Penso que todos nos sentimos confusos ou desconcertados diante da possibilidade de penalizar o aborto, mesmo em caso de estupro, e de punir as mulheres que o praticam.
Por que se deve castigar a vítima de uma agressão, em vez de castigar aquele que abusou dela com toda a violência imaginável? Os argumentos vão e vêm, e muitos deles apenas confundem e nos causam sentimentos de impotência e raiva.
Para nós que, além de sermos mulheres, somos mães, estes temas são especialmente sensíveis; e nestes tempos caracterizados por avanços científicos e técnicos incríveis, penso que devemos usar toda a nossa capacidade intelectual e humana para procurar que estas coisas não aconteçam. Refiro-me tanto aos crimes contra tantos inocentes quanto à aplicação “injusta” da “justiça”.
Considero que não devemos buscar soluções simples ou receitas de cozinha para fenômenos demasiado complexos e graves. Tudo isso requer estudos amplos e profundos. O que sim poderíamos abordar é:
O que pode fazer uma mulher diante de um possível estupro?
De acordo com o que indicam as estatísticas do nosso país e de muitos outros, embora toda mulher jovem —e inclusive uma menina— seja candidata a ser atacada por um canalha, importa muito como ela costuma se vestir, pois há roupas que podemos qualificar como provocativas, seja pelo tipo de tecido, pelo quanto estejam ajustadas ao corpo, ou por serem demasiado curtas.
Convém que, a partir de determinadas horas —e isto dependerá da estação do ano—, nós mulheres procuremos não andar sozinhas, e menos ainda passar por lugares supostamente perigosos. Nisto é importante a colaboração de nós, pais que temos filhas.
De maneira muito especial, nós mães devemos conquistar a confiança de nossas filhas, para que elas sintam a tranquilidade de nos contar as coisas desde as primeiras insinuações. Estas podem vir inclusive de familiares, sobretudo se forem padrastos, tios ou primos mais velhos que morem na mesma casa. Conquistaremos essa confiança desde que nossos filhos são muito pequenos. Para consegui-la, temos que superar o medo de falar-lhes sobre educação sexual; podemos pedir ajuda a profissionais, professores mais experientes ou outros pais. Isto não deve ser feito uma ou duas vezes, deve ser constante desde que são pequenos. Influi muito também o tom de voz que usamos ao chamar-lhes a atenção. Quanto mais gritamos, menos autoridade moral conseguimos, e nossos filhos se afastam.
Não conquistaremos essa confiança dizendo-lhes frases como: “Olha, eu sou a tua mãe ou o teu pai; quando precisares de um conselho podes vir até mim”; mas sim com atos, com um trato amigável e compreensivo desde que nascem.
O que devemos fazer diante de uma mulher que foi estuprada?
Considero que todos estamos obrigados a viver a virtude da solidariedade, que consiste em saber que “todos somos responsáveis por todos” e que “ninguém está isento de nada”. Por isso, se ficarmos sabendo que uma jovem ou uma mulher de qualquer idade foi estuprada, cabe-nos dar-lhe todo o nosso carinho, compreensão e apoio. Evitemos tocar no assunto para não machucá-la mais, a não ser que ela o inicie. Se assim for, façamos com que ela sinta que ela, como seu filho, valem muito, e que ter sido vítima de um ato tão detestável não lhe tira no mínimo o seu valor pessoal.
Felizmente, em nosso país há instituições com muita experiência, que atendem esses casos e proporcionam à mulher todo tipo de ajuda, incluindo a possibilidade de dar o filho em adoção, quando ela assim o decide ou sabe que não pode dar-lhe o carinho e os cuidados necessários.
Penso que deveríamos abrir mais centros de orientação e educação sexual para a mulher. Por outro lado, também deveriam ser aumentadas as penas para o estuprador, para que sejam exemplares. Dar-lhes um castigo tão grande que os obrigue a pensar duas vezes.
Compartilho vivamente a dor, o mal-estar e a raiva de uma mulher que foi estuprada. A pergunta sempre difícil e polêmica seria: as circunstâncias que rodeiam a concepção e o nascimento de um bebê são as que determinam o valor de sua vida? Esse novo ser, com identidade própria, que culpa tem? Não podemos remediar uma tremenda injustiça (o estupro) com outra maior: o aborto.
Aborto é assassinato, independentemente do motivo que dá origem a uma nova vida. Não podemos eliminar o trauma de uma mulher estuprada facilitando que ela cometa o crime de matar um ser humano inocente. As experiências nesses casos são variadas, pois assim como algumas sentem aversão ao filho não desejado, outras, ao contrário, chegam não só a aceitá-lo, mas a amá-lo, simplesmente por ser seu filho.
Estou certa de que defender a vida, sem dúvida, resultará em maior justiça e em mais respeito do homem pelo homem. Creio que não devemos vê-lo como um programa político, nem como uma alternativa cultural, mas como uma maneira concreta de afastar a violência. Se aceitamos que uma mãe mate o seu bebê, como poderíamos pedir aos demais que não se matem entre si?
Autora: Gaby Vargas
Fonte: Encuentra.com