A Igreja Católica ensina-nos que Cristo, nosso Senhor, plenitude da Revelação, mandou que os Apóstolos pregassem o Evangelho como fonte de toda a verdade salvífica e de toda a norma de conduta, transmitindo-lhes assim os bens divinos: o Evangelho prometido pelos Profetas, que Ele próprio cumpriu e promulgou pela sua própria boca.
A transmissão do Evangelho, segundo o mandato do Senhor, realizou-se de duas formas:
De forma oral: Os Apóstolos, com a sua pregação, pelos seus exemplos e pelas suas instruções, transmitiram oralmente o que tinham aprendido das obras e ensinamentos de Cristo e o que o Espírito Santo lhes ensinou.
De forma escrita: Os próprios Apóstolos e outros da sua geração consignaram por escrito a mensagem da salvação, inspirados pelo Espírito Santo.
À transmissão de forma oral chamamos “Sagrada Tradição” (ou, mais brevemente neste contexto, “Tradição”) e à transmissão de forma escrita chamamos “Sagrada Escritura”. Ambas estão intimamente unidas e compenetradas, porque, surgindo ambas da mesma fonte, fazem como que uma coisa só e tendem para um mesmo fim.
Definição de tradição
No entanto, a palavra “tradição” em si refere-se apenas à transmissão de crenças, ensinamentos e práticas, seja por meio oral ou escrito. Este é o significado de tradição: uma mensagem que é transmitida de mão em mão, de geração em geração.
A tradição na Bíblia
Se nos perguntarmos o que a Bíblia diz a respeito da palavra “tradição”, veremos que a resposta varia conforme o tipo de tradições a que se refira, entre as quais estão:
Tradições humanas
São tradições cuja origem provém do homem; não são necessariamente más, a não ser que sejam costumes ou comportamentos contrários aos mandamentos ou à vontade de Deus. Somente nessas circunstâncias vemos que Jesus rejeita esse tipo de tradições[1]:
“E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. (Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal). Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: ‘Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos impuras?’. Jesus disse-lhes: ‘Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos. Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens’. E Jesus acrescentou: ‘Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição. Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e: Todo aquele que amaldiçoar pai ou mãe seja morto. Vós, porém, dizeis: Se alguém disser ao pai ou à mãe: Qualquer coisa que de minha parte te pudesse ser útil é corban, isto é, oferta, e já não lhe deixais fazer coisa alguma a favor de seu pai ou de sua mãe, anulando a Palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes. E fazeis ainda muitas coisas semelhantes’.” (Marcos 7,2-13)
Jesus rejeita aqui tradições cuja origem provinha de costumes humanos a que os fariseus se apegavam, como lavar as mãos antes de comer, a purificação dos objetos, chegando mesmo a usar desculpas para se eximirem da obrigação de sustentar os pais. A esse mesmo tipo de tradições o Apóstolo Paulo faz referência quando fala de tradições humanas “nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo”:
“Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo.” (Colossenses 2,8)
Paulo distingue estas tradições “segundo o mundo” das tradições da Igreja baseadas nos ensinamentos de Jesus, e por isso o esclarecimento: “em vez de se apoiar em Cristo”.
Tradições da Igreja
Há outro conjunto de tradições que Paulo não condena e manda preservar:
“Felicito-vos porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as tradições, conforme eu vo-las transmiti.” (1 Coríntios 11,2)
“Portanto, irmãos, estai firmes e conservai as tradições nas quais fostes instruídos por nós, de viva voz ou por carta.” (2 Tessalonicenses 2,15)
“Intimamo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à tradição que de nós tendes recebido.” (2 Tessalonicenses 3,6)
Nestes textos distingue-se entre os distintos tipos de tradição, e é o mesmo Apóstolo que, por um lado, ordena afastar-se das tradições “nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo” e, por outro, ordena manter as tradições que receberam dele e do resto dos Apóstolos.
É importante notar que São Paulo não está falando somente daquelas tradições que receberam por escrito, mas também daquelas que receberam de forma oral ou “de viva voz”.
Paradosis. Palavra grega usada na Bíblia para tradição
A palavra grega usada em todas as passagens anteriores é “paradosis”, que significa literalmente “tradição”. Em Mateus 15,2 e Colossenses 2,8 é usada para descrever tradições humanas, mas em 1 Coríntios 11,2 e 2 Tessalonicenses 2,15; 3,6 é usada para descrever tradições apostólicas.
Não é por acaso que, em muitas traduções protestantes da Bíblia[2], nas passagens onde “paradosis” é usada para se referir a tradições humanas, é traduzida exclusivamente com a palavra “tradição”, mas nas passagens em que é usada para significar tradições apostólicas é substituída por palavras como “doutrinas” ou “instruções”. Embora se possa alegar que sejam sinônimos, o efeito que isso produz é que os leitores tendem a associar a palavra “tradição” exclusivamente com tradições humanas. Não é de estranhar que os protestantes sintam tanta aversão às tradições quando as suas próprias Bíblias traduzem de forma seletiva esta palavra.[3]
Evidentemente, os tradutores destas Bíblias sabem disso, pois esta palavra (“didaskalia”) é usada também em Marcos 7,7 e aí traduzem corretamente como “doutrinas”. Em Marcos 7,5 aparece a palavra “paradosis” e eles traduzem-na corretamente como “tradição”.
Validade da Tradição Oral
Uma vez feita a distinção entre as tradições humanas e as tradições apostólicas, é oportuno aprofundar a validade que a tradição tem como parte da Revelação do Evangelho:
Uma palavra grega afim a “tradições” é “paradidomi”, cujo significado é “entregar” ou “transmitir”, e que é usada pelo menos sete vezes para fazer referência a tradições cristãs:
“Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da palavra.” (Lucas 1,1-2)
Lucas afirma que essas tradições que foram sendo transmitidas eram relatos confiáveis de testemunhas oculares. Essas tradições, como já vimos em passagens como 2 Tessalonicenses 2,15, eram também orais, “de viva voz”, e nem por isso eram consideradas menos confiáveis:
“Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim’.” (1 Coríntios 11,23-24)
Na passagem anterior, Paulo não explica detalhadamente como fazer a fração do pão; simplesmente lhes recorda o que já lhes tinha transmitido oralmente e dá-lhes exortações e recomendações finais a este respeito.
Por essa razão, Paulo esclarece que transmite o que antes recebeu:
“Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras.” (1 Coríntios 15,3)
“Caríssimos, desejava muito escrever-vos acerca da nossa salvação comum, e senti-me obrigado a fazê-lo, para vos exortar a combater pela fé, que foi transmitida aos santos de uma vez para sempre.” (Judas 3)
“Melhor fora não terem conhecido o caminho da justiça do que, depois de tê-lo conhecido, tornarem atrás, abandonando a Lei santa que lhes foi transmitida.” (2 Pedro 2,21)
Inclusive há passagens em que fica evidente a preferência de João por transmitir o Evangelho oralmente em vez de por escrito:
“Apesar de ter muitas coisas a escrever-vos, não quis fazê-lo com papel e tinta, mas espero ir ter convosco e falar de viva voz, para que a nossa alegria seja completa.” (2 João 12)
Novamente aí, João também (tal como Paulo) utiliza a expressão “de viva voz” para se referir à transmissão da mensagem do Evangelho de forma oral. É importante notar que João não está dizendo que quer ir explicar-lhes a carta; para ele, é mais importante o ensinamento que lhes pode dar oralmente do que aquilo que possam ler. Sabe que, com a sua pregação oral, a alegria do povo será completa. Eles estavam conscientes de que Jesus os mandou pregar, e não escrever (Mateus 28,20), daí que apenas cinco discípulos tenham deixado parte do seu ensinamento por escrito: Pedro, João, Tiago, o Menor, Judas e Mateus, enquanto o resto dos doze pregava sem recorrer a papel.
Isto também se reflete no pedido de Paulo a Timóteo sobre aquilo que lhe ouviu (forma oral), para que o transmitisse a homens fiéis e capazes, que, por sua vez, pudessem instruir outros.
“O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros.” (2 Timóteo 2,2)
Outra palavra grega utilizada na Bíblia, relacionada com a tradição da Igreja, é “paralambano”, que significa “recebido”. Esta palavra aparece pelo menos sete vezes em relação com a tradição cristã e apostólica:
“Lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos preguei, que vós recebestes, no qual permaneceis firmes e pelo qual sereis salvos, se o guardardes tal como eu vo-lo preguei; de outro modo, teríeis acreditado em vão.” (1 Coríntios 15,1-2)
Observe que a transmissão desta mensagem não era apenas de forma escrita, mas também oral; era um Evangelho pregado: “Lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos preguei”. E é por isso que os primeiros cristãos acolheram esta pregação apostólica, não como ensinamentos humanos (apesar de serem pregados por homens), mas como a própria palavra de Deus:
“Por isso é que também nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a Palavra de Deus, que de nós ouvistes, e a acolhestes, não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, como Palavra de Deus, que age eficazmente em vós, os fiéis.” (1 Tessalonicenses 2,13)
A palavra de Deus era principalmente “pregada”, e isso tinha de ser assim, pois naquela época ainda não existia o que hoje conhecemos como Novo Testamento. Estima-se que o Evangelho de Marcos tenha sido o primeiro a ser escrito, entre os anos 65 e 75 d.C., o Evangelho de Mateus entre 64 e 110 d.C., o Evangelho de Lucas depois de 70 d.C., e o Evangelho de João provavelmente entre 95 e 100 d.C. Isto sem contar que o cânone do Novo Testamento foi determinado em 397 d.C. Mesmo depois disso, a pregação oral era amplamente utilizada, já que transcrever uma Bíblia podia levar de 10 a 20 anos de trabalho de uma pessoa, o que representava um custo imenso[4].
Escritura, Magistério e Tradição
Assim, desde as épocas mais remotas da Igreja, os cristãos têm formulado teologia com base em três pilares fundamentais: Escritura, Magistério e Tradição. A Escritura e a Tradição serviam como princípios materiais da teologia, pois continham os ensinamentos recebidos dos Apóstolos por meios orais e escritos; e era o Magistério da Igreja que permitia conhecer com segurança o significado correto da Revelação, funcionando como princípio formal da teologia.
Entende-se por Magistério o ofício de interpretar autenticamente a Revelação oral ou escrita, exercido em nome de Jesus Cristo, pelos bispos em comunhão com o sucessor do Apóstolo Pedro. O Magistério era responsável por manter a ortodoxia da doutrina cristã e por protegê-la das distorções daqueles que a interpretavam mal ou a deturpavam. A este respeito, o Apóstolo Pedro deixa várias advertências:
“Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus.” (2 Pedro 1,20-21)
“Reconhecei que a longa paciência de nosso Senhor vos é salutar, como também vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas as suas cartas, nas quais fala nesses assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro desses homens ímpios.” (2 Pedro 3,15-17)
A Reforma Protestante e a Sola Scriptura
No capítulo seguinte, este ponto será analisado em profundidade. Neste, nos limitaremos a afirmar que o modelo em que os crentes se regem apenas pelo que entendem da Escritura não tinha precedentes na história da Igreja. Nunca foi solução para os conflitos surgidos que cada um definisse, de forma separada e individualista, cada doutrina de fé. Um exemplo disso encontra-se já no capítulo 15 dos Atos dos Apóstolos, onde se narra o primeiro problema grave vivido pela Igreja[5]. Foram os Apóstolos, unidos aos bispos e presbíteros, assistidos pelo Espírito Santo, que resolveram a questão.
“Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do seguinte indispensável: que vos abstenhais das carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza. Dessas coisas fareis bem de vos guardar conscienciosamente. Adeus!” (Atos 15,28-29)
Da mesma maneira, e através dos diferentes Concílios Ecumênicos e definições magisteriais, a Igreja conseguiu erradicar os diversos erros ao longo da história e manter-se unida doutrinalmente. No entanto, graças à doutrina dos reformadores, nenhum crente tinha já de se submeter a essas decisões se considerasse que não estavam de acordo com a sua própria interpretação da Bíblia. Os dogmas passaram a ser relativos ao juízo de cada pessoa.
Embora esta abordagem tenha permitido aos reformadores usurpar a autoridade do Magistério, também concedeu a cada pessoa o mesmo direito. A grande contradição com o seu próprio princípio foi sofrida na própria pele quando, de forma alarmante e em número cada vez maior, surgiram dissidentes que divergiam deles em pontos que consideravam fundamentais (e em outros que não o eram tanto). Como demonstraremos mais adiante, quando os reformadores sentiram que a sua “Reforma” começava a fragmentar-se em seitas, deixaram de lado o princípio do juízo privado na prática e, na maioria dos países protestantes, a Sola Biblia transformou-se na Sola Biblia ao modo de Lutero, ao modo de Calvino, ao modo de Zwinglio, ou ao modo do reformador da vez[6] — pelo menos enquanto estes puderam manter o seu domínio. Hoje em dia existem mais de 30.000 denominações protestantes distintas, e o número continua a crescer diariamente.
Mas a doutrina da Sola Scriptura não só continha em si o germe da divisão, como também contradizia a própria Escritura. Isto porque, segundo esse princípio, se uma doutrina é verdadeira, deve ser provada pela Escritura e exclusivamente através dela. Se assim é, também a Sola Scriptura teria de ser provada desse modo, já que é igualmente uma doutrina. Contudo, na própria Escritura existe evidência suficiente para demonstrar que nem os Apóstolos nem a Igreja primitiva pensavam dessa maneira. É certo que consideravam a Escritura como norma de fé, mas não entendiam que absolutamente todos os ensinamentos da Igreja devessem estar nela contidos, e muito menos que cada crente pudesse, por iniciativa própria, definir o que era doutrina de fé para a Igreja.
“Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever.” (João 21,25)
Evidentemente, muitas coisas fez e ensinou Jesus aos seus Apóstolos que não ficaram escritas na Bíblia, assim como muitas explicações que incluíam a interpretação correta das próprias Escrituras[7]. O Apóstolo Paulo ordena examinar os ensinamentos recebidos dos Profetas e reter o que é bom (1 Tessalonicenses 5,21), e não rejeitar, de forma cega e irrefletida, tudo aquilo que se julgue não encontrar na Bíblia.
Argumentos geralmente utilizados pelos protestantes para justificar a Sola Scriptura
Há uma grande quantidade de textos que os protestantes costumam citar para tentar provar a Sola Scriptura, mas nenhum, no entanto, o consegue fazer com sucesso. Vejamo-los:
“Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.” (João 20,30-31)
A passagem anterior é utilizada com certa frequência para afirmar que, embora na Bíblia não esteja tudo, está tudo o que é necessário para a salvação.
Antes de tudo, é preciso notar que a passagem não fala da Bíblia, mas sim de “este livro” (o Evangelho de João), pelo que interpretar a passagem deste modo significaria deixar de fora ensinamentos do restante da Escritura, tão importantes como o Pai-Nosso (Mateus e Lucas), a infância de Jesus (Mateus e Lucas), a Última Ceia (Mateus, Marcos e Lucas), etc. Esta passagem não indica que apenas o que está ali nos sirva para elaborar tratados doutrinais sobre religião, nem para incluir a totalidade do ensinamento da doutrina cristã, mas apenas para mostrar aos judeus que Jesus é o Messias, como primeiro passo para a salvação.
Outra passagem muito utilizada para apoiar a Sola Scriptura é a seguinte:
“Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste. E desde a infância conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de te proporcionar a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra.” (2 Timóteo 3,14-17)
No entanto, não há forma de ler este texto de modo a que sirva para provar a Sola Scriptura. Dizer que algo é útil para determinada finalidade não significa que apenas isso seja útil para tal. Posso dizer que um martelo é uma ferramenta útil para um carpinteiro, e isso não significa que ele só possa servir-se dessa ferramenta para realizar o seu trabalho. Do mesmo modo, neste texto o Apóstolo não está afirmando que apenas a Escritura possa ser utilizada para ensinar, repreender, corrigir ou formar.
No início deste capítulo vimos vários textos que contradizem explicitamente a Sola Scriptura. O exemplo mais claro encontra-se em 2 Tessalonicenses 2,15, onde Paulo ordena conservar as tradições que recebemos deles, seja de viva voz ou por carta. Se Paulo tivesse pensado como pensam os defensores da Sola Scriptura, teria limitado a sua ordem àquelas tradições recebidas por escrito, mas não o faz.
É também importante notar que São Paulo se refere aqui às Escrituras que Timóteo tinha aprendido na sua infância. Uma boa parte do Novo Testamento não tinha sido escrita durante a sua infância, e até algumas das Epístolas Católicas ainda não existiam quando ele escreveu isto. Portanto, refere-se às Escrituras do Antigo Testamento e, se o argumento desta passagem provasse alguma coisa, provaria até demais, a saber, que as Escrituras do Novo Testamento não seriam necessárias para a regra de fé.
Um texto também frequentemente citado pelos defensores da Sola Scriptura é este:
“Se apliquei tudo isso a mim e a Apolo foi por vossa causa, para que, por meio de nós, aprendais a não ultrapassar o que está escrito e para que vos não ensoberbeçais tomando partido a favor de um e com prejuízo de outrem.” (1 Coríntios 4,6)
Mas basta ler o contexto para entender que toda a passagem é uma exortação ética para evitar o orgulho, a arrogância e o favoritismo, mas em nenhum momento implica que apenas o ensinamento escrito seja uma espécie de padrão global pelo qual nos devamos reger exclusivamente, desprezando a Tradição ou o ensinamento oral. Recordemos que, se a interpretação desta passagem fosse como a querem fazer crer, estaríamos novamente perante uma doutrina baseada apenas no Antigo Testamento.
Argumentos menos sérios para apoiar a Sola Scriptura consistem em citar passagens dos Evangelhos em que Jesus, ao ser interrogado pelos seus inimigos sobre algum ponto da doutrina, responde centrando a atenção numa passagem do Antigo Testamento (um exemplo disto encontra-se em Lucas 4,1-12). Este tipo de versículos pode ser usado validamente para provar que o Antigo Testamento tem autoridade doutrinal, mas não pode ser usado para provar a Sola Scriptura.
Quando Jesus cita o Antigo Testamento para provar uma doutrina, mostra apenas que considerou que essa doutrina podia ser provada por alguma passagem em particular. É óbvio que não acreditava que toda a doutrina pudesse ser provada pelo Antigo Testamento e, por isso, não é surpreendente ver que Jesus também responde aos seus opositores apelando à sua própria autoridade ou a outras fontes fora da Escritura:
“Respondeu-lhes: ‘Sois também vós assim ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro, porque não lhe entra no coração, mas vai ao ventre e dali segue sua Lei natural?’. Assim ele declarava puros todos os alimentos.” (Marcos 7,18-19)
Este é apenas um de muitos exemplos em que Jesus também ensina coisas com a sua própria autoridade, e coisas que não estavam escritas nem reveladas ainda. Outro texto bíblico utilizado pelos defensores da Sola Scriptura é este:
“Eu declaro a todos aqueles que ouvirem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhes ajuntar alguma coisa, Deus ajuntará sobre ele as pragas descritas neste livro; e, se alguém dele tirar qualquer coisa, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa, descritas neste livro.” (Apocalipse 22,18-19)
Esta passagem é frequentemente interpretada por protestantes para dar a entender que não se deve acrescentar nada ao ensino da Bíblia. Mas este texto refere-se apenas àqueles que alterarem ou adulterarem o texto do livro do Apocalipse. Quando um autor bíblico quer fazer referência a um livro em particular, refere-se a ele como João faz aqui, ou como faz em João 20,30. É também importante reconhecer a diferença que a Bíblia faz entre o termo “Escritura”, no singular[8], para se referir a um livro em particular, e o termo “Escrituras”, no plural[9], para se referir à totalidade das Escrituras. Naturalmente, o texto não pretende, em momento algum, negar à Igreja a potestade de definir verdades de fé fruto da reflexão sobre o dado revelado.
Scott Hahn, antigo ministro evangélico e autor do livro “Roma, Doce Lar”, narra a seguinte anedota:
“Um aluno fez ao professor Scott Hahn uma pergunta embaraçosa que ele nunca tinha ouvido: ‘Onde ensina a Bíblia que a Escritura é a nossa única autoridade em matéria de fé?’ Scott deu uma resposta fraca que não deixou satisfeito o aluno e depois mudou de tema. Vejamos o que aconteceu depois:
‘Enquanto voltava para casa naquela noite, olhei as estrelas e murmurei: “Senhor, o que está acontecendo? Onde ensina a Escritura Sola Scriptura?”
Eram duas as colunas sobre as quais os protestantes baseavam a sua revolução contra Roma. Uma já tinha caído e a outra estava balançando. Senti medo.
Estudei durante toda a semana sem chegar a nenhuma conclusão. Liguei até a vários amigos, mas não fiz nenhum progresso. Finalmente falei com dois dos melhores teólogos da América e também com alguns dos meus ex-professores. Todos aqueles a quem consultava se surpreendiam de que eu lhes fizesse essa pergunta e se sentiam ainda mais perturbados quando eu não ficava satisfeito com as suas respostas. A um professor eu disse:
‘Talvez sofra de amnésia, mas esqueci-me das simples razões pelas quais os protestantes acreditamos que a Bíblia é a nossa única autoridade.’
‘Scott, que pergunta tão tola.’
‘Pois dê-me uma resposta tola.’
‘Scott’, replicou ele, ‘na realidade tu não podes provar a doutrina da Sola Scriptura com a Escritura. A Bíblia não ensina explicitamente que ela seja a única autoridade para os cristãos. Em outras palavras, Scott, Sola Scriptura é em essência a crença histórica dos reformadores, frente à pretensão católica de que a autoridade está na Escritura e, além disso, na Igreja e na Tradição. Para nós, portanto, esta é apenas uma pressuposição teológica, o nosso ponto de partida, mais do que uma conclusão demonstrada. […]
‘Scott, olha o que ensina a Igreja católica. É óbvio que a Tradição está errada.’
‘Obviamente está errada’, concordei eu. ‘Mas onde se condena o conceito de Tradição? E, por outro lado, o que quis dizer Paulo quando pedia aos Tessalonicenses que se ajustassem à Tradição tanto escrita quanto oral?’ continuei pressionando. ‘Não é irônico? Nós insistimos em que os cristãos só podem acreditar no que a Bíblia ensina; mas a própria Bíblia não ensina que ela seja a nossa única autoridade.’”[10]
Conclusão
A Revelação do Evangelho, que recebemos do nosso Senhor Jesus Cristo, está contida tanto na Sagrada Escritura (palavra de Deus escrita) como na Sagrada Tradição (palavra de Deus oral). Ambas se complementam e não podem contradizer-se.
É também necessário assinalar que a Sagrada Tradição de que aqui falamos é a que vem dos Apóstolos e transmite aquilo que estes receberam dos ensinamentos e do exemplo de Jesus, bem como o que aprenderam pelo Espírito Santo. Com efeito, a primeira geração de cristãos ainda não possuía um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento atesta o processo da Tradição viva. Por isso, é preciso distingui-la das “tradições” teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais surgidas ao longo do tempo nas Igrejas locais. Estas constituem formas particulares sob as quais a grande Tradição recebe expressões adaptadas aos diversos lugares e às diferentes épocas. Apenas à luz da grande Tradição aquelas podem ser mantidas, modificadas ou até abandonadas, sob a orientação do Magistério da Igreja.
O paradoxo da questão é que aqueles que afirmam reger-se apenas pela Bíblia acabam, na prática, por obedecer a tudo menos ao que a Bíblia realmente diz. A negação da presença de Cristo na Eucaristia, da Trindade, da imortalidade da alma, do sacramento da penitência, da maternidade divina de Maria e de muitas outras doutrinas firmemente atestadas pela Escritura é feita precisamente por denominações que sustentam a Sola Scriptura como única norma de fé. Assim, esta acaba por ser apenas uma desculpa para interpretar a Bíblia segundo critérios próprios e transformar a fé numa espécie de “cristianismo de cafeteria”, onde cada um acredita apenas no que quer acreditar.
Notas
- Em Mateus 15,1-9 também é narrado o mesmo acontecimento. ↩
- Por exemplo, a Reina Valera nas suas distintas versões. ↩
- Nota da edição brasileira: também algumas versões católicas traduzem “paradosis” segundo o sentido em alguns desses passos — a Bíblia Ave-Maria, por exemplo, traz “instruções” em 1 Coríntios 11,2 e “ensinamentos” em 2 Tessalonicenses 2,15, embora mantenha “tradição” em 2 Tessalonicenses 3,6, onde o termo grego é o mesmo. Não há aí intenção doutrinária; a crítica deste capítulo refere-se à tradução seletiva e sistemática que associa “tradição” apenas a tradições humanas. ↩
- A imprensa foi inventada por volta de 1440 por Johannes Gutenberg. ↩
- O conflito judaizante. ↩
- Neste contexto surgem as inquisições protestantes. ↩
- Veja, por exemplo, Lucas 24,27, onde Jesus explica aos seus discípulos detalhadamente o cumprimento n’Ele das profecias do Antigo Testamento. ↩
- Atos 1,16; 1 Coríntios 1,19.31; 2,9; Gálatas 3,8.10.13; 4,22.27.30; Hebreus 11,5; 2 Timóteo 3,16, entre muitos outros ↩
- Atos 13,27; 17,2.11; 18,24.28; 1 Coríntios 15,3.4; 2 Pedro 3,16 ↩
- Traduzido de Scott e Kimberly Hahn, Roma, dulce hogar. Nuestro camino al catolicismo, Ediciones Rialp, Madrid 2001, p. 69-70. ↩