Recentemente, em uma das comunidades onde sou administrador adjunto, um dos participantes, que professava ser cristão evangélico, fez-me a seguinte pergunta

“Cristo está dividido por Maria?”

Para depois citar a seguinte passagem:

Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos a mesma coisa, e que não haja entre vós divisões; antes, sejais unidos no mesmo modo de pensar e no mesmo parecer. Pois, meus irmãos, fui informado a vosso respeito, pelos da casa de Cloé, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que cada um de vós diz: «Eu sou de Paulo», «Eu, de Apolo», «Eu, de Cefas», «Eu, de Cristo». Está Cristo dividido? Acaso Paulo foi crucificado por vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo? Dou graças a Deus por não ter batizado nenhum de vós, exceto Crispo e Gaio! Assim, ninguém pode dizer que fostes batizados em meu nome. Ah, sim!, também batizei a família de Estéfanas. Quanto ao mais, não creio ter batizado nenhum outro. Pois Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho. E não com palavras de sabedoria, para não esvaziar a cruz de Cristo.” 1 Coríntios 1,10-17

Continuando…

Definitivamente, a Bíblia nos ensina: que falemos todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós divisões, mas que estejamos unidos numa mesma mente. E definitivamente a mente dos amigos católicos é verdadeiramente diferente e o parecer, absolutamente oposto, porque enquanto nossas anciãs ainda continuam ajoelhadas diante de uma estatueta, ou andam confiando em seus amuletos, Deus nos ensina por meio de sua preciosa palavra que falemos numa mesma mente e num mesmo parecer. O pensamento doutrinal católico é bem diferente do pensamento Divino. Definitivamente com marias, as virgens, porque são infinitas as que têm aparecido (virgem do Carmo, de Chiquinquirá, Guadalupe etc., etc., etc.), está-se tornando vã a Cruz de Cristo”

Para analisar em profundidade esta pergunta, quis fazer este pequeno estudo.

A unidade: a que se refere?

A primeira coisa que temos de notar é que Paulo fala de unidade “entre os crentes”. Paulo não está falando de unidade entre os crentes e o pensamento divino, mas de unidade entre o pensamento dos crentes entre si. É óbvio que nosso pensamento deve estar de acordo com o pensamento de nosso Pai Celestial, mas é aqui que vejo que começa a falhar a crítica de minha amiga, já que ela está comparando o que “ela diz” ser o pensamento divino (sua perspectiva pessoal do que entende da Bíblia) com o que o povo católico e a Igreja pensam realmente. Devemos ser sinceros: a crítica começou dizendo que os católicos “estávamos divididos” (entre nós), não que nosso pensamento fosse diferente do dela.

A segunda coisa que é importante notar na passagem é que esta unidade que o Apóstolo exige em nome de Cristo é uma unidade “doutrinal”, uma unidade de “fé”, que inclui uma mesma “mentalidade” e“juízo”. É nesse sentido que ela deveria poder justificar esta crítica, pois, apesar de haver cada vez mais movimentos de renovação, como a “renovação carismática católica”, “caminho neocatecumenal”, “faroleiros”, “dominicanos”, “franciscanos”, “jesuítas” e por aí vai, todos sem exceção professamos uma mesma fé e uma mesma doutrina. Eu convidei numerosas vezes meus irmãos separados a me mencionarem ao menos UM SÓ dos movimentos católicos que desconheça sequer um único dogma fundamental de fé, e até agora nenhum pôde nomeá-lo, porque simplesmente esse movimento não existe.

A isso chamamos “Unidade na diversidade”, muitos estilos, mas um mesmo credo e uma mesma fé.

Eu, pois, prisioneiro no Senhor, exorto-vos a viverdes de maneira digna da vocação com que fostes chamados, com toda humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros com amor, esforçando-vos por conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como uma só é a esperança à qual fostes chamados. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por todos e em todos.” Efésios   4,1-6

Quando, na passagem anterior, Paulo se refere a que devemos viver unidos em uma só fé, não se refere a crer em Jesus — todos já eram crentes —, mas a uma unidade doutrinal de fé que implicava muito mais do que isso: viver unidos em um só Corpo e um só Espírito. Um só batismo e um só Deus.

É claro que, nesse sentido, o fato de um católico venezuelano recordar a Virgem Maria sob a invocação da Virgem de Coromoto, assim como um mexicano a Virgem de Guadalupe ou um francês a Virgem de Lourdes, não quer dizer que creiam que são Virgens diferentes. Todos, sem exceção, têm claro que, seja branca ou morena clara, loira ou morena, é a mesma que há quase 2000 anos disse ao anjo:

“…«Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.»…” Lucas 1,38

Devolvendo a crítica

O interessante de ter recebido a crítica é que quem a faz deve estar seriamente disposto a refletir sobre o que disse. Não é próprio de um cristão apontar sem antes fazer uma avaliação da própria condição; a Bíblia já o diz

“Como é que olhas o cisco que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?” Mateus   7,3

E por isso, depois de ouvir pacientemente tudo o que minha irmã quis apresentar, eu quis devolver-lhe a pergunta

Mas a senhora pensa que aquilo que hoje é chamado cristianismo evangélico está unido doutrinalmente?

Façamos uma revisão para ver se o exame que ela fez sobre nossa fé ela mesma é capaz de superar, e comecemos por esclarecer que, se o cristianismo evangélico está unido doutrinalmente quanto à fé, deveriam crer o mesmo quanto a temas fundamentais como “A Trindade e a divindade de Cristo”, “A salvação”, “O batismo”, “O pecado original”, “A presença de Cristo na fração do pão”, “Os sacramentos”, “A confissão”, “o ecumenismo e a atitude para com outros irmãos cristãos”, etc.

A Trindade e a divindade de Cristo

Uma doutrina que o cristianismo evangélico sempre compartilhou com a fé católica é a crença na doutrina da Santíssima Trindade. Esta doutrina ensina que Deus é UNO e ao mesmo tempo TRINO. Um só Deus em três pessoas distintas, mas de igual natureza: Pai, Filho e Espírito Santo. A implicação desta doutrina é que tanto Jesus é verdadeiro Deus como também o Espírito Santo é verdadeiro Deus.

Hoje em dia cresce alarmantemente a quantidade de denominações que surgiram da separação dessas Igrejas e que se denominam a si mesmas cristãs evangélicas, mas que agora desconhecem este dogma fundamental de fé. Seria impossível fazer uma contagem exata,  mas tomei de um fórum evangélico Ekkesia Viva uma lista parcial daqueles que eles mesmos chamam de “Seitas não Trinitárias”, alguns dos quais professam ser “cristãos evangélicos”, mas são desconhecidos pelos primeiros como tais. Entre eles mencionam

Unicistas (modalistas), que  creem que Deus é um, mas creem que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são manifestações, e não Pessoas. Exemplos: Igreja Pentecostal Unida.

Os que creem que Deus tem três “partes” e não três pessoas. Tipicamente, assim creem muitos grupos judaico-messiânicos.

Os que negam a plena divindade de Cristo. Ou seja, creem que Cristo é o Filho de Deus, mas não creem que ELE É Deus. São subordinacionistas: creem que o único Deus verdadeiro é o Pai e que as outras duas pessoas divinas são apenas manifestações algo inferiores, que fluem do Pai. Exemplo: “Igreja A Luz do Mundo”, “Igrejas Cristãs de Deus”.

Os politeístas Creem que o Pai e o Filho são dois deuses separados. Exemplo: Tito Martínez da Espanha e seu grupo. Especializa-se em difundir sua doutrina pela Internet.

Os que negam a divindade e a personalidade do Espírito Santo: Igreja de Deus Universal -WCG (*), os seguidores de Herbert Armstrong-, e vários dos grupos já mencionados acima.

E também dão esta lista como “grupos heréticos”

Igreja Pentecostal Unida, Igreja do Deus Vivo coluna e baluarte da verdade, Igreja de Deus Unidaa Luz do Mundo, Igreja de Deus do 7º Dia, Igreja de Deus Israelita, Igreja Apostólica da Fé em Cristo Jesus, Assembleia Apostólica da Fé em Cristo Jesus, Casa do Oleiro, Igrejas Cristãs de Deus, Crescendo em Graça, Igreja Evangélica Cristã Espiritual, a maioria dos grupos judaico-messiânicos, alguns quacres, Igreja de Deus Cristã e Bíblica.

Depois de eles mesmos mencionarem tão grande número de Igrejas como grupos heréticos, várias das quais professam elas próprias ser Igrejas evangélicas, será que há unidade doutrinal e de fé a respeito deste dogma fundamental de fé? Se não conseguem entrar em acordo sequer sobre se Cristo é Deus, podemos dizer que há unidade em mentalidade e juízo?

Há pouco tempo, inclusive, em uma comunidade em que costumo dialogar sobre temas, tive a oportunidade de defender a doutrina da Trindade com alguém que se professava “cristão evangélico”, mas que a negava“rotundamente” (segundo a doutrina oficial de sua Igreja).

Lembro que lhe pedi que me explicasse: se Jesus não era Deus, por que Tomé lhe havia dito “Meu Senhor e meu Deus” e Jesus não o corrigiu. Ele me respondeu que era simplesmente um sinal de espanto ao vê-lo ressuscitado. Em um momento, converteu a aceitação de Tomé de Jesus como Deus e Senhor em um “Oh my God!”, “Mamma mia!”, “Caramba!”, “Chaves!”

O curioso é que vários cristãos evangélicos se uniram ao diálogo e chamaram o irmão em questão de “apóstata” por negar a Trindade.

Isso é unidade de fé?

A presença de Cristo na Eucaristia

Na Igreja católica sempre cremos que Cristo está vivo e presente na “Eucaristia” ou “fração do pão”; dizemos que o pão realmente se converte no Corpo do Senhor e o vinho no Sangue do Senhor. Nesse sentido, os católicos, os ortodoxos, os anglicanos e uma boa quantidade de Igrejas evangélicas concordam conosco.

Apesar disso, este dogma foi o primeiro grande conflito entre Igrejas evangélicas, quando Martinho Lutero e Ulrico Zuínglio tentaram chegar a um acordo no Colóquio de Marburgo em 1529, mas esse encontro foi um completo fracasso e terminaram irreconciliáveis

A Confissão de Augsburgo (a primeira das grandes confissões protestantes (1530), atualmente a maior parte das Igrejas Ortodoxas Luteranas baseia seus ensinamentos nela) ensina:

Quanto à Santa Ceia do Senhor, ensinamos que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão realmente presentes, distribuídos e recebidos na Ceia sob as espécies do pão e do vinho. Rejeitamos, pois, a doutrina contrária.” Confissão de Augsburgo, Artigo 10 A Santa Ceia do Senhor

Mas, contrariamente, a Confissão de Westminster (que foi a confissão oficial das Igrejas reformadas e pela qual se regem hoje as Igrejas presbiterianas) ensina o oposto:

“Essa doutrina que sustenta uma mudança de substância do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Cristo (comumente chamada transubstanciação), pela consagração do sacerdote, ou de algum outro modo, é repugnante não só à Escritura, mas também à razão e ao senso comum; derruba a natureza do sacramento; e tem sido e é causa de muitíssimas superstições, além de uma crassa idolatria” Confissão de Westminster, Capítulo 29.VI. Da Ceia do Senhor

O que para os luteranos é uma verdade absoluta de fé, para os presbiterianos  é uma doutrina repugnante à Escritura e à razão. Será que estão unidos em uma mesma mentalidade e juízo?

A Salvação

Não houve tema mais controverso do que este. Tudo começou quando Martinho Lutero se separou da Igreja sob a bandeira dos três “solas”: “Sola Fé”, “Sola Graça” e “Sola Escritura”. Quanto à doutrina da sola fé, pregava que o homem se salva pela fé  “somente”; as obras não eram necessárias para salvar-se. Lutero pregava que a salvação não se “ganhava”, mas era “dada de presente”, porque era “graça”. A Igreja Católica nunca negou que a salvação era graça, mas afirmava que  depois de ser justificado pela fé, as obras colaboravam com a fé para levá-la à sua perfeição.

“Vês como a fé cooperava com as suas obras e, pelas obras, a fé chegou à perfeição?… Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé.” Tiago 2,22.24

Apesar disso, a totalidade das Igrejas da Reforma proclamou unanimemente a doutrina da Sola Fé; afirmavam que a salvação não se podia perder. Mas a paz não durou muito tempo; logo se levantaram detratores dessas doutrinas dentro de suas próprias Igrejas, que começaram a afirmar que, sim, era possível perder a salvação.  Aquele movimento cresceu, tomou força e até hoje continua o debate entre Igrejas evangélicas.

No século XVII, por exemplo, Jacó Armínio pregou que a livre vontade humana pode existir sem limitar o poder de Deus ou contradizer a Bíblia. Após a morte de Armínio, um grupo de ministros que simpatizavam com seus pontos de vista desenvolveu uma teologia sistemática e racional baseada em seus ensinamentos. Em sua declaração, protesto publicado em 1610, os arminianos afirmavam que a eleição estava condicionada pela fé, que a graça podia ser rejeitada, que a obra de Cristo fora pensada para todas as pessoas, e que era possível que os crentes caíssem da graça.

No Sínodo de Dort ou Dordrecht (1618 -1619), os sumos calvinistas prevaleceram sobre o grupo dos arminianos e condenaram os que estavam em desacordo com sua teoria. O Sínodo de Dort declarou que a obra de Cristo estava destinada somente àqueles eleitos para a salvação, que as pessoas que criam não podiam perder a graça. Os evangélicos arminianos foram então totalmente proibidos na Holanda pelo restante dos evangélicos calvinistas até 1630, e desde então não sem reservas até 1795. No entanto, a tradição arminiana se manteve nos Países Baixos até o final do século XX.

O teólogo britânico John Wesley estudou e afirmou a obra de Armínio em seu movimento metodista durante o século XVIII na Inglaterra. Para o povo, o arminianismo se resume à ideia de que não existe predestinação e que as pessoas são livres para seguir ou rejeitar o Evangelho.

Outras Igrejas evangélicas, diferentemente das anteriores, afirmam que a salvação não se perde, mas “se rejeita”, o que, em essência, é uma forma elegante de dar o braço a torcer, já que, no fim das contas, é o mesmo. Alguém que ontem ia a caminho do céu pode estar  rumo ao inferno hoje.

A partir daqui, as posições neste ponto variam de Igreja para Igreja; não é raro ouvir comentários como este por parte de pastores evangélicos:

“Alguns [referindo-se a outros pastores evangélicos] ensinam que a salvação, sim, se perde… O certo é que tais afirmações contradizem a revelação total da Bíblia” Ministérios de Vida Eterna, A salvação é um processo, por Jorge L. Trujillo

“Em certa ocasião, enquanto conversava sobre este tema com uma pessoa que tristemente pastoreia uma igreja evangélica… assegurou-me sem pensar muito: “a salvação é por fé e obras”, assim tão fácil.  Digo-lhes que, ao ouvir essas palavras, minha alma se entristeceu; não podia acreditar no que estava ouvindo, mas para essa pessoa foi mais fácil acrescentar ‘obras’ à salvação do que abandonar sua tradição.”  Ministérios de Vida Eterna, Como se perde a salvação?, por Jorge L. Trujillo

Na citação anterior, o mesmo Pastor nos referencia como ele e outro pastor evangélico têm posições “opostas” no tema da salvação. Para cada um, acontece que o outro não entendeu a mensagem do evangelho. Se não conseguiram entrar em acordo em algo tão fundamental para a fé, como é a forma como uma pessoa se salva, será que estão unidos em uma mesma mentalidade e juízo?

O Batismo

O batismo é outro ponto fundamental em que os irmãos separados estão muito, mas muito divididos. A Confissão de Augsburgo ensina:

Ensinamos que o Batismo é necessário para a salvação e que pelo Batismo nos é dada a graça divina. Ensinamos também que se devem batizar as crianças e que por este Batismo são oferecidas a Deus e recebem a graça de Deus. É por isso que condenamos os anabatistas que rejeitam o Batismo das crianças” Confissão de Augsburgo, Artigo 9 O  Batismo

A Confissão de Westminster ensina::

Não só devem ser batizados os que de fato professam fé em Cristo e obediência a ELE, mas também as crianças filhas de um ou de ambos os pais crentes.” Confissão de Westminster, Capítulo 28.IV. O Batismo.

Não é necessária a imersão da pessoa na água; contudo administra-se corretamente o batismo por aspersão ou efusão da água sobre a pessoa.”  Confissão de Westminster, Capítulo 28.III. O Batismo.

Muitas Igrejas evangélicas, pelo contrário, pregam que  as crianças não devem ser batizadas porque não podem “crer” nem “arrepender-se”; outras afirmam que o batismo por imersão é o único válido e acusam a Igreja Católica de apóstata por tais práticas, sem perceber que uma boa porcentagem de outras Igrejas (como as que professam as confissões antes mencionadas e também evangélicas) não só batizam crianças e por aspersão, mas também as condenam por sua atitude.

Hoje  as diferenças não param aí; Igrejas evangélicas como “Só Jesus” afirmam que se deve batizar somente em nome de Jesus e não em nome da Trindade. Outras “rebatizam” os novos convertidos de outras Igrejas.

Isso é uma fé fundada em Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, que a Palavra de Deus exige?

O pecado original

A doutrina do pecado original ensina que, a partir do pecado cometido por Adão, todos fomos “constituídos pecadores”.

Assim, pois, como pela falta de um só veio sobre todos os homens a condenação, assim também pela obra de justiça de um só veio para todos os homens a justificação que dá a vida. Com efeito, assim como pela desobediência de um só homem todos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só todos serão constituídos justos.” Romanos 5,18-19

Existe um conjunto de Igrejas evangélicas que compartilham esta doutrina com a Igreja Católica; a Confissão de Augsburgo diz a esse respeito:

Ensinamos que, em consequência da queda de Adão, todos os homens nascidos de maneira natural são concebidos e nascidos em pecado. Isto é, sem temor de Deus, sem confiança em Deus e com a concupiscência. Este pecado hereditário e esta corrupção inata e contagiosa é um pecado real que leva à condenação e à cólera eterna de Deus todos os que não são regenerados pelo Batismo e pelo Espírito Santo. Por conseguinte, rejeitamos os pelagianos e outros que desprezaram os méritos da paixão de Cristo, tornando boa a natureza humana por suas próprias forças naturais, e que sustentam que o pecado original não é pecado.” Confissão de Augsburgo, Artigo 2. O pecado Original  

A Confissão de Westminster diz outro tanto:

Nossos primeiros pais, seduzidos pela sutileza e tentação de Satanás, pecaram ao comer do fruto proibido… Por este pecado caíram de sua retidão original e perderam a comunhão com Deus, e portanto ficaram mortos no pecado e totalmente corrompidos em todas as faculdades e partes da alma e do corpo. Sendo eles o tronco da raça humana, a culpa deste pecado lhes foi imputada,  e a mesma morte no pecado e a natureza corrompida foram transmitidas à posteridade que deles descende segundo a geração ordinária.  Desta corrupção original, pela qual estamos completamente impedidos, incapazes e opostos a todo beme inteiramente inclinados a todo mal, procedem todas as nossas transgressões atuais. Esta corrupção de natureza permanece durante esta vida naqueles que são regenerados; e, ainda que seja perdoada e mortificada por meio da fé em Cristo, todavia ela, e todos os seus efeitos, são verdadeira e propriamente pecado.”  Confissão de Westminster, Capítulo 6. A queda do homem, o pecado e seu castigo

O próprio reformador protestante João Calvino,  em seu livro Instituição, escreve falando do pecado original:

Por esta razão aqueles santos varões, especialmente Santo Agostinho, esforçaram-se quanto puderam para demonstrar que nossa corrupção não provém da força dos maus exemplos que tenhamos podido ver nos demais, mas que saímos do próprio seio materno com a perversidade que temos, o que não se pode negar sem grande descaramento” João Calvino, Instituição Vol. I

Apesar disso, hoje em dia outras Igrejas evangélicas afirmam que o pecado original “não aparece na Bíblia” e é uma invenção dos homens.  Será esta a unidade doutrinal em mentalidade de juízo?

Os sacramentos

Enquanto algumas Igrejas Evangélicas afirmam que Cristo instituiu 3 sacramentos (as que se regem pela Confissão de Augsburgo), outras dizem que instituiu apenas 2 (as que se regem pela Confissão de Westminster), outros dizem que os sacramentos são uma invenção humana que não aparece na Bíblia.

O ecumenismo

A atitude dos irmãos separados para com membros de outras Igrejas também varia muito de Igreja para Igreja; em meu caminhar, por exemplo, fiz grandes amigos em outras Igrejas, nem eu duvidei da sinceridade de sua fé nem eles da minha, mas, pelo contrário, para outros, por ser católico, sou um “filho de Satanás” que obedece ao Anticristo (o Papa) e sou membro da Grande Prostituta da Babilônia (a Igreja Católica)

Há pouco, quando visitava por acaso o fórum evangélico Ekklesia Viva, vi, pasmado, comentários como

 “O Ecumenismo Bíblico que a Bíblia assinala não é o Ecumenismo Católico Romano, nem aquele que muitos líderes Evangélicos e, como bem dizes, querido irmão Carlos Calcina (pseudo-evangélicos), querem nos fazer crer que é. Esse ecumenismo tão ansiado por vários líderes cristãos proeminentes como Billy Graham, Charles Colson, Bill Bright, Swindoll e outros mais só fortalecerá ainda mais, doutrinal e politicamente, o Catolicismo Romano … fazendo com que esta Babilônia de Apocalipse 17 alcance seu maior poderio e autoridade espiritual (que é uma autoridade falsa, é claro, mas muitos evangélicos e pseudo-evangélicos creem que é bíblica e legítima). Parece incrível que líderes cristãos tão proeminentes e reconhecidos agora digam que o evangelho católico é bíblico e que está de acordo com a Bíblia e o cristianismo evangélico; denotam uma ignorância tremenda, isso é um disparate.

Luis Palau, um proeminente líder evangélico, também está a favor do Ecumenismo com o Catolicismo Romano; que mal que líderes cristãos que conhecem o evangelho bíblico que salva chamem um evangelho falso de verdadeiro… Nem falar de pseudo-evangélicos como Paul Crouch, Benny Hinn e outros que têm Impérios Religiosos e que promulgam uma Autoridade e Mercadoria que é curioso, mas se parece muito com o Vaticano; por algo diz a Bíblia que como é a Mãe é a Filha (Provérbios). Roma é Mãe das Prostitutas, e muitas Prostitutas são suas filhas, das quais muitas Igrejas pseudo-evangélicas dão testemunho do cumprimento desta palavra e se identificam mais com o VATICANO do que com o Cristianismo” Fórum Ekklesia Viva, O Ecumenismo, por Edgar Treviño 

Neste fórum patrocinado por pastores evangélicos, vê-se que se chama  pastores reconhecidos do calibre de Billy Graham, Charles Colson, Luis Palau, etc., de “pseudo-evangélicos”, filhos da prostituta, simplesmente por reconhecerem que a doutrina católica tem fundamento bíblico. Apesar de eu ser católico, cada vez que entro nesse fórum sinto “vergonha alheia” ao ver como se insultam uns aos outros.

Conclusão

Estes são apenas alguns poucos pontos no que se refere a dogmas fundamentais. Sem mencionar temas como o aborto, ou a aceitação do casamento gay já aprovado por não poucas igrejas evangélicas. O certo é que seria impossível enumerar as diferenças doutrinais que existem entre as mais de 34.000 denominações; já o dizia Martinho Lutero no século XVI:

“Este não quer ouvir falar do batismo, aquele nega o sacramento, o outro coloca um mundo de diferença entre este e o último dia: alguns ensinam que Cristo não é Deus, outros ensinam isto e aqueles aquilo: existem tantas seitas e credos quantas cabeças há. Nenhum camponês é tão rude como quando tem sonhos e fantasias, crê ter sido inspirado pelo Espírito Santo e ser um profeta.” – (De Wette III, 61. Citado em O’Hare, Os fatos de Lutero, 208.)

 “Se o mundo durar muito tempo, será necessário de novo, levando em conta as diferentes interpretações da Escritura que agora existem, preservar a unidade da fé que  recebemos dos Concílios e decretos [da Igreja Católica] e voar para eles como refúgio”. Martinho Lutero (Carta a Zwinglio)

Penso que é tempo de deixar de apontar; façamos primeiro uma análise sincera de nós mesmos, antes de vir acusar uma Igreja irmã de “dividida”, sobretudo se os argumentos não estão a seu favor.

A intenção do meu estudo não é ofender ninguém; é simplesmente fazer um chamado à reflexão. A Palavra de Deus nos exige a unidade, mas esta unidade não pode dar-se com cada um querendo impor sua interpretação privada da Bíblia, cada um sentindo-se chamado a “fundar a Igreja verdadeira”, mas reconhecendo que a divisão é prova evidente de que houve um desvio da verdade. O Espírito Santo simplesmente não pode dizer uma coisa a uns e outra a outros; alguém, necessariamente, está equivocado. Recordemos que a Palavra ensina:

“Eles vos diziam: «No fim dos tempos aparecerão homens escarnecedores, que viverão segundo suas próprias paixões ímpias.» Estes são os que criam divisões, vivem uma vida apenas natural, sem ter o espírito.” Judas 18-19

“até que cheguemos todos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à maturidade da plenitude de Cristo. Para que não sejamos mais crianças, levadas à deriva e agitadas por qualquer vento de doutrina, à mercê da malícia humana e da astúcia que conduz enganosamente ao erro,” Efésios 4,13-14

Oremos, irmãos, para que esta divisão chegue ao seu fim e possamos logo ver chegar o dia em que sejamos um como Cristo e o Pai são um, e assim seja:

 UM SÓ REBANHO…. 

…E UM SÓ PASTOR.

Autor: José Miguel Arráiz