Respostas às objeções mais frequentes.
Talvez o sacramental mais emblemático no Catolicismo seja o Rosário, esse colar de contas com um crucifixo no final. O famoso televangelista Jimmy Swaggart o explicou à sua maneira na empoeirada capa de seu livro anticatólico “Catolicismo e Cristianismo” [1]. Swaggart escreveu: “O Rosário (ou oração de ‘contas’) foi introduzido por Pedro, o Eremita, em 1090 d.C. Foi copiado dos hindus e dos maometanos (sic). Recitar orações repetitivamente é uma prática pagã e está condenado explicitamente por Cristo” (Mt 6:5-7) [2].
Com exceção da afirmação de que as contas do Rosário estão associadas a uma oração cada uma, Swaggart não acerta absolutamente nada em todo o restante. E isso é lamentável, pois tais representações tão grosseiramente deformadas assustam cristãos sem formação, afastando-os de uma poderosa arma de oração e contemplação.
A Tradição associa o Rosário não a Pedro, o Eremita, mas a São Domingos de Gusmão (1170-1221), de quem se diz que o recebeu da Virgem Maria para combater a heresia albigense. Essa lenda parece vir dos escritos de Alan de la Roche (1428-1475), aquele infatigável pregador dominicano do Rosário. Estudos críticos mais modernos realizados por dominicanos e outros estudiosos do tema revelam que a história é bastante mais complicada, embora certamente sem nenhuma relação com hindus ou muçulmanos.
Os monges da Idade Média tinham o costume de rezar diariamente os 150 salmos. Como os irmãos leigos das ordens eram iletrados e não podiam lê-los, surgiu entre eles a prática de recitar o Pai-Nosso 150 vezes.
Usavam contas para contabilizá-los. Essa prática se difundiu entre os leigos e, assim, outras orações fáceis de recordar foram acrescentadas. Durante os séculos XV e XVI, o Rosário se estabeleceu tal como o conhecemos hoje, consistindo no Credo dos Apóstolos, no Pai-Nosso, na Ave-Maria e no Glória.
O Credo dos Apóstolos apareceu pela primeira vez como credo batismal em Roma no século II, e tomou sua forma atual no século V. Embora não tenha sido escrito pelos Apóstolos, é geralmente aceito que pode muito bem ter sido de origem apostólica.
O Pai-Nosso corresponde às contas que aparecem isoladas,
separadas dos grupos de 10 contas (as “dezenas”). Todo cristão conhece essa oração: é a que se encontra, em sua versão longa, em Mt 6:9-13. Curiosamente, está na mesma passagem da Escritura em que Jesus diz: “Mas, quando orardes, não useis vãs repetições como fazem os pagãos, que pensam que serão ouvidos por suas muitas palavras” (Mt 6:7). Esse é o versículo que Jimmy Swaggart diz que condena a “prática pagã” de “recitar orações”. Embora o próprio Jesus nos tenha dado o Pai-Nosso, alguns cristãos fundamentalistas tentam dissuadir os demais cristãos de usá-lo mais do que como uma oração-modelo, pois creem que rezá-lo constituiria uma “vã repetição”.
Mas vejamos o contexto do versículo em questão. Mateus 6:5-6 trata das práticas de oração dos próprios judeus. Jesus as qualifica de hipócritas. Não condena as orações repetitivas judaicas, das quais havia muitas. Por exemplo, o livro dos Salmos é uma coleção de hinos e orações usadas repetidamente em celebrações judaicas das quais o próprio Jesus participava. Um dos salmos, o 136, é em si mesmo uma oração repetitiva, em forma de ladainha. A Páscoa, celebrada por Jesus antes de sua crucifixão, incluía orações fixas que eram repetidas anualmente, entre elas os salmos 113 a 118. Depois da Última Ceia, Jesus foi ao Horto do Getsêmani e rezou a mesma oração três vezes seguidas (Mt 26:39-44). Assim, também Ele recorreu à oração repetitiva.
No par seguinte de versículos (Mt 6:7-8), Jesus nos previne contra as práticas de oração dos pagãos, que tinham uma visão mágica da oração e cujas orações repetitivas Ele condenou. O versículo 7 diz, na tradução protestante “King James”: “Não useis vãs repetições” (a palavra grega original é “battalogeo”) como fazem os pagãos. Battalogeo se traduz melhor como “tagarelar” ou usar muitas palavras, e assim é traduzida na “Nova Versão Internacional” (NIV). A “Versão Standard Revisada” (RSV) traduz por “frases vazias” [3]. Jesus não condena a mera repetição — algo que Ele mesmo fez, como outros bons judeus —, mas a tagarelice dos pagãos.
Que tipo de tagarelice praticavam os pagãos? Vejamos 1 Reis 18:26-29, onde os profetas pagãos no Monte Carmelo tentavam invocar Baal durante todo o dia, invocando repetidamente seu nome e realizando danças rituais: “Tomaram o novilho, prepararam-no e ficaram rogando desde a manhã até o meio-dia, dizendo: «Baal, responde-nos.» Mas não se ouviu resposta alguma, e dançavam junto ao altar que haviam feito… Eles gritaram mais forte e, segundo seu costume, começaram a fazer cortes com uma faca até brotar-lhes sangue. Passado o meio-dia, caíram em transe até a hora em que se oferecem os sacrifícios da tarde, mas não se ouviu ninguém que lhes desse uma resposta ou um sinal de aceitação”. Uma vez que os profetas pagãos desistiram, Elias invocou o Deus de Israel, e sua oração foi atendida imediatamente.
As orações dos profetas pagãos eram “vãs” porque, depois de passarem o dia inteiro chamando desesperadamente por Baal, este nunca lhes respondia. Não era um deus real, ao contrário do Deus de Israel, que sempre responde à oração sincera. O argumento de Jesus em Mt 6:7 é que não precisamos passar o dia inteiro saltando sobre altares, cortando-nos com facas ou delirando para sermos escutados por nosso Pai do Céu. Ele escuta nossas orações independentemente do tipo de oração que seja — longa ou curta, composta ou improvisada, em grupo ou individual, repetitiva ou única —, desde que seja sentida, compreendida e não “de corrido”; neste caso, ela é “vã”, vazia, reduzida a palavrório.
E assim Jesus diz no versículo seguinte: “Portanto, não sejais como eles [os pagãos], pois vosso Pai sabe do que necessitais antes que lho peçais” (Mt 6:8). Isso não significa que, como Deus já conhece nossas necessidades, não tenhamos de orar a Ele. Como Jesus ensina na parábola da viúva perseverante (Lc 18:1-8), temos de ser tenazes na oração, livre ou repetida (repetitiva), levando nossa petição diante de Deus. Por outro lado, ao pedir perseverantemente a intercessão de alguém “justo” como Maria, ela também orará por nós perseverantemente, o que diante de Deus tem “muito poder” (Tg 5:16). E que maneira há mais fácil de fazer uma oração perseverante do que repeti-la? Alguns argumentam que, se nossa oração é a mesma, ao menos deve ser espaçada no tempo para que não seja repetitiva. Entretanto, Deus está acima do tempo; para Ele tanto faz que lhe peçamos a mesma coisa a cada quinze segundos ou depois de muito tempo. Portanto, no primeiro caso podemos perseverar muito mais do que no último, pois em um tempo razoável apresentamos nossa oração mais vezes, enquanto rezar uma Ave-Maria depois de longos intervalos dificilmente nos permitiria rezar o Rosário inteiro em um dia, além de interromper constantemente nossas atividades.
São Paulo diz que temos de “orar constantemente” (1Ts 5:17); não diz “orar com moderação, para não nos repetirmos” (o que é inevitável na oração contínua). Um dos benefícios do Rosário é que ele nos conduz naturalmente a uma oração e meditação contínuas, o que a Escritura nos ordena.
Se ainda restasse alguma dúvida sobre se Deus aceita a repetição na oração, podemos ver também em Ap 4:8-11 como os quatro seres viventes fazem uso dela: “Os quatro Viventes têm cada um seis asas, estão cheios de olhos ao redor e por dentro, e repetem sem descanso, dia e noite: «Santo, Santo, Santo, Senhor, Deus Todo-Poderoso, ‘Aquele que era, que é e que há de vir’»”, seguidos de antífonas repetitivas dos Anciãos.
A Ave-Maria é o coração do Rosário e é dita dez vezes, uma por cada uma das contas agrupadas em dezenas, quinze ao todo, totalizando portanto 150 Ave-Marias, tantas quantos salmos tem o saltério. A primeira parte da oração é composta de dois versículos bíblicos: “Ave, Maria, cheia de Graça, o Senhor está contigo” (Lc 1:28) e “bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus” (Lc 1:42).
O restante da oração é: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”. Assim como foi chamada na Terra objeto da Graça Divina (Lc 1:28) e agora está glorificada no Céu, Maria é chamada “Santa”.
O título “Mãe de Deus” (que provém de “Theotokos” no original grego, ou “aquela que porta Deus”) é muito antigo. Aparece em um papiro encontrado no Egito e datado entre os anos 250 e 270 (não é, portanto, uma “invenção” do Concílio de Niceia do ano 431, como muitos protestantes sustentam) e invoca a intercessão da “Theotokos” [4]. Nós, católicos, sustentamos que a pessoa nascida da Virgem Maria é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a Palavra de Deus (em grego, Logos), e, portanto, é Deus (Jo 1:1,14). Como Jesus é Deus, humanidade e divindade unidas completamente em uma Pessoa, a mãe de Jesus é, portanto, a mãe (não a criadora) de Deus; a Theotokos [5].
Muitos não católicos se opõem à prática de pedir aos santos do Céu, inclusive Maria, que roguem por nós. Frequentemente citam 1 Tim 2:5: “Porque há um só Deus, e também um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem também”. Como Jesus é o único mediador, argumentam que Maria (ou qualquer outro santo) não deveria ser invocada para pedir por nós. Ao rezar “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”, os católicos se intrometeriam na única mediação de Cristo. Mas essa ideia só pode ser mantida se alguém crê que a morte cria um abismo entre os cristãos da Terra e os do Céu.
Nós, católicos, cremos que os cristãos não estão separados de Cristo nem uns dos outros após a morte (Rm 8:38-39). O Corpo de Cristo é um só, embora tenha muitos membros (1 Cor 12:12), e os cristãos não são amputados do Corpo quando vão para o Céu. Tampouco há duas Igrejas, uma no Céu e outra na Terra, separadas pela morte e, portanto, sem comunhão uma com a outra. A Igreja é a Esposa de Cristo (Ap 21:9 e ss.) e Jesus é um estrito monógamo. Portanto, rejeitamos qualquer ideia que nos separe uns dos outros e, assim, destrua a unidade da Igreja.
Como se diz no Credo dos Apóstolos, nós, católicos, cremos na “comunhão dos santos”. Isso significa que, como somos todos um em Cristo, podemos pedir aos santos no Céu que rezem por nós da mesma forma que podemos pedir isso a nossos irmãos e irmãs em Cristo que ainda estão na Terra (como fez São Paulo em Rm 15:30). Como nos foi ordenado pedir uns pelos outros (1 Tim 2:1, Ef 2:1, Hb 4:16) e como a palavra do Senhor “permanece firme nos Céus” assim como na Terra (Sl 119:89), não vamos contra a Escritura se pedimos orações aos santos do Céu. É precisamente pela mediação de Cristo que os cristãos no Céu podem rezar pelos que estão na Terra. E assim se entende que, embora São Paulo proclame a única mediação de Cristo em 1 Tim 2:5, quatro versículos antes peça aos cristãos “intercessões” por “todos os homens”.
Sabemos que os santos no Céu estão atentos ao que nos acontece (Hb 12:1, Lc 15:7, Ap 19:2-3) e que oferecem orações (Ap 5:8-10, 8:3), inclusive pedindo a Deus que intervenha na Terra (Ap 6:9-10). Hebreus 12:22-24 nos diz que nos aproximemos não só de Jesus, o “mediador da nova aliança”, mas também da Jerusalém celeste, da “assembleia dos primogênitos inscritos no Céu” e dos “espíritos dos justos que já chegaram à perfeição”. Não hesitamos em pedir-lhes suas orações por nós, porque “a oração perseverante do justo tem muito poder” (Tg 5:16b). É verdade que podemos pedir a Deus diretamente, mas certamente Ele se compraz mais se, generosamente, intercedemos por outros ou, confiadamente, pedimos sua intercessão, reforçando assim o laço familiar que Ele criou entre nós e que tantas vezes nos custa reconhecer. Por isso, se o fazemos, damos-lhe alegria; não escutará então com maior agrado nossa oração ou a daqueles que intercedam por nós? Além disso, foi graças à intercessão de Maria que Jesus agiu em favor dos noivos de Caná, embora Ele mesmo se recusasse (Jo 2,4), argumentando que ainda não havia chegado a sua hora, isto é, que não era a vontade de seu Pai (pois sua missão foi confiada pelo Pai (Jo 3,16-17; 10,36)). Aqui vemos como, embora “o alimento de Jesus seja fazer a vontade de seu Pai” (Jo 4,34), Jesus acaba fazendo a vontade de sua mãe (certamente com o consentimento final do Pai). Tem ou não tem poder a intercessão de Maria?
Alguns objetam que os santos estão mortos e que a Bíblia proíbe a comunicação com os mortos (Lv 19:31, 20:6,27) por meio de médiuns e outras práticas ocultistas (necromancia).
Mas nós, católicos, não pretendemos obter informações de espíritos, como se faz nas sessões de espiritismo. A Igreja condena o ocultismo. Na realidade, os santos no Céu não estão “mortos”; estão mais vivos que nós. “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, diz Jesus citando o Êxodo. “Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos vivem” (Mc 12:26-27 ou Lc 20:38). Se Jesus não pretendesse que os santos da Terra se comunicassem com os do Céu, teria escolhido um mau exemplo ao aparecer a Pedro, Tiago e João no Monte Tabor (Mt 17:1-8).
Às vezes, fundamentalistas como Jimmy Swaggart dizem que rezar dez Ave-Marias para cada Pai-Nosso confirma suas piores suspeitas acerca do catolicismo: os católicos preferem Maria na proporção de 10 para 1 em relação a Deus. Tal afirmação não só é ofensiva para os católicos, como também é logicamente absurda. Na versão protestante da Bíblia King James, o nome de São Paulo aparece nos Atos dos Apóstolos 126 vezes, enquanto o de Jesus aparece apenas 68. Isso implica que o autor dos Atos dava o dobro de importância a São Paulo do que a Jesus? E o fato de que, na tradução protestante do livro de Ester, não apareça uma única vez a palavra “Deus” ou “Senhor” significa que o autor desse livro era ateu? Tais “provas” estatísticas não provam absolutamente nada. O Rosário é uma devoção em honra da Bem-Aventurada Virgem Maria, que, sob inspiração divina, profetizou que todas as gerações a chamariam bem-aventurada (Lc 1:48). Em tais devoções, os católicos cumprem alegremente a profecia, recordando que Deus nos abençoa quando bendizemos aqueles a quem Ele favoreceu especialmente (Gn 12:3, 27:29, Nm 24:9).
Depois das dez Ave-Marias, diz-se o Glória correspondente à conta que aparece isolada imediatamente depois das dez anteriores e logo antes da dezena seguinte. É uma “doxologia” (aclamação final) usada desde os tempos da Igreja primitiva, quando havia controvérsias sobre a Trindade. “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém”. Encontra-se também, como o Credo dos Apóstolos e o Pai-Nosso, na maior parte das principais igrejas protestantes.
Mas há mais no Rosário do que simplesmente recitar orações. O Rosário é uma contemplação dos Evangelhos. A cada dezena se associa um “mistério”, um episódio do Evangelho que se medita, sendo a palavra “mistério” usada no sentido de “revelação divina”. Há quinze mistérios divididos em três grupos de cinco: os gozosos, os dolorosos e os gloriosos.
Os mistérios gozosos são a Anunciação (Lc 1:26-38), a visitação de Maria a sua parenta Isabel (Lc 1:39-56), o Nascimento de Jesus (Lc 2:1-20), a apresentação de Jesus no Templo (Lc 2:22-38) e o encontro do Menino Jesus no Templo (Lc 2:41-52).
Os mistérios dolorosos são a agonia de Jesus no horto do Getsêmani (Lc 22:39-53), a flagelação (Jo 19:1, Is 53:5), a coroação de espinhos (Mc 15:17-20), Jesus carregando a cruz (Mc 15:20-22) e a crucifixão (Jo 19:18-30).
Os mistérios gloriosos compreendem: a ressurreição (Jo 20:1-29), a ascensão (Atos 1:6-12), a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos (Atos 2:1-13), a Assunção de Maria (Ap 12:1) e a coroação de Maria no Céu (Ap 12:1-2,5).
Exceto os dois últimos, todos os demais estão explicitamente detalhados na Bíblia. Examinemos mais de perto esses dois que só o estão implicitamente.
A assunção em corpo e alma de Maria ao Céu no fim de sua vida não é mostrada explicitamente nem é contradita pela Bíblia, embora haja precedentes (Hb 11:5 menciona a assunção de Henoc; 2 Reis 2:11 dá testemunho da de Elias; São Paulo admite a possibilidade de sua própria assunção corporal em 2 Cor 12:2-4). Não há indício de que os restos de Maria tenham sido venerados como relíquias (uma prática habitual na Igreja primitiva), e a crença em sua assunção se mantém tanto no Oriente (ortodoxos) como no Ocidente (católicos).
Maria é percebida no pensamento católico como a protocristã e o símbolo da Igreja como um todo. Daí que sua assunção seja vista como um sinal do destino final da Igreja. Cristo virá no fim para levar sua Esposa ao reino e glorificá-la (2 Ts 4:16-17). A crença na assunção é reafirmada por todas as comunidades cristãs que têm vínculos com a Igreja primitiva — à qual nosso Senhor prometeu conduzir à plenitude da verdade (Jo 16:12-13, cf. Mt 16:18 e 28:20). A crença é muito antiga e muito difundida, e aqueles que negam esse ensinamento o fazem sem fundamento bíblico, pois os cristãos são chamados a seguir todas as tradições apostólicas, escritas ou não no Novo Testamento (2 Ts 2:15).
A coroação de Maria no céu deve ser entendida à luz do pano de fundo judaico do cristianismo primitivo. Em Judá, devido em parte ao quarto Mandamento (Ex 20:12), a mãe daquele que era ungido como rei desempenhava uma função de considerável importância, e seu nome estava, com apenas duas exceções, associado à inclusão do rei nos anais oficiais [6]. A mãe do rei levava o prestigioso título de Gebirah [7], que lhe conferia grandes poderes, e recebia honras de primeira ordem. Tinha um lugar oficial na corte, era senhora do harém, tinha poder suficiente para assumir o controle absoluto da nação em caso de morte do rei (como fez Atalia em 842 a.C., 2 Reis 11:1-3), era enviada ao desterro junto com o rei (como Neústa em 597 a.C., Jr 29:2), e podia ser deposta (como o foi a avó idólatra do rei Asa, Maaca, que primeiro foi rainha-mãe durante o reinado de seu filho Abiam, 1 Reis 15:2,10,13; 2 Cr 15:16). A Gebirah era uma instituição monárquica e tinha um trono e uma coroa [8].
Como Jesus é o último e definitivo Rei dos Judeus, cumprindo a profecia messiânica de 2 Sm 7:10-17, seria verdadeiramente estranho que Maria não tivesse sua coroa como a última e definitiva rainha-mãe. A natureza monárquica do reino de Deus, completa com a rainha-mãe, pode ser difícil de apreciar por aqueles que vivem em uma cultura democrática, mas era algo aceito como natural no cristianismo primitivo, como atestam a arte e a literatura.
Em 1 Reis 1:16,31 vemos a rainha Betsabé suplicando ao rei Davi, seu esposo, “ajoelhando-se e prostrando-se a seus pés” e dizendo-lhe: “Viva para sempre meu senhor, o rei Davi”. Esse era o protocolo habitual na corte de um monarca oriental, embora a posição da rainha pareça ter sido, de certo modo, mais elevada em outros países orientais próximos do que foi em Judá e Israel (comparar, ainda assim, com Jezabel em 1 Reis 21:7-11).
Contrastemos esse primeiro capítulo de 1 Reis com o seguinte. Nele (versículos 13 a 20), Salomão, o filho de Davi, é investido rei. Adonias aproxima-se de “Betsabé, a mãe de Salomão” com um pedido: “Fala, por favor, ao rei Salomão, que não te rejeitará”. Betsabé lhe promete (vers. 18) interceder junto a Salomão por ele (comparar com Jo 2:1-11, onde Maria intercede junto a Jesus), sem perceber os planos de Adonias para ficar com o trono. “Betsabé entrou onde estava o rei Salomão para falar-lhe acerca de Adonias” (vers. 19). O uso do título “Rei Salomão” indica que Salomão atua em sua posição oficial de rei (cf. vers. 23)
Em vez de se prostrar diante de Salomão como havia feito antes diante do rei Davi, “o rei se levantou, foi ao seu encontro e se prostrou diante dela, e depois se sentou em seu trono; puseram um trono para a mãe do rei e ela se sentou à sua direita. Ela disse: «Tenho de fazer-te um pequeno pedido; não mo negues.» Disse o rei: «Pede, minha mãe, pois não to negarei»” (vers. 19 e 20). Salomão não estava sendo simplesmente um bom filho, mas era costume em todo o mundo antigo fazer do assento à direita um lugar de honra e de autoridade delegada, razão pela qual o Novo Testamento fala de Jesus como sentado à direita do Pai. O status de Betsabé na sociedade havia mudado: passava a ser a “rainha-mãe”.
A Bíblia ensina que os protótipos do Antigo Testamento (como o cordeiro pascal, o Dilúvio, Agar ou Sara) encontram a plenitude de seu cumprimento no Novo Testamento (Jo 1:29, 1 Pe 3:18-21, Gl 4:21-31). Assim como Cristo é superior ao cordeiro pascal, que o prefigura, o cumprimento do protótipo em questão é sempre maior que o protótipo. Os cristãos reconhecem que Jesus Cristo, o Filho de Davi e Rei de Israel por excelência, é o cumprimento perfeito do Rei Salomão, o filho original de Davi. Da mesma forma, os cristãos também reconhecem que a Virgem Maria cumpre perfeitamente o papel da mãe de Salomão, a Gebirah original, que prefigura a mãe do Messias.
Nós, católicos, cremos que Jesus se levantou de seu trono no céu e, como Salomão, se abaixou para encontrar sua mãe e elevá-la para que estivesse com Ele (a assunção). Então a levou a um trono preparado para ela à sua direita, em uma posição de autoridade e honra (a coroação). Desde ali, como Betsabé, intercede em nosso favor como a rainha-mãe da Igreja, o Israel espiritual (Rm 11:17 e ss., 1 Pe 2:9). De humilde serva do Senhor a Gebirah do reino de Deus: “porque olhou para a humildade de sua serva. Desde agora todas as gerações me felicitarão, porque o Poderoso fez grandes obras por mim… derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1:48-49,52).
Epicteto, no segundo século, disse que “se teu coração cabe em uma coroa, põe-lhe rosas e terá uma aparência melhor”. “Rosário” vem do latim “rosarium”, que significa “jardim de rosas”, o que sugere que entregamos uma coroa de rosas a Nossa Senhora.
Esta é a coroação da Mãe do Rei (Ap 12:1) e, mais importante, a do próprio Rei dos Reis (Ap 6:2). É perseverando na fé que esperamos receber nossas próprias coroas (Ap 2:10), e nenhuma outra devoção supera o Rosário em obter a fortaleza e a Graça necessárias para esse fim. “Os atletas se privam de tudo; e isso por uma coroa corruptível! Nós, porém, o fazemos por uma incorruptível” (1 Cor 9:25).
O autor escreve da região de Los Angeles, onde reza o Rosário regularmente.
Autor: T. L. Frazier, This Rock 1994.
Tradutor: Fernando Sales-Mayor
Fonte: Apologetica.org
Notas
1. Jimmy Swaggart, <Catholicism and Christianity> (Baton Rouge: Jimmy Swaggart Ministries, 1986).
2. Ibid., 160-161.
3. Battalogeo, palavra grega usada muito raramente, exceto em escritos neotestamentários; talvez esteja conectada com a palavra aramaica “battal” (sem valor, insípido, inútil). Battal aparece em um papiro aramaico de Qumran, com o significado de “sem efeito”. O manuscrito siríaco sinaítico de Mateus traduz este versículo por “não vos ponhais a dizer coisas sem significado”.
4. Papiro 470, John Rylands Library, Manchester, England. (C. H. Roberts (ed.), Catalogue of Greek and Latin Papyri in the John Rylands Library, Manchester vol. III, Theological and Literary Texts (Nos. 457 – 551) (1938) no. 470.
5. Se procuramos um texto bíblico para apoiar o uso do título Theotokos, podemos nos fixar na visitação de Maria à sua parenta Isabel, que olha para Maria e exclama: “como me é concedido que a mãe do meu Senhor (ha mater tou kyriou mou, no original grego) venha a mim?” (Lc 1:43). Todo aquele que tenha alguma prática com a Bíblia saberá que o título “Senhor” (kyrios) é praticamente sinônimo do Deus de Israel (Sl 110:1-4). De fato, a tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta) usa essa palavra para traduzir o tetragramaton, YHWH (Javé), embora kyrios seja realmente a tradução para o grego de “Adonai”, Senhor, em hebraico. Assim, o que Isabel disse pode ser reescrito assim: “como me é concedido que a mãe do meu Deus venha a mim?”.
6. Ver 1 Reis 14:21; 15:2,10; 22:42; 2 Reis 8:26; 9:6-7,22; 12:1; 14:2; 15:2,33; 18:2; 22:1; 23:31,36; 24:18
7. Literalmente, “dama” ou “senhora”, usado seis vezes na Bíblia e sempre como título de rainha, seja como esposa (1 Reis 11:19) ou mãe do rei (1 Reis 15:13, 2 Reis 10:13, 2Cr 15:16, Jr 13:18, 29:2). Esse título é usado apenas uma vez em referência à esposa de um rei, e mesmo aí se refere a Tafnes, rainha do Egito, não de Judá, onde o título se associa à rainha-mãe.
8. Comparar com Jeremias 13:18, onde o profeta proclama ao rei Joaquim, de 18 anos, e à rainha-mãe, Neústa: “Dize ao rei e à rainha-mãe: ‘Humilhai-vos, sentai-vos, porque caiu de vossas cabeças vossa diadema preciosa’”.