O Reino de Deus chegou

No capítulo anterior, eu dizia que não há nenhum texto bíblico que, seriamente analisado, permita supor que a Igreja fundada por Jesus Cristo se corromperia e deslizaria para uma apostasia que duraria mais de 1.600 anos. Agora vou um pouco mais além para acrescentar que há outros (e abundantes, aliás) que assinalam a era da Igreja como o Reino de Deus anunciado por nosso Senhor, em que os cristãos, como “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus 5,13-14), levariam o Evangelho por todo o mundo (Mateus 28,19).

“Chegou para vós o Reino de Deus.” (Mateus 12,28)

“O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós.” (Lucas 17,20-21)

O Senhor não fala de um Reino que chegaria em um futuro distante, mas de um que já havia chegado e era anunciado aos novos crentes. Fala da era da Igreja, que, mesmo com modestos começos, como um pequeno grão de mostarda (Marcos 4,31-32), não pararia de crescer até converter-se em uma árvore frondosa que serviria de refúgio a todos os sinceros buscadores da verdade. Outra parábola que encerra a mesma ideia é a do fermento, na qual seu crescimento é comparado ao de um pouco de farinha que, depois de fermentar, não para de crescer.

A quem compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o representaremos? É como o grão de mostarda que, quando é semeado, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra.” (Marcos 4,30-32)

O Reino dos Céus é comparado ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha e que faz fermentar toda a massa.” (Mateus 13,33)

Quando Jesus anuncia aos judeus que dará o Reino dos Céus a um povo que renda os frutos dele, refere-se à Igreja, à qual encomendará fazer discípulos das nações:

“Por isso vos digo: será tirado de vós o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele.” (Mateus 21,43)

“Então, Paulo e Barnabé disseram-lhes resolutamente: ‘Era a vós que em primeiro lugar se devia anunciar a Palavra de Deus. Mas, porque a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os pagãos. Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te estabeleci para seres luz das nações, e levares a salvação até os confins da terra.’ Essas palavras encheram de alegria os pagãos, que glorificavam a palavra do Senhor. Todos os que estavam predispostos para a vida eterna fizeram ato de fé.” (Atos 13,46-48)

Para lograr seu propósito, Jesus transmite sua autoridade aos seus Apóstolos e designa Pedro como “mordomo”, entregando-lhe as chaves do Reino dos Céus, ou, o que é o mesmo, as chaves para governar com autoridade a Igreja:

“E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mateus 16,18-19)

Uma Nova Aliança

Observe como já no texto anterior a figura do Reino dos Céus começa a ser identificada com a Igreja. Jesus fala de edificar sua Igreja e, para isso, entrega as “chaves do Reino dos Céus” a Pedro (Mateus 16,19). Nada na Escritura faz pensar que este Reino anunciado pelo Senhor deteria ou paralisaria seu crescimento por um período de tantos séculos, como deduziu o protestantismo. Acaso o grão de mostarda que se faz árvore, ou o fermento que fermenta, deixam de crescer? Pelo contrário, desta nova aliança selada com o sangue de Cristo encontramos numerosas profecias no Antigo Testamento que dão a entender todo o contrário:

“Virá como redentor a Sião… Eis minha aliança com eles, diz o Senhor: Meu espírito que sobre ti repousa, e minhas palavras que coloquei em tua boca não deixarão teus lábios nem os de teus filhos, nem os de seus descendentes, diz o Senhor, desde agora e para sempre.” (Isaías 59,20-21)

Dias virão — oráculo do Senhor — em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá. Será diferente da que concluí com seus pais no dia em que pela mão os tomei para tirá-los do Egito, aliança que violaram, embora eu fosse o esposo deles. Eis a aliança que, então, farei com a casa de Israel — oráculo do Senhor: Eu lhe incutirei a minha Lei; eu a gravarei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo.” (Jeremias 31,31-33)

O autor da Epístola aos Hebreus assinala claramente como esta nova aliança anunciada pelos Profetas encontra pleno cumprimento na Igreja:

“Ao nosso Sumo Sacerdote, entretanto, compete ministério tanto mais excelente quanto ele é mediador de uma aliança mais perfeita, selada por melhores promessas. Porque, se a primeira tivesse sido sem defeito, certamente não haveria lugar para outra. Ora, sem dúvida, há uma censura nestas palavras: Eis que virão dias — oráculo do Senhor — em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. Não como a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão para tirá-los da terra do Egito. Como eles não permaneceram fiéis ao pacto, eu me desinteressei deles — oráculo do Senhor. Mas esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel depois daqueles dias: imprimirei as minhas leis no seu espírito e as gravarei no seu coração. Eu serei seu Deus, e eles serão meu povo.” (Hebreus 8,6-10)

Entre outras profecias do Antigo Testamento que os Padres da Igreja aplicaram de forma unânime à Igreja, temos:

“E a pedra que havia batido na estátua tornou-se uma alta montanha, ocupando toda a região… No tempo desses reis, o Deus dos céus suscitará um reino que jamais será destruído e cuja soberania jamais passará a outro povo: destruirá e aniquilará todos os outros, enquanto que ele subsistirá eternamente.” (Daniel 2,35.44)

“No fim dos tempos acontecerá que o monte da casa do Senhor estará colocado à frente das montanhas, e dominará as colinas. Para aí acorrerão todas as gentes, e os povos virão em multidão: ‘Vinde — dirão eles —, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó: ele nos ensinará seus caminhos, e nós trilharemos as suas veredas’. Porque de Sião deve sair a Lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor.” (Is 2,2-3; também em Mq 4,1-2)

“Sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz… porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz. Seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino. Ele o firmará e o manterá pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre. Eis o que fará o zelo do Senhor dos exércitos.” (Isaías 9,1.5-6)

“Quando o Senhor vos tiver dado o pão da angústia e a água da tribulação, aquele que te instrui não se esconderá mais, e verás com teus olhos aquele que te ensina. Ouvirás com teus ouvidos estas palavras retumbarem atrás de ti: ‘É aqui o caminho, andai por ele’, quando te desviares quer para a direita, quer para a esquerda.” (Isaías 30,20-21)

“Disse-me: ‘Não basta que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel; vou fazer de ti a luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo’. Eis o que diz o Senhor, o Redentor, o Santo de Israel, ao objeto de desprezo dos homens e de horror das nações, ao escravo dos tiranos: diante de ti, reis se levantarão e príncipes se prostrarão, por causa do Senhor, que é fiel, e do Santo de Israel, que te elegeu… Teus ouvidos ouvirão ainda de teus filhos, que julgavas perdidos: ‘O espaço é estreito demais para mim; dê-me espaço para que eu me instale!’. Então, dirás a ti mesma: ‘Quem me gerou estes filhos? Não tinha filhos, era estéril: quem os criou? Eis que eu estava desamparada e só: de onde vieram eles?’. Eis o que diz o Senhor Deus: ‘Com a mão vou fazer sinal às nações, e levantar meu estandarte para alertar os povos. Trarão teus filhos na dobra de seu manto, e em seus ombros carregarão tuas filhas. Reis serão teus aios: prostrados diante de ti, a face contra a terra, lamberão a poeira de teus pés. Saberás então que eu sou o Senhor, e que não serão confundidos os que contam comigo’.” (Isaías 49,6-7.20-23)

No Novo Testamento também se aplicam estes textos à Igreja, a qual agruparia pessoas de toda raça, povo e nação:

“Porque o Senhor assim no-lo mandou: ‘Eu te estabeleci para seres luz das nações, e levares a salvação até os confins da terra’.” (Atos 13,47)

“Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra. Porque os meus olhos viram a vossa salvação, que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel.” (Lucas 2,29-32)

Veja também Isaías 52,1.7.10.13-15 e compare-se com Romanos 10,15; 15,21; Lucas 3,6.

“Dá gritos de alegria, estéril, tu que não tens filhos!… Amplia o espaço da tua tenda, desdobra sem constrangimento as telas que te abrigam, alonga tuas cordas, consolida tuas estacas, pois deverás estender-te à direita e à esquerda; teus descendentes vão invadir as nações, povoar as cidades desertas. Vou fazer hoje como no tempo de Noé: tal como jurei então que o dilúvio de Noé não mais se abateria sobre a terra, do mesmo modo faço juramento de não mais me irritar contra ti, e de nunca mais te atemorizar. Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais meu amor te abandonará e jamais meu pacto de paz vacilará, diz o Senhor que se compadeceu de ti. Qualquer arma forjada contra ti se verá destinada ao insucesso, e na justiça ganharás causa de qualquer língua que quiser acusar-te. Tal é o apanágio dos servos do Senhor, tal é o triunfo que lhes reservo, diz o Senhor.” (Isaías 54,1-3.9-10.17)

Esta profecia é expressamente aplicada à Igreja por São Paulo em Gálatas 4,22-31. Compare também com Romanos 9,24-26.

As notas da Igreja

Esta Igreja, que se via prefigurada como a cidade elevada sobre a colina, teria que contar com certas características ou notas que permitissem preservar e propagar o Evangelho a todas as nações. Entre estas notas podemos mencionar:

1) Visibilidade perpétua: não poderia ser luz do mundo uma Igreja que não pudesse ser identificada nem reconhecida.

2) Apostolicidade: Jesus concedeu aos Apóstolos a tríplice potestade de ensinar, santificar e governar sua Igreja até o fim dos séculos (Mateus 28,18-20). Assim, pois, a Igreja deve ser apostólica: em sua origem, isto é, deve ser hoje a mesma que foi fundada sobre os Apóstolos; em sua doutrina, ensinando as mesmas verdades que os Apóstolos; em sua sucessão, isto é, governada, instruída e santificada pelos legítimos sucessores dos Apóstolos. Não seria, como assumiram os protestantes, uma Igreja que se ausentaria por séculos.

3) Catolicidade: a Igreja deve ser católica, isto é, universal, e deve sê-lo em três sentidos: de tempo ou duração, “sempre, até o fim do mundo” (Mateus 28,20) ou “até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo” (Efésios 4,13); de lugar ou extensão, já que está aberta a “todas as nações” e “a toda criatura” (Gênesis 22,18; Mateus 24,14; Lucas 24,47; Atos 15,17; Gálatas 3,8); de fé ou doutrina, para ensinar “todas as coisas que” seu Senhor lhes havia “ordenado”, “toda a verdade”.

4) Unidade: a unidade da Igreja permite sua visibilidade e, por isso, Jesus a pediu expressamente ao Pai na noite da Paixão como sinal distintivo de sua Igreja:

“Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim. Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes sabem que tu me enviaste.” (João 17,20-25)

Esta unidade deve ter uma tríplice manifestação: de fé[1], porque a verdade é uma só e a Igreja é depositária desta verdade; de governo, porque Jesus criou nela um corpo diretivo integrado pelos Apóstolos, por Pedro e por seus sucessores, dotados da plenitude de poderes; de comunhão, onde todos os membros unificam seus esforços em ordem ao fim a alcançar: ensinar a Revelação para a salvação das almas. Daí que São Paulo ensina que a Igreja é “um só Corpo e um só Espírito” (Efésios 4,4), e deve estar unida em “uma só fé, um só batismo” (Efésios 4,5).

Jesus advertiu que “se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar” (Marcos 3,24). Satanás sabe que a Igreja não pode dividir-se porque é UNA, mas sabe bem que pode afastar os cristãos de sua comunhão.

5) Infalibilidade ou inerrância: tampouco poderia ser luz do mundo uma Igreja que se corrompesse e ensinasse o erro. Desta maneira, Deus preparava já para sua Igreja o precioso dom da indefectibilidade: mesmo formada por seres humanos, fracos e pecadores, seria sempre “a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1 Timóteo 3,15). Rejeitar seus legítimos representantes seria rejeitar o próprio Deus: “Quem vos ouve a mim ouve; e quem vos rejeita a mim rejeita; e quem me rejeita rejeita aquele que me enviou” (Lucas 10,16), pois eles seriam os “administradores dos mistérios de Deus” (1 Coríntios 4,1), e contava-se para isso com a promessa de receber o Espírito Santo para “guiá-los à verdade completa” (João 16,13).

O protestantismo, em suas distintas denominações, carece de Unidade de Fé, de Governo e de Comunhão, e de Apostolicidade, pois aparece no século XVI, quando o cristianismo já tinha quinze séculos de existência. As Igrejas orientais separadas, ainda que possuam sacramentos válidos e sucessão apostólica, carecem também de Unidade de Fé, de Governo e de Comunhão. Também de Catolicidade, pois cada uma é autocéfala, independente e incapaz de estender-se universalmente.

Por isso professamos que somente há Uma Igreja, Santa, Católica e Apostólica, que foi fundada por Jesus Cristo, sobre a qual as portas do inferno não prevalecerão. Só nesta Igreja, que é o “meio geral de salvação”, pode alcançar-se a plenitude total dos meios de salvação. Professamos que “o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança ao único colégio apostólico, a cuja testa está Pedro, com o fim de constituir na terra um só corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus” (Unitatis Redintegratio, 3).

Notas

  1. Já mencionada anteriormente como catolicidade de doutrina.