Miguel: Em nossa conversa, você mencionava um texto do livro dos Macabeus para justificar a conveniência da oração pelos defuntos. Pesquisei um pouco e já sei por que não se encontra em nossas Bíblias. O que acontece é que é um livro apócrifo que não pertencia ao cânon judaico do Antigo Testamento.
José: Antes de tudo, um esclarecimento: nós não os chamamos apócrifos, pois assim chamamos outros escritos que de fato ficaram fora do cânon bíblico; nós os chamamos “deuterocanônicosˮ, por serem livros cuja canonicidade foi posta em dúvida em diversas ocasiões, ao contrário dos demais livros sagrados que chamamos “protocannônicosˮ. Mas deixemos a terminologia de lado para nos concentrarmos no que é importante.[1]
Miguel: De acordo. Chamemo-los “deuterocanônicosˮ por esta ocasião para utilizar uma terminologia em comum.
José: Obrigado. O que acontece é que até mesmo entre os judeus havia um duplo cânon: o que costuma ser chamado de cânon palestino, seguido pelos judeus palestinos e que contava apenas com os livros protocanônicos[2], e o cânon alexandrino, seguido pelos judeus que haviam sido deportados e viviam no exterior.[3] Eles usavam uma tradução da Bíblia que foi encomendada pelo imperador Ptolomeu para a biblioteca de Alexandria, conhecida como a Septuaginta. Essa tradução da Bíblia, assim chamada porque foi feita por aproximadamente 70 eruditos judeus, contava com todos os deuterocanônicos. Era além disso a Bíblia que Jesus e seus discípulos utilizaram.[4]
Miguel: Como você sabe?
José: Porque de umas 350 citações do Antigo Testamento que aparecem no Novo, 300 concordam com o texto dos Setenta[5]. É um fato reconhecido que foi o texto utilizado não só pelas comunidades judaicas de todo o mundo antigo além da Judeia, mas também pela Igreja cristã primitiva, de língua e cultura gregas.[6]
Miguel: Muito bem, mas que os judeus e os cristãos tenham feito uso dessa versão não quer dizer necessariamente que aceitavam a canonicidade de todos esses livros. Observe, por exemplo, que os judeus atualmente não os aceitam, e mesmo na Antiguidade temos dois testemunhos importantes da parte do judaísmo: Josefo, o grande historiador judeu, testifica que os livros que você chama de deuterocanônicos não se encontravam no cânon judaico, e Fílon, o grande filósofo judeu de Alexandria e a comunidade judaica alexandrina de língua grega, que costumava usar a versão dos Setenta, jamais os chegou a citar.[7]
José: Ninguém nega que os judeus acabaram por rejeitar os livros deuterocanônicos, e chegará o momento de analisar as causas disso. Quanto a Josefo, não se deve perder de vista o fato de que ele escreve num momento histórico em que essa rejeição começava a se tornar mais marcada e que se tornou definitiva no final do século I, início do II. Ora, quanto a Fílon de Alexandria, embora seja verdade que ele não cita os deuterocanônicos, também é verdade que não cita alguns protocanônicos que estão nas Bíblias protestantes. Nas obras que sobreviveram de Fílon não se encontram citações de Rute, Cântico dos Cânticos, Lamentações, Ezequiel e Daniel. O fato de ter omitido citar algum livro não provaria que rejeitava sua canonicidade, simplesmente que não considerou relevante comentar algo em seus textos.[8]
Miguel: Mas se é fato que os judeus terminaram por rejeitar esses livros, isso não implica que deveriam estar fora do cânon? Afinal, o próprio apóstolo Paulo reconhece que aos judeus “foram confiados os oráculos de Deus” (Romanos 3,2). Em relação ao Antigo Testamento, eles tinham a autoridade de decidir.
José: Não acho que se deva superdimensionar essa passagem para fazer dizer algo que ela não diz. Os judeus, como o povo escolhido por Deus, receberam inicialmente a custódia da Revelação, mas depois esta foi confiada à Igreja, que em última instância poderia discernir de maneira autorizada e definitiva sobre o cânon.
Miguel: Entendo que a Igreja Cristã recebeu a autoridade da parte de Deus depois que os judeus não creram no Messias, mas em relação ao Antigo Testamento eles sim tinham a autoridade de decidir porque foi escrito antes da era da Igreja.
José: O problema é que você está dividindo os livros da Escritura com base em uma divisão humana e organizacional. Antigo Testamento e Novo Testamento são títulos que damos para agrupar os livros que foram escritos antes e depois da vinda de Cristo, mas todos e cada um são parte de uma única Revelação progressiva “que foi transmitida aos santos de uma vez por todas” (Judas 1,3), e quanto ao discernimento definitivo de quais livros fariam parte do cânon cabia à Igreja por ser a portadora das chaves do Reino dos céus (Mateus 16,19). Ou há alguma parte da Bíblia que mencione esta subdivisão e diga quando o cânon terminaria de ser definido?[9]
Não podemos colocar a palavra do judaísmo acima da do cristianismo nisso, pois eles acabaram por rejeitar o Messias. E bem conhecidas são as razões pelas quais eles acabaram rejeitando esses livros: porque os apologistas cristãos os utilizavam para demonstrar-lhes que Jesus era o Messias.
Miguel: Que apologistas?
José: Há o testemunho de Justino Mártir, o mais célebre apologista do Século II, do qual se conserva um debate com um judeu da época, no qual ele reclama a seu oponente, Trifão, que os judeus haviam rejeitado a versão dos Setenta por essa causa. A razão é bastante óbvia porque há textos tão claros a respeito do Messias nos deuterocanônicos que levavam muitos judeus a se tornarem cristãos.[10]
Miguel: Lembra de algum desses textos?
José: Veja o seguinte texto no livro da Sabedoria:
“Armemos ciladas ao justo, que nos incomoda, opõe-se ao nosso modo de agir, reprocha-nos as faltas contra a Lei e nos censura as faltas contra a nossa educação. Gaba-se de ter o conhecimento de Deus e A SI MESMO SE CHAMA FILHO DO SENHOR. É um reproche aos nossos critérios, sua mera presença nos é insuportável; leva uma vida diferente de todas as outras e seus caminhos são estranhos. Considera-nos bastardos, afasta-se dos nossos caminhos como de coisas impuras; proclama afortunada a sorte final dos justos e SE JACTA DE TER A DEUS POR PAI. Vejamos se suas palavras são verdadeiras, examinemos o que lhe acontecerá na hora da morte. POIS SE O JUSTO É FILHO DE DEUS, ELE O SOCORRERÁ e o livrará das mãos de seus inimigos. Submetamo-lo ao ultraje e ao tormento para conhecer seu temperamento e comprovar sua fortaleza. CONDENEMO-LO A UMA MORTE IGNOMINIOSA, POIS, SEGUNDO ELE, DEUS O VISITARÁ” (Sabedoria 2,12-20)
A semelhança com o que ocorreria a Jesus, o “justo” por excelência, é tão surpreendente que dificilmente pode ser considerada coincidência. Observe que ali se fala de um justo que a si mesmo se faz chamar “Filho de Deus”, que era precisamente uma das razões pelas quais os judeus queriam matá-lo: “Por isso os judeus com maior empenho procuravam matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também chamava a Deus seu próprio Pai, fazendo-se a si mesmo igual a Deus.” (João 5,18). Planejam ainda submetê-lo ao ultraje e a uma morte ignominiosa e zombar dele exatamente como zombaram de Jesus na cruz: “Confiou em Deus; que o salve agora, se é que de verdade o quer; pois disse: Sou Filho de Deus” (Mateus 27,43; Marcos 15,32)
Miguel: Definitivamente a passagem dá muito que pensar.
José: E lamentavelmente não está em suas Bíblias.
Miguel: Muito bem, podemos concordar que o critério dos judeus não pode ser colocado acima do da Igreja Cristã, mas também pude averiguar que muitos padres da Igreja também rejeitaram os livros que você chama de deuterocanônicos, e quando digo muitos, é que eram MUITOS.
José: Como eu dizia no início, os deuterocanônicos estiveram submetidos em diversas ocasiões a dúvidas sobre sua inspiração e canonicidade, coisa que também aconteceu em menor grau com os protocanônicos. Para dar um exemplo: do Cânon do Novo Testamento, o catálogo mais antigo que sobreviveu é o Fragmento de Muratori, datado do final do século II. Ali não são nomeadas as epístolas aos Hebreus, Tiago e 2 Pedro, mas hoje em dia todos, católicos e evangélicos, as aceitamos como parte da Bíblia. Isso demonstra que mesmo numa época tão tardia o cânon ainda não estava totalmente definido.[11]
Se alguém estuda a história do Cânon, verá que o acordo foi se produzindo gradualmente, mas nem mesmo era definido com base em opiniões particulares, e sim em decisões autorizadas na Igreja. Ali está o caso de dois ilustres padres da Igreja da envergadura de São Jerônimo e Santo Agostinho. O primeiro inicialmente rejeitou os deuterocanônicos e o segundo, ao contrário, os defendia. A rejeição inicial do primeiro cedeu ante o pedido do Papa para que os incluísse na Bíblia que desde então a Igreja Católica utilizou: A Vulgata latina.
As primeiras decisões autorizadas do Cânon encontram-se em dois documentos. Um deles é o chamado “Decretais de Gelásio”, cuja parte essencial é atribuída hoje a um Concílio convocado pelo Papa Dâmaso no ano 382. O outro é o cânon do Papa Inocêncio I, enviado em 405 a um bispo gálico em resposta a uma solicitação de informação. Ambos os documentos contêm todos os deuterocanônicos sem distinção alguma, e são idênticos ao catálogo do Concílio de Trento.
Por isso, mais do que nos basearmos em opiniões particulares, que eram perfeitamente respeitáveis e compreensíveis quando o tema ainda não estava definido, na Igreja nos acolhemos a decisões autorizadas. E não é casualidade que em absolutamente todos os Concílios realizados na Igreja para definir o Cânon (sejam locais ou ecumênicos), em todos sempre foram incluídos os deuterocanônicos, tal como aconteceu no Concílio de Hipona (ano 393 d.C.) e nos três de Cartago (anos 393, 397 e 419 d.C.) até que foi definido formalmente de maneira definitiva no Concílio de Trento (ano 1546 d.C.)
E não podemos rejeitar livros que estiveram na Bíblia que a Igreja teve durante 16 séculos[12] só porque em pleno século XVI Martinho Lutero resolveu rejeitá-los. No caso dele, assim como os judeus, porque o incomodava o que diziam esses livros, ao contradizer sua doutrina da salvação pela sola fide, as orações pelos defuntos, o purgatório, etc.
De fato, embora muitas pessoas não saibam, Lutero tentou sem êxito excluir do Cânon do Novo Testamento outros quatro livros: Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse.[13]
Miguel: Não sabia, mas não vejo por que razão teria feito isso.
José: Eu diria que porque em Hebreus se menciona a possibilidade de perder a salvação (Hebreus 2,3; 5,9), em Tiago se diz que o homem se justifica pelas obras e não somente pela fé (Tiago 2,24), em Judas se diz que os que criam divisões na Igreja são ímpios que carecem do Espírito Santo (Judas 1,18-19), e em Apocalipse porque diz que todos serão julgados de acordo com suas obras (Apocalipse 20,13), todos ensinamentos incompatíveis com sua doutrina.
Miguel: Muito interessante a conversa, mas ficaram alguns pontos em aberto que gostaria de tratar em outra ocasião.
José: Com muito prazer.
Notas
- Os livros “deuterocanônicos” foram excluídos das Bíblias protestantes e são: Tobias, Judite, Ester (capítulos 10,4-16,24), I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sirácide), Baruc e as adições gregas a Daniel (3,24-90 e capítulos 13 e 14). Os protestantes os chamam de “apócrifos”, embora os católicos reservem esse nome para os escritos que nunca fizeram parte do cânon bíblico. ↩
- Embora se discuta se mesmo os judeus da Palestina haviam excluído definitivamente os deuterocanônicos. ↩
- A Diáspora é um termo utilizado para referir-se às populações judaicas expulsas de sua terra e dispersas pelo mundo. A mais importante foi a diáspora na Babilônia, após a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor em 586 a.C. ↩
- A tradução da Septuaginta ou versão dos Setenta iniciou-se no final do século III (ano 280 a.C.) e foi concluída cerca do ano 130 a.C. O nome se deve à tradição de que 72 anciãos (ou 70, conforme a tradição) traduziram o texto hebraico para o grego em 72 dias. ↩
- Cf. R. Cornely, Introductio generalis: CSS (Paris 1894) n.31; H. H. Swete-R. R. Ottley, An Introduction to the Old Testament in Greek (Cambridge 1902), p. 220; E. Hatch, Essays in Biblical Greek (Oxford 1889), p. 217s. ↩
- Norman Davidson; Early Christian Doctrines, Continuum; Londres, Inglaterra, 1958, p. 53 ↩
- Flávio Josefo foi um importante historiador judeu fariseu nascido aproximadamente no ano 37 d.C. e falecido por volta de 100 d.C. Escreveu suas obras em Roma sob o patronato dos imperadores Vespasiano, Tito e Domiciano. ↩
- Herbert Edward Ryle, D.D., Philo and the Holy Scripture, Londres: Macmillan and Co. 1895 ↩
- De fato, Jesus e os apóstolos normalmente se referem ao Antigo Testamento como “A lei e os profetas”, o que indica que para eles a Bíblia hebraica constava principalmente da Lei (Torah) e dos Profetas (Nevi’im), sem uma delimitação precisa do terceiro grupo (Ketuvim ou Escritos). ↩
- Em seu Diálogo com Trifão, no n° 71 escreve: “A quem não presto fé alguma são os vossos mestres, que não admitem que a tradução dos Setenta anciãos feita no tempo de Ptolomeu, rei dos egípcios, seja uma tradução fiel”. Justino Mártir cita em várias oportunidades os deuterocanônicos como Escritura inspirada. ↩
- Apesar de todos os livros da Bíblia terem sido escritos antes de terminar o século I, o discernimento oficial de quais livros eram inspirados por Deus levou vários séculos, e foram os concílios locais de Hipona (393) e Cartago (397 e 419) — confirmados pelo Papa Inocêncio I em 405 — que pela primeira vez definiram oficialmente o cânon completo da Bíblia católica. ↩
- As Bíblias que a Igreja Cristã utilizou durante os primeiros 16 séculos foram a Septuaginta e a Vulgata Latina (tradução de São Jerônimo), que incluíam os deuterocanônicos. Foi Lutero o primeiro a rejeitar esses livros do cânon bíblico. ↩
- Para Lutero, o Novo Testamento estava constituído principalmente pelo Evangelho de São João e pelas cartas aos Romanos, Gálatas e Efésios. Considerava a Epístola de Tiago uma “epístola de palha”, a Carta aos Hebreus de valor duvidoso, e tinha reservas também sobre o Apocalipse e a Carta de Judas. ↩