Ok, sim, agora, eu estava errado, dizendo que o post anterior mal teria leitores.
O senhor, para não ficar caladinho, diz qualquer coisa. E então o que acontece acontece.
Das preMissas doutrinárias já expostas nos artigos anteriores, tirarei agora consequências concretas para a vida espiritual.
O que devo fazer, Senhor? A perfeição cristã, a santidade, está na total fidelidade à graça de Cristo. E na medida em que amamos a Cristo, nessa medida recebemos docilmente a sua graça. Em outras palavras: quem faz a sua vontade ama o Senhor.
Amar o Senhor não é sentir por Ele isto ou aquilo, mas fazer fielmente a Sua vontade: “se me amais, guardareis os meus mandamentos” e “se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor” (Jo 14,15; 15,10). Amar o Senhor é deixar-se mover incondicionalmente pelo Espírito Santo, «o Espírito de Jesus» (At 16,7). E “aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). Amamos o Senhor na medida em que o deixamos agir em nós e connosco o que quiser. Ele é a Cabeça, nós não nos pertencemos, Ele nos adquiriu ao preço do seu sangue. E se Ele é a cabeça e nós somos seus membros, Ele deve mover-nos como melhor lhe parecer, sem encontrar em nós nenhuma resistência. Isso é o que é santidade. E é assim que São Paulo o entende desde o primeiro momento da sua conversão: “que devo fazer, Senhor?” (At 22:10).
Sendo sempre iniciativa do Senhor, devemos fazer tudo e somente o que Sua graça nos dá, nem mais, nem menos, nem outra coisa, por melhor que seja. Lembro-me do que disse o Apóstolo: “fomos criados em Cristo Jesus para praticar as boas obras que Deus preparou de antemão para nos exercitarmos nelas” (Ef 2,10). Neles, e não em outros, que nósou talvez outros, por mais bons e urgentes que sejam, podem nos ocorrer. “O homem não deve receber nada, a menos que lhe seja dado do céu” (Jo 3,27). Vimos também como Cristo declara “não faço nada por mim mesmo”, nada. Ele somente faz o que o Pai opera nele. Ele sempre move-se movido pelo Pai, como aquela menino analfabeto que escrevia guiada pela mão do pai.
Portanto, na sinergia total da graça e da liberdade reside a perfeição cristã. As crianças que andam de mãos dadas com a mãe raramente adaptam o seu ritmo exatamente ao dela: ou se deixam rebocar, ou puxam para ir mais rápido, ou tentam ir em outra direção. E fazem isso porque ainda são crianças. Mas quando atingirem a condição adulta, ajustarão seu ritmo ao dos mais velhos com total facilidade e prazer. O mesmo acontece à medida que crescemos nas idades espirituais: enquanto o cristão ainda é criança em Cristo, é-lhe difícil conhecer e seguir a vontade de Deus (1Cor 3,1ss); Ele só alcançará a plena sinergia graça-liberdade quando atingir a idade adulta na era de Cristo (Ef 4,13-14).
O discernimento espiritual cristão visa conhecer a vontade concreta do Deus providente: “que devo fazer, Senhor?” E terá que ser feito de forma diferenciada quando for obrigatório ou não.
–Quando as boas obras são obrigatórias, não há problema particular de discernimento. A ordem que Deus nos comunica externamente nada mais é do que a declaração do que Ele quer fazer internamente em nós pelo moção de sua graça. Se Deus, através das Escrituras ou através da Igreja, nos deu uma ordem clara sobre um ponto específico – por exemplo, perdoar as ofensas recebidas, ir à Missa aos domingos – não há nada a discernir: “quem me ama guarda os meus mandamentos”. O mesmo se pode dizer da pessoa de vida consagrada num Instituto aprovado pela Igreja: se Deus lhe deu a graça de professar aquela Regra de vida, dar-lhe-á habitualmente a graça de cumpri-la.
Nestes casos, então, o único cuidado será aplicar-se bem ao cumprimento desses mandatos, isto é, cumpri-los com verdadeira motivação de caridade, com fidelidade e perseverança, com recta intenção, numa atitude humilde e com determinação muito firme. E como já se entendeu, a realização de certas obras específicas – ir à Missa ao domingo – será por vezes legalmente impedida por graves razões objectivas – por estar doente, por não deixar sozinho uma pessoa gravemente doente, etc. O discernimento nesses casos geralmente é óbvio.
–Mas quando as boas obras não são obrigatórias, quero dizer, não são obrigatórias numa medida e frequência claramente determinadas por Deus e pela Igreja, é aí que surge a necessidade do discernimento adequado. Ao considerar este tema, tomarei doravante como principal exemplo a prática da oração. Certamente devo orar, Deus ordena, Deus me dá sua graça para orar; Mas quanto, de que forma, quando, como devo proporcionar a oração e o trabalho, o diálogo com Deus ou com os homens?… “O que devo fazer, Senhor?”
As regras de discernimento, mais ou menos sistematizadas, foram formuladas na Igreja desde o primeiro monaquismo. São muito apreciadas as propostas por Santo Inácio de Loyola nos seus Exercícios Espirituais(169-189, 313-370). Mas tenhamos em mente que nenhum método específico de discernimento tem em si uma eficácia mágica para descobrir a vontade divina. O método pode, sem dúvida, ser útil, mas só será válido na medida em que o cristão o aplique de acordo com as regras gerais que explico a seguir.
São José, sendo santíssimo, ao saber que Maria estava grávida, não soube discernir o que deveria fazer, ou seja, qual era a vontade de Deus, e depois de muitas orações e dúvidas, “decidiu repudiá-la secretamente”. Se Deus não lhe enviasse um anjo para ordenar que o recebesse, ele teria cometido, ainda que inocente, um erro gravíssimo (Mt 1,18-21). São Francisco de Assis, sendo também santo, ficou durante algum tempo sem saber se Deus queria que ele pregasse ou se retirasse para uma vida de oração e penitência – o que não é pouca dúvida – e teve que sair dessa situação enviando mensageiros para consultar Santa Clara e Irmão Silvestre (São Boaventura, Lenda Maior12,2).
Santo Inácio de Loyola, grande santo, especialmente dotado por Deus para a discrição dos espíritos, enquanto esteve na Terra Santa, fez a “firme intenção” de ali se estabelecer para sempre. Mais tarde, com seus companheiros de Paris, ele quis viver durante anos na Palestina. Achei que essa era a vontade de Deus. E em 1551, cinco anos antes de morrer, depois de muita reflexão e oração – presumivelmente aplicaria as suas regras de discernimento – decidiu “absolutamente” abandonar a orientação da Companhia de Jesus. Nenhuma dessas intenções foi cumprida, porque a vontade de Deus era diferente, e ele estava sempre atento à vontade do Senhor. Seu biógrafo, padre Nadal, diz que “ele foi gentilmente levado para onde não conhecia”. E alguns anos depois escreveria São João da Cruz: “para chegar ao que não se conhece, é preciso ir aonde não se conhece”.
Quero salientar com estes exemplos que as regras de discernimento, que asseguram uma sinergia de graça-liberdade, “como métodos”, nunca garantem por si mesmas o verdadeiro discernimento. O verdadeiro discernimento é uma graça, um dom de Deus e, quer sejam aplicados ou não métodos, só é alcançado na medida em que são cumpridas as normas fundamentais da vida cristã, que recordo a seguir.
1.–Humildade. A pessoa humilde desconfia totalmente de si mesma; É por isso que ele tem horror de fazer a sua própria vontade e coloca todos os seus esforços em conhecer a vontade de Deus: “dá-nos a luz para conhecer a tua vontade e a força necessária para cumpri-la” (dom. 1, T. Comum). Deus não se esconde do homem; É o homem que se esconde de Deus (Gn 3,8; 4,14), e esconde-se porque não quer que a Luz divina venha denunciar as suas más obras (Jo 3,20). O Senhor ama os seus filhos e por isso quer manifestar-lhes as suas vontades concretas para que, cumprindo-as, sejam aperfeiçoadas. É o homem que cobre os olhos e os ouvidos com os apegos desordenados da sua própria vontade – a ideias, projectos, pessoas, lugares, empregos, situações, seja o que for – e assim falha em conhecer a vontade de Deus. Portanto, na medida em que o homem, dócil à graça divina, sai humildemente da prisão do seu próprio egocentrismo, nessa medida avança no discernimento fácil e seguro da vontade de Deus para ele, e a sua vida torna-se iluminada pela serenidade e pela paz do céu. O Senhor lhe dá a luz para conhecer a sua vontade e a força necessária para cumpri-la.
O cristão centra-se em si mesmo (egocentrismo) quando polariza a sua atenção espiritual na produção destas ou daquelas boas obras. E, em vez disso, centra-se em Deus (indiferença espiritual) quando todos os seus esforços são colocados para agradar a Deus, para manter a fidelidade incondicional à sua graça, seja ela qual for. É então que, tendo silenciado o ruído interno das ansiedades, dos medos e das vãs alegrias, o cristão começa a alcançar aquele precioso silêncio interior (silentium mentis, São Boaventura), no qual escuta facilmente a Voz divina, a sua vontade, o seu comando. E assim os humildes, através da oração e da abnegação, guiados pelo instinto infalível do amor, chegam facilmente ao discernimento exato, muitas vezes «sem saber como» (Mc 4,27).
2.–A abnegação da própria vontade. A pessoa humilde fica horrorizada por ser “abandonada aos desejos do seu coração” (Rm 1,24-26), já indiquei. Não ter vontade própria é condição fundamental para poder conhecer a vontade de Deus. Sem isso não existe método de discernimento que valha alguma coisa. O pecado original obscureceu a nossa razão e enfraqueceu a nossa vontade de fazer o bem. Mas, certamente, isso não matou a vontade carnal que há em nós. Pelo contrário, a vontade do homem Adâmico quer, sempre quer – que isso aconteça, que isso não aconteça, que tal coisa seja alcançada, que isso aconteça agora, que isso não lhe ocorra –… sempre quer, ele está sempre querendo, ele quer se matar. E então ele nos perde. Portanto, a chave do bom discernimento que torna possível a plena santificação cristã é manter a vontade sob vigilância, nunca permitindo que ela queira algo para si. Porque não viemos ao mundo para fazer a nossa vontade, mas a vontade daquele que nos enviou, Deus (cf. Jo 6,38). Portanto, irmãos, “não façais o que quereis” (Gl 5,17).
O apego aos próprios planos costuma ser um dos principais obstáculos à vida espiritual, por melhores que sejam esses planos em si mesmos, considerados objetivamente, sejam eles próprios ou elaborados por outros. O cristão carnal que busca a perfeição cristã costuma estar mais ou menos apegado a um determinado projeto de sua própria vida espiritual, composto por um conjunto de obras boas e muito concretas. Este projeto é frequentemente condicionado pelo próprio temperamento, pela educação recebida ou pelo ambiente espiritual predominante. Alguém, por exemplo, que valoriza muito a oração, insiste em orar duas horas por dia. Outro, muito ativo, quase não tem tempo de oração, porque está firmemente convencido de que a caridade exige dele muitas coisas. Sem dúvida, estes projetos pessoais podem ser bons e nobres em si mesmos, mas muitas vezes não coincidem com os desígnios específicos de Deus para a pessoa e, portanto, resistem a eles. E é daí que vêm a ansiedade, o cansaço, o fraco crescimento espiritual, às vezes o pecado e talvez o abandono.
–«Mas vejamos: e quem te manda querer alguma coisa por vontade própria? Quem te autoriza a ter os teus próprios planosna tua vida? A única coisa que você precisa fazer é descobrir e cumprir a vontade de Deus. Você consegue imaginar a Virgem Maria “querendo algo próprio”? É impensável. Ela é a escravado Senhor e, portanto, não tem vontade própria, e apenas quer que a vontade do seu Senhor seja feita nela.
Ruminações incessantes são um horror, mas são inevitáveis desde que haja vontade própria. Saibamos bem que nas dúvidas persistentes não encontraremos a solução dando mil pensamentos ao assunto, consultando ansiosamente uns e outros, considerando os prós e os contras numa tarefa sem fim, embora Deus também queira que às vezes façamos um pouco de tudo isso. Para livrar-se das dúvidas, o mais decisivo é a oração de petição, “que devo fazer, Senhor?”, e garantir sobretudo que a nossa vontade jogue livremente sob o movimento da graça, isto é, que esteja sinceramente livre nesta matéria de todo apego desordenado, que permaneça apenas atenta a Deus, incondicionalmente entregue à sua vontade, livre tanto de desejos como de medos concretos. A nossa vida espiritual deve concentrar-se habitualmente em alcançar essa santa indiferença, principalmente através da oração de petição. E então a vida espiritual torna-se cada vez mais simples, porque como diz São João da Cruz, “o caminho da vida é de muito pouca agitação e negociação, e exige mais mortificação da vontade do que muito conhecimento” (Provérbios57).
Continuarei expondo, com o favor de Deus, as condições que tornam possível o acordo perfeito entre graça e liberdade
Autor: Pbro. José Maria Iraburu