Um grupo de destacados historiadores e teólogos analisou o pedido de perdão papal, questionando a promoção exagerada feita pelos meios de comunicação a um gesto que não é inédito no Santo Padre e que, segundo afirmaram, deveria motivar atitudes semelhantes em numerosos grupos.

Nos últimos dias, a imprensa mundial dedicou páginas inteiras a chamar a atenção para o Dia do Perdão como o “esperado” mea culpa da Igreja Católica pelos erros de seus filhos, sem recordar que, quando se trata de pedir perdão, o Papa João Paulo II sempre esteve à frente.

Segundo os especialistas entrevistados pelo Catholic News Service, em seus 21 anos de pontificado, João Paulo II pediu desculpas a diversos grupos — incluindo indígenas, igrejas cristãs e mulheres — em mais de cem ocasiões. As expressões de pesar sempre foram incondicionais, e a Igreja nunca esperou encontrar pedidos de perdão semelhantes como resposta.

“O ‘mea culpa’ da Igreja é absoluto. Ninguém pede uma troca, mas me parece que ele serve como um desafio para outros que devem fazer um exame de consciência semelhante”, explicou o historiador italiano Franco Cardini.

O próprio João Paulo II chamou a atenção em 1997 para o fato de que “a Igreja e o Papa são os que sempre pedem perdão, enquanto outros permanecem calados”. “Talvez seja assim que as coisas devam acontecer”, afirmou.

Com efeito, o Papa pedirá amanhã, domingo, perdão pelos erros passados dos católicos em uma Missa especial, depois de publicar um extenso documento intitulado “Memória e Reconciliação”, escrito pela Comissão Teológica Internacional.

Assim, enquanto os meios de comunicação se concentraram em questionar se a Santa Sé foi suficientemente específica em seu pedido de perdão, uma rápida olhada no que o Papa fez nos últimos anos revela muitos pontos específicos:

– Sobre a Inquisição: em 1982 João Paulo II referiu-se aos “erros de excesso” e em várias ocasiões condenou o uso da “intolerância e até da violência a serviço da verdade” por parte dos inquisidores.

– Sobre o Holocausto: em 1997 expressou seu pesar pelas consciências adormecidas de alguns cristãos durante o nazismo e pela inadequada “resistência espiritual” de outros grupos diante da perseguição aos judeus. Em 1998, o Vaticano publicou um documento sobre a Shoah, palavra hebraica usada para o Holocausto, expressando pesar pelos mesmos problemas morais.

– Sobre as Cruzadas: em 1995 caracterizou as expedições armadas como erros.
Louvou o zelo dos cruzados medievais, mas afirmou que agora devíamos “dar graças a Deus” pelo diálogo e não recorrer às armas.

– Sobre os povos nativos: em 1985 pediu desculpas aos africanos pela forma como foram tratados nos séculos recentes. Nos Estados Unidos, em 1984, pediu perdão pelos excessos dos missionários e, em 1987, reconheceu que cristãos estiveram entre os que destruíram o modo de vida dos indígenas.

– Sobre o ecumenismo: o Papa falou em várias ocasiões sobre o perdão mútuo entre as igrejas cristãs separadas. Em 1995, pediu desculpas “em nome de todos os católicos, pelos erros diante dos não católicos ao longo da história”.

– Sobre as mulheres: em uma carta de 1995 que examinou brevemente a discriminação histórica contra as mulheres, o Papa afirmou que entre os responsáveis estavam “não poucos membros da Igreja”, algo que lamentava profundamente.

O Papa fez pronunciamentos semelhantes sobre a escravidão e o racismo, a proximidade com o poder político ditatorial e teorias científicas como as de Galileu, que foi condenado por dizer que a Terra girava ao redor do sol.

Com estas e outras “desculpas” no registro de João Paulo II, alguns líderes da Igreja buscam certa companhia — em algum sentido —, esperando que o pedido de perdão contagie outros no espírito do Jubileu.

O Padre Bruno Forte, um dos teólogos que colaborou na redação de “Memória e Reconciliação”, explicou que o documento toca um nervo sensível quando observa que o reconhecimento das faltas foi por muito tempo unilateral.

O historiador Cardini afirmou, por sua vez, que seria gratificante, por exemplo, ouvir expressões de pesar por parte da Rainha da Inglaterra diante do tratamento dado aos católicos em seu país, sem mencionar as numerosas perseguições contra líderes católicos na França, Espanha e México.

“Um exame de consciência, ou, para usar um termo menos católico, uma reflexão histórica poderia ser realizada pelas igrejas protestantes que tiveram seus próprios problemas com os católicos, ou pelos líderes ortodoxos russos que no passado apoiaram as ações repressivas do governo czarista”, indicou Cardini.

O historiador acrescenta que “talvez os muçulmanos devessem fazer sua própria reflexão sobre as numerosas guerras santas proclamadas no passado” e indica que, atualmente, a China poderia começar a trabalhar em seu pedido de desculpas pelo tratamento atual que dá à Igreja Católica.

 

Fonte: VATICANO, 11 mar. (ACI)