Definição de seita e características das seitas destrutivas

Parte I 

Em algumas ocasiões, algumas pessoas que viram que me referi à organização das Testemunhas de Jeová como uma seita manifestaram algum grau, maior ou menor, de discordância.

“Não sei por que tratá-las dessa maneira”, “elas pregam como Jesus pregava”, “esforçam-se por seguir seus mandamentos”, “por que não lhes dão o mesmo tratamento que dão a outros protestantes?”, “não são eles mais uma igreja cristã?”, “Não deveríamos reconhecê-los como organização religiosa, como alguns países os reconhecem?”

Inclusive, uma comentarista escreveu-me recentemente que qualificá-los desse modo deveria me envergonhar, porque era “tratar o próximo como lixo”.

Alguém poderia pensar que tenho algo pessoal contra as Testemunhas de Jeová, que guardo algum tipo de ressentimento contra elas, ou que as imagino como pessoas más e mal-intencionadas. A verdade é que nada está mais longe da realidade. Conheço muitas Testemunhas de Jeová, algumas das quais fazem parte da minha família (minha sogra, por exemplo), e por isso tenho por elas grande estima. Sei que entre elas há pessoas muito honestas e bem-intencionadas, assim como também outras que não o são tanto.

Mas as pessoas são as pessoas, e a organização é a organização; e precisamente porque a conheço, posso assegurar que a organização das Testemunhas possui características que a identificam de maneira inequívoca não apenas como uma seita, mas como uma seita perigosa e destrutiva.
Se alguém pensa que isto soa duro, convido-o a dedicar tempo à leitura desta série de artigos, na qual pretendo fundamentá-lo.

Nesta ocasião, não pretendo tentar refutar as diversas doutrinas professadas pelas Testemunhas de Jeová, que não considero cristãs por negarem doutrinas como a divindade de Cristo e a Trindade. Para analisar suas diferentes doutrinas (que vão desde as tão curiosas como crer que a vinda de Cristo já ocorreu, mas de maneira invisível, em 1914, até outras tão antigas como o antigo erro de Ário), já há vários artigos dedicados em nosso site; e, em todo caso, o fato de sustentarem doutrinas heréticas não as tornaria necessariamente uma seita.

Dizemos que são uma seita não porque pensemos que estejam equivocadas neste ou naquele ponto de doutrina, mas pelas características de cunho sectário incrustadas no mais profundo de sua doutrina e organização. O que as torna uma seita destrutiva está nos efeitos negativos que esses elementos de deriva sectária produzem em seus adeptos, os quais podem abranger traumas profundos de natureza psicológica, danos físicos irreparáveis, incluindo a própria morte, alienação e limitação do desenvolvimento pessoal.

Nesta primeira entrega, limitar-me-ei a apresentar algumas definições da palavra seita e quais são as características daquelas que são consideradas seitas destrutivas.

O que é uma seita?

Apresentar uma definição de seita que seja aceita por todos não é algo simples. Isto porque um mesmo termo pode ter diferentes leituras, inclusive quando estudado do ponto de vista religioso ou sociológico.

A raiz etimológica do termo seita encontra-se no verbo latino secare, que significa “cortar, separar, romper com etc.”. Se nos aproximamos do significado de seita a partir da linguagem religiosa tradicional, podemos citar as seguintes definições:

“Uma seita, na linguagem religiosa tradicional, tem ressonâncias claramente pejorativas. Por oposição a ‘Igreja’, ‘seita’ designa um pequeno grupo secessionista que reúne os discípulos de um mestre herético”[1]

“Em religião costuma-se distinguir entre seita e Igreja. A Igreja é universal, aberta a todos; a seita é apenas dos ‘puros’, dos ‘salvos’. A Igreja tem diversos graus de pertença: há fervorosos e não fervorosos. A seita é apenas de iniciados e militantes. A Igreja aceita ser enriquecida e evoluir; a seita não. A Igreja atua por evangelização e diálogo; a seita, por proselitismo. A Igreja aceita as realidades humanas (política, cultura, sociedade, diversão etc.); a seita é negativa em relação às realidades humanas…”[2]

“A seita caracteriza-se por ser um grupo religioso fechado que nasce por oposição às Igrejas institucionais estabelecidas e por oposição ao mundo.”[3]

“Poderíamos, sem nenhum dogmatismo, definir a seita como aquele grupo humano no qual se dão todas e cada uma (não apenas algumas) das seguintes características: organização piramidal; submissão incondicional ao dirigente, seja ele pessoal ou coletivo; anulação da crítica interna; perseguição de objetivos políticos e/ou econômicos mascarados sob uma ideologia de tipo espiritual, seja religiosa ou filosófica; instrumentalização dos adeptos para fins próprios da seita; ausência de controle ou fiscalização da seita por parte de outro poder religioso ou filosófico”[4]

“Uma seita é um grupo de tendência religiosa e filosófica que une seus adeptos em torno de um mestre venerado. Atualmente tenta assumir uma aparência paracientífica e frequentemente terapêutica. Caracteriza-se igualmente por um comportamento elitista, muito particularista e fechado. Finalmente, manifesta uma intolerância mais ou menos marcada e um proselitismo vigoroso que utiliza métodos e procedimentos propagandísticos”[5]

“As seitas são grupos religiosos, geralmente pequenos, cheios de entusiasmo, integrados por homens e mulheres associados voluntariamente, após uma conversão, que creem detectar a verdade e a salvação, excluem radicalmente os demais, colocam-se contra as Igrejas e contra o mundo e obedecem cegamente a seus fundadores”[6]

“As seitas são agrupamentos de caráter voluntário…, com forte sentido de identidade…, que exigem de seus membros uma submissão plena e consciente que, se não chega a eliminar todos os demais compromissos, deve ao menos situar-se acima deles, quer se refiram ao Estado, à tribo, à classe ou ao grupo familiar… Consideram-se a si mesmas como uma elite… como um grupo à parte, arrogando-se, senão sempre uma salvação absolutamente exclusiva, ao menos os maiores bens. Mostram, além disso, certa inclinação ao exclusivismo… O fato de pertencer a determinada seita supõe, portanto, um distanciamento e talvez uma hostilidade frente a outras seitas e grupos religiosos… Expulsam os que se mostram indignos delas… O autocontrole, a consciência e a retidão são características importantes do sectarismo… Recorrem a algum princípio de autoridade distinto daquele que é inerente à tradição ortodoxa… A autoridade defendida por uma seita pode ser a suposta revelação de um líder carismático, pode consistir numa reinterpretação dos escritos sagrados, ou ainda na ideia de que os verdadeiros fiéis obterão uma revelação por si mesmos”[7]

“As seitas destrutivas são organizações pseudorreligiosas, pseudofilosóficas ou pseudoculturais, de estrutura piramidal e totalitária, que se dedicam à captação de adeptos para explorá-los mediante falsas promessas e técnicas de coerção psicológica, sempre em proveito do afã de poder e de lucro de seus líderes”[8]

Características das seitas destrutivas

Entre as características fundamentais de uma seita destrutiva estão:

1. Grupo coeso por uma doutrina (religiosa ou socioreligiosa) demagógica e encabeçado por um líder carismático que é a própria divindade ou um eleito por ela, ou então um possuidor da “verdade absoluta” em qualquer âmbito social.

2. Estrutura teocrática, vertical e totalitária, na qual a palavra dos dirigentes é dogma de fé. Os líderes intervêm até nos detalhes mais íntimos e pessoais de seus adeptos e exigem que suas ordens sejam executadas sem a menor crítica.

3. Exigem adesão total ao grupo e obrigam (sob pressão psicológica) a romper todos os laços sociais anteriores com a entrada no culto: pais, cônjuge, amigos, trabalho, estudos etc.

4. Vivem em comunidades fechadas ou em total dependência do grupo.

5. Suprimem as liberdades individuais e o direito à intimidade.

6. Controlam a informação que chega a seus adeptos, manipulando-a conforme sua conveniência.

7. Utilizam sofisticadas técnicas neurofisiológicas, mascaradas sob a “meditação” ou o “renascimento espiritual” dos adeptos, causando-lhes em muitos casos lesões psíquicas graves.

8. Propugnam uma rejeição total da sociedade e de suas instituições. Fora do culto, todos somos inimigos (polarização entre o bem-seita e o mal-sociedade); a sociedade é lixo, e as pessoas que vivem nela só interessam na medida em que possam servir ao grupo.

9. Suas atividades primordiais são o proselitismo (conseguir novos adeptos) e a arrecadação de dinheiro (coletas de rua, cursos, atividades comerciais e industriais e até claramente delituosas). No caso das seitas multinacionais, boa parte do dinheiro é enviada às centrais de cada grupo.

10. Sob coação psicológica, obtêm a entrega do patrimônio pessoal dos novos adeptos à seita ou de grandes somas de dinheiro a título de “cursinhos” ou “auditorias”. Os membros que trabalham fora do grupo entregam todo ou grande parte de seu salário à seita. E os que trabalham em empresas do culto não recebem salários (as folhas de pagamento dessas empresas são apenas uma cobertura ilegal, pois nunca se tornam efetivas, ou o dinheiro é devolvido, para seus membros, mão de obra)”

Estas e outras definições podem ser encontradas no livro Para conocer las sectas, de Juan Bosch.

Nas próximas entregas, precisarei quais dessas características estão presentes na organização das Testemunhas de Jeová de maneira inequívoca.

(Parte 2 – Parte 3– Parte 4 – Parte 5– Parte 6– Conclusões)

Autor: José Miguel Arráiz

NOTAS

[1] Alain Woodrow, Les nouvelles sectes, Seuil, Paris 1977, p. 11-12

[2] Juan Días Vilar, Las sectas, un desafío a la pastoral, Northeast Hispanic Catholic Center, Nova York 1987, p. 23-24

[3] Roger Mehl, Tratado de sociología del protestantismo, Studium, Madri 1974, p. 252

[4] Cesar Vidal, El infierno de las sectas, Mensajero, Bilbao 1989, 12

[5] Albert Samuel, Para comprender las religiones en nuestro tiempo, Verbo Divino, Estella 1989, p. 189

[6] J.M. Ganuza, Las sectas nos invaden, Santiago 1990, p. 14

[7] Byan Wilson, Sociología de las sectas religiosas, Guadarrama, Madri 1970, p. 26-27

[8] Texto de André Dénaux, citado por Pilar Salarrullana, Las sectas, o.c., 53

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Nota: . Esta série de artigos está disponível por partes em cada post em formato PDF. Também a reuni completa em um pequeno livro de bolso disponível tanto como livro físico quanto digital. Todos estão disponíveis na Loja de ApologeticaCatólica.org.