CIDADE DO VATICANO, 9 nov. (ZENIT).- «A grande fraqueza da Inquisição consiste em ter querido defender a verdade por meios violentos». Este é o juízo sintético do padre Georges Cottier, teólogo da Casa Pontifícia e organizador do Simpósio internacional sobre a Inquisição, realizado nos últimos dias de outubro no Vaticano.
«A história da Inquisição não é a história da Igreja — declara em exclusiva à Zenit o padre Cottier —. A Igreja é santa e dá sempre frutos de santidade. Mas com isto não quero dizer que a Igreja seja composta apenas de homens santos, e sim que produz frutos de santidade, em cada geração, também em nossa época. A Inquisição foi uma instituição eclesiástica e temporal que teve certamente grandes defeitos, com os seus consequentes efeitos negativos, mas este não é o caminho da Igreja. A Igreja, como esposa e corpo de Cristo, deve gozar de toda a nossa confiança e, quando faz penitência, como indica João Paulo II na carta apostólica “Tertio Millennio Adveniente”, está realizando um ato de lealdade e valentia que nos dá novas forças para enfrentar o presente e o futuro».
–Zenit: Quais são as novidades que emergiram no Simpósio?
–Georges Cottier: Não podemos falar de autênticas novidades, em parte porque os historiadores presentes trabalham sobre este tema há muitos anos. O encontro serviu para aprendermos uns com os outros.
Discutiu-se muito sobre a interpretação de alguns fatos concretos. Por exemplo, constatou-se que não existe clareza no cálculo do número das vítimas da Inquisição, e muito menos em sua interpretação. A nossa informação ainda tem muitos pontos que devem continuar sendo investigados. Muitos arquivos foram destruídos, outros não foram suficientemente estudados, e o arquivo do Santo Ofício acaba de ser aberto. Contudo, apesar das dificuldades, alcançamos um consenso em pontos realmente importantes.
–Zenit: Uma certa historiografia pinta a Inquisição com as cores da tortura e o calor das fogueiras. Pelo contrário, alguns especialistas cristãos defendem a utilidade que tinham estes tribunais. O que o senhor pensa?
–Georges Cottier: A interpretação dos fatos que dizem respeito à história da Inquisição é muito controvertida. A análise histórica deve levar em conta o contexto em que os fatos ocorreram. Alguns dos procedimentos atribuídos à Inquisição, por exemplo, eram os mesmos utilizados pelos tribunais civis. Até mesmo o procedimento do processo era o mesmo. Muitos processos terminaram com o reconhecimento da inocência do acusado, e a pena para os condenados nem sempre era a execução capital. A porcentagem de condenações à morte foi inferior ao que normalmente se pensa. Mas trata-se de um problema de princípio. Ainda que tivesse havido pouca gente condenada injustamente à morte, o problema permanece. As comparações quantitativas me causam repugnância, pois não enfrentam o verdadeiro problema.
No que se refere à interpretação da Inquisição, trata-se de um problema mais teológico que histórico, embora seja certo que o argumento histórico deve ser aprofundado, pois não se pode falar desse tribunal sem conhecer a verdade dos fatos. Do ponto de vista teológico, foram identificadas algumas pistas de reflexão. O padre Juan Miguel Garrigues insistiu que a Inquisição, em suas raízes doutrinais, é um problema que nasce já com santo Agostinho em sua disputa contra os donatistas. Já então Agostinho pediu ajuda ao braço secular, pois naquele momento o império se tornara oficialmente cristão. Isto significa que não se pode entender a Inquisição sem a ideia histórica de cristandade, que é uma forma de sociedade civil e política na qual todos os membros estão comprometidos com a profissão da fé cristã. Na Inquisição estamos diante da defesa da fé como proteção da Igreja e também como elemento cultural que une o povo. Por exemplo, não se pode entender a história da Inquisição espanhola fora desta lógica. Só quando se faz um esforço para pensar como raciocinavam as pessoas daquele tempo é possível compreender por que tanta gente excelsa e de grande fé não experimentou as interrogações que esta instituição suscitava.
É verdade que em nosso século houve genocídios, mas isto não quer dizer que possamos analisar a Inquisição sem remorsos.
–Zenit: A idade moderna gosta de colocar em si mesma a etiqueta de «idade dos direitos» e, por isso, critica severamente a Inquisição. Como é possível analisar com os olhos de hoje o que aconteceu na história passada?
–Georges Cottier: Hoje vivemos em uma sociedade pluralista, na qual a distinção entre poder temporal e espiritual é muito mais clara que no passado, e isto representa uma grande mudança. A partir desta consideração, é preciso fazer uma reflexão teológica. A consciência moral cristã se afina com o avançar da história. Não estou dizendo que os cristãos sejam melhores hoje do que antes, pois talvez haja agora mais pecadores do que no passado — só Deus o sabe —. Mas, como sancionou o Concílio Vaticano II e a carta «Tertio Millennio Adveniente», «a verdade se defende com as armas da verdade», e isto representa um enorme progresso para a consciência cristã.
Basta pensar, por exemplo, no debate atual sobre a pena de morte. No início deste século, a pena de morte era algo comumente aceito; agora, pelo contrário, a sua prática causa autênticos problemas para a consciência dos cristãos. Isto demonstra que podem nascer exigências mais rigorosas na consciência cristã. Deste modo, pode-se entender como certos atos que não foram percebidos como um mal moral em uma época são vistos hoje como inaceitáveis.
Mas gostaria de acrescentar que a realidade moderna é paradoxal. Hoje vemos muitas pessoas criticarem as práticas violentas da Inquisição e lutarem contra a pena de morte, mas ao mesmo tempo assistimos à liberalização do aborto e da eutanásia. Deste modo, constatamos que o progresso da consciência não é linear: podem-se dar passos adiante em um campo e passos atrás em outro. Se, além disso, somos testemunhas de como alguns sistemas totalitários, em nome da «Razão de Estado», não hesitaram em cometer massacres e torturas em massa, então compreenderemos a complexidade da história. O homem é chamado à santidade, mas é pecador, e o pecado faz parte da história.
–Zenit: Tomás de Torquemada é descrito como um inquisidor cruel e torturador. Mas foi realmente assim? O que responde ao fato de alguns inquisidores terem sido canonizados?
–Georges Cottier: Há santos inquisidores, pois viveram a caridade perfeita, sem participar das malícias morais dessas práticas. É conhecido, por exemplo, o caráter severo da Inquisição romana sob o governo do Papa Pio V. Além disso, não se deve confundir a estrutura repressiva da Inquisição com a figura de alguns inquisidores, cuja tarefa consistia em identificar os hereges e convertê-los. Os santos vivem a vida evangélica; mesmo aqueles que aceitaram a Inquisição viveram segundo este caminho. Um deles foi, por exemplo, São Pedro mártir de Verona, que é recordado no calendário. É preciso levar em conta que, naquele tempo, não se percebia a incompatibilidade de algumas práticas com a difusão do Evangelho. A violência sempre abriu as portas a períodos obscuros, especialmente quando o poder civil tomou em suas mãos a questão da repressão dos hereges.
No que se refere a Torquemada, é preciso dizer que era muito rigoroso, mas a busca do rigor às vezes pode criar problemas. O afã obstinado de perseguir o rigor da virtude poderia ter algo de desumano. Basta pensar, por exemplo, em um homem duro como Calvino. Temos que reabilitar a moderação, que faz parte da virtude da prudência na luta contra o vício. Às vezes o rigor pode ser exagerado, a ponto de se converter em um tipo de zelo que deixa de ser evangélico. Não creio que Torquemada fosse um sádico. Talvez tenham ocorrido casos graves, em especial quando utilizava a tortura para obter a confissão.
–Zenit: Qual é a sua opinião sobre a utilidade dos resultados obtidos no simpósio?
–Georges Cottier: O primeiro objetivo consiste em preparar um dossiê para o Santo Padre. O Jubileu é um ato de alegria, uma alegria que nasce do perdão de Deus.
Temos que pedir perdão também por alguns pecados cometidos na história. Mas corre-se o risco de pedir perdão por fatos que nunca existiram. O Papa fala de purificação da memória. Isto quer dizer que temos que purificar a nossa imagem do passado dos erros promovidos pela propaganda. A ideia horrorosa da Inquisição difundida entre a opinião pública é seguramente exagerada. Por este motivo, decidimos escutar os historiadores para que nos digam o que foi exatamente a Inquisição. O pedido de perdão deve ser formulado com base na informação mais exata possível. Este era o objetivo fundamental do Simpósio, e estamos contentes com os resultados alcançados.
–Zenit: Em que medida estes resultados podem ser estímulo ou freio para o diálogo ecumênico e inter-religioso?
–Georges Cottier: Creio que podem ser um autêntico estímulo, com a condição de que se trate de um autêntico diálogo. A Igreja não tem medo da verdade e, considerando que não pode haver diálogo sem dois interlocutores, temos que esperar que a outra parte mostre a mesma disponibilidade. Esta é a primeira condição do diálogo. Por este motivo, a investigação da verdade histórica deveria ajudar todas as partes interessadas no diálogo. A Inquisição foi instituída pelos católicos, mas a pena de morte foi aplicada por muitos outros sistemas e confissões. De todo modo, estou convencido de que a nossa disponibilidade para descobrir a verdade servirá de ajuda para o diálogo ecumênico.
Autor: Georges Cottier, Organizador do recente Simpósio vaticano.
Fonte: ZENIT, 9 de novembro de 1998.