já foi infalivelmente estabelecido (consequentemente, nunca o fez). Assim, sob o exercício da autoridade doutrinal divinamente atribuída, a teologia cristã cresce organicamente, não mutagenicamente. Mais profundidade, clareza e contexto são acrescentados ao que já foi estabelecido, mas o que foi estabelecido permanece estabelecido, como era a intenção de Deus desde o princípio.
Não há lugar no plano divino para que a teologia cristã seja descartada e reconstruída desde os fundamentos. Isso é o que gera os ventos de doutrina que o Magistério deve combater. É a tarefa do Magistério ver que a teologia cristã cresça de maneira estável, ordenada e orgânica.
Não pode haver períodos de “reboot” da teologia cristã. Se os houvesse, se a teologia da Igreja pudesse degenerar-se de tal maneira que periodicamente tivesse de ser descartada e reconstituída a partir do zero, então a Igreja não seria “a coluna e o fundamento da verdade”, como declara o Novo Testamento (1Tm 3,15), e o Magistério não poderia cumprir sua função de prevenir que os fiéis sejam levados por todo vento de doutrina. Os crentes não poderiam ter segurança de que não estão vivendo em um dos tempos teologicamente corrompidos antes do “reboot”; tampouco poderiam ter nenhum senso de segurança doutrinal durante o “reboot”, quando a teologia está sendo reformulada às pressas; tampouco poderiam ter nenhuma segurança depois do “reboot”, pois não poderiam saber se a teologia – especialmente a teologia em suas denominações – foi reformulada da maneira correta.
A ideia de dar “reboots” periódicos à teologia cristã, em vez de desenvolvimentos lentos e orgânicos rumo a maior clareza e profundidade, rouba do crente médio, que não é teólogo, a segurança de que sua igreja lhe esteja transmitindo os ensinamentos reais de Cristo, tornando-o dessa maneira vulnerável a ensinamentos concorrentes e, assim, impedindo que os mestres que Deus designou possam cumprir sua missão de ancorar o crente médio de modo que não seja levado por ventos de afirmações doutrinais contrárias.
De fato, as tentativas de “reboot” no passado foram o que causou esses ventos. Ao descartar e reformular a teologia histórica cristã, as pessoas não chegam às mesmas conclusões a respeito do que se quer reformar. Desse modo, a Reforma produziu um sem-número de novas seitas – luteranos, calvinistas, menonitas, anglicanos, batistas, metodistas, entre outros.
E, evidentemente, quando as pessoas não concordam nas doutrinas, algumas delas vão estar equivocadas e vão ensinar heresias. Quando as pessoas tentam “reiniciar” o sistema, heresia e cisma são as consequências inevitáveis, da mesma maneira como erro de sistema e arquivos corrompidos são o resultado de reiniciar um computador enquanto seu software está rodando. O programa da Igreja Cristã deve ser deixado rodar até o fim. Somente dessa maneira se pode garantir a precisão dos resultados.
Tudo o que se consegue é reinventar os erros do passado que o programa já havia eliminado. Assim, hoje em dia vemos heresias tais como o gnosticismo, o arianismo, o sabelianismo e o politeísmo reaparecendo sob os semblantes da Cristandade da Nova Era, das Testemunhas de Jeová, dos pentecostais unicistas e dos mórmons, todos os quais começaram como tentativas de descartar os ensinamentos cristãos históricos e “reiniciar” o sistema.
O – P E C A D O – O R I G I N A L – D O – P R O T E S T A N T I S M O
O próprio protestantismo, evidentemente, começou como uma tentativa de “reboot” teológico e, ao incorporar em si mesmo o princípio do juízo particular absoluto, infectou-se com a heresia mais antiga de todas, aquela que começou no Jardim do Éden e com a qual a humanidade foi originalmente tentada – o princípio de que o indivíduo seja, em última instância, quem decida por si mesmo o que é certo e o que não é, em vez de confiar em Deus para prover isso segundo os Seus planos.
Em sua encíclica Veritatis Splendor, o Papa João Paulo II escreve:
“Lemos no livro do Gênesis: ‘O Senhor Deus deu ao homem este mandamento: Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, com certeza morrerás’ (Gn 2,16-17). Com esta imagem, a Revelação ensina que o poder de decidir sobre o bem e o mal não pertence ao homem, mas só a Deus. O homem é certamente livre, desde o momento em que pode compreender e acolher os mandamentos de Deus. E possui uma liberdade muito ampla, porque pode comer «de todas as árvores do jardim». Mas esta liberdade não é ilimitada: deve deter-se diante da «árvore da ciência do bem e do mal», porque está chamada a aceitar a lei moral que Deus dá ao homem. Na realidade, a liberdade do homem encontra a sua verdadeira e plena realização precisamente nesta aceitação. Deus, o único que é Bom, conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e em virtude do seu próprio amor lho propõe nos mandamentos. A lei de Deus, portanto, não atenua nem elimina a liberdade do homem; pelo contrário, garante-a e promove-a. Mas, ao contrário disto, algumas tendências culturais contemporâneas deram origem a diversas correntes éticas que colocam no centro do seu pensamento um pretenso conflito entre a liberdade e a lei” (Veritatis Splendor, 35). Deus deu a Adão e Eva intelectos racionais que Ele esperava que utilizassem na busca da verdade, mas Ele não lhes confiou a tarefa de, em última instância, decidir o que é certo e o que é errado por si sós. Ele mesmo devia dizer-lhes o que é certo e o que é errado, e eles deviam então utilizar seus intelectos dentro desses limites para aplicar os ensinamentos de Deus. Contudo, eles decidiram que queriam ser como Deus e ter autoridade absoluta sobre o que tinham de crer e fazer, e foi isso que os destruiu e condenou bilhões de seres humanos ao inferno. Foi a afirmação pertinaz das próprias faculdades decisivas intelectuais diante de Deus que causou a queda de toda a raça humana; foi a aspiração a um direito ilimitado ao juízo particular, a simplesmente ver a evidência e decidir por si mesmo.
Esta é a tentação de todo intelecto humano rebelde: preferir os próprios juízos e interpretações aos daqueles que Deus autorizou. São John Henry Newman escreve eloquentemente a respeito, na “Resposta Geral a Kingsley”, ao final de sua Apologia Pro Vita Sua, e ele explica os meios que Deus estabeleceu para combater esse pecado original: “Começando, então, com o ser de Deus… Vejo fora de mim mesmo o mundo dos homens, e ali vejo uma visão que me enche de uma dor inexplicável… A vista do mundo não é nada mais que o pergaminho do profeta, cheio de ‘lamentações, e prantos, e ais.’ “Considerar o mundo em seu comprimento e largura, sua história variada, as muitas raças de homens, suas estrelas, suas fortunas, sua alienação mútua, seus conflitos… as decepções da vida, a derrota do bem, o êxito do mal, a dor física, a angústia mental, o predomínio e a intensidade do pecado, as idolatrias transcendentais, as corrupções, a irreligião triste e sem esperança, essa condição de toda a raça, tão temida e, no entanto, exatamente descrita pelas palavras do Apóstolo, ‘não tendo esperança e sem Deus no mundo’ — toda esta visão causa confusão e choca… “Que se dirá a respeito dessa realidade que penetra o coração e desconcerta a razão? Só posso responder que ou não há Criador, ou esta sociedade viva dos homens está, em sentido próprio, descartada de sua presença. …E assim ponho meu argumento contra o mundo… já que há um Deus, a raça humana está implicada em alguma horrível calamidade aborígene. Está desviada dos propósitos de seu Criador. Esta é uma realidade tão verdadeira quanto a realidade de sua existência; e assim a doutrina do que se chama teologicamente pecado original torna-se para mim quase tão certa quanto o fato de que o mundo existe, e quanto a existência de Deus. “E agora, supondo que fosse a vontade bendita e amorosa do Criador interferir nesta condição anárquica das coisas, quais devemos supor que seriam os métodos que poderiam ser necessária ou naturalmente utilizados em seu propósito de misericórdia? … Estou … perguntando qual deve ser o antagonista, cara a cara, pelo qual se suporte e se frustre a feroz energia da paixão e do ceticismo do intelecto humano que tudo corrói, que tudo dissolve em interrogações religiosas…. Não estou falando aqui de razão sã, mas da razão como atua na realidade e concretamente no homem caído…
“A experiência nos demonstra com segurança que a Bíblia não responde a um propósito para o qual nunca foi criada. Pode ser [ocasionalmente] o meio da conversão de indivíduos; mas um livro, afinal, não pode tomar uma posição contra o presente intelecto humano vivo e, neste dia, começa a testemunhar, no que se refere à sua própria estrutura e conteúdo, ao poder do solvente universal [do intelecto cético] que é tão bem-sucedido em atuar sobre estabelecimentos religiosos. “Supondo, então, que seja a Vontade do Criador interferir nos assuntos humanos e fazer provisões para reter no mundo um conhecimento de Si mesmo, tão definido e distinto de tal maneira que seja prova contra a energia do ceticismo humano, em tal caso… não há nada que surpreenda a mente se a Ele parecer adequado introduzir um poder no mundo investido da prerrogativa de infalibilidade em matérias religiosas. Tal provisão seria um meio direto, imediato, ativo e apremiante para suportar a dificuldade; seria um instrumento equipado para a necessidade; e, quando me dou conta de que esta é a própria afirmação da Igreja Católica, não somente não sinto nenhuma dificuldade em admitir a ideia, como há nela uma aptidão que a recomenda à minha mente. E assim sou levado a falar da infalibilidade da Igreja, como uma provisão, adaptada pela misericórdia do Criador, para preservar a religião no mundo e para refrear aquela liberdade de pensamento que, por certo, em si mesma é um dos maiores dons, e para resgatá-la de seus próprios excessos suicidas … “Primeiro, a doutrina inicial do mestre infalível deve ser um protesto enfático contra o estado da humanidade. O homem se rebelou contra seu Criador. Foi isso o que causou a interposição divina [para começar], e proclamá-lo deve ser o primeiro ato do mensageiro divinamente acreditado. A Igreja deve denunciar a rebelião como o maior de todos os males. A Igreja não deve, em nenhum termo, transigir com ela; se ela vai manter-se fiel a seu Senhor, deve proibi-la e anatematizá-la.” (Apologia Pro Vita Sua, edição Longmans de 1900, 240-246)
A – P R I M E I R A – E X P L O S Ã O – D E – D E N O M I N A Ç Õ E S
Infelizmente, o que o protestantismo fez foi exaltar e tratar como algo sagrado o rebelde e dissidente juízo particular, considerando-o um dogma de fé, e as consequências disso se tornaram manifestas. Não funciona! A Enciclopédia Cristã Mundial (Publicação da Universidade de Oxford, 1983) estima que há mais de 20.000 denominações em existência, e a esmagadora maioria delas – todas, exceto um punhado – foram criadas nos últimos 500 anos e são denominações protestantes. Esse é o fruto da doutrina do juízo particular.
Podemos ver, de nosso ponto de observação 500 anos após a Reforma, as consequências devastadoras dessa doutrina, como ela atua como um martelo para esmagar e despedaçar as igrejas, tornando-as cada vez menores com o passar do tempo. Contudo, as pessoas daquele tempo deveriam ter sido capazes de prever essas consequências e, de fato, o fizeram. Os católicos daquele período predisseram abertamente o caos que agora floresceu no mundo cristão, e os próprios Reformadores viram o que aconteceria. Por isso, os Reformadores tomaram medidas para mitigar essa situação e desacelerar o número de denominações que estavam sendo criadas.
U M – F A T O R – M I T I G A N T E : – A – I N C O N S I S T Ê N C I A – D O S – R E F O R M A D O R E S
Eles só recorreram à doutrina do juízo particular porque toda a história cristã estava contra eles e, assim, tinham de encontrar uma forma de pôr de lado toda a história cristã para deixar somente suas próprias interpretações bíblicas. Imediatamente depois, eles proibiram a seus seguidores que exercessem o mesmo juízo particular que insistiam dever aplicar-se a eles.
Tipicamente, quando estavam começando e se encontravam em posições políticas precárias, eles pregavam o livre exercício do juízo particular e seu corolário, a tolerância do exercício público do juízo particular dos outros. Contudo, uma vez consolidadas suas próprias posições e vendo o caos a que levava o exercício público do juízo particular, retrataram-se desse princípio e tentaram dominá-lo. O historiador Will Durant escreve:
“É instrutivo observar como Lutero mudou sua posição de tolerância para dogma à medida que crescia seu poder e sua certeza. Entre [as 95 Teses estava a proposição] de que ‘queimar hereges era contra a vontade do Espírito Santo.’ Na Carta Aberta à Nobreza Cristã (1520), Lutero ordenou a ‘todo homem como sacerdote’, com o direito de interpretar a Bíblia de acordo com seu juízo particular e sua luz individual; e acrescentou: ‘Devemos vencer os hereges com livros, não com fogueiras.’ … [Mas] Lutero nunca deveria ter envelhecido. Já em 1522 ele estava superando em “papismo” os próprios papas. ‘Não admito’, escreve ele, ‘que minha doutrina seja julgada por ninguém, nem sequer pelos anjos. Aquele que não recebe minha doutrina não pode salvar-se’” (Durant, A História da Civilização, volume 6 [“A Reforma”], 420-2). Assim, em 1529, Lutero escreveu:
“Ninguém deve ser obrigado a professar a fé, mas a ninguém deve ser permitido feri-la. Deixemos que nossos oponentes deem suas objeções e escutem nossas respostas. Se dessa maneira eles se convertem, muito bem; se não, que mordam a língua e creiam no que quiserem…. Para evitar problemas, não deveríamos, se possível, tolerar ensinamentos contrários no mesmo estado. Até os não crentes deveriam ser forçados a obedecer aos Dez Mandamentos, a assistir à igreja e a conformar-se exteriormente” (Carta de 26 de agosto de 1529 a Jos. Metsch).
Agora que a posição de Lutero havia sido assegurada, ele podia examinar a anarquia causada pelo princípio que utilizara para chegar ao poder – o exercício público do juízo particular – e foi posto na mesma posição de um pastor protestante moderno, que precisa pregar o juízo particular para validar seus próprios ensinamentos; contudo, precisa proibir o exercício público do juízo particular para bloquear as forças do caos e manter seu grupo unido. Durant escreve:
“Lutero agora estava de acordo com a Igreja Católica em que ‘Os cristãos requerem certeza, dogmas definidos e uma Palavra de Deus segura na qual possam confiar para viver e morrer regidos por ela.’ Como a Igreja nos primeiros séculos da Cristandade, dividida e enfraquecida pela crescente multiplicidade de seitas ferozes, havia se sentido obrigada a definir seu credo e expulsar todos os dissidentes, assim agora Lutero, desanimado com a variedade de seitas conflitantes que haviam brotado da semente do juízo particular, mudou sua posição passo a passo, da tolerância ao dogmatismo. ‘Todos os homens agora presumem criticar o Evangelho’, queixava-se Lutero; ‘quase todo velho decrépito ou sofista fanfarrão tem de, à força, ser um doutor em divindade.’ Sentindo-se agredido pelos escárnios católicos de que ele havia soltado uma incontrolável anarquia de credos e morais, concluiu, com a Igreja, que a ordem social requer que exista um encerramento a todo debate, alguma autoridade reconhecida que sirva como ‘uma âncora de fé’. … Sebastian Franck opinava que havia mais liberdade de expressão e crença entre os turcos do que nos estados luteranos, e Leo Jud, o zwingliano, uniu-se a Carlstadt em chamar Lutero de outro Papa” (ibid., 423).
Lutero também escrevia:
“Os hereges devem ser condenados sem serem ouvidos”
Mas todos sabemos que Lutero era um homem de temperamento forte. Certamente essa era a causa de sua atitude, e o tornava único entre os Reformadores em sua inconsistência a respeito do juízo particular, não é?
“Outros reformadores igualaram ou superaram Lutero na perseguição à heresia. Bucer de Estrasburgo instou as autoridades civis dos estados protestantes a extirpar todos os que professavam uma religião ‘falsa’; tais homens, dizia ele, são piores que assassinos; até suas esposas, filhos e gado deveriam ser destruídos. O comparativamente pacato Melâncton [seguidor de Lutero] aceitou presidir a inquisição secular que reprimiu os anabatistas na Alemanha com prisão e morte. ‘Por que deveríamos ter pena desses homens mais do que Deus lhes tem?’, perguntava… Sugeria que a rejeição do batismo de crianças, ou do pecado original, ou da Presença Real de Cristo na Eucaristia, devia ser castigada com penas capitais. Insistiu na pena de morte para um sectário que afirmava que os pagãos poderiam ser salvos, ou para outro que duvidava de que a crença em Cristo como Redentor pudesse transformar um pecador natural em um homem justo. Aplaudiu … a execução de Servet na fogueira. Pediu ao estado que obrigasse todo o povo a assistir regularmente aos serviços religiosos protestantes. Exigiu que se suprimissem todos os livros que se opunham aos ensinamentos luteranos ou os obstruíam; assim, os escritos de Zwínglio e seus seguidores foram formalmente postos no índice de livros proibidos em Wittenberg” (ibid., 423-4).
Sim, mas estamos falando do fluxo de controle luterano da Reforma. Certamente os desligados e intelectuais calvinistas eram melhores.
“O novo clero… sob Calvino tornou-se mais poderoso do que qualquer outro sacerdócio que tenha existido desde o antigo Israel. A lei real de um estado cristão, dizia Calvino, deve ser a Bíblia; o clero é o intérprete dessa lei; os governos civis estão sujeitos a essa lei, e ela deve ser feita cumprir da maneira como é interpretada…
“Ninguém devia ser dispensado dos serviços religiosos protestantes sob a alegação de ter um credo religioso diferente ou particular; Calvino era tão minucioso quanto qualquer Papa em rejeitar o individualismo de crença; este grande legislador do protestantismo repudiava completamente o princípio do juízo particular com o qual sua nova religião havia começado. Ele vira a fragmentação da Reforma em centenas de seitas, e prognosticava mais; em Genebra, estava disposto a não ter nenhuma. Ali, um corpo de clérigos cultos formulou um credo autoritário; aqueles genebrinos que não pudessem aceitá-lo teriam de buscar outro habitat. A ausência persistente aos serviços protestantes, ou a recusa contínua a tomar a Eucaristia, era uma ofensa penada. A heresia novamente constituiu um insulto a Deus e uma traição ao estado, e era penada com a morte… Entre 1542 e 1564, cinquenta e oito pessoas foram executadas [na cidade de Genebra] [incluindo o famoso médico Michael Servet, cuja execução na fogueira foi ordenada pelo próprio Calvino], outras setenta e seis foram desterradas, por violar o novo código. Aqui, como em toda parte, a bruxaria era um crime capital; em um ano, sob o conselho do Consistório de Calvino, catorze supostas bruxas foram mandadas à fogueira sob a acusação de que haviam persuadido Satanás a afligir Genebra com a peste” (ibid., 472-3)
Assim, os Reformadores não eram mais consistentes em sua aplicação da Sola Scriptura do que os pastores modernos. O líder, a cabeça, consegue utilizar seu juízo particular de maneira irrestrita – de fato, ele tem um juízo particular mais irrestrito do que o do Magistério católico, que está limitado por ensinamentos doutrinais prévios –, mas ninguém mais o tem. Dessa maneira, em certa área onde um Reformador tinha o controle religioso por meio de uma aliança com o estado, somente as crenças desse Reformador eram permitidas. Em áreas controladas pelos luteranos, não se permitia às pessoas que ensinassem doutrinas contrárias ao luteranismo. Em Genebra, que era controlada pelos calvinistas, era um crime civil penado com desterro discordar publicamente de Calvino. Quando os anabatistas tomaram o controle da cidade de Münster, todos os residentes foram obrigados a submeter-se a ser rebatizados nas mãos dos anabatistas, e quem se opunha era expulso da cidade em pleno inverno alemão. E, na Inglaterra, era exigido por lei assistir à Igreja da Inglaterra ou pagar multas se não o fizessem, sem mencionar, evidentemente, também os centenas de mártires católicos que os governantes protestantes executaram na Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda.
Os Reformadores não aplicavam essas medidas somente aos católicos de quem haviam se separado, mas também as aplicavam entre si, como nos mostram as histórias dos movimentos religiosos “Não conformistas” na Inglaterra. Estes eventualmente se converteram nos congregacionalistas, nos Irmãos de Plymouth, nos batistas e nos puritanos. Recordemos como os Peregrinos puritanos fugiram da Inglaterra para os EUA por causa da perseguição religiosa. Os católicos não estavam perseguindo ninguém na Inglaterra naquele tempo; eles eram os que mais eram perseguidos na Inglaterra. Os puritanos vieram à América para fugir da perseguição religiosa protestante. E os puritanos só se viram forçados a fazer isso depois de seus planos de tomar o controle político-religioso na Inglaterra terem sido frustrados.
Em sua obra a respeito da organização política eclesiástica, o inglês doutor em divindade Richard Hooker produziu um retrato notavelmente perspicaz do movimento puritano e sua relação com o juízo particular, o qual é resumido aqui pelo historiador político Eric Voegelin:
“Se um movimento, como o puritano, confia na autoridade de uma fonte literária [como a Bíblia], os líderes teriam então de manufaturar ‘as próprias noções e opiniões individuais dos homens’ de tal maneira que os seguidores associem automaticamente a passagem da Escritura e os termos com sua doutrina, por mais mal fundada que seja essa associação e, com automatismo semelhante, eles vão ser cegos ao conteúdo das Escrituras que é incompatível com sua doutrina. Segue-se então o passo decisivo em consolidar … ‘a persuasão de homens crédulos e capazes de tais erros agradáveis, de que é a especial iluminação do Espírito Santo, pela qual eles discernem essas coisas na palavra, as quais outros, quando leem, não as discernem.’ Vão qualificar-se a si mesmos como os eleitos; e essa qualificação produz ‘termos elevados de separação entre eles e o resto do mundo’; assim, como consequência, a humanidade será dividida em ‘irmãos’ e ‘mundanos’…
“Uma vez que um ambiente social desse tipo está organizado, será difícil, se não impossível, rompê-lo por meio da persuasão. ‘Se algum homem de opinião contrária abre a boca para persuadi-los, eles fecham os ouvidos, suas razões não as levam em conta; tudo o que respondem é a repetição das palavras de João: ‘Somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos escuta’: quanto ao resto, vós sois do mundo; já que a pompa e a vaidade deste mundo é o que vós falais, e o mundo, ao qual pertenceis, vos escuta.’ São impermeáveis ao argumento e têm suas respostas bem guardadas. Sugira-lhes que não podem julgar tal matéria, e responderão: ‘Deus escolheu os simples.’ Mostre-lhes convincentemente que o que estão falando não faz sentido, e ouvirá: ‘O próprio Apóstolo de Cristo foi tachado de louco.’ Tente dar-lhes a mais branda advertência de disciplina, e eles vituperarão a respeito da ‘crueldade de homens sedentos de sangue’ e se farão vítimas de serem ‘inocentemente perseguidos pela verdade.’ Em resumo: sua atitude é psicologicamente revestida de ferro e é inalcançável ao argumento” (Voegelin, Eric, A Nova Ciência da Política [Chicago: Universidade de Chicago, 1952], 135-137, citando Richard Hooker, Obras, ed. Keble (7ª ed.; Oxford, 1888) I:145-155).
Voegelin também faz notar as medidas que essa atitude mental deve tomar para proteger suas interpretações:
“Para poder tornar efetiva sua camuflagem bíblica, as seleções das Escrituras, bem como as interpretações a elas dadas, têm de ser padronizadas. A liberdade real de interpretação das Escrituras para todos, de acordo com suas preferências e grau de educação, teria resultado numa condição caótica, tal como as que caracterizaram os primeiros dias da Reforma; além disso, se uma interpretação fosse admitida como tão boa quanto qualquer outra, não haveria nenhum argumento contra a tradição da Igreja, a qual, afinal, estava baseada numa interpretação da Escritura, também. Desse dilema entre caos e tradição emergiu o primeiro dispositivo, isto é, a formulação sistemática de nova doutrina em termos da Escritura, como foi provido pelos Institutos de Calvino. Uma obra desse tipo serviria ao duplo propósito de um guia para a leitura correta das Escrituras e de uma formulação autêntica da verdade, o que tornaria desnecessário recorrer à literatura anterior… O homem que possa escrever tal [obra], o homem que possa romper com a tradição intelectual da humanidade porque crê na fé de que uma nova verdade e um novo mundo começam com ele, deve estar num peculiar estado pneumopatológico. Hooker, que estava supremamente consciente da tradição, teve uma fina sensibilidade para esse inesperado desenvolvimento do pensamento. Em sua cuidadosa e comedida caracterização de Calvino, ele começa com a sóbria afirmação: ‘Sua formação foi o estudo da lei civil’; depois diz, com certa malícia: ‘Conhecimento divino ele adquiriu, não tanto ouvindo ou lendo, mas ensinando a outros’; e conclui com a frase devastadora: ‘Pois, embora milhares lhe devessem, como o único que podia proporcionar esse tipo de conhecimento, contudo, ele [nada devia] a ninguém exceto a Deus, o autor da mais bendita fonte, o Livro da Vida, e a admirável destreza da sabedoria’ (Voegelin, 138-9, citando Hooker, 127ss).
“O segundo recurso para prevenir a crítica constrangedora é um suplemento necessário ao primeiro. … Da experiência contemporânea com movimentos totalitários sabe-se muito bem que o [primeiro] recurso é consideravelmente à prova de tolos, porque se pode reconhecer [n]a censura voluntária do adepto; o membro fiel do movimento não tocará em literatura que seja apta a argumentar contra suas queridas crenças, ou a mostrar-lhes desrespeito. Contudo, o número de fiéis pode ser pequeno, e a expansão e o êxito político vão ser seriamente obstaculizados se a verdade do … movimento é permanentemente exposta à crítica efetiva de vários grupos. Essa desvantagem pode ser reduzida, e praticamente eliminada, ao pôr em tabu os instrumentos de crítica; uma pessoa que utilize os instrumentos em tabu será socialmente boicotada e, se possível, exposta à difamação política. O tabu sobre os instrumentos de crítica foi utilizado, efetivamente, com uma efetividade estupenda por [esses] movimentos quando eles alcançavam certo êxito político. Concretamente, no nascimento da Reforma, o tabu tinha de recair sobre a filosofia clássica e a teologia escolástica; e, uma vez que sob essas duas rubricas veio a parte maior e certamente decisiva da cultura ocidental, essa cultura foi arruinada até o ponto em que o tabu se tornou efetivo. De fato, a destruição foi tão profunda que a sociedade ocidental nunca se recuperou desse golpe” (Voegelin, 140-141).
Assim, os Reformadores estavam muito conscientes de que o solvente universal do juízo particular não podia ser deixado sair da garrafa, por mais que pregassem publicamente que era direito de todo cristão manejar esse direito absoluto. Todo aquele “Aqui estou, a Palavra de Deus me obriga, não posso fazer diferente” (Martinho Lutero) tem de ser interpretado mais estritamente. “Não posso fazê-lo diferente” significa, na realidade, “Eu não posso fazê-lo diferente.” Não significava que você podia fazer algo diferente se a Palavra de Deus assim o obrigasse. Você tinha de fazer o que eu digo, porque eu – o líder – era aquele a quem a Palavra de Deus obrigou e, assim, toda a era das leis religiosas protestantes da Reforma, e a era dos Magistérios protestantes concorrentes, veio e se foi.
A – S E G U N D A – E X P L O S Ã O – D E – D E N O M I N A Ç Õ E S
Eventualmente, sob a influência da democracia não denominacional, como foi popularizada pelo experimento estadunidense, a era das leis religiosas protestantes chegou a seu fim no mundo desenvolvido, seja parcial, seja totalmente, mas isso apenas intensificou a competição e a disputa dos Magistérios protestantes. Agora que a igreja protestante local não podia obrigar a filiação pela força da lei, o solvente universal do juízo particular estava livre para ser solto novamente e, assim, todas as denominações estabelecidas se desintegraram em facções menores. A Guerra Civil dos Estados Unidos foi um grande impulso nesse sentido, pois dividiu as denominações ao longo das linhas do Norte e do Sul, razão pela qual hoje existem os Batistas do Sul, por exemplo.
Ao mesmo tempo, uma gama imensa de grupos totalmente novos viu-se repentinamente livre para ir às “compras”.
Você já se perguntou por que os mórmons, as Testemunhas de Jeová, os teosofistas, os espiritualistas, os cientistas cristãos e os adventistas do sétimo dia começaram todos no século XIX e nos EUA? Não era porque as pessoas do século XIX fossem mais loucas que as de outros tempos; era porque os loucos e os charlatães tinham agora a liberdade de reunir seguidores nos EUA.
Esses grupos são simplesmente sobreviventes de uma gama imensa de novos movimentos que começaram naquele então, todos são estilhaços do protestantismo, onde a doutrina do juízo particular era pregada como uma de suas doutrinas supremas (a outra sendo a Sola Fide, ou “Somente a Fé”).
Enquanto os protestantes puderam manter o exercício do juízo particular proibido por lei, ao mesmo tempo em que o pregavam e o “incentivavam” em seus púlpitos, eles puderam manter as coisas sob controle. Mas, quando veio um grupo de revolucionários políticos suficientemente idealistas para exaltar e entronizar o princípio do juízo particular na Constituição estadunidense, os quais, então, tiveram integridade suficiente para seguir e cumprir essa promessa (algo contrário à sua conveniência), a caixa de Pandora se abriu, o gato escapou do saco, e agora não havia nada que pudesse deter a avalanche de novas denominações.
Assim, a imensa maioria das novas denominações que temos hoje não são apenas da época da Reforma protestante, mas do tempo da Revolução Americana, que exportou seus ideais para todo o mundo, até para países governados por lei comum, em vez de constituições.
U M – F A T O R – M I T I G A N T E : – A – I N C O N S I S T Ê N C I A – D O S – P A S T O R E S
Contudo, há um fator mitigante que impede que haja uma explosão ainda mais rápida de pontos de vista concorrentes, o que faria com que a estrutura denominacional se desintegrasse totalmente. Esse fator mitigante, do qual falamos anteriormente, é a inconsistência dos pastores protestantes locais no que se refere a permitir o exercício público do juízo particular.
Eles mantêm o exercício do juízo particular para si mesmos, mas, uma vez que proíbem o exercício público em suas congregações, conseguem manter a expressão de pontos de vista opostos sob controle, exceto pelo dissidente ocasional que provoca um “church split”, ou divisão da igreja. Se a expressão pública de teologias alternativas por qualquer um ou por todos os membros da congregação fosse permitida, o grupo se dissolveria totalmente em facções concorrentes, em vez de apenas periodicamente ser dividido, com tempo para reagrupar-se e crescer novamente depois de cada divisão.
Se a cada membro de cada congregação protestante fosse permitido expressar suas especulações teológicas em público, com igual oportunidade que o pastor, então a estrutura denominacional se desintegraria totalmente em pouco tempo, e os diferentes Magistérios protestantes ver-se-iam despojados de seus rebanhos, faltando-lhes corpos de fiéis para ancorar contra os ventos de asserções doutrinais concorrentes, como o Novo Testamento diz que o Magistério deveria fazer.
Desse modo, é a inconsistência dos pastores protestantes em permitir a expressão pública do juízo particular para si mesmos, ao mesmo tempo em que a proíbem aos outros, o que permite que o sistema denominacional protestante mantenha a estrutura que lhe resta. Os pastores protestantes que vivem hoje, durante a segunda explosão de denominações, dão-se conta, ainda que não de forma totalmente elaborada, de que é sua inconsistência o que permite que o grupo mantenha sua identidade e evite o consequente caos total.
Da mesma maneira, os Reformadores que viveram durante a primeira explosão de denominações deram-se conta, de forma mais elaborada, de que era sua inconsistência o que permitiu a suas nações reter suas identidades religiosas e evitar a segunda explosão de denominações. Quando as leis nacionais que mantinham certas denominações individuais foram abolidas, e o juízo particular foi permitido ser expresso não em nível nacional, mas preferivelmente em nível local, então veio a segunda explosão de denominações.
A – P R I M E I R A – R E G R A – P A R A – A – I N T E R P R E T A Ç Ã O – D A – B Í B L I A
Não obstante, o fato de que a doutrina do juízo particular resultaria em caos foi percebido muito tempo antes dos Reformadores protestantes. Foi, de fato, percebido no tempo dos apóstolos, quando houve também uma explosão de heresias.
A palavra “heresia” (grego, hairesis) significa “opinião particular”, “preferência” ou “o que se escolheu como próprio”, e vem do verbo haireomai, que significa “tomar para si mesmo” ou “escolher por si mesmo”. No século primeiro, já tinha uma conotação negativa de ir por seu próprio caminho, em rebelião aos ensinamentos estabelecidos (é utilizada em At 24,14, onde é traduzida como “seita” em algumas traduções da Bíblia).
No contexto cristão, uma heresia – uma heresia cristã – surge quando uma pessoa que professa ser cristã insiste em exercer o juízo particular de maneira absoluta e prefere sua própria interpretação em vez dos ensinamentos estabelecidos da Igreja. Esse é o significado desse termo na história cristã, mas essa conexão entre interpretação particular e heresia era compreendida corretamente pelos escritores do Novo Testamento, enquanto lutavam por estabelecer um conjunto consistente de ensinamentos numa comunidade de novos crentes que não estavam totalmente estabelecidos na fé e que muitas vezes chegavam a interpretações pessoais errôneas (a correção desses pontos de vista foi uma das razões-chave pelas quais as epístolas do Novo Testamento foram escritas).
Por isso, não nos surpreende quando lemos o Novo Testamento e encontramos o princípio da interpretação particular conectado à heresia e condenado. Ao escrever a respeito do valor da Palavra de Deus, São Pedro nos diz:
“Fazeis bem em estar atentos [à palavra profética] como a uma tocha que brilha em lugar escuro, … entendendo primeiro isto: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular, porque a profecia nunca foi trazida por vontade humana, mas os santos homens de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo. Mas houve também falsos profetas entre o povo, como haverá entre vós falsos mestres, que introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras [levando em conta o significado antigo e correto da palavra ‘heresia’] e até negarão o Senhor que os resgatou, atraindo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas dissoluções, e por causa deles o caminho da verdade será blasfemado.” (2Pd 1,19b-2,2)
A lógica de Pedro é clara: para a salvação de nossas almas, devemos prestar atenção à palavra de Deus, mas, ao fazer isso, a primeira coisa que devemos ter presente é que nenhuma expressão das Escrituras é matéria de interpretação particular. Por quê? Porque a Escritura não se originou dos pontos de vista particulares de algum indivíduo, mas do Espírito Santo. E devemos ser advertidos de que nem todos os que pretendem falar pelo Espírito Santo dizem a verdade. Na era do Antigo Testamento, havia falsos profetas que enganavam o povo e, Pedro nos diz, da mesma maneira, na era do Novo Testamento, haverá mestres falsos que circularão entre o povo e “secretamente trarão heresias destrutivas.” Por que secretamente? Porque estas estão envoltas em um manto de versículos das Escrituras, lidos de acordo com a interpretação pessoal do mestre falso. É a interpretação particular do mestre falso que torce as escrituras e resulta em heresias destrutivas; mas é ainda assim uma heresia secreta, não aberta, porque o herege as tem envoltas em um manto de versículos bíblicos.
Pedro, dessa maneira, nos adverte de que devemos manter-nos afastados de interpretações particulares. Em vez disso, devemos buscar a interpretação pública que Cristo depositou em sua Igreja. Somente dessa maneira podemos evitar os erros de mestres falsos que circulam na comunidade cristã.
Pedro se preocupa tanto com isso que faz disso a primeira regra da interpretação bíblica, dizendo-nos que devemos prestar atenção à palavra de Deus, mas que, ao fazer isso, devemos saber primeiro que nenhum pronunciamento da Escritura deve ser exposto à interpretação particular. A rejeição das interpretações particulares de indivíduos, em contraste com os mestres que Cristo escolheu para sua Igreja, é assim a primeira regra da hermenêutica bíblica. Devemos apoiar-nos no Magistério de Cristo, e não em nossos próprios juízos, porque é aí que reside o caminho para a heresia, diz-nos Pedro.
E Pedro nos adverte de um tempo em que a situação vai ser muito ruim nesse sentido: “muitos seguirão as suas dissoluções, e por causa deles o caminho da verdade será blasfemado.” Nestes dias, quando há mais de 20.000 denominações cristãs e quando a divisão na comunidade cristã se converteu em objeto de desprezo e zombaria entre os não crentes (“Então você é cristão… De qual franquia?”), pode-se dizer com segurança que o dia que Pedro profetizou chegou.
Contudo, há pessoas que ainda se apegam a interpretações particulares, e algumas se atreveram até a erradicar esse pronunciamento de Pedro das Escrituras. A força desse pronunciamento é tão grande que algumas traduções protestantes, tais como a versão inglesa NIV (Nova Versão Internacional), tentaram mascará-la, desviando-se da tradução literal do texto e inserindo no versículo palavras que não aparecem no grego.
Talvez a tradução mais literal do grego seja que devemos prestar atenção à palavra profética, “sabendo isto primeiro: que as profecias das Escrituras não são de interpretação própria de ninguém.” Uma tradução aceitável seria “sobretudo, deveis entender que nenhuma profecia é de interpretação própria de ninguém”, mas os tradutores protestantes da NIV não conseguem lidar com isso, e assim substituem “própria de ninguém” por “do profeta”, resultando na “tradução”: “Sobretudo, deveis entender que nenhuma profecia da Escritura se produziu da interpretação do profeta.”
Isso, simplesmente, não é o que diz o texto grego. O grego diz “própria de ninguém” (idias), não “do profeta” (tou prophetou). Ao cometer esse erro na tradução, a NIV nos fornece uma maravilhosa ilustração de como a interpretação particular pode corromper um texto bíblico. Aqui os tradutores não somente mostraram sua disposição a impor uma interpretação particular de um texto, mas impõem sua interpretação particular dentro do texto, desviando-se do que o texto diz literalmente, e assim trazem uma heresia destrutiva na forma mais secreta de todas – onde a heresia se insinua nas palavras da tradução mesma, e assim os fiéis que leem a passagem não têm oportunidade sequer de comparar a interpretação particular com as palavras verdadeiras da Escritura, porque aqui a interpretação particular substituiu as palavras verdadeiras do versículo.
Isso é, de fato, um costume regular das traduções parafrásicas como a NIV, as quais também mostram sua parcialidade anticatólica ao suprimir a palavra “tradição” (grego paradosis) em passagens tais como 1Cor 11,2; 2Ts 2,15 e 3,6, onde é utilizada como tradições de Deus, no bom sentido, em contraste com outros lugares onde aparece a mesma palavra (i.e., paradosis), mas referindo-se a tradições de homens (p. ex., Mt 15,2-6), no sentido negativo. Os tradutores protestantes da NIV (e outros) sempre querem que a palavra “tradição” seja usada no sentido negativo e, assim, nesses versículos utilizam a palavra “ensinamento” em vez de “tradição.”
Assim, outra vez eles inserem sua interpretação particular nas próprias palavras do texto bíblico e, funcionando em capacidade magisterial, negam ao leitor a possibilidade de comparar sua interpretação do texto com o que o texto diz na realidade.
Se eles fossem um Magistério autorizado por Deus para ensinar as pessoas, isso não seria algo preocupante, mas a única autoridade que os tradutores têm é o suposto direito ao juízo particular e seu conhecimento do grego. Este último é também uma força que inevitavelmente leva a uma ação pseudomagisterial por parte de alguns cristãos, porque, faça-se o que se fizer, a grande maioria dos cristãos simplesmente nunca vai ser fluente, muito menos perita, em grego do Novo Testamento, o que significa que o texto original vai estar para sempre fora de seu alcance e será somente meditado pelos tradutores.
Isso não é irrelevante. Às vezes, os evangélicos tentam minimizar o papel da tradução dizendo que não afeta nenhum ensinamento essencial da Bíblia, mas isso é manifestamente falso, como mostra o exemplo que citamos, porque este diz respeito à própria regra da interpretação bíblica – o que é a primeira coisa que devemos ter presente quando lemos a palavra profética de Deus. Quais são as consequências de cometer um erro nessa área? Pedro nos diz isto um pouco mais adiante nesta mesma epístola:
“…nosso amado irmão Paulo, segundo a sabedoria que lhe foi dada, vos escreveu em quase todas as suas epístolas, falando nelas dessas coisas; entre as quais há algumas difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem (como também as outras Escrituras) para a sua própria perdição. Vós, portanto, amados, sabendo-o de antemão, guardai-vos, para que não sejais arrastados pelo erro dos ímpios e caiais da vossa firmeza.” (2Pd 3,15b-17).
O preço do erro em como ler a Bíblia é a própria destruição de quem o comete, e é fácil que o indouto e instável faça isso com as Escrituras, porque há “coisas nelas difíceis de entender.” Assim, devemos outra vez ter cuidado com os mestres falsos, os ímpios que vêm a nós com interpretações não autorizadas e que podem afastar-nos de nossa própria firmeza nos verdadeiros ensinamentos de Cristo. A necessidade de um Magistério é a chave.
Na melhor das hipóteses, somente uma classe de cristãos magisteriais pode sequer tentar aplicar a regra do juízo particular e a teoria da “Bíblia somente” da qual é uma parte. Mas, para o cristão médio, que não é membro da classe magisterial de sua denominação, nem um dos pastores, presbíteros ou tradutores bíblicos, a fonte de ensino cristão autoritária teria de ser a Bíblia tal como a interpreta seu Magistério.
Esta é a maneira como é em todas as igrejas protestantes, tal como é no caso da Igreja Católica. A diferença é que a Igreja Católica é honesta a respeito do papel do Magistério e não tenta ocultá-lo ao pregar o direito absoluto (e a correspondente enorme responsabilidade) do indivíduo cristão de ser seu próprio teólogo e avaliar completamente todos os temas por si mesmo.
O fato de que todas as denominações protestantes tiveram, por necessidade, de reinventar o modelo católico de uma forma ou de outra, envolvendo-o numa retórica que mascara sua verdadeira natureza, mostra que a doutrina do juízo particular simplesmente não funciona. Não pode funcionar nem sequer em teoria, dadas a cultura e as inclinações do cristão médio e o fato de que denominações e pastores ativamente trabalham para proibir seu exercício absoluto; demonstrou-se que não funcionou na história, pela explosão de denominações e seitas quando se tentou sua implementação, e é condenada nas próprias páginas das Escrituras. Mas, uma vez que o ensinamento de um direito absoluto ao juízo particular é um componente essencial da doutrina da Sola Scriptura (porque, se alguém busca o Magistério, então não está olhando somente para as Escrituras), isso significa que a própria doutrina da Sola Scriptura não funciona.
Então, livremo-nos da falsa promessa de uma Cristandade que segue o estatuto “Somente eu e minha Bíblia”, removamos a carga esmagadora de dizer a todo indivíduo cristão, por mais pobre, indouto e iletrado que seja, que ele deve ser seu próprio teólogo e que sua alma depende disso; removamos a hipocrisia que os pastores protestantes se veem forçados a seguir por causa dessa doutrina, ao permitir para si mesmos um direito que proíbem aos membros de suas congregações, e sejamos honestos, com a Igreja Católica, em que:
A Sola Scriptura, e o direito absoluto ao juízo particular que ela requer, simplesmente NÃO é o plano de Deus.
Autor: James Akin