Queremos estudar nesta seção como os Livros Sagrados do Novo Testamento chegaram a formar uma coleção e como foram aceitos por todos os cristãos. Neste estudo nos ajudarão os documentos históricos antigos, que quase em sua totalidade pertencem a escritores eclesiásticos da Igreja primitiva.
a) Já vimos que Jesus Cristo, os apóstolos e a Igreja cristã receberam os escritos do Antigo Testamento como sagrados e inspirados. Mas, além disso, pouco tempo depois da morte de Cristo começou a surgir uma nova literatura religiosa, ou seja, a literatura cristã, que tratava da Vida e doutrina de Cristo e dos apóstolos. Essa literatura em parte era histórica (os quatro evangelhos e os Atos) e em parte epistolar (cartas de São Paulo e de outros apóstolos). A atividade literária dos autores do Novo Testamento estende-se por um período de uns sessenta anos: entre os anos 40 a 100 d.C.
b) Os primeiros cristãos começaram muito cedo a venerar como escritos sagrados os livros e as cartas escritas pelos apóstolos e por seus colaboradores. Este fato não deve nos causar estranheza se tivermos presente que Cristo lhes havia prometido o Espírito Santo (cf. Jo 14,26; 16,13s) e os havia constituído dispensadores dos mistérios de Deus (1Cor 4,1). E, com efeito, os apóstolos foram cheios do Espírito Santo no dia de Pentecostes, começando a partir de então a sublime missão — para a qual haviam sido preparados pelo próprio Jesus — de pregar a doutrina de Cristo ao mundo inteiro. Nessa missão foram eficazmente ajudados por seus próprios escritos dirigidos a diversas Igrejas e comunidades cristãs.
A veneração com que os primeiros cristãos recebiam tudo o que provinha dos verdadeiros apóstolos explica bem que os fiéis se sentissem movidos a conservar aqueles preciosos escritos e a comunicá-los a outras comunidades. Isso mesmo deve ter levado os cristãos a fazer diversas cópias daqueles escritos apostólicos e a ir formando pequenas coleções daquela nova literatura. São Paulo ordena expressamente aos colossenses que leiam a epístola dirigida aos de Laodiceia, e aos laodicenses manda, por sua vez, que leiam a carta enviada aos colossenses[1].
No Novo Testamento encontramos já certos indícios que parecem demonstrar que se atribuía aos escritos dos apóstolos uma autoridade divina. Em 1Tm 5,18 temos o primeiro exemplo de citação das palavras de Jesus como Escritura sagrada[2]. A 2Pd 3,15-16 atribui a mesma autoridade às epístolas de São Paulo que aos escritos proféticos.
A literatura cristã de fins do século I e do século II atesta o mesmo. Segundo a Didaqué 8,2, é o próprio Senhor quem fala e ordena no Evangelho. São Clemente Romano afirma que São Paulo, divinamente inspirado, escreveu aos Coríntios[3]. A Epístola de Barnabé também cita Mt 22,14 com a fórmula empregada ordinariamente para citar o Antigo Testamento: “gégraptai” = “está escrito”[4]. Os escritos dos Padres apostólicos Santo Inácio Mártir e São Policarpo estão cheios de citações e de alusões tomadas dos evangelhos e das epístolas paulinas, o que indica a grande veneração e reverência que tinham por esses escritos.
c) Se as cartas de São Clemente Romano aos coríntios e de Santo Inácio Mártir aos filipenses eram tidas em tão grande estima pelos destinatários, que faziam cópias para transmiti-las a outras Igrejas, muito mais estimados ainda deviam ser os escritos dos apóstolos. Assim se explica facilmente que já desde o princípio os escritos apostólicos fossem colecionados para serem lidos publicamente no culto divino. De 2Pd 3,15-16, em que se fala de todas as cartas (“en pásais epistoláis”) de São Paulo, pode-se deduzir que já naquele tempo devia existir alguma coleção das epístolas do Apóstolo. Santo Inácio Mártir, em sua epístola aos Efésios, também parece supor a existência de uma coleção de epístolas paulinas.
O processo de coleção e de formação do cânon do Novo Testamento deve ter sido bastante breve para a maioria dos livros, pelo fato de que a Tradição era claríssima e de todos bem conhecida. Assim aconteceu com os quatro Evangelhos e com quase todas as epístolas de São Paulo (excetuando a epístola aos Hebreus). Pelo contrário, quanto a outros livros do Novo Testamento, o processo de “canonização” foi mais lento, e disputou-se durante bastante tempo sobre sua canonicidade, porque a tradição apostólica não era igualmente clara e evidente em todas as Igrejas. Por volta de fins do século IV chegou-se à unanimidade da Igreja católica no referente ao cânon do Novo Testamento.
d) Três foram as causas principais que aceleraram a formação do cânon do Novo Testamento: 1) A difusão de muitos apócrifos, que eram rejeitados pela Igreja por causa das doutrinas perigosas que continham; 2) a heresia de Márcion, que seguia um cânon próprio. Rejeitava todo o Antigo Testamento, e do Novo só admitia o evangelho de São Lucas e dez epístolas de São Paulo; 3) a heresia dos montanistas, que acrescentava novos livros ao cânon da Igreja e afirmava que havia recebido novas revelações do Espírito Santo.
1. Formação do cânon do Novo Testamento até o ano 150.- Os escritos do Novo Testamento, por terem sido em sua maioria escritos dirigidos a comunidades particulares, não foram conhecidos imediatamente por toda a Igreja cristã. No entanto, já temos desde os primeiros tempos da Igreja testemunhos de grande valor que demonstram a existência desses escritos sagrados. As citações que nos transmitiram os Padres apostólicos não costumam estar feitas literalmente, razão pela qual resulta às vezes difícil determinar de que livro do Novo Testamento foram tomadas. Por volta de fins do século II encontramos já testemunhos explícitos, e inclusive um catálogo de Livros Sagrados do Novo Testamento, como veremos depois.
a) No próprio Novo Testamento encontramos indícios que nos permitem deduzir a existência de alguma coleção de São Paulo: 2Pd 3,15-16. E, como já dissemos, é muito possível que 1Tm 5,18 cite o evangelho de São Lucas (10,7), considerando-o como Escritura sagrada.
b) Os Padres apostólicos não costumam citar os Livros Sagrados do Novo Testamento pelos nomes de seus autores. Mas seus escritos estão repletos de citações e de alusões ao Novo Testamento, de tal modo que seus testemunhos são considerados como certíssimos. Nos escritos desses Padres encontram-se citações de quase todos os Livros do N.T., se excetuarmos as epístolas de Filêmon e 3Jo 14[5].
A Didaqué (por volta do ano 90 d.C.) cita frequentemente Mt, e parece conhecer Lc, 1Ts, 1Pd, Jd, e talvez Jo e At 15.
São Clemente Romano (por volta de 96) emprega Mt, 1-2Tm, Tt, Hb, e provavelmente Lc, At, 1Cor, Rm, 1-2Pd, Tg.
Epístola de Barnabé (por volta de 98) cita Mt, Rm, Cl, 2Tm, Tt, 1Pd, e provavelmente também conhecia Jo.
Santo Inácio de Antioquia (ano 107) emprega em seus escritos Mt, Lc, Jo, At, 1Ts, Gl, 1Cor, Rm, Cl, Ef, Hb.
São Policarpo (por volta do ano 108) alude em sua carta a Mt, Mc, Lc, Jo, At, 2Ts, Gl, 1-2Cor, Rm, Cl, Ef, Fl, 1-2Tm, Hb, Tg, 1Pd, 1Jo.
Pápias (por volta de 110) é o primeiro que dá os nomes dos autores de Mt, Mc, Jo, e refere algo acerca da origem dos evangelhos. Também conhecia 1Pd, 1Jo, Ap.
O Martyrium Polycarpi (por volta de 150) serve-se de Mt, Jo, At, Ap e talvez Jd.
O Pastor de Hermas (por volta de 140-155) faz uso de Mt, Mc, Lc, Jo, At, 1Ts, 2Cor, Rm, Ef, Fl, Hb, Tg, 1-2Pd, Ap.
c) Os apologistas ainda nos transmitiram testemunhos muito mais claros sobre os livros do Novo Testamento. Ao terem de defender as doutrinas cristãs contra os ataques dos infiéis e dos hereges, recorrem com frequência a citações dos escritos sagrados.
Arístides Ateniense (por volta de 140), em sua Apologia c. 15, narra a Vida de Jesus, e afirma que a vinda de Jesus Cristo pode ser conhecida pelos escritos evangélicos. Também cita Mt, Jo, At, Rm, 1Tm, Hb, 1Pd.
São Justino (ano 150-160) é o primeiro escritor antigo que nos fala do uso litúrgico do Novo Testamento nas reuniões dos cristãos. “E no dia chamado domingo — diz ele —, todos os que vivem nas cidades ou no campo se reúnem em um lugar, e diante deles se leem as memórias dos apóstolos ou as escrituras dos profetas enquanto o tempo o permite”[6]. As “memórias dos apóstolos” são os Evangelhos, segundo os demais escritos de São Justino. Cita com frequência os evangelhos de Mt e Jo. Fala também explicitamente do Apocalipse, atribuindo-o a São João Apóstolo. Conhece igualmente At e todas as epístolas de São Paulo, Tg, 1-2Pd, 1Jo.
2. O cânon do Novo Testamento desde o século II até o século IV.- Os testemunhos que possuímos deste período em favor dos Livros Sagrados do Novo Testamento são claríssimos e de grande importância.
Taciano Sírio (por volta do ano 172), servindo-se dos quatro evangelhos, compôs uma obra chamada Diatessaron. Era uma harmonia evangélica que se divulgou muito. As Igrejas da Síria a usaram até o século V. Taciano conhece também At, 1Cor, Rm, Hb, Tt, Ap.
Márcion (ano 140-170) é a testemunha principal do século II no referente à história do cânon. Em sua obra Antitheses rejeita todo o Antigo Testamento, por provir do Deus do temor, distinto do Deus do amor do Novo Testamento. Dos escritos do Novo Testamento admite o evangelho de São Lucas, mas abreviado. Rejeita os dois primeiros capítulos de Lc por terem certo sabor hebraico. E também reconhece como canônicas dez epístolas paulinas, excetuando as pastorais e a dos Hebreus. Os demais livros do Novo Testamento não são considerados canônicos por Márcion.
Não foi Márcion o primeiro a formar o cânon do Novo Testamento, como afirmam alguns autores. Antes dele já existiam coleções de escritos sagrados que eram considerados por todos como inspirados. Isso se deduz dos testemunhos que possuímos daquele tempo. Além disso, o cânon mutilado do próprio Márcion supõe que já existia na Igreja um cânon, do qual ele se serve à sua maneira. No entanto, a Igreja, por ocasião do cânon de Márcion e para opor-se a suas doutrinas errôneas, deve ter empregado mais empenho e diligência em determinar o verdadeiro cânon.
Epístola das igrejas Lugdunense e Vienense (por volta de 177), que nos demonstra que na Gália eram conhecidos Lc, Jo, At, Rm, Ef, Fl, 1Tm, 1Pd, 1Jo, e muito provavelmente Hb, 2Pd, 2Jo. É citado o Ap como “Escritura”.
São Teófilo de Antioquia (por volta do ano 180) considera os evangelistas como inspirados, e cita Mt e Lc. Também afirma que João, o “Pneumatóforo”, foi o autor do quarto Evangelho. Serve-se de quase todas as epístolas de São Paulo, e em alguns lugares cita a epístola aos Rm e a 1Tm com a fórmula: “a palavra divina” (gr. “ho theios logos”).
Santo Ireneu (ano 175-195) ensina que os escritos do Novo Testamento são de origem apostólica[7]. Os evangelhos foram escritos por São Mateus em hebraico, por São Marcos, o intérprete de São Pedro; por São Lucas, o companheiro de Viagens de São Paulo, e por São João, o discípulo amado do Senhor[8]. Em seus escritos, Santo Ireneu cita ou alude a todos os livros do Novo Testamento, à exceção da epístola a Filêmon, a 2Pd, a 3Jo e a de Jd.
Tertuliano (ano 160-240) combate Márcion, censurando-o por, não sendo cristão, não ter direito algum de fazer uso das escrituras cristãs[9]. Afirma que há quatro evangelhos, aos quais chama “instrumento evangélico”. Dois foram escritos por apóstolos, São Mateus e São João, e os outros dois por homens apostólicos, São Marcos e São Lucas[10]. Também cita diretamente os At e treze epístolas paulinas[11]. A epístola aos Hb atribui a Barnabé[12]. Aduz, além disso, a 1Pd, a 1Jo, Jd e o Ap[13]. É duvidoso se faz referência à epístola de Tg[14]. Não alude à 2Pd nem à 2 e 3Jo.
Fragmento de Muratori (de fins do séc. II). Foi encontrado na Biblioteca Ambrosiana de Milão por L. A. Muratori (+1750) e editado pelo mesmo no ano 1740[15]. Contém o catálogo mais antigo, até hoje conhecido, dos livros do Novo Testamento. No início está mutilado, razão pela qual se perdeu a referência que fazia dos evangelhos de Mt e Mc. Na forma atual fala de Lc, Jo, At, 1-2Cor, Gl, Rm, Ef, Fl, Cl, 1-2Ts, Fm, Tt, 1-2Tm, Jd, 1-2Jo, Ap, 1Pd. Não são nomeadas as epístolas aos Hb, Tg e a 2Pd. Permite-se a leitura privada do Pastor, de Hermas[16]. Hermas, o autor do Pastor, é chamado irmão do bispo de Roma Pio (ano 140-155), e como também afirma que o Pastor de Hermas foi escrito “nuperrime temporibus nostris” (“em nossos dias”, “há muito pouco”), deduz-se que a composição do fragmento de Muratori deve ser colocada por volta de meados do século II, em Roma ou nas cercanias da Urbe. Não se conhece seu autor; mas é bastante provável que tenha sido São Hipólito Romano.
Desde princípios do século III até a primeira metade do século IV, os testemunhos da Tradição, referentes ao cânon do Novo Testamento, são claríssimos e de grande valor. A maior parte das dúvidas existentes anteriormente desaparece. Os escritores deste período, tanto do Oriente como do Ocidente, mostram-se em geral acordes sobre o cânon de Livros Sagrados do Novo Testamento.
Clemente Alexandrino (por volta do ano 180-202). Eusébio afirma, falando de Clemente Alexandrino, que “nos livros das Hypotyposes tece uma compendiosa narração de todas as Escrituras de ambos os Testamentos”[17]. Donde se pode deduzir que conhecia todos os livros do Novo Testamento, inclusive o Apocalipse. Duvida-se se conhecia as epístolas 2-3Jo e a 2Pd. Há que advertir, no entanto, que, juntamente com os livros canônicos, cita outros que não o são. O que parece supor que não sabia distinguir bem os livros canônicos dos apócrifos.
Orígenes (+254) era homem muito versado em ciências bíblicas e havia percorrido todas as Igrejas principais daquela época: as de Roma, Alexandria, Antioquia, Cesareia, Ásia Menor, Atenas, Arábia. Por tudo isso constitui um testemunho de máxima importância e autoridade. Admite todos os 27 livros do Novo Testamento, considerando-os como canônicos[18]. Embora conheça as dúvidas de alguns escritores daquela época acerca da canonicidade de 2Pd, de 2-3Jo e de Jd, no entanto, não faz caso delas e admite em seu cânon todas as epístolas. Pelo contrário, conhecendo igualmente os apócrifos, não os recebe no cânon dos Livros Sagrados[19].
São Hipólito Romano (+por volta de 258-260). Tem muita importância seu testemunho por ser intérprete excepcional da Igreja romana. Em seus escritos, São Hipólito cita todos os livros do Novo Testamento, excetuando as epístolas de Fm, 2 e 3Jo. O Fragmento de Muratori, que diversos autores atribuem a São Hipólito[20], contém todos os livros canônicos do Novo Testamento, menos a epístola aos Hb, Tg e 2Pd.
Novaciano (por volta do ano 250) foi um presbítero da Igreja de Roma que posteriormente caiu na heresia. Em seus escritos serve-se de todos os livros do Novo Testamento, à exceção da epístola aos Hebreus.
São Cipriano (+258), bispo de Cartago, cita dez epístolas paulinas, a 1Pd, a 1Jo e o Apocalipse. Não menciona a epístola de Fm e duvida da origem da epístola aos Hb.
Cânon Mommseniano, (de por volta do ano 259) provém da Igreja da África, e menciona vinte e quatro livros do Novo Testamento. Omite as epístolas aos Hb, a de Tg e a Jd.
São Dionísio de Alexandria (+264) admite todos os livros do Novo Testamento, embora não cite a 2Pd e a de Jd. E com o fim de opor-se ao erro milenarista, que se apoiava em Ap 20, negou que o autor do Ap fosse o apóstolo São João. Negava, por conseguinte, a autenticidade, mas não a canonicidade do Apocalipse.
Pelos testemunhos que acabamos de citar, não é difícil observar que no século III quase todos os livros do Novo Testamento eram recebidos no cânon. No Ocidente duvida-se da canonicidade das epístolas de Tg, 2Pd e Hb, e por isso às vezes são omitidas. No Oriente ainda há bastantes escritores que duvidam das cinco epístolas católicas menores: Tg, 2Pd, 2-3Jo e Jd.
3. O cânon do Novo Testamento nos séculos IV-VI. Nos séculos IV e V nota-se entre os escritores eclesiásticos uma maior unanimidade ainda acerca dos livros canônicos do Novo Testamento. As dúvidas são de menor importância. Contrastando, no entanto, com isso, encontramos as hesitações que começam a surgir no Oriente sobre a autenticidade e canonicidade do Apocalipse, iniciadas por São Dionísio de Alexandria, como já vimos. Mas, apesar de tudo, a unanimidade chega a ser completa no Ocidente em fins do século IV e começos do V; e no Oriente consegue-se essa unanimidade durante o século VI.
a) Os escritores sírios manifestam dúvidas acerca das epístolas católicas menores. A obra chamada Doctrina Addai (séc. IV) e Afraates (por volta do ano 340) omitem todas as epístolas católicas e o Apocalipse. Santo Efrém (+373) cita a 1Pd e a 1Jo, e provavelmente a epístola de Tg. Não parece ter utilizado a 2 e 3Jo e a de Jd, porque essas epístolas ainda não haviam sido traduzidas do grego em seu tempo, e Santo Efrém não conhecia o grego. Também nos é conhecido um Catálogo esticométrico de por volta do ano 400, que não contém as epístolas católicas e o Apocalipse. A versão Peshitta, tão difundida entre os sírios, contém a 1Pd, 1Jo e Tg, mas faltam-lhe a 2Pd, 2-3Jo, Jd, Ap. No entanto, as versões posteriores: Filoxeniana (ano 508) e Harclense (615-616) contêm os vinte e sete livros do Novo Testamento.
b) Padres gregos: Eusébio (+340) divide os livros do Novo Testamento em três classes: I) homologúmena, ou seja, os livros “que, segundo a tradição eclesiástica, são verdadeiros e genuínos e foram recebidos por todos sem oposição”. São os quatro evangelhos, At, 14 epístolas de São Paulo, 1Jo, 1Pd e o Apocalipse, com a ressalva: “se é considerado verdadeiro”; 2) antilegómena, cuja genuinidade é discutida por alguns: Tg, 2Pd, 2-3Jo, Jd; 3) espúrios, ou “adulterados”: os Atos de Paulo, o Pastor, o Apocalipse de Pedro, a epístola de Barnabé, a Didaqué, e, “se assim agrada, o Apocalipse de João”[21]. Eusébio, sob o influxo de São Dionísio, mostra-se indeciso sobre a colocação do Ap. Distingue entre João, o apóstolo, ao qual atribui o evangelho e a primeira epístola, e João, o presbítero, que seria o autor do Ap e de 2-3Jo.
São Cirilo de Jerusalém (+386), em sua Catechesis 4,33-36, escrita por volta do ano 348, oferece-nos o cânon completo do Novo Testamento, com a única omissão do Apocalipse de São João.
Santo Atanásio (ano 367) admite os 27 livros do Novo Testamento como sagrados e canônicos[22]. E o mesmo faz São Epifânio (+403)[23].
São Basílio (+379) aceita todos os livros do Novo Testamento, embora não cite explicitamente as epístolas 2-3Jo e Jd[24].
São Gregório Nazianzeno (328-389), em seu poema intitulado De veris libris Scripturae divinitus inspiratae, dá a lista de todos os livros do Novo Testamento, menos do Apocalipse. O P. Lagrange pensa que o não mencionar o Ap se deve a que São Gregório estava atado por causa do metro poético. E por isso, em lugar de mencioná-lo, faz uma alusão geral a ele, dizendo: “João, o universal e grande arauto, que percorre os céus”. No entanto, em outros lugares de suas obras cita expressamente o Ap, como quando escreve: “João no Apocalipse me ensina”[25]. Além disso, cita-o em conjunto com vários textos do evangelho de São João.
São Gregório de Nissa (335-394), irmão de São Basílio, cita a epístola aos Hb e o Ap. Dos demais não nos fala.
Santo Anfilóquio (340-403) oferece um cânon completo do Novo Testamento, embora a propósito do Ap se veja que sofreu o influxo dos Padres antioquenos, pois afirma que muitos o rejeitam. Alguns também duvidam, segundo ele, da 2Pd, 2-3Jo e Jd.
A esses testemunhos podemos acrescentar os códices unciais principais: o Sinaítico, de princípios do século IV, que contém todo o Novo Testamento; o Vaticano (B), de começos também do século IV, que tem todos os livros do Novo Testamento, até a epístola aos Hb; e o Alexandrino, de princípios do século V, que apresenta todos os livros neotestamentários[26].
c) Padres antioquenos.- Entre estes são dignos de menção São João Crisóstomo (+407), que cita com muita frequência a epístola aos Hb e a de Tg, mas nunca alega a 2Pd, a 2-3Jo e o Ap, o que parece indicar que as excluía do cânon. Outro tanto podemos dizer de Teodoreto de Ciro (+458), que tampouco cita as epístolas católicas menores e o Ap. Teodoro de Mopsuéstia (+428) ainda vai mais longe, pois inclusive rejeita as epístolas católicas maiores: Tg, 1Pd, 1Jo.
d) Padres latinos.- Quase todos os escritores eclesiásticos latinos desta época admitem o cânon íntegro do Novo Testamento. A discussão e as dúvidas centram-se sobretudo na epístola aos Hebreus, que no Ocidente, até a metade do século IV, é passada em silêncio por muitos autores. No Oriente, ao contrário, nunca se duvidou de sua canonicidade. No século IV disputou-se muito no Ocidente acerca de sua autenticidade. Possivelmente por este motivo não se encontra no cânon Claromontano (séc. IV), onde também faltam Fl e 1-2Ts, provavelmente por causa de um descuido do copista.
Nas últimas décadas do século IV quase todos os Padres latinos admitem unanimemente a autenticidade da epístola aos Hebreus. Deste modo chega-se à unanimidade completa, com a admissão dos 27 livros do Novo Testamento. Isto se vê claramente percorrendo as obras dos principais Padres deste período.
São Jerônimo (+410), que passou grande parte de sua Vida no Oriente, admite todos os livros do Novo Testamento. No que se refere aos deuterocanônicos do Antigo Testamento, foi hostil e não os considerou como canônicos; em compensação, quanto aos deuterocanônicos do Novo Testamento, adota a “veterum auctoritas” (“autoridade dos –padres– antigos”) e os recebe como canônicos, inclusive conhecendo as dúvidas que sobre alguns deles existiam tanto no Oriente como no Ocidente[27]. Referindo-se às epístolas de Tiago e Judas, afirma que obtiveram “autoridade” canônica “paulatim procedente tempore” (“pouco a pouco, com o passar do tempo”)[28]. Mas ele as coloca sem hesitação alguma entre os livros canônicos[29].
Rufino (+410) também admite os 27 livros do Novo Testamento como inspirados e canônicos.
Santo Agostinho (+430), em seu livro De doctrina christiana (ano 397), oferece-nos uma lista completa de todos os livros do Novo Testamento, idêntica à que mais tarde aceitará o concílio Tridentino. Foi sob sua influência que o concílio provincial de Hipona, ou seja, o concílio plenário de toda a África, celebrado em Hipona em 8 de outubro de 393, e os concílios III e IV de Cartago, dos anos 397 e 419, receberam este mesmo cânon[30].
Santo Ambrósio (+397) fez uso de todos os livros do Novo Testamento. Os únicos sobre os quais há alguma dúvida são as epístolas 2-3Jo. A epístola aos Hebreus atribui a São Paulo e o Apocalipse a São João.
São Hilário de Poitiers (+368) não nos dá uma lista dos livros do Novo Testamento, mas admitiu sem dúvida os protocanônicos. Dos deuterocanônicos do N.T. recebeu a epístola aos Hebreus, que considerava como de São Paulo, e usou a epístola de Tiago, a 2Pd e o Ap. Para São Hilário, o autor do Ap era São João. Não tem referências às epístolas 2-3Jo e Jd.
Prisciliano (por volta do ano 380), bispo de Ávila na Espanha, reconhece como inspirados e canônicos todos os livros do Novo Testamento. O único que não menciona é a epístola 3Jo.
Manuel de Tuya – José Salguero, Introducción a la Biblia, Tomo I, BAC, Madrid 1967, pág. 361-381
Fonte: Apologetica.org
NOTAS
- Cf. Cl 4,16. Há bastantes autores que sustentam que a epístola aos Laodicenses é a que desde fins do século II tem sido chamada epístola aos Efésios. ↩
- São Paulo cita como Escritura sagrada Dt 25,4 e as palavras de Jesus, que lemos em Lc 10,7. Disputam os autores se o Apóstolo cita o Evangelho escrito ou as palavras do Senhor recebidas por tradição. Como 1Tm é posterior ao evangelho de São Lucas, é muito possível que se refira a esse evangelho. ↩
- Cf. Epist. 1 ad Cor 47,3. ↩
- Epíst. Barnabé 4,14; cf. F. Funk, Patres Apostolici I (Tubinga 1901) p. 49. ↩
- Todas as citações e alusões aos livros do N.T. que se encontram nos Padres apostólicos foram recolhidas por F. X. Funk, Patres apostolici (Tubinga 1901). Cf. J. B. Lightfoot, The Apostolic Fathers (Londres 1890, primeira parte; 1889, segunda parte); B. Steidle, Patrologia seu historia antiquae litteraturae ecclesiasticae (Friburgo 1937); B. Altaner, Patrologie (Friburgo 1950). Também se pode consultar a obra The N. T. in the Apostolic Fathers, editada por um comitê da Oxford Society de Teologia histórica (Oxford 1905). ↩
- Cf. Apología I 67,3s: MG 6,429. Nesta Apol. I 66 adverte que com a expressão “memórias” quer designar os evangelhos e afirma que essas “memórias” foram escritas pelos apóstolos e pelos discípulos dos mesmos (Diál. com Trif. 103: MG 6,717). ↩
- Cf. Adv. Haer. 3, Praef. ↩
- Cf. Adv. Haer. 3,1; 3,11,8; W. Sanday – C. H. Turner – A. Souter, novun testamentum s. Irenaei episcopi lugdunensis: old-latin biblical texts 7 (oxford 1923); w. L. Duliére, Le Canon néotestamentaire et les écrits chrétiens approuvés par Irénée:La Nouvelle Clio 9 (1954) 199-229. ↩
- Cf. De praescr. 37. ↩
- Cf. Contra Marcionem 4,2 e 5. ↩
- Cf. De ieiunio 2 e 10; Contra Marc. 4,5; 5,19. ↩
- Cf. De pudic. 20. ↩
- Cf. De oratione 20; De pudic. 19.20; De cultu fem. 1,3; De praescr. 33. ↩
- Cf. Scorpiace 12. ↩
- Cf. L. A. Muratori, Antiquitates Italicae Medii Aevi III (Milão 1740) 851-854; H. Lietzmann, Das muratorische Fragment und die Monarchianischen Prologe zu den Evangelien (Borm 1908) p. 3-11; T. Zahn, Miscellanea II. Hippolytus der Verfasser des Muratorischen Kanons: Neue kirchliche Zeitschrift 33 (1922) 417-436. ↩
- Pode-se ver o texto do Fragmento de Muratori no Enchiridion Biblicum (Roma 1961) n. 1-7. Cf. J. Campos, Epoca del fragmento Muratoriano: Helmántica II (1960) 485-96. ↩
- Hist. Ecc. 6,14. ↩
- Cf. A. Merk, Origenes und der Kanon des A. T.: Bi 6 (1925) 200-205. ↩
- Cf. Comm. in Mt t. 17,30: MG 13, 1569-1572; In Lc hom. 1, MG 13, 1802s. ↩
- Cf. J. B. Lightfoot. em The Academy 2 (1889) 186-188.205; TH. H. Robinson, The Authorship of the Muratorian Canon: The Expositor 7,1 (1906) 481-495; Th. Zahn, Hippolitus der Verfasser des Muratorischen Kanons: Neue kirchliche Zeitschrift 33 (1922) 417-436; S. Ritter, Il frammento Muratoriano: Rivista de Archeologia Cristiana 3 (1926) 215-263; M. J. Lagrange, Histoire ancienne du Canon du N. T. p.66-84. ↩
- Cf. Hist. Eccl. 3,25. ↩
- Epist. Festalis 39. ↩
- Haer. 30,25. ↩
- Adv. Eunom. 4,5. ↩
- Cf. Or. 42,9; 29,17. ↩
- Também são importantes para o cânon do N.T. os papiros encontrados principalmente no Egito. A coleção Chester Beatty contém o P45 de princípios do século III, que tem fragmentos dos quatro evangelhos e dos At; o P46, também de princípios do século III, que continha originariamente a epístola aos Rm, 1-2Cor, Ef, Gl, Fl, Cl, 1-2Ts; o P47, do século III, com fragmentos do Ap. O P20, também do século III, e o P23 contêm a epístola de Tg; o P13 e P17, do século IV, têm a epístola aos Hb; o P18, do século III-IV, e o P24, do século IV, que apresentam o Apocalipse. ↩
- Cf. Epist. 129 ad Dardanum, 3. ↩
- Cf. De Viris illustr. 2,4. ↩
- Cf. Epist. 53 ad Paulinum, 8. ↩
- Cf. De doctr. christ. 2,8,13. ↩