–E com este já são cinco.
–Na tradição bíblica o sete é um número perfeito.
O diagnóstico exato de uma doença é a chave para conseguir sua cura. Mons. Lefebvre via Roma afetada por uma “aids espiritual” (Tissier 597). De minha parte, como já disse no primeiro artigo desta série (126), o lefebvrismo é uma doença espiritual que tem duas causas principais: 1ª, o discernimento condenatório da Igreja presente e de seus Papas; e 2ª, a convicção de que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X é o meio providencial necessário para salvar a Igreja, mantendo-a na ortodoxia doutrinal e litúrgica. Vou agora assegurar este diagnóstico recordando, numa síntese, o desenvolvimento histórico do lefebvrismo.
1970. Mons. Lefebvre funda a Fraternidade Sacerdotal São Pio X “antes de tudo para fazer sacerdotes e, consequentemente, abrir seminários”. Assim o declara numa importante conferência do início de 1987, na qual faz um resumo histórico da FSSPX. Volto a ela em seguida. Efetivamente, pouco depois do Concílio Vaticano II, e mesmo durante sua celebração, a vida da Igreja foi perturbada por turbulências muito fortes. Parecia que todos os diabos andavam soltos, produziam-se inúmeros “erros e horrores”,que já descrevi (129), sendo talvez o mais espetacular a ruína brusca dos Seminários. Houve Seminários diocesanos que passaram de 1.000 a 10 seminaristas, ou a zero.
Não há, pois, nada de estranho em que Mons. Lefebvre fundasse em 1971 a FSSPX em Friburgo, Suíça, com uma aprovação por cinco anos do Bispo local, Mons. Charrière, e que imediatamente estabelecesse seu Seminário, que logo passou para Écône. Ali se formou um Seminário excelente, perfeitamente ajustado à tradição e às normas da Igreja. Se não me engano, em certo momento havia mais seminaristas franceses na FSSPX do que em todos os Seminários franceses juntos. Uma graça de Deus muito grande. Mas… Écône mantém-se fechada à “nova Missa” e à “Igreja conciliar”. As tensões com a Santa Sé vão aumentando.
1974. Mons. Lefebvre faz finalmente em Écône uma declaração solene de sua rejeição da “Igreja conciliar” (21-XI-1974). “Aderimos de todo o coração, com toda a alma à Roma católica… à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade. Recusamo-nos, ao contrário —como sempre nos recusamos— a seguir a Roma de tendência neomodernista e neoprotestante, que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II, e depois do Concílio, em todas as reformas que dele surgiram”.
“Nenhuma autoridade, nem mesmo a mais elevada Hierarquia, pode obrigar-nos a abandonar ou diminuir nossa Fé católica, claramente expressa e professada pelo Magistério da Igreja há dezenove séculos… Esta reforma, por ter surgido do liberalismo, do modernismo, está completamente envenenada; sai da heresia e desemboca na heresia, ainda que nem todos os seus atos sejam formalmente heréticos… A única atitude de fidelidade à Igreja e à doutrina católica, para nossa salvação, é a recusa categórica da aceitação da Reforma”… Acrescenta Tissier: “Mal Mons. Lefebvre termina a leitura de sua declaração, os seminaristas aplaudem, conscientes de estar vivendo um momento decisivo” (Tissier 506).
São anos em que Mons. Lefebvre acentua cada vez mais seu combate público contra o Concílio, a nova Missa e, em geral, contra a “Igreja conciliar”. Algumas de suas obras são particularmente agressivas: La messe de Luther (1975), J’accuse le concile (1976), Le coup de maître de Satan, Écône face à la persécution (1975), etc.
1975. A rejeição absoluta da nova Missa é a causa principal da supressão da FSSPX. Cumprido o prazo de cinco anos de aprovação temporária, o Bispo Mons. Mamie, sucessor de Mons. Charrière, não renova a permissão da FSSPX, isto é, suprime-a num ato confirmado pela Santa Sé, sob Paulo VI. Mons. Lefebvre interpõe recurso à Assinatura Apostólica, mas não é admitido a exame. Rompendo então com a ordem canônica da Igreja,Mons. Lefebvre decide que a FSSPX e seu Seminário devem continuar sua existência, considerando que dela depende a continuidade histórica da própria Igreja Católica.
1976. Mons. Lefebvre é suspenso a divinis, e daí em diante já não pode celebrar a Missa e os sacramentos licitamente. Tendo recebido uma monição da Santa Sé para que não procedesse à ordenação da primeira leva de seminaristas formados em Écône, ele desobedece à ordem, realiza as ordenações e é suspenso a divinis (22-VII-1976). Mons. Lefebvre, que considera desde o princípio que a suspensão é nula, um mês depois (29-VIII)celebra a Missa de São Pio V num ginásio de esportes de Lille diante de 7.000 fiéis e numerosos meios de comunicação, e proclama na homilia diante de uns 400 jornalistas:
“A Revolução [de 1789] fez mártires, mas não fez nada em comparação com o Concílio Vaticano II: sacerdotes apóstatas de seu sacerdócio! O casamento entre a Igreja e a Revolução que os católicos liberais triunfantes quiseram, os quais dizem: ‘com o Vaticano II foram aceitas nossas teses’, é um casamento adúltero. E dessa união adúltera não podem nascer senão bastardos. O novo rito da missa é um rito bastardo, os sacramentos [dos rituais renovados] são sacramentos bastardos, os sacerdotes que saem dos seminários são sacerdotes bastardos: já não sabem que são constituídos para subir ao altar a fim de oferecer o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Tissier 516-517).
1987. Passam os anos e o enfrentamento da FSSPX com a Igreja vai chegando a uma fase máxima. No livro “Destronaram-No” (1987) Mons. Lefebvre combate duramente o Vaticano II, e especialmente o decreto da liberdade religiosa (Dignitatis humanæ). Esta obra, dividida em quatro partes e 34 capítulos, reúne uma coleção de conferências e escritos de Mons. Lefebvre. Assinalo o título de alguns capítulos: O banditismo do Vaticano II (parte IV, 24),Um liberalismo suicida: as reformas pós-conciliares (32), etc.
Na III parte, A Conjura Liberal de Satanás contra a Igreja e o Papado, Mons. Lefebvre recorda alguns documentos secretos obtidos por Gregório XVI e Pio IX. Neles se descrevem os planos satânicos que, entre os anos 1820 e 1846, a loja Alta Venda dos Carbonários já tinha traçado com o expresso fim de destruir a Igreja por dentro. “O papa, seja ele qual for, jamais virá às sociedades secretas: são as sociedades secretas que hão de dar o primeiro passo em direção à Igreja” para vencê-la… “Não queremos ganhar os papas para nossa causa, fazê-los neófitos de nossos princípios, propagadores de nossas ideias. Seria um sonho ridículo… O que devemos procurar e esperar, como os judeus esperam o Messias, é um papa segundo nossas necessidades”… O plano traçado é infiltrar seu espírito na Igreja, sobretudo em seminários e conventos, até que os princípios maçônicos e liberais sejam os predominantes. “Se quereis estabelecer o reino dos eleitos sobre o trono da prostituta da Babilônia, que o clero marche sob vosso estandarte, crendo ir sempre atrás da bandeira das chaves apostólicas”.
Terrível plano diabólico, comenta Mons. Lefebvre: “um papa seduzido pelas ideias liberais, um papa que utilize as chaves de São Pedro a serviço da contra-Igreja. Ora, não é acaso o que vivemos atualmente desde o Vaticano II e desde o novo Direito Canônico?Com este falso ecumenismo e esta falsa liberdade religiosa promulgados no Vaticano II e aplicados pelos papas com fria perseverança, apesar de todas as ruínas que provocaram há mais de vinte anos! Sem que se tenha comprometido a infalibilidade do Magistério da Igreja, mesmo talvez sem que jamais tenha sido sustentada uma heresia propriamente dita, assistimos à autodemolição sistemática da Igreja. Autodemolição é uma palavra de Paulo VI, que implicitamente denunciava o verdadeiro culpado, pois quem pode ‘autodemolir’ a Igreja senão aquele cuja missão é mantê-la sobre a rocha firme?… E que ácido tão eficaz para dissolver a rocha como o espírito liberal que penetra o próprio sucessor de Pedro!… Este plano é de inspiração diabólica e de realização diabólica! Não só o revelaram os inimigos da Igreja, mas também os papas o desvelaram e prediram”.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X e Roma é uma importante e longa conferência que Mons. Lefebvre profere meses antes de ordenar quatro Bispos para a FSSPX (Fideliter nº 55, I-II-1987). Dela destaco alguns dos textos mais significativos.
A Missa publicada por Paulo VI. Em 1975 a FSSPX, como já vimos, é suprimida porque rejeita a Missa renovada por Paulo VI. É o Bispo Mons. Mamie quem o decide e o comunica: “‘É inadmissível. Portanto, suprimimo-los.’ Exibe então o Ordo [Missae] de Mons. Bugnini, inventado, antes inexistente. A obrigação da nova missa foi imposta pelos serviços do Vaticano e pelos bispos na França. Desse modo, infelizmente, a Missa antiga foi abandonada por comunidades como a Abadia de Fontgombault, sob o pretexto de que era preciso obedecer aos bispos. Tudo isso foi imposto pela força, por obrigação. Pretendia-se absolutamente obrigar-nos a abandonar esta liturgia e, por isso mesmo, fechar nosso seminário.
“Diante de tal impostura e ilegalidade em que tudo fora feito e, sobretudo, diante do espírito com que aquela perseguição fora orquestrada, um espírito modernista, progressista e maçônico, cremos que era um dever continuar. Não é possível admitir uma coisa que foi feita ilegalmente, num espírito mau, contra a Tradição e contra a Igreja, para destruí-la”.
“Se nossos sacerdotes abandonassem a liturgia verdadeira, o verdadeiro Santo Sacrifício da Missa, os verdadeiros sacramentos, então não valeria a pena continuar. Seria suicidar-nos!… Faria desaparecer nossos seminários. Não poderiam aceitar a nova liturgia, seria introduzir o veneno do espírito conciliar na comunidade”. E prossegue dizendo:
Três erros. “Há três erros fundamentais que, de origem maçônica, são professados publicamente pelos modernistas que ocupam a Igreja. A substituição do Decálogo pelos Direitos do Homem [em referência à liberdade religiosa]… Este falso ecumenismo que estabelece de fato a igualdade entre as religiões… E a negação do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo mediante a laicização dos Estados. O Papa quis e conseguiu praticamente laicizar as Sociedades e, portanto, suprimir o reinado de Nosso Senhor sobre as Nações”.
“A situação é, pois, extremamente grave, porque tudo indica que a realização do ideal maçônico tenha sido cumprida pela própria Roma, pelo Papa e pelos cardeais. É isto que os maçons sempre desejaram, e conseguiram-no não por si mesmos, mas pelos próprios homens da Igreja”.
Excomunhões nulas. Por tudo isso, as sanções eclesiais aplicadas a Mons. Lefebvre e à FSSPX são nulas. “É esta Roma liberal que nos condenou. Mas condenando assim a Tradição, a Verdade. Nós rejeitamos esta condenação porque a consideramos nula e inspirada pelo espírito modernista. O que fazemos e continuamos a fazer é trabalhar pela manutenção da Tradição. Encontramo-nos assim numa situação de aparente desobediência legal, mas continuamos ordenando sacerdotes, dando sacerdotes aos fiéis para a salvação de suas almas”…
A Igreja conciliar com a Revolução. “Louis Veuillot dizia: ‘Duas potências vivem e estão em luta no mundo: a Revelação e a Revolução. Nós escolhemos guardar a Revelação, ao passo que a nova Igreja conciliar escolheu a Revolução’”, a de 1789.
1988. As ordenações cismáticas de quatro Bispos da FSSPX (18-VI-1988) já foram consideradas e descritas por mim em outro artigo (126), onde recordei as graves monições prévias da Santa Sé, as normas da lei canônica, a carta premente do Papa, etc. Em várias ocasiões, antes de proceder às ordenações de Bispos, Mons. Lefebvre fez um bom número de consultas a pessoas de sua maior confiança (Tissier 566-576). Os conselhos que recebeu foram muito diversos.
Não poucos são os que aconselham as consagrações episcopais. Mas são também bastantes —como o P. José Bisig, seu segundo assistente, e os futuros Bispos ordenados P. Tissier e P. Williamson— os que julgam que não se deve realizar um ato que praticamente viria a negar o Primado do Papa (Tissier 568-569). E nesta situação de conselhos díspares, é pessoalmente Mons. Lefebvre quem toma a decisão de ordenar. O P. Bisig, imediatamente, sai da FSSPX, viaja a Roma com um grupo de sacerdotes e de seminaristas, é recebido pelo Papa, e pouco depois iniciam a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro. Em compensação, Tissier e Williamson aceitam a ordenação episcopal: “Monsenhor tem graças para decidir, e nós temos graça para segui-lo” (591). Nesta e em outras circunstâncias comprova-se que a liderança pessoal de Mons. Lefebvre era muito forte.
Por outro lado, esta decisão já estava havia algum tempo quase tomada na mente de Mons. Lefebvre. Um ano antes, reunido em Fátima com seus mais próximos colaboradores (22-VIII-1987), diz-lhes: “Não podemos seguir esta gente, é a apostasia, não creem na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que deve reinar. Para que vamos esperar mais? Procedamos à consagração” de Bispos.
É preciso reconhecer que, vendo a Igreja como Mons. Lefebvre a via, era lógico que ordenasse Bispos, ainda que incorresse com isso num “ato cismático” (João Paulo II, Ecclesia Dei, 2-VII-1988). Essas ordenações episcopais cismáticas eram um dever grave de consciência (atenção) se se crê, como Mons. Lefebvre, que naquele tempo o Papa [o próximo Beato João Paulo II] era o Anticristo. Que teria feito qualquer um de nós se nos tivéssemos visto numa situação semelhante?… O Anticristo ocupou a Sé de Pedro: que devemos fazer?… Evidentemente: ordenar Bispos sem sua permissão, e se for preciso contra seu expresso mandato. Ter-nos-íamos crido movidos por Deus a criar Bispos católicos “para que continue a Igreja”. De um espantoso diagnóstico sobre a Igreja procede um ato cismático espantoso. Mons. Lefebvre o expressa com toda a precisão em sua Carta aos futuros Bispos (29-VIII-1987):
“Caríssimos amigos, estando a Sé de Pedro e os postos de autoridade de Roma ocupados por anticristos, a destruição do Reino de Nosso Senhor produz-se aceleradamente… Vejo-me obrigado, pois, pela divina Providência a transmitir a graça do episcopado que recebi, a fim de que a Igreja e o sacerdócio católico continuem subsistindo” (Tissier 578).
O sermão de Mons. Lefebvre nas ordenações episcopais de 1988 dá-nos também algumas chaves importantes para melhor conhecer o lefebvrismo. Encontrei o texto íntegro em inglês e em espanhol, mas estranhamente não em francês.
“Sabeis bem, caros irmãos, como Leão XIII, numa visão profética que teve, disse que um dia a Sé de Pedro seria a sede da iniquidade. Disse-o num de seus exorcismos, no ‘exorcismo de Leão XIII’. É hoje? Amanhã? Não sei. Em todo caso, foi anunciado. A iniquidade pode ser simplesmente o erro. O erro é uma iniquidade: já não professar a Fé de sempre, já não professar a Fé católica, é um grave erro; se há uma grande iniquidade, é precisamente essa! Realmente creio que posso dizer que nunca houve uma iniquidade maior na Igreja do que a jornada de Assis”, etc.
“E não somente o Papa Leão XIII profetizou estas coisas, mas Nossa Senhora. Ultimamente, o sacerdote que está encarregado do Priorado de Bogotá [da FSSPX] na Colômbia trouxe-me um livro que versa sobre as aparições de Nossa Senhora do Bom Sucesso, que tem uma igreja, uma grande igreja no Equador, em Quito, capital do Equador. Estas aparições a uma religiosa tiveram lugar num convento de Quito pouco tempo depois do Concílio de Trento… Esta Virgem milagrosa é honrada ali com muita devoção pelos fiéis do Equador e profetizou para o século XX. Disse claramente a esta religiosa: ‘Durante o século XIX e a maior parte do século XX, os erros se propagarão cada vez com mais força na Santa Igreja, e levarão a Igreja a uma situação de catástrofe total, de catástrofe! Os costumes se corromperão e a Fé desaparecerá’. Nossa impressão é que não podemos deixar de constatá-lo.
“Peço desculpas por continuar o relato desta aparição, mas nela se fala de um prelado que se oporá totalmente a esta onda de apostasia e de impiedade e preservará o sacerdócio preparando bons sacerdotes. Fazei vós a aplicação, se quiserdes; eu não quero fazê-la. Eu mesmo fiquei estupefato lendo estas linhas, não posso negá-lo. Está inscrito, impresso, consignado nos arquivos desta aparição”.
Vejamos, finalmente, qual é a situação atual da FSSPX. Para melhor entendê-la, convém recordar que durante muitos anos Mons. Lefebvre tem como seu mais importante interlocutor na Santa Sé o Cardeal Ratzinger. Este, pouco depois de ser constituído Papa, Bento XVI, realiza dois atos de grande importância:
–1º. Mediante o motu proprio Summorum Pontificum (7-VII-2007), o Papa reafirma na Igreja católica a Missa publicada por Paulo VI (1970) como forma ordinária da Liturgia Eucarística, e estabelece como forma extraordinária a Missa antiga, anterior ao Concílio Vaticano II, na publicação autorizada por João XXIII (1962), que nunca havia sido propriamente ab-rogada.
As consequências que este motu proprio tem na licitude das Missas celebradas por sacerdotes da FSSPX vêm precisadas numa carta (23-V-2008) que Mons. Camille Perl, Vice-Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, escreve ao Sr. Brian Mershon, respondendo a várias perguntas concretas que este havia formulado à Comissão.
“Os sacerdotes da Sociedade de São Pio X estão validamente ordenados, mas suspensos, isto é: proibidos de exercer suas funções sacerdotais porque não estão propriamente incardinados numa diocese ou instituto religioso em plena comunhão com a Santa Sé… Isso significa que as Missas oferecidas pelos sacerdotes da Sociedade de São Pio X são válidas, mas ilícitas, i. e., contrárias à Lei Canônica”…
Leva, pois, décadas a FSSPX celebrando ilicitamente a santa Missa. Isso se explica porque a Fraternidade sempre considerou que tanto as excomunhões como as suspensões a divinis eram e são radicalmente nulas.
–2º. Bento XVI levanta a excomunhão dos quatro Bispos da FSSPX mediante um decreto da Congregação dos Bispos (21-I-2009).
Este ato é apresentado pela FSSPX como uma grande vitória. Mons. Fellay, seu Superior Geral, comunica em carta circular que
“a excomunhão dos bispos consagrados por S. Exa. Mons. Marcel Lefebvre em 30 de junho de 1988, que havia sido declarada pela Sagrada Congregação dos Bispos por um decreto de 1º de julho de 1988, e que nós sempre rejeitamos, foi retirada por outro decreto da mesma Congregação, datado de 21 de janeiro de 2009 por mandato do Papa Bento XVI… Graças a este gesto, os católicos do mundo inteiro apegados à Tradição já não serão mais injustamente estigmatizados e condenados por terem mantido a fé de seus pais. A Tradição católica já agora não está excomungada… Aceitamos e fazemos nossos todos os concílios até o Vaticano II. Mas não podemos senão ter reservas a respeito do Concílio Vaticano II… Esperamos a pronta reabilitação de Monsenhor Marcel Lefebvre” (Menzingen, 24-I-2009).
Por outro lado, a remissão da excomunhão “suscitou, por múltiplas razões, dentro e fora da Igreja católica, uma discussão de uma veemência como não se via havia muito tempo”. Assim o diz o Papa no documento que segue.
Bento XVI vê-se obrigado, pois, a escrever uma carta para explicar seu ato de benevolência (10-III-2009). O Papa nela corrige tanto o falso triunfalismo lefebvriano como a amarga e dura rejeição de uma parte dos católicos, especialmente centro-europeus. Nesta carta, pois, declara o sentido verdadeiro de seu benigno gesto.
A Igreja, escreve o Papa, teve de reagir em 1988 contra as ordenações episcopais realizadas na FSSPX “com a sanção mais dura, a excomunhão, a fim de chamar as pessoas assim sancionadas ao arrependimento e à volta à unidade. Infelizmente, vinte anos depois da ordenação, este objetivo ainda não se cumpriu.
“A remissão da excomunhão tende ao mesmo fim ao qual serve a sanção: convidar mais uma vez os quatro Bispos ao retorno. Este gesto era possível depois que os interessados reconheceram, em linha de princípio, o Papa e sua potestade de Pastor, apesar das reservas sobre a obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio…
“Até que as questões relativas à doutrina não se esclareçam, a Fraternidade não tem nenhum estatuto canônico na Igreja, e seus ministros, embora tenham sido liberados da sanção eclesiástica, não exercem legitimamente ministério algum na Igreja…
“Certamente, há muito tempo e, depois, uma e outra vez nesta ocasião concreta, ouvimos de representantes dessa comunidade muitas coisas fora de tom: soberba e presunção, obstinações em unilateralismos, etc. Por amor à verdade, devo acrescentar que recebi também uma série de impressionantes testemunhos de gratidão, nos quais percebia uma abertura dos corações…
“E por acaso não devemos admitir que também no âmbito eclesial houve alguma saída de tom? Às vezes se tem a impressão de que nossa sociedade tenha necessidade de um grupo ao menos com o qual não ter tolerância alguma; contra o qual possa tranquilamente arremeter com ódio. E se alguém tenta aproximar-se dele —neste caso o Papa— também ele perde o direito à tolerância e pode igualmente ser tratado com ódio, sem temor nem reservas”.
Colaboremos com o Papa de todo o coração em seu intento de conseguir que a FSSPX retorne à plena unidade da Igreja. 1º. Colaboremos principalmente com a oração: oremos, oremos, oremos. 2º. Colaboremos com o testemunho da verdade. E já me desculpem por fazer referência a este blog Reforma o apostasía. Favorecemos a plena unidade da FSSPX com a Igreja católica
–denunciando as infidelidades doutrinais, litúrgicas e disciplinares que hoje lesam a Igreja católica, e afirmando as verdades católicas, especialmente aquelas mais silenciadas ou negadas; deste modo se reafirma a continuidade do Magistério apostólico, ao passo que a ruptura com a Tradição católica prevalece em tantos âmbitos eclesiais [vejam-se neste blog (1-125)]; e colaboramos também
–descrevendo e rejeitando os erros dos lefebvrianos, pois deste modo se os ajuda a que se desassociem deles, condição necessária para que possam “arrepender-se e voltar à unidade” da Igreja, à qual com tanto empenho os chama bondosamente Bento XVI, e todos os que estamos plenamente unidos a ele na comunhão católica [vejam-se neste blog (126-129) e algum artigo mais, se Deus quiser].
Autor: Pe. José María Iraburu