Miguel: Olá José, gostaria de continuar nossa conversa sobre o cânon, já que ficaram alguns pontos a analisar e gostaria de ter sua opinião.
José: Prossiga.
Miguel: Outra das razões pelas quais pude averiguar que a Igreja Evangélica rejeita os livros que você chama de deuterocanônicos e não os inclui em suas Bíblias, está em que esses livros não dizem ser inspirados por Deus. Não se encontram neles frases como “Assim diz o Senhor”, “Veio a mim a palavra do Senhor”, “Falou o Senhor a…” mas que, ao contrário, confessam sua inspiração humana, tal como aparece no segundo livro dos Macabeus: “…eu também encerrarei aqui meu relato. Se ficou bem elaborado e com boa composição, era o que eu pretendia; se ficou imperfeito e medíocre, fiz o que pude.” (2 Macabeus 15,37-38) Como poderia ser Palavra divina um livro que reconhece a possibilidade de ser imperfeito e medíocre?
José: Não se deve perder de vista que, embora na Bíblia o autor principal seja Deus, o autor secundário é o homem, e este, ainda que escreva sob inspiração divina, nem sempre nem necessariamente está consciente de que o faz.
Há muitos exemplos em que isso se observa em outros livros que as igrejas evangélicas aceitam. Aí está o caso do evangelho de Lucas, que reconhece que escreve não por ordem de Deus, mas para transmitir os acontecimentos dos tempos de Jesus a Teófilo. O que escreve também não o assume como palavra de Deus, mas como simples fruto de sua investigação ao consultar as testemunhas oculares daqueles acontecimentos: “Como muitos empreenderam compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da Palavra, pareceu-me também a mim conveniente, depois de investigado tudo diligentemente desde a origem, escrevê-los em ordem para ti, excelente Teófilo, para que conheças a solidez dos ensinamentos que recebeste.” (Lucas 1,1-4).
Outro exemplo vemos no livro do Eclesiastes, que reconhece abertamente ser palavra de um homem, um filho de Davi: “Palavras de Coélet, filho de Davi, rei em Jerusalém” (Eclesiastes 1,1), e mais adiante reconhece desconhecer coisas que Deus sabe: “Quem sabe se o espírito dos homens sobe para cima e se o espírito dos animais desce para baixo, para a terra? Vi que não há nada melhor para o homem do que se alegrar em suas obras, pois esta é sua recompensa. Mas quem o levará a contemplar o que há de acontecer depois dele?” (Eclesiastes 3,21-22). Convido você a fazer um exercício: reveja cada livro da Bíblia e conte quantos não dizem ser palavra de Deus. Vai se surpreender.
Por outro lado, o fato de um livro afirmar ser palavra de Deus não faz com que o seja. O Alcorão e o livro de Mórmon afirmam ser Palavra de Deus e vocês não os aceitam como tal.
Miguel: É verdade, não os aceitamos.
José: Então, se vocês aceitam como parte de suas Bíblias livros que não afirmam ser Palavra de Deus, e não necessariamente aceitam qualquer livro que diga sê-lo, não é coerente rejeitar os deuterocanônicos por essa causa. Nós, ao contrário, raciocinamos de modo diferente: não aceitamos a Bíblia como divinamente inspirada porque ela mesma o diga; fazemo-lo porque cremos que Cristo, que é Deus e Homem verdadeiro, fundou uma Igreja e essa Igreja dá testemunho de que esses livros foram inspirados por Deus.
Miguel: Mas se a Igreja se corrompe, que garantia podem ter de que o discernimento que fazem é correto?
José: O que acontece é que para nós é dogma de Fé que a Igreja é indefectível, tema que podemos tratar depois, e quer dizer que mesmo sendo formada por seres humanos, fracos e pecadores, sempre será “a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade” e isso inclui sua impossibilidade de falhar na consecução do fim sobrenatural para o qual foi fundada pelo Senhor Jesus: tornar perenemente presente a obra da salvação.
Mas eis precisamente uma contradição no núcleo do protestantismo, já que a maioria acredita que a Igreja se corrompeu por causa do Édito de Milão no ano 313 d.C., e se isso realmente ocorreu, tanto vocês como nós temos um cânon do Novo Testamento definido por uma Igreja corrupta, já que a definição do Cânon, como falávamos em nossa conversa anterior, ocorreu tardiamente.[1]
Miguel: Posso aceitar que na Bíblia haja livros que não digam ser Palavra de Deus, mas isso é uma coisa e outra é aceitar livros que ensinam erros e inclusive contradizem o restante.
Ali está o livro do Eclesiástico, que afirma que Deus aborrece os perversos, além disso pede para ajudar o bom e não o mau: “Que o Altíssimo também odeia os pecadores e dos ímpios tomará vingança. Dá ao homem de bem, e do pecador não te importes.” (Eclesiástico 12,6-7). Você mesmo já não disse em alguma ocasião que Deus odeia o pecado mas ama o pecador? No Novo Testamento encontramos também que Deus nos manda a ajudar quem nos pede (Mateus 5,42)
José: Sendo o homem o autor secundário da Bíblia, muitas vezes ficam nela rastros de sua parte humana que devem ser interpretados em seu contexto, assim como há outros textos que devem ser entendidos em sentido espiritual. Cristo veio precisamente para clarificar e dar plenitude à Revelação. Por trás desses textos encontramos o dever cristão de rejeitar os inimigos da alma, não as pessoas, porque “o nosso combate não é contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, contra as Potestades, contra os Príncipes das trevas deste século, contra os espíritos do mal nos lugares celestiais.” (Efésios 6,12)
Se não entendemos isso dessa maneira, teríamos que excluir não somente esse texto que você me menciona, mas outros que também estão na Bíblia protestante: “Derrama sobre eles [meus inimigos] a tua ira, e o ardor do teu furor os alcance. Seja o seu palácio assolado: nas suas tendas não haja habitante. Porque perseguiram aquele que tu feriste; e do sofrimento daqueles que tu feriste falam. Põe maldade sobre a sua maldade, e não entrem na tua justiça” (Salmo 69,22-28). E assim como estes há muitos outros textos semelhantes.
Miguel: Mas até mesmo em alguns deuterocanônicos se aprova o mentir ou o suicídio, com os quais ambos concordamos que são pecado. É que esses também se devem interpretar em sentido espiritual? Observe que Judit, por exemplo, pede a Deus palavras para enganar: “Dá-me palavras para poder enganá-los e causar-lhes o desastre e a morte, pois têm planos perversos contra a tua aliança, contra o templo consagrado a ti, contra o monte Sião e contra a cidade que é lar e propriedade dos teus filhos” (Judite 9,13).
O segundo livro dos Macabeus justifica o suicídio: “As tropas estavam prestes a tomar a torre onde se encontrava Razias, e tentavam forçar a porta externa, tendo recebido ordens de atear fogo e queimar as portas, quando Razias, cercado por todos os lados, voltou a espada contra si mesmo, preferindo morrer nobremente a cair nas mãos daqueles criminosos e sofrer injúrias de forma indigna”. (2 Macabeus 14,41-42).
José: Analisar em detalhes a moralidade dos atos que você menciona poderia nos desviar bastante do tema. No caso de Judite, ela orava para poder salvar o povo de uma iminente aniquilação, e o conseguiu. Não é muito diferente do que fez a prostituta Raabe, ao mentir ao rei para salvar os espias judeus que exploravam a terra prometida (Josué 2,1-6), e à qual o apóstolo Tiago elogia e afirma que foi justificada por suas obras (Tiago 2,25). O livro do Êxodo elogia as parteiras egípcias que mentiram ao Faraó para salvar os judeus recém-nascidos (Êxodo 1,15-21).
O suicídio de Razias ocorre quando ia ser preso, torturado e assassinado. Não é uma situação diferente da de Sansão, que aprisionado pede ajuda a Deus para que lhe dê forças e possa derrubar as colunas do lugar onde estava, causando sua própria morte junto com os filisteus que estavam na casa. E o mais impressionante de tudo é que efetivamente Deus o socorre e o ajuda a consegui-lo: “Sansão invocou o Senhor e exclamou: «Senhor Deus, lembra-te de mim, fortalece-me ainda esta vez, ó Deus, para que de um golpe me vingue dos filisteus pelos meus dois olhos.» E Sansão palpou as duas colunas centrais sobre as quais descansava a casa, apoiou-se contra elas, em uma com o braço direito, na outra com o esquerdo, e gritou: «QUE EU MORRA COM OS FILISTEUS!» Empurrou com toda a sua força e a casa desabou sobre os tiranos e sobre todo o povo ali reunido..” (Juízes 16,28-30).
Claro que podemos nos pôr a discutir se esses atos foram objetivamente bons ou maus, mas o fato é que se rejeitam uns livros por narrar esses fatos também teriam que rejeitar os outros que também estão em suas Bíblias.
Miguel: Sim, é para pensar. Mas bem, também pesquisei sobre outra objeção que me pareceu importante. No livro de Tobias, um dos livros que você chama de deuterocanônicos, se apoiam práticas de bruxaria: “Quando terminaram de cear, decidiram ir deitar. Levaram o jovem ao quarto. Tobias se lembrou então do que lhe havia dito Rafael. Tirou da sua bolsa o fígado e o coração do peixe e os colocou sobre as brasas em que se queimava incenso. O odor do peixe não deixou o demônio se aproximar, e este saiu voando pelo ar até a parte mais distante do Egito. Rafael foi e o acorrentou lá, e voltou imediatamente”. (Tobias 8,1-3). Como poderia o cheiro de peixe queimado afugentar um demônio? Não parece antes uma prática pagã?
José: Vale a pena tomar o tempo de ler todo o livro, que não é muito longo e se destaca por sua beleza. Se o fizer, verá que mais do que assumir que o demônio foi afugentado pelo cheiro do peixe, ali se aponta a obediência específica às instruções do anjo, e de fato a primeira coisa que Tobias fez ao entrar no quarto nupcial foi pôr em prática o que ele lhe aconselhou. Duvido que o cheiro do peixe deva ser interpretado em sentido literal, como se o demônio fugisse do mau cheiro, mas em sentido simbólico e espiritual: o bem vence o mal. Com essa vitória do anjo Rafael sobre Asmodeu cumpre-se uma parte principal do plano de Deus sobre Sara: sua cura, encomendada por Deus ao anjo, e a lição, mais do que uma promoção de práticas de bruxaria, é ensinar que para quem ama a Deus, a obediência ao Senhor e a oração em família espantam todos os males (Tobias 6,18; 8,5). Tudo isso dá unidade ao relato, onde a figura de um peixe é o instrumento que Deus escolhe para sarar e libertar.
Deus, quando e como lhe parece, faz que as mais mínimas coisas sirvam de instrumentos para seus milagres. Assim como o Senhor Jesus Cristo com um pouco de barro misturado com saliva curou um cego de nascença (João 9,6), a água do batismo (1 Pedro 3,21) é o elemento visível que Deus escolheu para nos regenerar por meio do Espírito Santo, Deus operava por meio dos lenços e aventais de Paulo milagres também (Atos 19,12), e para que Naamã, o sírio, fosse curado, foi-lhe requerido banhar-se no Jordão sete vezes (2 Reis 5,10-14).
Miguel: Acho interessante o que você diz, tenho que refletir sobre isso.
José: O importante é ter claro que não é cada pessoa individualmente quem decide qual livro faz parte da Bíblia de acordo com suas concepções pessoais[2]. Se assim fosse, com as diversas interpretações que há da Bíblia, cada um teria uma Bíblia diferente adaptada aos seus gostos e próprias interpretações. O próprio Lutero reconhecia que havia recebido as Escrituras da Igreja Católica, mas acabou rejeitando livros que todos os concílios realizados pelos únicos cristãos que existiam antes dele aprovaram, como se sua opinião valesse mais do que a deles. Sempre me pareceu curioso que a Bíblia protestante acabou tendo 66 livros, e a nossa 73.
Miguel: Por que curioso?
José: Não leve muito a sério porque pode ser uma simples casualidade, mas na Bíblia os números costumam ter um significado simbólico. O número 7, por exemplo, simboliza a perfeição; o 6, ao contrário, representa a imperfeição (de fato o número da besta é o 666).
Miguel: Sim, mas não entendo aonde você quer chegar.
José: Pois que a Bíblia protestante tem 66 livros. SEIS – SEIS, lembre que acabamos de dizer que o 6 é o número da imperfeição. Se somarmos os 7 deuterocanônicos (SETE – número da perfeição) somam 73, os livros que tem a Bíblia Católica. Enquanto não os tiver, será uma Bíblia incompleta e imperfeita, uma Bíblia de SEIS – SEIS livros.
Notas
- Martinho Lutero em seu comentário sobre o evangelho de São João reconheceu: “Somos obrigados a admitir aos papistas que possuem a Palavra de Deus, que a recebemos deles e que sem eles não a conheceríamos de forma alguma” (Lutero, Obras Completas, T. XII). ↩
- É comum que no protestantismo se aleguem outras razões semelhantes para rejeitar os deuterocanônicos, porque chocam frontalmente com a sua teologia. Por exemplo, rejeitam Tobias por ensinar que se pode obter o perdão dos pecados por meio da esmola: « Dar esmola salva da morte e purifica de todo pecado. Os que dão esmola gozarão de longa vida » (Tobias 12,9), embora a epístola de Pedro diga essencialmente o mesmo: « E, sobretudo, tende ardente caridade uns para com os outros, porque a caridade cobre a multidão dos pecados » (1 Pedro 4,8). A rejeição dos livros dos Macabeus (analisada na conversa anterior) por seu apoio implícito à doutrina do purgatório é outro exemplo. ↩