1. Com o auxílio do que foi dito nas páginas precedentes, convém procurar ler, interpretar alguns textos de São Paulo referentes particularmente à predestinação.
Estas questões da graça são muito misteriosas, muito profundas. Se esquecêssemos, quando delas se trata, que Deus é um Deus de amor, se falássemos delas sem situá-las nesse ambiente da bondade divina que resguarda os corações, poderíamos dizer coisas que parecessem, teologicamente —digamos antes, verbalmente, literalmente— exatas, mas que seriam na realidade desfiguradas, mentirosas, capazes de extraviar. Na verdade, somente os grandes santos, os grandes enamorados de Deus, podem falar dessas coisas sem alterá-las.
Recordemos desde já que na palavra predestinação, como na palavra presciência, o prefixo “pré” significa uma anterioridade de dignidade e de excelência, não uma anterioridade cronológica que faria pensar num cenário preparado de antemão. A predestinação é uma atribuição de amor vinda do alto; é uma suprema destinação divina em vias de realização; é uma suprema cortesia do Amor, não recusada, mas acolhida e depois cumprida.
2. A doutrina da predestinação é uma doutrina escriturística, revelada. Devemos acatá-la sem dúvida alguma. Mas como entendê-la? De uma maneira católica, ou de uma maneira luterana ou calvinista, que é uma aberração e sobre a qual voltaremos?
A palavra predestinação é de São Paulo. Ele escreve no capítulo I, 3 da Epístola aos Efésios: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que em Cristo nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais nos céus; porquanto nele nos elegeu antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele, e nos predestinou no amor para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade.”
Pouco depois, no capítulo II, 4, lê-se: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos por nossos pecados, deu-nos a vida com Cristo —é pela graça que fostes salvos— e com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros a superabundante riqueza de sua graça, pela bondade que nos testemunhou em Cristo Jesus.” O apóstolo vê ali, por antecipação, os eleitos reunidos nos céus ao redor de Cristo, que dirão: Graças te damos, ó Deus, por nos haveres predestinado, prevenidos por vosso amor. O “sim” supremo que pronunciei —sois vós quem nos moveu a dizê-lo. A vós seja dada a glória!
A palavra predestinação já se encontrava na Epístola aos Romanos: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm VIII, 30). Também aqui o apóstolo vê por antecipação os eleitos reunidos nos céus e considera como Deus os conduziu até lá: primeiramente os chamou e os preveniu com graças que eles poderiam ter rejeitado, ainda que estas pudessem ter sido invencíveis; se as acolheram, é por uma moção divina, porque os nossos “sins” nos vêm sempre de Deus: “A tua perda vem de ti, ó Israel; só de mim vem o teu socorro.” Não tendo rejeitado esse primeiro chamado, passaram à justificação por uma nova moção divina; e aqueles, enfim, a quem justificou, Deus os introduz nos céus: esta é a suprema deferência pela qual Deus permite que morramos em seu amor.
3. Quando voltardes a ler estes textos, não vos sentireis perturbados se os situardes na perspectiva que vos indico. Lembrar-vos-eis de que, se alguém não está predestinado, é porque disse não —e não somente por uma única recusa, como os anjos caídos—, pois a graça divina visita repetidamente e até força os nossos corações. Quantas vezes? Os Apóstolos perguntaram um dia a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, se ele pecar contra mim? Até sete vezes?” Responde-lhes Jesus: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt XVIII, 21-22). Eis o que Jesus espera dos homens, por mais miseráveis e rebeldes à misericórdia que sejam. Em outro discurso dirá Jesus: “Quem dentre vós, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas coisas aos que lhas pedirem!” (Mt VII, 9-11; cf. Lc XI, 11-13). Então Deus também me perdoará setenta vezes sete; voltará a bater à porta de minha alma. Contudo, se eu quiser recusar, posso fazê-lo; tenho a faculdade terrível de dizer não a Deus, de dizer um não definitivo que fixará o meu destino para a eternidade. Posso dizer-lhe: não quero saber nada do teu amor; quero continuar a ser eu mesmo; ser eu mesmo não em vós, mas contra vós; ser para sempre como um espinho em vosso Coração. Eis a pavorosa recusa do inferno.
O que talvez pudesse ser aqui causa de confusão é a parábola tão comovedora de Lázaro e do mau rico (Lc XVI, 19), na qual se vê o mau rico suplicar: Pai Abraão, permite que Lázaro vá advertir meus irmãos, para que mudem de vida! Mas Abraão responde: Têm Moisés e os profetas; que os ouçam. Se não os ouvem, ainda que alguém ressuscite dentre os mortos, tampouco o ouvirão. A intenção da parábola, como vedes, é ensinar que é preciso ouvir agora, enquanto é tempo; depois já será tarde. Mas alguém se enganaria pensando que no inferno têm os condenados os sentimentos de caridade que a parábola atribui ao mau rico. Se um condenado pudesse dizer: “Ó Senhor, permite-me ir anunciar aos demais o que é o teu amor, a fim de que não se condenem como eu”, introduziria o amor no inferno, e o inferno seria destruído. (É preciso sempre discernir a intenção com que se diz uma parábola —intenção que o evangelista assinala—, sem a qual ficaria desnaturalizada e correria o risco de extraviar. Recorde-se a parábola do administrador infiel, com a qual tantos cristãos pouco inteligentes se escandalizam.)
Assim, pois, se alguém não se encontra entre os predestinados, será por alguma recusa da qual é o autor, e não deixará de ser responsável. Persistirá em sua recusa, em seu ódio —e isso mesmo constituirá o seu tormento—, mas sem desaprovar a sua primeira escolha. São Tomás dá-nos uma comparação: suponde um homem que odeia o seu inimigo. Desejaria matá-lo: Se o encontro, pensa ele, hei de matá-lo. Mas depara com um impedimento; talvez esteja na prisão. Ah, dirá consigo, quando sair da prisão! Vive e alimenta-se do seu ódio. Dir-se-lhe-á: Não vês que o teu ódio te faz desgraçado? É verdade, responderá ele, mas ainda assim quero vingar-me. Bem sabemos todos, aliás, que nos é possível manter em nós sentimentos que nos torturam. Pois bem, esse exemplo é apenas uma imagem do que será a recusa perpétua dos condenados —recusa que é causa de não se encontrarem entre os predestinados. Eis aí a doutrina católica.
O que dissemos acima sobre a presciência divina permite-nos precisar melhor esta doutrina. Não digamos nós: “Deus não predestina, Deus abandona, Deus reprova aqueles que sabe de antemão que recusarão ou recusariam as suas atenções.” O que dizemos é: “Deus não predestina, Deus abandona, Deus reprova aqueles que vê, de toda a eternidade, tomar por si mesmos a primeira iniciativa da recusa definitiva de suas atenções.” Ele leva em conta, desde sempre, a livre recusa deles, para estabelecer o seu plano imutável e eterno.
4. A doutrina errônea exposta por Lutero e por Calvino em sua Instituição cristã diz que, assim como alguns estão predestinados para o céu, outros o estão para o inferno, do qual jamais escaparão. É a tese da dupla predestinação: uma para o céu, que é certa, sob a condição de que não seja entendida como Lutero e Calvino a entendem (para os quais, como vimos, a boa ação vem unicamente de Deus e não de Deus através do homem); a outra para o inferno. Como vedes, há um duplo erro: falseia-se a predestinação para o céu e introduz-se essa noção de predestinação para o inferno, que é a pior aberração. Os protestantes atuais, aliás, já não defendem Calvino neste ponto; Karl Barth declara francamente que não pode encontrar em São Paulo essa predestinação para o inferno. (Contudo, do ponto de vista doutrinal, alguns críticos viram na tese da dupla predestinação a pedra angular da Instituição cristã.)
5. Vamos examinar em seguida alguns textos que, mal lidos, podem ser interpretados à maneira de Calvino —particularmente no capítulo IX da Epístola aos Romanos. Escolho de propósito esses pontos nevrálgicos para vos mostrar o modo de esclarecê-los. Mas será que se deve, verdadeiramente, tratar dessas questões? Não é imprudente fazê-lo?
Creio que se deve proceder de modo diferente conforme os casos: encontro-me diante de uma pessoa a quem atormenta o problema da predestinação. Pergunta ela a si mesma: Salvar-me-ei? Se estou predestinado, estou seguro, faça o que fizer, da minha salvação; e, se não estou, todo o bem que eu possa fazer será inútil. Que responderei eu a tais dificuldades? Meu papel consistirá, antes de tudo, em adivinhar o sentido da pergunta. Trata-se, talvez, de uma questão especulativa, de uma questão de verdade revelada, de Teologia. Nesse caso, minha resposta será sem dúvida um mistério, mas não uma contradição. Já sabeis que o mistério é adorável; é a noite de Deus, da qual se nutrem o metafísico, o teólogo, o santo; ao passo que a contradição, pelo contrário, é odiosa; é a noite da incoerência e do mal. Mas poderá ser uma questão atormentadora, a pergunta de uma alma que passa por uma prova interior à qual Deus quer pregá-la na cruz. Então não tentarei dar explicações. Estariam fora de lugar. Direi: Suporta por ora essa prova, carrega-a na noite fazendo grandes atos de fé, e algo muito misterioso vai operar-se em ti. Depois, um dia, quando se houver cumprido o que Deus buscava ao trabalhar a tua alma, virás a mim e voltaremos a falar do assunto, e a resposta que eu te der manifestar-se-á a ti em sua verdade. Mas, por ora, estás abatido; é que Deus exige de ti um ato de abandono total. Não procures eludi-lo. Se eu começasse a argumentar contigo, trairia o meu papel de “anjo” encarregado de assistir-te, de mostrar-te o caminho.
O que dizemos agora a propósito da predestinação pode valer em outras circunstâncias. Se se apresenta um problema especulativo, esforçai-vos por esclarecê-lo. Podereis nem sempre ter respostas para tudo, mas a Igreja as tem, e podereis informar-vos. Mas há também o plano da conduta de Deus a respeito das almas. Penso em determinada pessoa para a qual a pedra de tropeço era o sofrimento dos animais. Nenhuma das respostas que se tratava de lhe dar a satisfazia. Não estava em condições de compreendê-las. Não lhe restava senão levar essa inquietação como uma cruz. E era isso precisamente o que sem dúvida Deus esperava dela. Para a questão da predestinação, os santos souberam encontrar respostas que resolvem o problema, não teoricamente, mas concretamente, na noite do amor. Por exemplo: “Senhor, se a vossa justiça deve condenar-me um dia, desejo ser condenado, porque sei que ela é adorável.” Ou: “Senhor, se eu não devesse amar-vos mais tarde na eternidade, ao menos que eu vos ame aqui, durante o tempo presente.” Ou: “Ó meu Deus, tu sabes que não posso suportar o inferno; e sei que não sou digno do Paraíso. Que estratagema empregarei? O teu perdão!” É assim que Deus os tranquiliza. O demônio dizia a Santa Teresa: “Para que tomas tanto trabalho? A sorte está lançada!” Como mulher de espírito, ela respondeu: “Pois não valia a pena que te incomodasses para mo dizer.” Compreendeu então o demônio: também ele tinha espírito.
6. Venhamos agora ao tema da rejeição dos judeus, tal como está tratado na Epístola aos Romanos, capítulos IX e XI. “Porque a salvação vem dos judeus”, dissera Jesus à samaritana. Deus havia preparado esse povo —privilegiado entre todos os povos do mundo— como um berço para a Encarnação. Os privilégios, já o disse, não são o principal. O principal é o amor que Deus dispensa a todos por causa da morte de Cristo na cruz, e que cada um é livre de acolher ou de rejeitar. Mas, enfim, a salvação messiânica, a honra de anunciar e de receber o Messias, foi oferecida primeiramente aos judeus. E eis que, quando o Messias vem, os judeus em seu conjunto o desconhecem, passam ao largo. Que fará Deus? Poderia dizer: Não aceitaram as minhas atenções? Reservá-las-ei para mim. Mas Deus nunca faz isso. Quando o dom de seu amor é recusado por uma alma ou por um povo, transfere-o a outras almas ou a outros povos. Não fecha as portas do banquete: em lugar dos primeiros convidados, manda buscar os pobres, os aleijados, os cegos (Lc XIV, 21). Em lugar dos judeus, chama-se a imensidade dos gentios. Assim a culpa dos judeus converte-se na salvação dos gentios. “Por sua queda veio a salvação aos gentios…, a sua diminuição é a riqueza dos gentios” (Rm XI, 11-12). E quando os gentios que acolheram essa luz começarem a esfriar, Deus fará que voltem os judeus. A massa de Israel —o que não quer dizer todos os judeus, mas o conjunto dos judeus—, cheia de inveja ao ver que outros povos lhe foram preferidos, entrará enfim na Igreja. E as conversões do judaísmo, que no decurso dos tempos têm lugar constantemente, mostram o caminho pelo qual, um dia, chegará a multidão dos judeus. “Não quero, irmãos, que ignoreis este mistério, para que não vos tenhais por sábios a vós mesmos: o endurecimento de uma parte de Israel durará até que tenha entrado a totalidade das nações; e assim todo o Israel será salvo” (Rm XI, 25-26). É então que o apóstolo exclama: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos!” (Rm XI, 33).
7. São Paulo aflige-se, contudo, de que Israel haja em seu conjunto recusado esse Messias nascido em seu seio: “Sinto uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração; pois desejaria ser eu mesmo anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus parentes segundo a carne, os israelitas, aos quais pertencem a adoção, e a glória, e as alianças, e a legislação, e o culto, e as promessas; deles são os patriarcas, e deles procede, segundo a carne, Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém” (IX, 2-5).
Mas então, pergunta o Apóstolo, terá Deus faltado à sua palavra, visto que havia prometido a Abraão toda uma descendência? Não; pois a Igreja, em sua origem, era inteiramente composta de judeus, com a Virgem, e Simeão, e Ana, e os apóstolos, e nunca será tão bela como o foi naqueles momentos. A promessa de Deus não falhou, porque houve um “resto” —é a palavra técnica— que permaneceu fiel quando a massa se extraviou.
E Paulo explica aqui (Rm IX, 6-8) que os que são da posteridade de Abraão não são todos filhos de Abraão. Há o Israel da carne (são os que descendem por via de geração de Abraão) e depois o Israel da Promessa, que são aqueles que, entre os descendentes de Abraão, têm o espírito de Abraão. E há os gentios, aos quais a graça será oferecida e que se unirão a estes últimos; fazem parte do Israel da Promessa, do Israel do espírito —não por via de geração e de descendência carnal, mas por via da geração espiritual dada no batismo.
8. Chegamos agora à passagem capital. São Paulo começa por dizer: Podem-se fazer censuras a Deus por ir escolher outro povo em lugar daquele que primeiramente escolhera e que não aceitou o seu dom? Não, declara o Apóstolo, porque Deus, sem injustiça, escolhe a quem lhe apraz e rejeita a quem lhe apraz. Para entender o sentido de sua resposta, quisera eu fazer uma distinção; virá a ser a chave desse capítulo IX.
Há duas espécies de vocações, de destinações, de chamados: vocações referentes ao tempo presente e que poderíamos chamar temporais, nas quais a escolha de Deus é completamente livre; e vocações de destinação referentes à vida eterna, nas quais Deus não é livre de dar ou de deixar de dar a graça que, se não for rejeitada, nos conduzirá até a Pátria: Deus não é livre porque está ligado por seu amor.
Então, prosseguindo essa distinção, censurarei a Deus por não me haver feito poeta como Dante, ou por não me haver dado o gênio de Pascal? Por me haver feito nascer em tal povo ou em tal época da história? Em tal meio social, com tal compleição, em tal estado de saúde? Por não me haver dado, como aos Apóstolos, a graça de predizer o porvir ou de fazer milagres? Ele é completamente livre; não tem por que prestar contas. Mas, se se trata da vida eterna, então não, Deus não é livre; deve dar-me graças tais que, se eu perdesse a minha salvação, fosse por minha culpa. Bem vedes a diferença. Se sou vítima de um acidente, se morro quando julgava ter ainda direito à vida, não poderei dizer a Deus: isso não é justo. A esse respeito declarará São Paulo: Se o oleiro faz um vaso vulgar e um vaso esplêndido, poderá o vaso vulgar apresentar uma reclamação ao oleiro? Se convém que haja utensílios vulgares e também obras de arte, que quereis que diga o barro? O mesmo se dará com as vocações temporais dos diversos povos, e também com a sua “vocação profética”: Por que foi Israel o depositário da mensagem que anunciava o Messias? Por que ele e não os outros povos? Sobre isto nada há a dizer.
É, pois, Israel somente quem recebeu a vocação profética referente ao Messias. Quer isto dizer que os outros povos foram abandonados por Deus? Não; Deus enviava-lhes graças secretas, não para que fossem portadores da mensagem messiânica, mas para orientá-los à salvação eterna, com relação à qual nenhuma alma em nenhum povo era esquecida. Há, pois, como vedes, dois registros, dois planos. Num plano —o dos dons e destinações temporais, e também o das graças carismáticas—, Deus é completamente livre: escolhe a quem lhe apraz e rejeita a quem lhe apraz, sem que nele haja injustiça. No outro plano —o das graças de salvação—, Deus é sem dúvida livre de dar a seus filhos graças diversas e desiguais: dois talentos a um, cinco a outro (parábola dos talentos); mas não é livre de privar nenhuma alma do que lhe é necessário: está obrigado por sua justiça e por seu amor a dar a cada uma delas aquelas graças que, se não forem recusadas, as conduzirão até o limiar da Pátria.
9. Creio ter-vos dado a distinção que permite entender o capítulo IX. Leiamo-lo primeiro segundo o plano das vocações concernentes ao tempo presente e aos dons carismáticos. É o plano a que São Paulo se refere primeiramente. “E não é que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que descendem de Israel são Israel, nem todos os descendentes de Abraão são seus filhos; mas: Por Isaac será chamada a tua descendência. Isto é: não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são reputados descendência. Os termos da promessa são estes: Por este tempo virei, e Sara terá um filho” (Rm IX, 6-9). Abraão tinha um filho de Agar, a serva, enquanto Sara, sua mulher, continuava estéril. Mas o anjo vem e anuncia: Sara terá um filho no ano próximo. Temos, a partir de então, dois filhos: Ismael, o filho da carne, e Isaac, o filho da promessa. A quem irá a descendência? Será a Ismael, de quem o Islã crê descender? Não, mas a Isaac, o filho da promessa. Por ele se transmitirá a mensagem profética. Isso não significa que Ismael seja rejeitado por Deus quanto às coisas da salvação eterna, mas que não é escolhido para porta-voz da mensagem profética.
Mais tarde dá-se uma nova disjunção: Rebeca concebeu dois filhos de Isaac, nosso pai. Eram gêmeos: Esaú e Jacó. Qual dos dois será o portador da promessa profética? Também nisto Deus é inteiramente livre: “Pois bem, quando ainda não haviam nascido, nem haviam feito ainda bem nem mal —para que o desígnio de Deus, conforme a eleição, não pelas obras, mas por aquele que chama, prevalecesse—, foi-lhe dito: O mais velho servirá ao mais moço, segundo o que está escrito: Amei Jacó mais que Esaú” (IX, 10-13). “Amei Jacó”, como portador da promessa; “mais que Esaú”, a quem deixei de lado, não quanto à vida eterna, mas quanto à promessa. “Que diremos, pois? Haverá injustiça em Deus? Não; pois a Moisés disse ele: Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e usarei de compaixão para com quem eu tiver compaixão. Portanto, isto não depende do que quer nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia. Porque diz a Escritura ao Faraó: Precisamente para isto te suscitei: para mostrar em ti o meu poder e para dar a conhecer o meu nome em toda a terra” (IX, 14-18).
Como compreender esta passagem? Moisés é enviado por Deus ao Faraó para dizer-lhe: Deixa partir o meu povo. Mas o Faraó não quer compreender. Se tivesse sido mais inteligente, teria respondido: Parte com o teu povo. Nesse caso, teria entrado nos desígnios de Deus; teria participado, em certa medida, na vocação do povo portador da promessa. Mas, contrariando a sua vontade, Israel partirá, e ele enviará as suas tropas em sua perseguição. O Faraó engana-se quanto ao plano da grande política: o seu erro não exige necessariamente que seja condenado, mas a glória de Deus manifestar-se-á apesar dele; Moisés e o seu povo passarão o mar no qual os exércitos do Faraó perecerão.
Prossigo lendo, sempre no primeiro plano: “Assim, pois, tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer” (IX, 18). Isto é, abandona à incompreensão a quem lhe apraz. O Faraó engana-se no plano da grande política. Ciro, ao contrário, será mais clarividente: libertará Israel do cativeiro e o devolverá aos seus lares para a reconstrução do Templo; fará a política de Deus. Por isso é louvado na Escritura.
“Mas dir-me-ás: Então, por que ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade? Ó homem, quem és tu para pedir contas a Deus? Acaso diz o vaso ao oleiro: Por que me fizeste assim? Ou não pode o oleiro fazer, da mesma massa de barro, um vaso para uso honroso e um vaso para uso vil? Ora, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, maduros para a perdição, e, ao contrário, quis manifestar a riqueza da sua glória sobre os vasos de sua misericórdia, que ele preparou para a glória” (IX, 19-23).
“Para mostrar a sua ira” quer dizer: deixar de lado. A mensagem passará por outro canal, como diz em Oseias: Ao que não é meu povo chamarei meu povo, e à que não é minha amada, minha amada. E onde lhes foi dito: “Vós não sois meu povo”, ali serão chamados filhos do Deus vivo. E Isaías clama a respeito de Israel: “Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, apenas um resto será salvo; porque o Senhor executará sobre a terra um juízo consumado e decisivo” (IX, 25-28).
10. Lemos esses textos segundo o plano das vocações referentes ao tempo presente. Ensaiemos agora considerar certas passagens segundo o plano da vocação referente à salvação na vida eterna. Não é este o plano a que São Paulo se refere diretamente, mas pode às vezes estar subjacente ao seu pensamento.
Comecemos pelo texto: “Amei Jacó mais que Esaú” (IX, 13). Se o seu significado fosse: amei a pessoa de Jacó e dei-lhe a salvação eterna; odiei a pessoa de Esaú e dei-lhe a reprovação eterna —diríamos: desde toda a eternidade sabe Deus que dele procede a iniciativa suprema do último ato de amor de Jacó; Jacó salva-se pela bondade divina. Desde toda a eternidade Deus vê que a primeira iniciativa da rejeição de Esaú procede de Esaú; Esaú é condenado como consequência dessa livre rejeição, apesar das atenções da bondade divina e por haver aniquilado essas atenções. É preciso distinguir claramente a maneira pela qual Jacó é salvo (é pela bondade divina) e a maneira pela qual Esaú é rejeitado (é pela sua má vontade). Não fazer essa distinção —dizer que Deus tem a primeira iniciativa da perda de Esaú como tem a primeira iniciativa da salvação de Jacó, que Deus é a causa da perda de Esaú como é a causa da salvação de Jacó— é a aberração de Calvino.
Segundo texto: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e usarei de compaixão para com quem eu tiver compaixão” (IX, 15). Vede aqui, no plano da vocação à salvação, a lição católica: Suponhamos um homem a quem Deus preveniu com o seu amor e que peca, recusa livremente esse amor, saqueia em si a graça. Deus pode dizer-lhe: “De ora em diante abandono-te ao teu pecado” —é justo ou não é justo? Responderá: É justo. Mas Deus pode dizer: “Em justiça, deveria abandonar-te, como faço com outros; contudo, ainda esta vez, por pura misericórdia, por pura compaixão, volto a buscar-te.” Vejamos agora a lição calvinista: O pecado original destruiu o nosso livre-arbítrio. Deus escolhe alguns de nós para salvá-los; tem compaixão de quem tem compaixão. Os demais estão predestinados para o inferno. E, se protestais dizendo que é iníquo que homens privados de liberdade sejam lançados no inferno, Calvino enfrentar-vos-á e responder-vos-á que, uma vez que Deus o faz, não é uma iniquidade, mas um mistério que se deve adorar.
Terceiro texto: “Porque diz a Escritura ao Faraó: Precisamente para isto te suscitei: para mostrar em ti o meu poder e para dar a conhecer o meu nome em toda a terra. Assim, pois, tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer” (IX, 17-18). No plano da salvação eterna, endurecer alguém quer dizer, segundo a lição católica: deixar que se desenvolvam as consequências dos atos que ele voluntariamente realizou. Cometi tal pecado que normalmente engendra tal ou tal outro; se Deus não intervém por pura misericórdia para romper esse encadeamento de meus pecados, se me abandona à minha própria lógica, dir-se-á que me endureci; descerei livremente a encosta que vai de pecado em pecado. É neste sentido que foi endurecido o Faraó? Foi ele pessoalmente condenado? Como o saberemos? Na lição calvinista, endurecer quer dizer precipitar cada vez mais no pecado por uma ação punitiva voluntária de Deus.
Quarto texto: “Mas dir-me-ás: Então, por que ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade? Ó homem! Quem és tu para pedir contas a Deus? Acaso diz o vaso ao oleiro: Por que me fizeste assim? Ou não pode o oleiro fazer, da mesma massa de barro, um vaso para uso honroso e um vaso para uso vil?” (IX, 19-21). Segundo a lição católica, Deus está obrigado a dar a graça a todos, mas não está obrigado à igualdade das graças. Dá a seus servos um, dois ou cinco talentos, a cada um segundo a sua capacidade (Mt XXV, 15); e esta diversidade contribuirá para o esplendor do paraíso. Mas está obrigado por seu amor a dar a cada um de nós graças tais que, se não entrarmos na Pátria, nos reconheçamos como os únicos responsáveis.
Quinto texto: “Ora, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, maduros para a perdição, e, ao contrário, quis manifestar a riqueza da sua glória sobre os vasos de sua misericórdia, que ele preparou para a glória” (IX, 22-23). Deus pode abandonar o pecador em seu pecado e na dialética de seu pecado: nesse caso suporta “com muita longanimidade os vasos de ira, maduros para a perdição”. Por que os suporta? Talvez, na última hora, venha mais uma vez visitá-los em sua bondade. Mas Deus pode também tirar imediatamente o pecador de seu pecado; e, nesse caso, manifestará “a riqueza da sua glória sobre os vasos de sua misericórdia”. Pedro e Judas renegam a Jesus; Jesus podia abandonar em seu pecado tanto um como o outro; seria justo. Olha para Pedro; esse olhar comove a Pedro: eis a misericórdia.
Segundo a lição calvinista, Deus suporta com uma grande paciência os vasos de ira destinados à perdição, como o faz com os vasos destinados à glória. É a perspectiva da dupla predestinação.
11. A ideia da predestinação não deve jamais conduzir ao fatalismo, nem fazer-nos dizer: Para quê? Tudo é inútil? Enganar-vos-íeis, então, quanto à fé e quanto à Teologia. Que pensar do camponês que dissesse: Deus sabe de antemão se eu colherei no verão próximo; para que, pois, semear no outono? Responder-lhe-íamos: sem dúvida Deus vê de toda a eternidade se colherás ou não, assim como vê de toda a eternidade que Maria Madalena entrará nos céus, porque de toda a eternidade vê que ela se converterá. E, quando se trata da nossa rejeição, leva-a em conta desde toda a eternidade ao estabelecer o seu plano invariável.
Mas o pensamento da predestinação pode chegar a ser uma tentação de desespero que o demônio tentará introduzir em nós. Se Deus permite esta tentação, não será para que caiamos nela, mas para que façamos grandes atos de esperança na noite. A todas as almas, em todos os momentos, podem apresentar-se tentações sobre um ponto de fé —ou de esperança, por exemplo, o que diz: creio na vida bem-aventurada para os outros, mas não para mim, que sou pecador demais—, ou ainda sobre o ponto do amor. Os grandes místicos, São João da Cruz, Maria da Encarnação, são os que melhor falaram destas provações. Se encontrássemos almas assim tentadas, conviria responder-lhes simplesmente: Deus está dentro do vosso coração e cava misteriosamente o seu sulco. Isto vos põe em agonia, mas algo profundo se prepara, e os atos de fé e de esperança que assim fazeis na noite são talvez os mais preciosos da vossa vida. No céu sereis “consolados eternamente, porque aqui embaixo fostes desolados inconsolavelmente”.
Nihil Obstat: Dr. Antonio Zaldúa Uriarte
Imprimatur: Bilbao, 14 de setembro de 1962. PABLO, Bispo de Bilbao
Fonte: Palestras sobre a graça, pelo Cardeal Charles Journet