–Perdão, mas a extensão deste artigo é para os leitores uma verdadeira provocação.
–Eu tenho meus leitores em grande consideração, e espero que saibam fazer um esforço especial para ler neste longo artigo a síntese e a conclusão de todos os anteriores. Não creio que me faltem.

A situação atual da Fraternidade Sacerdotal São Pio X em relação à Igreja Católica deve ser conhecida à luz de vários documentos pontifícios. Recordarei alguns dos principais, ainda que de forma abreviada, dando sempre o link para o texto íntegro.

–1988. João Paulo II, na Ecclesia Dei (carta apostólica-motu proprio, 2-VII-1988) exprime “a grande aflição da Igreja de Deus” causada por Mons. Lefebvre nas ordenações de quatro Bispos para a FSSPX:

“Esse ato [30-VI-1988] foi em si mesmo uma desobediência ao Romano Pontífice em matéria gravíssima e de capital importância para a unidade da Igreja, como é a ordenação de bispos, por meio da qual se mantém sacramentalmente a sucessão apostólica. Por isso, essa desobediência –que traz consigo uma verdadeira recusa do Primado romano– constitui um ato cismático (cân. 751)…

“A raiz deste ato cismático pode-se individuar em uma imperfeita e contraditória noção de Tradição. Imperfeita, porque não leva suficientemente em conta o caráter vivo da Tradição… que vai progredindo na Igreja sob a assistência do Espírito Santo… Mas é sobretudo contraditória uma noção de Tradição que se oponha ao Magistério universal da Igreja, o qual corresponde ao Bispo de Roma e ao Colégio dos Bispos. Ninguém pode permanecer fiel à Tradição se rompe os laços e vínculos com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apóstolo Pedro, confiou o ministério da unidade em sua Igreja (cf. Mt 16,18; Lc 10,16; Vaticano I, cap. 3, Dz 3060)”.
“O êxito que teve recentemente o movimento promovido por Mons. Lefebvre pode e deve ser para todos os fiéis um motivo de reflexão sincera e profunda sobre sua fidelidade à Tradição da Igreja, proposta autenticamente pelo Magistério eclesiástico, ordinário ou extraordinário, especialmente nos Concílios Ecumênicos, desde Niceia até o Vaticano II. Desta meditação todos devemos tirar uma nova e eficaz convicção da necessidade de ampliar e aumentar essa fidelidade, rejeitando totalmente interpretações errôneas e aplicações arbitrárias e abusivas em matéria doutrinal, litúrgica e disciplinar”. Desenvolve aqui o Papa, neste sentido, uma exortação especial aos Bispos e aos teólogos.

“Nas presentes circunstâncias, desejo sobretudo dirigir um apelo ao mesmo tempo solene e fervoroso, paterno e fraterno, a todos os que até agora estiveram vinculados de diversos modos às atividades do arcebispo Lefebvre, para que cumpram o grave dever de permanecer unidos ao Vigário de Cristo na unidade da Igreja Católica e deixem de sustentar de qualquer forma que seja essa reprovável maneira de agir. Todos devem saber que a adesão formal ao cisma constitui uma grave ofensa a Deus e traz consigo a excomunhão devidamente estabelecida pela lei da Igreja (cân. 1364)”.

–1999. A Pontifícia Comissão Ecclesia Dei (PCED), respondendo a consultas, manifestou-se em várias ocasiões. Dez anos depois da Ecclesia Dei, Mons. Camillo Perl, Secretário da Comissão, escreve em carta de 28-IX-1999: “Os sacerdotes da Fraternidade São Pio X estão validamente ordenados, mas encontram-se suspensos no exercício de suas funções sacerdotais. Na medida em que aderem ao cisma do ex-Arcebispo Lefebvre, estão igualmente excomungados. Isto significa que as Missas celebradas por tais sacerdotes são válidas, mas ilícitas, isto é, contrárias ao direito da Igreja”.

–2008. A mesma PCED, uma dezena de anos mais tarde, também por meio de seu Secretário, Mons. Perl, em carta de 23-V-2008 responde a algumas consultas do Sr. Brian Mershon, entre elas uma na qual o consulente se refere às “repetidas afirmações do Cardeal Castrillón [então Presidente da PCED] de que a FSSPX não está em cisma formal“, contra o que opinam alguns canonistas católicos. Responde Mons. Perl:

“As afirmações feitas pelo Cardeal Castrillón precisam ser entendidas em um sentido técnico, canônico. Declarar que a Sociedade de São Pio X ‘não está em cisma formal’ significa dizer que não houve declaração oficial da parte da Santa Sé de que a Sociedade de São Pio X está em cisma. Até agora, a Igreja buscou mostrar o máximo de caridade, cortesia e consideração por todos os envolvidos, com a esperança de que tal declaração não venha eventualmente a ser necessária”.

“As Missas oferecidas pelos sacerdotes da Sociedade de São Pio X são válidas, mas ilícitas… Os sacramentos da Penitência e do Matrimônio requerem que o sacerdote goze de faculdades da diocese ou tenha delegação própria. Como esse não é o caso destes sacerdotes, estes sacramentos são inválidos. Permanece certo, contudo, que, se os fiéis são genuinamente ignorantes de que os sacerdotes da Sociedade de São Pio X não têm a faculdade própria para absolver, a Igreja supre estas faculdades para que assim o sacramento seja válido (cânon 144)”.

“Embora seja certo que a participação na Missa nas capelas da Sociedade de São Pio X não constitui em si mesma ‘adesão formal ao cisma’ (cf. Ecclesia Dei 5c), tal adesão pode ocorrer em um período de tempo no qual alguém assimile uma mentalidade cismática que o separe do ensinamento do Sumo Pontífice e de toda a Igreja Católica”… Por isso esta Comissão “não pode recomendar que membros dos fiéis frequentem suas capelas”.

–2009. O levantamento da excomunhão dos Bispos da FSSPX (21-I-2009) e a posterior carta apostólica explicando essa remissão (10-III-2009) foram atos do Papa muito importantes com vistas a facilitar a reintegração da FSSPX à plena unidade da Igreja Católica. O Papa explica que o levantamento da excomunhão dos Bispos teve por fim chamá-los “ao arrependimento e ao retorno à unidade”, fazendo notar que “não obstante tenham sido liberados da sanção eclesiástica, não exercem legitimamente ministério algum na Igreja”.

“A remissão da excomunhão tende ao mesmo fim ao qual serve a sanção: convidar mais uma vez os quatro Bispos ao retorno. Este gesto era possível depois que os interessados reconheceram em linha de princípio o Papa e sua potestade de Pastor, apesar das reservas sobre a obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio”.

–2009. A PCED é reformada, vinculando-a à Congregação da Fé por meio da carta apostólica-motu proprio Ecclesiæ unitatem (2-VII-2009).

Explica Bento XVI a razão da mudança: “Precisamente porque os problemas que se devem tratar atualmente com a Fraternidade são de natureza essencialmente doutrinal, decidi –aos vinte e um anos do motu proprio Ecclesia Dei–… reformar a estrutura da Comissão Ecclesia Dei, unindo-a de maneira estreita à Congregação para a Doutrina da Fé”. Doravante seu Presidente é o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, atualmente o Card. William Levada, e Secretário, Mons. Guido Pozzo.

–2011. Entrevista concedida pelo Superior Geral da FSSPX (2-II-2011), Mons. Bernard Fellay, no Seminário de Santo Tomás (Winona, EUA). Nela expõe longamente a situação atual da Fraternidade em relação à Igreja. Vinculo ao texto francês, numa primeira parte e numa segunda. E em espanhol, apenas a primeira (falta a segunda).

Começa Mons. Fellay por advertir –e seu aviso é muito importante– que nas conversas havidas entre a FSSPX e a Santa Sé “é preciso distinguir o fim que Roma persegue do que temos nós. Roma indicou que existiam problemas doutrinais com a Fraternidade e que os mesmos deviam ser esclarecidos antes de um reconhecimento canônico –problemas que, tratando-se da aceitação do Concílio, obviamente proviriam de nossa parte. Para nós, ao contrário, trata-se de outra coisa: queremos expor a Roma o que a Igreja sempre ensinou, e com isso, assinalar as contradições existentes entre este ensinamento multissecular e o que sucede depois do Concílio. De nossa parte, esse é o único objetivo que perseguimos”.

As conversas com “os interlocutores romanos”, continua dizendo Mons. Fellay, vão chegando ao fim, e a seu ver não houve avanços maiores: “eles não aceitam reconhecer as contradições entre o Vaticano II e o Magistério anterior”. No entanto, para a Fraternidade são encontros importantes: “trata-se de fazer ouvir em Roma a fé católica e, mais ainda, de fazê-la ouvir em toda a Igreja”. Mas será preciso esperar. “Até aqui sempre se considerou o Vaticano II como um tabu, o que torna quase impossível a cura desta enfermidade que é a crise da Igreja”.

A Summorum Pontificum, reconhece, foi “um passo capital”, mas recebeu “a oposição maciça dos bispos”. E surgiram duas dificuldades novas, a próxima reunião em Assis, aos 25 anos da primeira, e a beatificação anunciada de João Paulo II, que “não é somente uma consagração da pessoa de João Paulo II, mas também do Concílio e de todo o espírito que o segue”. À pergunta: “como é possível que Deus permita verdadeiros milagres para autenticar uma falsa doutrina, por ocasião das múltiplas beatificações e canonizações realizadas nas últimas décadas?”, Mons. Fellay responde que, a seu ver, os milagres “são duvidosos”, e que por outro lado “mudaram-se os termos para a canonização, tornando-os menos fortes que antes. Eu creio que isso vai junto com uma mentalidade nova, que não quer definir dogmaticamente comprometendo a infalibilidade”.

A Fraternidade já completou os 40 anos de existência, e “é uma obra que continua crescendo, o que, humanamente, pareceria quase impossível. É claramente o sinal de Deus sobre a obra de Mons. Lefebvre”. O entrevistador faz notar que cresce o número de fiéis e de capelas, o que faz prever que talvez se torne necessária a consagração de outros Bispos auxiliares para a Fraternidade; e pergunta: “O senhor crê que Roma poderia ser hoje favorável a outras consagrações episcopais na Tradição?” –”Para mim a resposta é muito simples: haverá ou não haverá [consagração de] bispos conforme as circunstâncias que ocasionaram a primeira consagração voltem a ocorrer ou não”.

Partindo destes documentos e declarações, passo a comentá-los.

–A Fraternidade lefebvriana vai crescendo e se sente forte em sua posição atual. Já vimos (130 in fine) a falsa interpretação triunfalista que a FSSPX deu ao levantamento da excomunhão de seus Bispos, tal como se manifesta na carta de Mons. Fellay (24-I-2009): levanta-se uma excomunhão “que nós sempre rejeitamos”, isto é, que sempre foi tida por nula; “já a Tradição católica não está excomungada”, e “esperamos a pronta reabilitação de Mons. Marcel Lefebvre”. Por outro lado, Mons. Fellay, na primeira resposta da entrevista referida, dá a entender claramente que a FSSPX não pretende, nas conversas atuais com Roma, obter o reconhecimento canônico da Igreja, isto é, a união plena e visível com a Igreja Católica, que é justamente o objetivo principal da Santa Sé. Isso, entendo eu, implicaria uma sujeição ao Papa da qual atualmente estão livres. Agora, tal como estão, gozam de uma situação próspera e crescente.

Segundo estatísticas de julho de 2010, a FSSPX, desde 1970 até hoje, vem crescendo com um ritmo estável. Tem 6 seminários, 14 Distritos, 161 Priorados, 725 Centros de Missas, 90 escolas, 529 sacerdotes e 214 seminaristas, 117 Irmãos, 176 Irmãs, 5 conventos de carmelitas e está presente em 31 países.

–A situação cismática desta grande Comunidade lefebvriana torna-se patente porque “recusa a sujeição ao Sumo Pontífice” (cân. 751) e aos Bispos católicos, em cujas dioceses normalmente instala seus Priorados. Há mais de duas décadas a Fraternidade se governa a si mesma totalmente à margem da autoridade apostólica do Papa e dos Bispos. E sem nenhum problema de consciência, exerce ilicitamente seus ministérios episcopais e sacerdotais, celebrando Missas, matrimônios, confissões, crismas, ordenações, catequeses, etc., pois julga que sua situação sui generis na Igreja é perfeitamente lícita, já que é exigida pela Providência divina “para a continuidade da Igreja”. Isso é o que faz dela uma Comunidade cismática, ainda que tal condição não tenha sido formalmente declarada. E por isso o Papa os chama “ao arrependimento e ao retorno à unidade”, porque romperam com ela.

–Na medida em que perduram na Igreja Católica os erros e abusos, a FSSPX se autojustifica e se desenvolve. Assim já o fazia notar João Paulo II na Ecclesia Dei (1988, 5a). Do êxito da obra promovida por Mons. Lefebvre, dizia, “todos devemos tirar uma nova e eficaz convicção da necessidade de ampliar e aumentar essa fidelidade… rejeitando totalmente interpretações errôneas e aplicações arbitrárias e abusivas em matéria doutrinal, litúrgica e disciplinar”. Aquelas Igrejas locais que não respondam a esta exigência premente do Papa verão crescer nelas a apostasia ou o lefebvrismo.

Aumenta o número de lefebvrianos e o de filolefebvrianos, e todos eles se autoconfirmam em suas posições, cada vez que na Igreja Católica –um Cardeal celebra uma Missa com balõezinhos, –outro faz notar que a ressurreição de Lázaro não foi, é claro, tal como o evangelista a descreve, –outro proíbe em sua Catedral a celebração da Missa antiga, –outro exige respeito pela decisão médica de provocar o aborto de uma menina grávida, –outro publica um livro no qual se envergonha da Humanæ vitæ. A FSSPX se autoafirma e cresce –cada vez que um teólogo católico, sem perder sua cátedra, admite a possibilidade de que a ressurreição de Jesus não lhe fez recuperar glorificado o seu próprio corpo; –cada vez que um Bispo impede, “para evitar divisões na Diocese”, que seja publicada uma eventual Notificação romana reprobatória de um teólogo de sua jurisdição; –cada vez que em Livrarias religiosas, às vezes diocesanas, difundem-se livros heréticos; –sempre que nos funerais paroquiais se elimina o purgatório, declarando simplesmente que “nosso irmão já goza de Deus no céu”; –sempre que a soteriologia, salvação-condenação, é suprimida na pregação e na catequese; –sempre que algum missionário se gaba de não pregar o Evangelho e de limitar-se à inculturação e às obras beneficentes, etc.

–Reservas sobre a autoridade do Papa. Bento XVI, em sua carta explicativa sobre o levantamento das excomunhões (10-III-2009), diz que “foi possível depois que os interessados reconheceram em linha de princípio o Papa e sua potestade de Pastor, apesar das reservas sobre a obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio”. Esta é uma frase de complexa e delicada interpretação. Como entender essas reservas na obediência à autoridade doutrinal da Igreja, isto é, essas reticências na “obediência à fé” (Rm 1,5)?

Se alguém diz crer com reservas na virgindade de Maria, entendemos que não tem fé nela, pois a certeza é nota própria da fé teologal. Se alguém crê com reservas na presença real de Cristo na Eucaristia, deduzimos que não tem a fé católica. Ainda que pudesse ser, neste caso, que essas dúvidas versassem sobre a condição verdadeiramente sacerdotal do consagrante: se não é sacerdote ordenado, não há presença real eucarística em sua falsa consagração. Essas dúvidas que uma pessoa possa ter, portanto, não se referem à doutrina da fé católica, mas à concreta realidade sacramental ou não sacramental que tem diante de si.

Pois bem, já assinalei no artigo anterior (131) que a fé católica é aquela que crê nesta Igreja Católica, a que existe visivelmente em nosso tempo, visível, audível e palpável, e neste Papa, com seu nome próprio… E já indiquei que quem não crê nesta Igreja e neste Papa fica na incredulidade, na intempérie espiritual solitária ou em algum modo de lefebvrismo, crendo na “Igreja eterna” e no “Primado de Pedro”, mas fora da unidade da Igreja. As aludidas reservas acerca da autoridade do Papa parecem-me uma expressão suave e benigna de Bento XVI. Mas na realidade não parece haver meio-termo nesta grave questão: ou há fé em que este Papa é o Papa, e nesse caso não há lugar para as reservas, ou não há fé em que este Papa seja o Papa, e cai-se no sedevacantismo, que edifica à medida de seus pensamentos e desejos uma Igreja tão eterna quanto imaginária, com um Primado romano ilusório.

Estas reservas na autoridade e na obediência ao Papa explicam que a Fraternidade continue considerando lícita e até heroica a ordenação cismática de seus Bispos: consideram-na plenamente justificada e lícita. Estas reservas explicam também que, em boa consciência, continue por mais de vinte anos estimando totalmente nulas as sanções da Igreja, e, em consequência, ignorando que “seus ministros não exercem legitimamente ministério algum na Igreja” (Bento XVI, 10-III-2009). Mais ainda, explicam que a FSSPX esteja hoje disposta, caso julgasse que as circunstâncias de amanhã assim o exijam –como o considerou Mons. Lefebvre em 1988–, a realizar novas ordenações episcopais “para assegurar a continuidade da Igreja”…

Em uma entrevista concedida recentemente por Mons. Fellay em Buenos Aires (31-III-2011), contava que, quando em junho do ano anterior a FSSPX preparava umas ordenações de subdiáconos na Alemanha, houve grandes protestos, especialmente do Episcopado alemão. “Três chamados consecutivos recebemos do Cardeal Castrillón Hoyos, pedindo em nome do Papa que não realizássemos as ordenações”. Mas, reunidos os quatro Bispos lefebvrianos, continua narrando o Superior Geral da Fraternidade, decidiram realizá-las, como uma medida irrenunciável de sobrevivência, ainda que transferindo-as para a Suíça. Como se vê, o reconhecimento que a Fraternidade faz “em linha de princípio do Papa e de sua potestade de Pastor” é puramente verbal.

–Reservas sobre a autoridade do Concílio Ecumênico Vaticano II. A fé católica nos obriga a receber sem reservas um Concílio ecumênico e a interpretá-lo à luz dos Concílios anteriores, pois a fé nos dá a certeza de que a cadeia do Magistério apostólico desenvolve, ao longo dos séculos, sob a assistência do Espírito Santo, um crescimento homogêneo à doutrina católica. Por isso a hermenêutica continuísta do Vaticano II é uma exigência da fé, não é simplesmente um artifício para defendê-lo; e, pelo contrário, uma interpretação rupturista é contrária à Tradição e à fé católica.

E muito paradoxalmente coincidem progressistas e lefebvrianos em dar ao Vaticano II uma interpretação rupturista. Em sua magnífica conferência Precisamos de um novo Syllabus (17-XII-2010), Mons. Athanasius Schneider, Bispo auxiliar de Karaganda (Cazaquistão), faz notar que

“evidenciam-se dois agrupamentos que sustentam a teoria da ruptura. Um destes grupos tenta protestantizar doutrinal, litúrgica e pastoralmente a vida da Igreja. No lado oposto estão aqueles grupos tradicionalistas que, em nome da tradição, rejeitam o Concílio e se subtraem à submissão ao supremo e vivo Magistério da Igreja, à Cabeça visível da Igreja, o Vigário de Cristo na terra, submetendo-se por ora somente ao Chefe invisível da Igreja, esperando tempos melhores”.

Os progressistas não interpretam o Concílio à luz da Tradição apostólica, o único modo legítimo de entendê-lo, mas fazem-no dizer –quando se dignam citá-lo; raras vezes– o que eles mesmos pensam e desejam. E os lefebvrianos tampouco o interpretam à luz da Tradição, como está mandado, mas o rejeitam como oposto a ela em graves questões, isto é, guardam “reservas sobre a autoridade do Concílio”.

–A má interpretação lefebvriana do Concílio Vaticano II em não poucas questões muito graves é patente. Limitar-me-ei a recordar os três erros capitais do Concílio que Mons. Lefebvre assinalou em sua longa e solene conferência A Fraternidade Sacerdotal São Pio X e Roma (1987), um ano antes das ordenações episcopais cismáticas (cf. 130).

“Há três erros fundamentais, que, de origem maçônica, são professados publicamente pelos modernistas que ocupam a Igreja. [1] A substituição do Decálogo pelos Direitos do Homem [em referência à liberdade religiosa]… [2] Este falso ecumenismo que estabelece de fato a igualdade entre as religiões… [3] E a negação do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo mediante a laicização dos Estados… A situação é, pois, extremamente grave, porque tudo indica que a realização do ideal maçônico tenha sido cumprida pela própria Roma, pelo Papa e pelos cardeais. É isto o que os franco-maçons sempre desejaram, e o conseguiram não por si mesmos, mas pelos próprios homens da Igreja”.

1.-O teocentrismo do Decálogo é substituído na Igreja conciliar pelo antropocentrismo dos Direitos do homem. Nas 1000 páginas do Concílio Vaticano II podemos encontrar algumas expressões retóricas um tanto ambíguas acerca do homem como centro do universo, que, erroneamente interpretadas, podem dar lugar a um cristianismo antropocêntrico. Encontramos, pelo contrário, centenas de expressões conciliares nitidamente teocêntricas, bíblicas e tradicionais, que dão a verdadeira doutrina do Concílio e que, com um mínimo de honestidade intelectual, obrigam a interpretar em sentido católico aquelas outras possíveis expressões ambíguas. De modo sistemático, estas expressões tão claras e precisas são omitidas pelos lefebvrianos, que se atêm somente às frases ambíguas.

O teocentrismo do Vaticano II se manifesta antes de tudo em sua preciosa doutrina litúrgica: “A Liturgia é o cume ao qual toda a ação da Igreja tende e ao mesmo tempo a fonte de onde mana toda a sua força” (SC 10; cf. princípio muito reiterado, OT 16, PO 5). Toda a vida da Igreja, desta forma, está orientada para a glorificação de Deus. Mas esse teocentrismo se afirma igualmente com insistência a partir de muitas outras perspectivas: “A lei divina, que é eterna, objetiva e universal, é a norma suprema pela qual Deus ordena, dirige e governa o mundo e os caminhos da comunidade humana segundo o desígnio de sua sabedoria e de seu amor” (DH 3). “O homem tem uma lei escrita por Deus em seu coração, em cuja obediência consiste a dignidade humana e pela qual será julgado pessoalmente” (GS 16). Os fiéis devem empenhar-se em procurar o bem comum, “tendo presente que em qualquer assunto temporal devem guiar-se pela consciência cristã, dado que nenhuma atividade humana, nem sequer no domínio temporal, pode subtrair-se ao império de Deus” (LG 36). Por isso, “se ‘autonomia do temporal’ quer dizer que a realidade criada é independente de Deus e que os homens podem usá-la sem referência ao Criador, não há crente algum a quem escape a falsidade envolvida em tais palavras. A criatura sem o Criador desaparece” (GS 36). Pelo contrário, todas as atividades temporais, familiares, profissionais, etc. devem vincular-se com “os valores religiosos, sob cuja altíssima hierarquia tudo coopera para a glória de Deus” (ib. 43).

2.-Uma falsa igualdade ecumênica entre todas as religiões pretende chegar a “uma espécie de sincretismo que consiga reunir todas as religiões”. Atribuir esse ensinamento ao Concílio e ao pós-concílio é uma grave calúnia. Poderíamos demonstrá-lo com inúmeros textos.

“Esta Igreja peregrina é necessária para a salvação. O único Mediador e caminho de salvação é Cristo, que se faz presente a todos nós em seu Corpo, que é a Igreja” (LG 14). Uma e outra vez o Vaticano II insiste no “unicus Mediator Christus” (ib. 14, 28, 49, 50, que cita Trento, Dz 1821). No decreto sobre a liberdade religiosa ensina o Vaticano II que o homem “redimido por Cristo Salvador e chamado por Jesus Cristo à filiação divina, não pode aderir a Deus, que se revela a si mesmo, a menos que, atraído pelo Pai, renda a Deus o obséquio racional e livre da fé” (DH 10). “E como aquele que não crê já está julgado, as palavras de Cristo são ao mesmo tempo palavras de condenação e de graça, de morte e de vida” (AG 8). Por isso é dever sagrado da Igreja anunciar pelas missões o nome de Jesus, já que “em nenhum outro há salvação” (At 4,12). É necessário, pois, que todos se convertam a Ele, conhecido pela pregação da Igreja, e pelo batismo sejam incorporados a Ele e à Igreja, que é o seu Corpo” (ib. 7), excluindo na ação ecumênica “toda espécie de indiferentismo e confusionismo” (ib. 15, cf. 22; cf. SC 9). Bastariam, por outro lado, a exortação apostólica Evangelii nuntiandi de Paulo VI (1975) e a encíclica Redemptoris missio de João Paulo II (1990) para demonstrar que a Tradição se mantém esplendidamente íntegra também nos documentos pós-conciliares.

3.-A negação do Senhorio de Cristo sobre as nações é a causa da laicização dos Estados. Sabemos bem que no Ocidente as nações ricas de antiga filiação cristã deram em boa parte as costas a Deus e a seu enviado Jesus Cristo, em um processo que tem sobretudo seu início no século XVIII: “não queremos que ele reine sobre nós” (Lc 19,14). E que, depois da prosperidade recuperada após a II Guerra Mundial, esse processo chega a uma eclosão de apostasia coletiva, que afeta muito especialmente a estrutura política dos Estados. Culpabilizar de tudo isso o Concílio Vaticano II e o Papa é, pois, um enorme erro e uma grande injustiça. Diz Mons. Lefebvre na citada conferência de 1987: “O Papa quis e conseguiu praticamente laicizar as Sociedades e, portanto, suprimir o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre as Nações”. Esta é uma das grandes calúnias que a FSSPX mantém viva, difundindo os escritos de Mons. Lefebvre e formulando com outras palavras o mesmo ensinamento.

Pelo contrário, a Igreja, Esposa fiel de Cristo, sempre quis e quer que “Cristo reine” sobre as nações e sobre todos os homens (1Cor 15,25). Assim o expressou o Vaticano II: que os leigos procurem com todo o empenho “fazer com que a lei divina fique gravada na cidade terrena” (GS 43), e trabalhem “para instaurar a ordem temporal de forma que se ajuste aos princípios superiores da vida cristã” (AA 7). E não é este um dever que obrigue somente as pessoas, pois, como diz o Catecismo (2105), citando lugares do Concílio,

“o dever de render um culto autêntico corresponde ao homem individual e socialmente considerado. Essa é ‘a doutrina tradicional católica sobre o dever moral dos homens e das sociedades a respeito da religião verdadeira e da única Igreja de Cristo’ (DH 1). Ao evangelizar sem cessar os homens, a Igreja trabalha para que possam ‘informar com o espírito cristão o pensamento e os costumes, as leis e as estruturas da comunidade na qual cada um vive’ (AA 13). Dever social dos cristãos é respeitar e suscitar em cada homem o amor da verdade e do bem. Exige-lhes dar a conhecer o culto da única religião verdadeira, que subsiste na Igreja católica e apostólica. Os cristãos estão chamados a ser luz do mundo. A Igreja manifesta assim a realeza de Cristo sobre toda a criação e, em particular, sobre as sociedades humanas [cita aqui: Leão XIII, enc. Immortale Dei; Pio XI, enc. Quas primas]”.

O Vaticano II manteve, pois, íntegra a doutrina tradicional católica acerca do dever moral dos homens e das sociedades, também dos Estados, para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo. Jamais a Igreja, no Concílio ou depois dele, ensinou que a confessionalidade cristã de uma nação é ilícita ou sempre inconveniente. Esta é uma tese falsa, contrária à Tradição e ao ensinamento conciliar. A Comissão redatora da declaração Dignitatis humanæ sobre a liberdade religiosa, precisando aos Padres conciliares o sentido do texto que deviam votar, afirmou que

“se a questão é entendida retamente, a doutrina sobre a liberdade religiosa não contradiz o conceito histórico do que se chama Estado confessional… E tampouco proíbe que a religião católica seja reconhecida pelo direito humano público como religião de Estado” (Relatio de textu emendato, em Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticani II, Typis Polyglottis Vaticanis, v. III, pars VIII, p. 463). O Vaticano II, portanto, não proíbe nem exige a confessionalidade do Estado, cuja conveniência dependerá das circunstâncias religiosas de cada país. E ensina que, em princípio, estando a Igreja e o Estado a serviço do bem comum humano, “este serviço o realizarão com tanta maior eficácia, para o bem de todos, quanto mais sã e melhor seja a cooperação entre eles, tendo em conta as circunstâncias de lugar e tempo” (GS 76).

Como se atrevem, pois, Mons. Lefebvre e a FSSPX a ignorar no Vaticano II tão numerosos ensinamentos tradicionais da Igreja Católica atual e a interpretar os textos conciliares e pós-conciliares em chave de ruptura com a Tradição, acusando o Papa e a Igreja, entre muitos outros erros, de um crasso antropocentrismo, de um herético sincretismo e de uma resistência laicista ao Reinado de Cristo? Por que não interpretam os textos ambíguos que possa haver à luz dos numerosíssimos textos claros e certamente tradicionais –presentes às vezes no mesmo documento que inclui textos obscuros–, como o exige uma hermenêutica honesta? Aplicam deliberada e habitualmente uma hermenêutica de ruptura, como o fazem os progressistas, conseguindo assim trair a própria essência da Tradição que buscam defender.

–Certos “gestos” de João Paulo II causaram profundo desagrado a não poucos católicos, incluídos Cardeais. Mas sempre, respeitando como é devido o Vigário de Cristo, demos-lhes uma interpretação benigna. Beijando o Alcorão, não estava o Papa expressando sua veneração pelas doutrinas de Maomé, mas seu amor imenso pelos mil milhões de muçulmanos cativos desse livro falso. Recebendo na fronte a marca de Shiva que uma senhora indiana lhe impunha com afetuoso respeito, de modo algum expressava sua sintonia com os mitos do hinduísmo, mas simplesmente agradecia sorridente o ato, como se no Havaí lhe impusessem um colar de flores. Essa é a única maneira de interpretar honradamente e com veracidade esses atos ambíguos do Papa.

Com efeito, os gestos exprimem em linguagem não-verbal pensamentos e intenções que podem ter interpretações muito variadas, ainda que estas costumem ser patentes pela pessoa e pelas circunstâncias. As palavras, em compensação, têm uma expressividade muito mais precisa e unívoca. É evidente, portanto, que se o gesto concreto de uma pessoa padece de uma expressividade ambígua, esta deve ser interpretada atendo-se às suas palavras. Outra questão, sem dúvida, intimamente anexa, mas distinta, é a conveniência de um determinado gesto. São Pedro, por exemplo, não comendo com gentios, realiza um gesto que merece a censura de São Paulo (Gl 2,11-13), mas que de modo algum compromete a fé na salvação cristã dos pagãos, fé certamente comum aos dois Apóstolos (At 1,15; 14,27).

A reunião de Assis foi o gesto pontifício mais abominado por Mons. Lefebvre. Dispô-lo João Paulo II no Ano Internacional da Paz (1986, e depois em 2002) com sua melhor intenção de coadunar na busca unânime da paz a todos os homens religiosos do mundo. O gesto, assim nos pareceu a muitos, corria graves perigos de ser interpretado torcidamente em chave sincretista por pessoas malformadas ou malintencionadas. O próprio Papa tentou justificar seu gesto em uma alocução aos Cardeais (22-XII-1987). E o Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação da Fé, fez também mais tarde a mesma tentativa, por ocasião de Assis-2002 (30 Giorni II-2002). E estas explicações convenceram a uns mais e a outros menos. Mas nenhum dos filhos da Igreja duvidamos por um instante da perfeita fé católica de João Paulo II, expressa milhares de vezes, já nos mesmos textos antes recordados do Vaticano II sobre as missões, que ele formulou como Padre conciliar com o Papa e os Bispos, já em tantos outros documentos seus pessoais, até chegar à formidável declaração Dominus Iesus (2002).

Pelo contrário, parecem-nos vergonhosas e totalmente disparatadas as declarações que Mons. Lefebvre fez uma e outra vez sobre o Papa por ocasião de Assis-1986. Foi esta uma das questões que mais influíram em sua decisão de ordenar Bispos contra a lei canônica e contra a vontade expressa do Papa.

“Enfrentamo-nos com um dilema gravíssimo que, creio eu, nunca existiu em toda a história da Igreja: que aquele que está sentado na Sede de Pedro participe em cultos de falsos deuses. Não sei. Pergunto-me. Mas é possível que estejamos obrigados a crer que este papa não é papa” (Écône, hom. do domingo de Páscoa de 1986; Tissier 564). Relatando esse sucesso, Mons. Tissier aproveita a ocasião para citar o Código de 1917: se um cristão incorre na communicatio in sacris, na participação ativa em ritos não católicos (cân. 1258), vem a fazer-se “suspeito de heresia” (cân. 2316). Mons. Lefebvre, como esta, disse outras barbaridades enormes: “Realmente creio que posso dizer que nunca houve uma iniquidade maior na Igreja do que a jornada de Assis” (Sermão na ordenação cismática de Bispos, 18-VI-1988).

–A reintegração da FSSPX na Igreja católica não parece possível por ora, sendo, no entanto, tão heroicamente procurada por Bento XVI, Pastor universal, e tão desejada por todos os católicos que amamos a unidade da Igreja. Não parece possível.

1. Não parece que seja querida hoje pela FSSPX. E não podem dois unir-se se um não quer. Segundo vimos, por exemplo, na primeira frase das declarações citadas de Mons. Fellay, a volta à plena união é o fim pretendido pela Santa Sé nas conversas, mas a Fraternidade busca nelas outro fim, afirmar sua própria ortodoxia, “convertendo” Roma, infectada de heresia; e só isso.

A Fraternidade, ao manter suas “reservas” quanto à autoridade do Papa e do Vaticano II, não considera viável por ora essa “unidade”, que a seu ver seria falsa. Por outro lado, sobretudo depois do levantamento das excomunhões, não vê a conveniência de mudar sua situação presente, crescendo em número e esperando a reabilitação de Mons. Lefebvre. O Papa os chama “ao arrependimento e ao retorno à unidade”, mas enquanto continuem eles vendo a Igreja católica como eles a veem, infectada de modernismo, neoprotestantismo, sincretismo, heresias e apostasia, recusar-se-ão, em consciência, a dar um passo nessa direção. Com o aplauso dos sedevacantistas, que lhe reprovam, por outro lado, suas esporádicas relações com a Santa Sé.

2. Teria que confessar a Fraternidade abertamente que Cristo confiou à Igreja romana a missão de guardar todos os cristãos na fé ortodoxa e na unidade, e que a FSSPX não recebeu de Deus uma missão superior, com autoridade apostólica para vigiar e garantir a fidelidade de “Roma” em sua missão própria. É a Sede de Pedro que recebe de Cristo o carisma supremo de confirmar na fé todos os cristãos; e não é a FSSPX quem recebe em nosso tempo esta missão, acima de Roma, distanciando-se dela. Esta última convicção seria totalmente inconciliável com a Escritura sagrada e com a Tradição católica.

3. A Fraternidade teria que reconhecer os pareceres jurisdicionais do Papa e da Santa Sé sobre o caráter cismático das ordenações episcopais realizadas por Mons. Lefebvre, sobre a validade das excomunhões e suspensões a divinis, e acerca da ilicitude de suas celebrações sacerdotais. É a Autoridade da Igreja que, neste mundo e em nome de Cristo, julga seus filhos; e não são estes os que julgam suas próprias causas. Não são eles os que têm a última palavra. Tem-na, como eles dizem, “Roma”.

4. Teria que renunciar a Fraternidade ao exercício ilícito dos ministérios episcopais e sacerdotais, enquanto recebia da Autoridade apostólica os reconhecimentos canônicos necessários, que da parte da Santa Sé seriam possíveis, na forma de Prelazia ou como fosse conveniente.

5. A FSSPX teria que aceitar a Missa do Novus Ordo. Atualmente, entre os celebrantes da Missa nova há muitos, lamentavelmente não todos, que apreciam a Missa antiga e alguns que inclusive a celebram algumas vezes. Mas nos Priorados lefebvrianos nenhum está aberto à Missa nova, todos permanecem até agora hermeticamente fechados a ela, e não dão sinais de mudança alguma. Resistem assim à Summorum Pontificum, que por outro lado consideram um triunfo seu.

Adverte nela o Papa que “obviamente, para viver a plena comunhão, tampouco os sacerdotes das Comunidades que seguem o uso antigo podem, em princípio, excluir a celebração segundo os livros novos. Com efeito, não seria coerente com o reconhecimento do valor e da santidade do novo rito a exclusão total do mesmo”. Assim o aceitaram outras Comunidades tradicionais integradas na unidade da Igreja, como já vimos (127 in fine).

6. Teria a Fraternidade que retratar-se publicamente dos inúmeros insultos de Mons. Lefebvre contra o Papa, o Vaticano II e a Igreja pós-conciliar, pedindo perdão por eles, e retirando a distribuição dos escritos que difundem tantas calúnias.

Não há perdão possível sem arrependimento e confissão dos pecados. Não parece viável a volta da FSSPX à unidade eclesial se não retirarem de seus meios de difusão tão numerosas alusões contra a Igreja católica: Igreja modernista, liberal, maçônica, sincretista, neoprotestante, antropocêntrica, bastarda em sua Missa, em seu sacerdócio, em seus sacramentos, caída em heresia e apostasia, ocupada na Sede de Pedro e nos principais postos romanos por anticristos, etc. Mas tampouco parece que a Fraternidade tenha esta intenção, ainda que seja certo que em algumas de suas páginas de internet se registraram ultimamente esvaziamentos muito consideráveis.

7. Os Bispos da FSSPX teriam, enfim, que pôr seus cargos à disposição do Papa, reconhecendo a ilegitimidade de sua origem. Este passo, tão duro, encontramo-lo sugerido por Mons. Lefebvre, mas para ser dado em outra hipótese muito distinta: para quando volte Roma à verdade católica.

“No dia em que Roma volte à verdade da Igreja de sempre, estes bispos [que eu pudesse ordenar] poriam sua dignidade episcopal entre as mãos do papa, dizendo-lhe: ‘aqui estamos. Que quer fazer de nós? Se assim o quiser, viveremos nós agora como simples sacerdotes; e se quiser servir-se de nós, estamos a seu serviço'” (em um retiro sacerdotal, IX-1986: Tissier 573). E em sua Carta aos futuros bispos (29-VIII-1987) lhes diz: “Eu vos conferirei esta graça, confiando em que sem tardança a Sede de Pedro será ocupada por um sucessor de Pedro perfeitamente católico, entre cujas mãos podereis vós depositar a graça de vosso episcopado para que ele a confirme” (578).

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X considera hoje que este momento ainda não chegou. Estima, ao que parece, que Bento XVI não é “um sucessor de Pedro perfeitamente católico”… Mas, enfim, pela oração de súplica, mantenhamos a esperança de que um dia se logre a unidade eclesial com a FSSPX, já que o que não é possível pela miséria dos homens é possível pela misericórdia de Deus. Oremos, oremos, oremos.

Mater Ecclesiæ, ora pro nobis.

Autor: P. José María Iraburu

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