Marta: Uma das características desta Igreja verdadeira é que ela era UNA COM O ESPÍRITO SANTO. Diz a Bíblia: “E como se cumpriram os dias de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; e de repente veio um estrondo do céu e todos foram cheios do Espírito Santo…Assim, os que receberam a sua palavra foram batizados; e naquele dia foram acrescentadas a eles como três mil pessoas” (Atos 2,1-4,41).

A Igreja de Jerusalém era uma igreja que dependia do Espírito Santo para preparar pessoas para serem seus membros. O mesmo acontece numa Igreja Batista. Numa Igreja Batista deve haver uma experiência de fé no coração, mediante a obra do Espírito Santo. Na Igreja Católica, os membros são admitidos na infância e confirmados quando chegam à idade da responsabilidade.

José: E tu acreditas que uma criança não pode receber o Espírito Santo, nem ser admitida na Igreja até que chegue o que tu chamas de “a idade da responsabilidade”?

Marta: Não, observa que a Bíblia diz que primeiro creram, e depois receberam o Espírito Santo.

José: Mas se revisares outras passagens da mesma Bíblia verás que as crianças também podem receber o Espírito Santo. Isso estava profetizado desde épocas antigas: “Sucederá depois disso que derramarei meu Espírito sobre TODA CARNE. Os vossos FILHOS e as vossas FILHAS profetizarão, vossos anciãos sonharão sonhos, e vossos jovens terão visões” (Joel 3,1), promessa que se cumpriu precisamente no dia de Pentecostes que mencionas.

Lembras como João Batista, já no seio de sua mãe, saltou de alegria ao ouvir a voz de Maria e estar perto de seu Senhor? (Lucas 1,41). Não crês que estava já então ungido pelo Espírito Santo? Lembra ainda o que Jesus responde aos fariseus quando veem que as crianças o louvam: “Quando os sumos sacerdotes e escribas viram os milagres que Ele fazia e a multidão aclamando no templo: Hosana ao Filho de Davi!, indignaram-se e lhe disseram: Ouves o que estão dizendo? Jesus respondeu: Sim, nunca lestes aquilo: da boca de crianças e lactentes tiraste um louvor?” (Mateus 21,15-16)

E se uma criança pode receber o Espírito Santo, não vejo por que negar que possa receber o batismo. São Pedro deixou este princípio meridianamente claro quando afirmou: “Alguém pode negar a água do batismo a estes que receberam o Espírito Santo como nós?” (Atos 10,47)

Marta: Pedro estava falando ali a adultos.

José: Sim, mas a razão pela qual não se lhes pode negar o batismo é porque eles também receberam o Espírito Santo. Se as crianças também podem recebê-lo, não vejo razão para negá-lo a elas.

Marta: É que a Bíblia é muito clara – e eis aqui outra característica que permite identificar a verdadeira Igreja – em que a Igreja é formada SOMENTE POR CRENTES e somente eles SÃO BATIZADOS[1]. Lembra: “Assim, os que receberam a sua palavra foram batizados” (Atos 2,41). Não se registra aqui, nem em nenhum outro lugar da Bíblia, onde o batismo fosse administrado a alguém que não fosse crente. Filipe disse ao eunuco: “Aqui há água, o que impede que eu seja batizado?” e ele respondeu: “Se crês de todo o coração, podes”. Jesus, quando ordena batizar, diz: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” (Marcos 16,15-16). Vês? crer e DEPOIS ser batizado, o que significa que primeiro tem que receber o ensinamento.

E há mais textos bíblicos que confirmam este ensinamento, por exemplo em Atos 2,38 o apóstolo Pedro disse: “Pedro lhes disse: «Convertei-vos e batize-se cada um de vós em nome de Jesus Cristo para remissão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo»” Vê? Diz CONVERTEI-VOS. Como se vai converter um bebê se ainda não tem uso da razão? Além disso, um bebê não se faz batizar, mas o fazem batizar, o que não é a mesma coisa.

O mesmo acontece com a Igreja Batista. A Igreja Católica ainda é constituída por quase todos os que foram batizados em sua infância, para cuja prática não há base escritural.

José: Direi minha opinião sobre essas passagens, mas antes parece-me necessário que revisemos outros textos que também falam do batismo e que podem nos dar uma compreensão mais ampla do contexto.

Marta: Podes continuar…

José: Vejamos, por exemplo, Mateus 28,19-20, onde Jesus ordena aos apóstolos: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar tudo o que vos ordenei. E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. Observa que aqui se menciona uma ordem distinta: PRIMEIRO o batismo, e DEPOIS o ensinamento.

Marta: Queres dizer que acreditas que a Bíblia se contradiz?

Claro que não, mas esses textos fazem referência a momentos distintos da pregação. Os primeiros explicam como foi o início do cristianismo, onde logicamente se tinha que começar pelos adultos.

Coloquemo-nos no lugar dos apóstolos: imaginemos que chegamos a pregar a um povo pagão que nunca ouviu a boa nova — a quem pregamos? Aos adultos ou às crianças?

Marta: Aos adultos.

José: E batizarias alguém que não crê? Ou melhor dizendo: acreditas que um adulto que não crê e nem sequer sabe o que é o batismo se deixa batizar?

Marta: Claro que não.

José: Esse é o caso dos primeiros textos que mencionaste, a primeira pregação dirigida aos adultos pagãos. E qual é a condição para que um adulto seja batizado? Que creia e que ele mesmo peça o batismo, como fez o etíope. Mas agora vem a pergunta: o que acontecia com os filhos dos adultos que criam e eram batizados?

Marta: Logicamente esperavam eles também por crer para decidir por si mesmos se queriam ser batizados.

José: Mas não é isso que a Bíblia diz. Leiamos: “Responderam: «Crê no Senhor Jesus e TU TE SALVARÁS, TU E A TUA FAMÍLIA[2].» E anunciaram a palavra do Senhor a ele e a todos os de sua casa. Naquela mesma hora da noite, o carcereiro os levou consigo e lavou-lhes as feridas; imediatamente ELE E TODA A SUA CASA FORAM BATIZADOS.” (Atos 16,31-33). Crispo, o chefe de uma sinagoga, quando se converte, é batizado com toda a sua família: “Crispo, o chefe da sinagoga, creu no Senhor com toda a sua família; e muitos outros coríntios, ao ouvirem Paulo, creram e receberam o batismo.” (Atos 18,8). Menciona-se também o caso de Lídia: “Uma delas, chamada Lídia, vendedora de púrpura, natural da cidade de Tiatira, que adorava a Deus, nos ouvia. O Senhor lhe abriu o coração para que aderisse às palavras de Paulo. Quando ELA E OS DE SUA CASA FORAM BATIZADOS” (Atos 16,14-15)[3]. São Paulo lembra também que batizou a família de Estevão (1 Coríntios 1,16).

Quando em Mateus 28,19-20 se fala primeiro de batizar e depois de ensinar, já se faz referência a esta etapa da pregação, onde famílias inteiras aceitaram o evangelho. Aí seria necessário ensinar àqueles que, nascendo em famílias cristãs, teriam que se formar na fé. Assim entendido, ambos os textos harmonizam perfeitamente.

Marta: Mas não podes ter certeza de que nessas famílias havia crianças. Pelo contrário, nesses textos se diz que ouviram primeiro a pregação e depois foram batizados.

José: Como te disse, ouviram a pregação os adultos, mas quando estes creram, batizou-se toda a família, incluindo as crianças, se as tinham. As mesmas passagens que me deste no início confirmam isso se os examinarmos com mais detalhe. Voltemos a Atos 2,38-39: “Pedro lhes respondeu: «Convertei-vos e QUE CADA UM SE FAÇA BATIZAR em nome de Jesus Cristo, para remissão dos vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; poisA PROMESSA É PARA VÓS E PARA OS VOSSOS FILHOS, e para todos os que estão longe, para quantos o Senhor nosso Deus chamar.»”. Não deixes passar despercebido o detalhe de que São Pedro, ao mesmo tempo que ordena batizar, esclarece que a Promessa é para ELES e para os SEUS FILHOS.

Há outros textos dos quais se pode tirar a mesma conclusão; veja que São Paulo escreveu: “Pois o marido não crente é santificado pela mulher, e a mulher não crente é santificada pelo marido crente. De outro modo, vossos filhos seriam impuros, MAS AGORA SÃO SANTOS” (1 Coríntios 7,14). Portanto, quando um dos pais é crente, seus filhos por essa fé são considerados pelo apóstolo “santos”. Este é um termo que só se usa na Bíblia para designar membros da Igreja, pelo que se entende que fala de crianças batizadas[4].

Marta: Espera um momento, voltemos a Atos 2,38-39. Diz assim: “Pedro lhes respondeu: «Convertei-vos e batize-se cada um de vós em nome de Jesus Cristo, PARA REMISSÃO DOS VOSSOS PECADOS; e recebereis o dom do Espírito Santo; pois A PROMESSA É PARA VÓS E PARA OS VOSSOS FILHOS, e para todos os que estão longe, para quantos o Senhor nosso Deus chamar.»”. Observa que ali a promessa de que fala o apóstolo diz que se batizem para o perdão dos pecados: que pecados pode ter uma criança? Uma criança não rouba, não mata, nem sequer tem maus pensamentos. Entendo então que essa promessa é para seus filhos, mas quando eles tiverem pecados que lhes possam ser perdoados, ou seja, quando chegarem ao uso da razão.

José: Creio que não estás fazendo a devida distinção. É verdade que uma criança não tem pecados pessoais…

Marta: Nem pessoais nem de nenhum outro tipo.

José: Refiro-me ao pecado original[5] que nossos primeiros pais cometeram e nós contraímos. Quando o Rei Davi reconhece: “Eis que em iniquidade fui formado, e EM PECADO ME CONCEBEU MINHA MÃE” (Salmo 51,5) está fazendo referência a este pecado, assim como também São Paulo quando escreve: “assim como pela desobediência de um só homem TODOS FORAM CONSTITUÍDOS PECADORES, assim também pela obediência de um só todos serão constituídos justos” (Romanos 5,19). Pois bem, se todos, incluindo as crianças, foram concebidos em pecado e constituídos pecadores, também precisam do batismo para que lhes sejam perdoados os pecados.

Marta: Continuas sem me convencer. O fato de batizar uma criança sem uso da razão, não é violar sua liberdade?, não é melhor esperar a que ela mesma tenha idade de decidir se quer ser batizada ou não?

José: Lembra que é vontade de Deus e parte da ordem natural que Ele instituiu que os pais decidam pelos seus filhos até que eles tenham capacidade de fazê-lo por si mesmos. Se o teu filho adoece e não quer ir ao médico, o levas ou não?… Ou se não quer ir à escola, o que fazes?

Marta: Levo, claro.

José: E ninguém diz que estás violentando sua liberdade. Na vida espiritual ocorre o mesmo. Lembras como se ingressava no povo de Deus antes da era cristã?

Marta: Por meio da circuncisão.

José: Exato. Foi o próprio Deus quem a ordenou: “Esta é a minha aliança que deveis observar entre mim e vós — e também a vossa posteridade —: todos os varões de entre vós serão circuncidados. Circuncidareis a carne do prepúcio, e isso será o sinal da aliança entre mim e vós. AOS OITO DIAS SERÁ CIRCUNCIDADO entre vós todo varão, de geração em geração” (Gênesis 17,10-12). Observe que as crianças eram circuncidadas ao oitavo dia de nascidas, e ninguém (nem mesmo Deus) parece ter pensado que estava violentando sua liberdade de escolha.

Quando Deus faz aliança com um povo, o faz com todos, incluindo seus filhos: “Agora, pois, se realmente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade pessoal entre todos os povos, porque toda a terra é minha; sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Estas são as palavras que deverás dizer aos filhos de Israel… Todo o povo respondeu a uma voz, dizendo: «Faremos tudo o que o Senhor disse»” (Êxodo 19,5-6.8). Parece-lhe lógico pensar que a Nova Aliança seja mais limitada que a Antiga e exclua as crianças? Os textos que anunciam a Nova Aliança apontam justamente o contrário: “Eis que dias vêm — oráculo do Senhor — em que farei com a casa de Israel (e com a casa de Judá) uma nova aliança; não como a aliança que fiz com seus pais quando os tomei pela mão para tirá-los do Egito; eles romperam a minha aliança, e eu os repudiei — oráculo do Senhor —. Mas esta será a aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias — oráculo do Senhor —: porei a minha Lei no seu interior e a escreverei em seus corações, EU SEREI O SEU DEUS E ELES SERÃO O MEU POVO. Já não ensinará mais cada um ao seu próximo e cada um ao seu irmão, dizendo: «Conhecei o Senhor», pois todos me conhecerão DO MENOR AO MAIOR — oráculo do Senhor — quando eu perdoar a sua culpa e do seu pecado não me lembrar mais.” (Jeremias 31,31-34)

Marta: É um argumento interessante. Mas se é assim, por que essa prática não está confirmada na história desde as origens da Igreja? Porque tenho entendido que nos primeiros séculos do cristianismo somente se batizaram adultos e foi já em séculos posteriores que se começaram a batizar crianças.

José: Se pesquisares os testemunhos da Igreja primitiva verás que isso não é verdade. Nos escritos mais antigos dos primeiros cristãos se encontra evidência de que a Igreja já batizava crianças desde os tempos apostólicos. Orígenes, por exemplo, que viveu no século II, escreveu: “A Igreja recebeu dos apóstolos o costume de administrar o batismo também às crianças. Pois aqueles a quem foram confiados os segredos dos mistérios divinos sabiam muito bem que todos carregam a mancha do pecado original, que deve ser lavado pela água e pelo espírito[6]. Há também testemunhos de Santo Ireneu de Lyon (século II), São Hipólito de Roma (século II), São Cipriano de Cartago (século III) e muitos outros[7].

Marta: Cipriano de Cartago? Havia lido que foi precisamente Cipriano de Cartago quem se opôs ao bispo de Roma porque ele rebatizava os adultos, como fazemos os batistas.

José: A disputa que São Cipriano teve com o Papa foi por uma questão diferente, pois ele defendia a necessidade de batizar crianças inclusive antes do oitavo dia de nascidas[8]. O que ele realmente disputava é que quem se batizava fora da Igreja Católica, em uma comunidade cismática ou herética, não era batizado validamente e tinha que ser batizado novamente, mas sua opinião pessoal neste assunto — que em nada se opunha ao batismo de crianças — não prevaleceu na Igreja.

Marta: Vou pesquisar. Mas o que tu me dizes sobre a forma de batizar? Porque outra das características da Igreja verdadeira segundo a Bíblia é que batizava por imersão, que é o que significa a palavra batismo, “imergir”, e não borrifar uns poucos pingos de água como faz a Igreja Católica.

Além disso, depois de nossa última conversa, pude pesquisar um pouco, e descobri que até mesmo reconhecidas obras da Igreja Católica reconhecem que eles mudaram a forma de batizar. Por exemplo, James Gibbons, que era um cardeal católico romano, escreveu um livro intitulado The Faith of our Fathers (A Fé de Nossos Pais), com aprovação eclesiástica, o seguinte: “Por vários séculos após o estabelecimento do cristianismo O BATISMO ERA GERALMENTE CONFERIDO POR IMERSÃO. Mas desde o décimo segundo século o batismo por aspersão prevalece na Igreja Católica. O batismo é o meio essencial estabelecido para lavar a mancha do pecado original, e a porta pela qual somos admitidos na Igreja. Daí que o batismo é essencial tanto para o infante quanto para o adulto. Os infantes não batizados são excluídos do reino dos céus. O batismo nos torna herdeiros do céu e co-herdeiros com Jesus Cristo[9]

José: Ali o cardeal não está dizendo que a Igreja mudou a forma de batizar, mas que uma era mais usual do que a outra, o que é natural dependendo das circunstâncias. Mas vamos por partes; é verdade que batizar significa “imergir”, mas se você estudar o contexto verá que se refere a imergir no Espírito Santo; a água é apenas um símbolo.

O batismo por imersão pode certamente simbolizar muito bem o que acontece com o cristão no batismo, ao ser sepultado com Cristo para ressuscitar a uma vida nova (Colossenses 2,12), mas nem sempre é possível batizar desta maneira, e isso não pode ser um impedimento para recebê-lo.

Um exemplo o encontramos no livro dos Atos dos Apóstolos, onde se narra que em Jerusalém foram batizadas três mil pessoas: “os que acolheram a sua Palavra foram batizados. Naquele dia uniram-se a eles umas três mil almas” (Atos 2,41). Em Jerusalém não há nenhum rio e é difícil acreditar que puderam ter-se submerso em um poço público de onde se tirava água para beber. O próprio São Paulo foi batizado em uma casa e de pé: “E agora, por que tardas? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o seu nome.” (Atos 22,16), o mesmo com o carcereiro que aceitou o evangelho e foi batizado de noite (Atos 16,33). E se vamos ver, na Bíblia não se especifica nenhuma forma específica de batizar, somente que se deve fazê-lo em nome da Santíssima Trindade. O escrito mais antigo da Igreja primitiva com informação sobre as formas de batizar é a Didaquê, datado no ano 60 d.C. e que reconhece como válido o batismo por aspersão[10].

Marta: Parece-me muito interessante o que tu me disseste e quero reservar um tempo para verificar isso.

José: Claro, Marta, apenas uma última reflexão. Lembra-te de que

Jesus é quem nos mandou “Deixai as crianças virem a mim e não as impeçais; porque o Reino de Deus é justamente dos que são como elas” (Lucas 18,16). Se por meio do batismo nascemos para uma vida nova, nos unimos ao corpo de Cristo que é a Igreja, recebemos o perdão dos pecados e o Espírito Santo, negar o batismo às nossas crianças não é precisamente impedi-las de ir a Jesus? É para pensar…

Notas

  1. O reformador protestante João Calvino rejeita este argumento dos anabatistas em sua obra Instituição da Religião Cristã, IV, XVI, 19: « As crianças não podem ter fé. Como, dizem, pode ser isto, se, como assegura são Paulo, «a fé vem pelo ouvir» (Rm 10,17), e as crianças são incapazes de discernir o bem do mal? Mas eles não consideram que são Paulo fala aqui somente da maneira ordinária que o Senhor usa para infundir a fé aos seus; não que não possa usar outra, como certamente o faz com muitos, aos quais, sem jamais lhes fazer ouvir a Palavra, tocou-os interiormente para chamá-los ao seu conhecimento. E como lhes parece que isto repugna à natureza das crianças, as quais, como diz Moisés, «não sabem o bom nem o mau» (Dt 1,39), pergunto-lhes por que querem restringir a potência de Deus, como se não soubesse fazer com as crianças o que pouco depois faz perfeitamente nelas. Porque se a plenitude da vida consiste em conhecer perfeitamente a Deus, visto que o Senhor salva alguns que morrem ainda crianças, é certo que Deus se lhes manifestou inteiramente. E como eles hão de ter este perfeito conhecimento na outra vida, por que não podem ter, enquanto vivem aqui, um lampejo do mesmo, principalmente quando não dizemos que Deus lhes tire esta ignorância senão quando os tira da prisão do corpo? Não que eu queira temerariamente afirmar que as crianças tenham uma fé tal como a que nós temos; nossa intenção é somente mostrar a temeridade e presunção dos que, seguindo sua louca fantasia, afirmam e negam quanto lhes apraz, sem ter em conta a razão para fazê-lo assim. »
  2. Muitas traduções, tanto católicas como protestantes, traduzem a palavra grega oikos como « casa » em vez de « família », mas o sentido é o mesmo: fazem referência à família da pessoa.
  3. Os reformadores protestantes também entenderam que os textos que falam do batismo de uma pessoa e de toda a sua casa incluíam naturalmente as crianças. A obra já citada do reformador João Calvino escreve: « [dizem os anabatistas] Os apóstolos não batizam as crianças. [responde Calvino] Depois querem provar tudo isto pela prática que se seguiu no tempo dos apóstolos, em que ninguém era batizado antes de fazer profissão de sua fé e de sua penitência. Porque são Pedro, dizem, perguntado pelos que se queriam converter ao Senhor sobre o que deviam fazer, responde-lhes que se arrependam e se batizem para a remissão de seus pecados (At 2,37-38). Da mesma forma, quando o eunuco pergunta a Filipe se devia ser batizado, responde-lhe: ‘Se crês de todo o coração, podes’ (At 8,37). Disto concluem que o batismo não é ordenado senão àqueles que têm fé e penitência, e que o que carece disto não deve ser batizado. Se esta razão vale, vê-se pelo primeiro texto alegado que somente bastaria a penitência, pois nele não se faz menção alguma da fé; e, por sua vez, pelo segundo, que somente bastaria a fé, pois não se exige a penitência. Dirão que um texto e outro se completam, e que é preciso uni-los para entendê-los bem. Do mesmo modo dizemos nós também que, para dar coesão a tudo, é preciso unir todas as demais passagens que podem ajudar a resolver esta dificuldade, pois o verdadeiro sentido da Escritura depende muitas vezes do contexto. Vemos, pois, que as pessoas que perguntam o que devem fazer para se salvar são pessoas que já estão no uso da razão. Destas dizemos que não devem ser batizadas sem que primeiramente deem testemunho de sua fé e penitência, enquanto se pode ter entre os homens. Mas as crianças geradas de pais cristãos não se hão de contar neste número. Que isto seja assim, e não uma invenção nossa, vê-se pelos textos da Escritura que confirmam esta diferença. Assim vemos que, se alguém antigamente se fazia membro do povo de Deus, era preciso que antes de ser circuncidado fosse instruído na Lei de Deus e na aliança que se confirmava com o sacramento da circuncisão. » (Ibid., 23, 10)
  4. São Paulo utilizava a palavra « santos » ao longo de todas as suas cartas para referir-se aos crentes. Se tomarmos somente a carta aos efésios como amostra, poderemos ver que Paulo utiliza a palavra « santos » neste sentido pelo menos 9 vezes: Efésios 1,1.15.18; 2,19; 3,5; 3,8; 4,12; 5,3; 6,18. O mesmo faz São Lucas no livro dos Atos: 3,21; 9,13.32.41; 26,10. Assim como estes, os demais livros do Novo Testamento.
  5. A doutrina do pecado original não é uniforme dentro do protestantismo. Os reformadores Lutero e Calvino aceitaram e defenderam esta doutrina (consulte por exemplo: João Calvino, Instituição da Religião Cristã, Livro II, Capítulo 1), mas entre as denominações que rejeitam o batismo de crianças podem encontrar-se algumas que negam o pecado original. No caso dos batistas, a maioria parece aceitá-la.
  6. Orígenes In Rom. Com. 5,9: EH 249; Johannes Quasten, Patrología I, Biblioteca de Autores Cristãos 206, Quinta edição, Madrid 1995, pág. 395.
  7. Para obter uma referência mais completa destes textos patrísticos, pode consultar meu livro Compendio de Apologética Católica.
  8. São Cipriano defende o batismo de crianças de maneira categórica diante dos que queriam esperar até o oitavo dia de nascido, fazendo um paralelo com a circuncisão: « Mas em relação ao caso das crianças, em que dizes que não devem ser batizadas no segundo ou terceiro dia depois de seu nascimento, e que a antiga lei da circuncisão deve ser considerada, pelo que pensas que alguém que acaba de nascer não deve ser batizado e santificado dentro de oito dias, TODOS NÓS PENSAMOS DE MANEIRA MUITO DIFERENTE em nosso Concílio. Porque neste curso que pensavas tomar, ninguém concordou, mas todos julgamos que a misericórdia e a graça de Deus não deve ser negada a nenhum nascido de homem… Por outro lado, a fé na Escritura divina nos declara que todos, sejam crianças ou maiores, temos a mesma igualdade nos dons divinos… Razão pela qual cremos que ninguém deve ser impedido de obter a graça pela lei que já foi ordenada, e que a circuncisão espiritual não deve ser obstaculizada pela circuncisão carnal, mas que absolutamente todos os homens têm que ser admitidos à graça de Cristo, já que também Pedro, nos Atos dos Apóstolos, fala e diz: «O Senhor me disse que eu não deveria chamar nenhum homem comum ou imundo.» Ora, se nada poderia obstaculizar a obtenção da graça aos homens, o mais atroz dos pecados não pode pôr obstáculos aos que são maiores. Mas se até aos maiores pecadores, e aos que haviam pecado contra Deus, quando creem, se concede a remissão dos pecados e ninguém é impedido do batismo e da graça, QUANTO MAIS DEVERÍAMOS OBSTACULIZAR UM BEBÊ que, sendo recém-nascido, não pecou, salvo em que, havendo nascido da carne de Adão, contraiu o contágio da morte antiga em seu nascimento?… E portanto, querido irmão, esta era nossa opinião no Concílio: que por nós ninguém deve ser impedido do batismo e da graça de Deus, que é misericordioso, amável e carinhoso para com todos. O que, posto que é observado e mantido a respeito de todos, nos parece que deve respeitar-se ainda mais no caso dos lactentes… » (Cipriano de Cartago, A Fido sobre o batismo das crianças, Carta 58)
  9. Esta citação do cardeal Gibbons é utilizada pelo pastor batista M. L. Moser, Jr. em seu livro O batismo estranho para tentar demonstrar que a Igreja mudou a forma de batizar, de imersão para aspersão; mas ainda fora de contexto falha, porque se lê que o que afirma é que tal batismo era geralmente conferido por imersão, mas não era a única maneira. O Cardeal inclusive o esclarece mais adiante na mesma citação, que o pastor não reproduz completa, e que diz: « Para provar que o batismo por infusão ou por aspersão é tão legítimo como por imersão, basta observar que, apesar de a imersão ter sido a prática mais comum na Igreja primitiva, o sacramento foi também administrado com frequência, inclusive por infusão e aspersão. » (James Cardinal Gibbons, The Faith of Our Fathers, Capítulo 19)
  10. « Acerca do batismo, batizai desta maneira: em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água viva. Se não tens água viva, batiza com outra água; se não podes com água fria, faze-o com quente. SE NÃO TIVERES NEM UMA NEM OUTRA, DERRAMA ÁGUA SOBRE A CABEÇA TRÊS VEZES em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. » (Didaqué VII, tradução de Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos, BAC 65, Madrid 1985, p. 84)