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Santo Inácio de Antioquia foi discípulo de São Paulo e São João e o segundo sucessor de São Pedro como bispo na sé de Antioquia. Ele nasceu entre os anos 30 e 35 DC e morreu mártir devorado por feras em janeiro de 107, durante o reinado do imperador romano Trajano. No caminho para Roma escreveu sete epístolas dirigidas às igrejas de Éfeso, Magnésia, Tralia, Filadélfia, Esmirna, Roma e uma carta a São Policarpo.

Doutrina

Divindade de Cristo

Graças a Santo Inácio recebemos o testemunho de um discípulo direto dos apóstolos que nos ajuda a compreender quão clara era a consciência da divindade de Cristo na igreja primitiva, o que é bastante útil no combate aos ataques de algumas seitas.

Testemunhas de Jeová e outras seitas do tipo ariano[1], por exemplo, negam que os primeiros cristãos acreditassem e aceitassem a divindade de Jesus Cristo. Para essas seitas, Jesus Cristo não seria o verdadeiro Deus, não teria compartilhado a natureza do Pai e do Espírito Santo, mas seria apenas uma criatura. Os católicos, por outro lado, professam acreditar em um Deus em três pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que compartilham a mesma natureza divina.

Estas seitas assumem que a doutrina da divindade de Cristo foi imposta como produto das manipulações do imperador Constantino durante o século IV, que queria divinizar Cristo para fins políticos. Nas epístolas de Santo Inácio, porém, encontramos testemunhos de vários séculos que demonstram que numa época tão antiga a plena divindade de Jesus Cristo já era aceita. A este respeito Santo Inácio escreve em suas cartas:

Há um só Deus, que se manifestou por Jesus Cristo, seu Filho, que é a sua Palavra eterna, não procedente do silêncio e que, em todas as coisas, agradou Àquele que o enviou.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnesianos 8)

“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que está em Éfeso, na Ásia, justamente felicíssima, abençoada na grandeza e plenitude de Deus Pai e predestinada antes dos séculos, para que seja sempre uma glória duradoura e imutável, unida e eleita pela verdadeira paixão, pela vontade do Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus: abundante felicidade por Jesus Cristo e por sua graça sem mancha.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios, Saudação)

Admite em palavras simples os pontos-chave da cristologia católica, incluindo o dogma da encarnação:

“Há um só Médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus na carne, vida verdadeira na morte, filho de Maria e filho de Deus, primeiro passível e depois impassível: Jesus Cristo nosso Senhor.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 7,2)

“Toda espécie de magia foi destruída e todo vínculo de maldade desapareceu; a ignorância foi removida e o antigo reino abolido, quando o próprio Deus se manifestou em forma humana para a renovação da vida eterna.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 19,1)

“Pois nosso Deus, Jesus Cristo, segundo a disposição de Deus, foi concebido no seio de Maria, da descendência de Davi, mas pelo Espírito Santo. Nasceu e foi batizado, para que pela sua paixão purificasse a água.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 18)

Ao longo de suas epístolas ele continua repetidamente a reconhecer Jesus Cristo como seu Deus, ao mesmo tempo em que afirma que existe apenas um Deus:

“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que alcançou misericórdia pela majestade do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho unigênito; à Igreja amada e iluminada pela vontade daquele que quer todas as coisas segundo o amor de Jesus Cristo, nosso Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, Saudação)

“Permiti que eu seja imitador da paixão de meu Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 6)

“Glorifico a Deus, Jesus Cristo, que vos concedeu tamanha sabedoria. Pois observei que estais aperfeiçoados numa fé inabalável, como se estivésseis pregados à cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, tanto na carne como no espírito.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses 1)

Confrontado com a heresia dos gnósticos que sustentavam que Cristo não tinha um corpo real, mas sim aparente, e portanto aparentemente sofreu na cruz, ele afirma implicitamente a doutrina católica tradicional posteriormente explicada através do termo “união hipostática”: Cristo é verdadeiro Deus, mas também verdadeiro homem:

“Pois sei que, também depois da sua ressurreição, Ele ainda possuía carne, e creio que a possui agora. Quando veio aos que estavam com Pedro, disse-lhes: ‘Tomai-me, tocai-me e vede que não sou um espírito incorpóreo.’ E logo o tocaram e creram, convencidos pela sua carne e pelo seu espírito. Por isso desprezaram a morte e foram seus vencedores. Depois da ressurreição, comeu e bebeu com eles, como alguém que possuía carne, embora espiritualmente estivesse unido ao Pai.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses 3)

Santo Inácio também rejeita um dos elementos que se tornariam fundamentais na doutrina do arianismo, que, ao considerar Jesus Cristo como um ser criado, ou o que é o mesmo, assume que houve um momento em que Jesus Cristo não existia. Para ele, porém, Cristo está acima do tempo e é atemporal:

“Buscai Aquele que está acima de todo o tempo, eterno e invisível, mas que se fez visível por nós; impalpável e impassível, mas que se fez passível por nossa causa e que sofreu por nós de todos os modos.” (Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo 3)

Eucaristia

É muito mais explícito do que o Didaquê ao admitir a presença real de Cristo na Eucaristia, doutrina que na antiguidade também foi rejeitada pelas heresias de origem gnóstica. Para os Docetos, seita gnóstica da época, o pão e o vinho consagrados não poderiam tornar-se realmente o corpo e o sangue de Cristo, pois partiam da já citada concepção de que Cristo não teria um corpo real, mas sim aparente. Contra isso, Santo Inácio reafirmou a fé tradicional da Igreja:

“Eles se abstêm da Eucaristia e da oração, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que padeceu por nossos pecados e que o Pai, por sua bondade, ressuscitou. Portanto, os que contradizem esse dom de Deus incorrem na morte em meio às suas disputas. Melhor seria que a tratassem com respeito, para que também ressuscitassem. Convém, portanto, que vos afasteis de tais pessoas e não faleis delas nem em privado nem em público.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses 7,1-2)

Provavelmente inspirado no capítulo 6 do Evangelho de João, ele convoca a Eucaristia”remédio da imortalidade“e sua carne”pão de Deus”:

“…partindo um e o mesmo pão, que é o remédio da imortalidade e o antídoto para impedir-nos de morrer, mas que nos faz viver para sempre em Jesus Cristo. (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 20,2)

“Não tenho prazer em alimento corruptível nem nos deleites desta vida. Desejo o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo, da descendência de Davi; e, para beber, desejo o seu sangue, que é amor incorruptível.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 7,3)

“Cuidai, pois, de participar de uma só Eucaristia. Pois há uma só carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para manifestar a unidade de seu sangue; um só altar, como há um só bispo, juntamente com o presbitério e os diáconos, meus conservos, para que tudo o que fizerdes o façais segundo a vontade de Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfienses 4)

Aceita como válida apenas a Eucaristia celebrada por um bispo que tenha uma sucessão apostólica legítima.

Considere-se como Eucaristia válida a que é celebrada pelo bispo ou por aquele a quem ele a confiou. … Não é lícito, sem o bispo, batizar nem celebrar uma festa de caridade.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses 8,1)

Ele também exorta os cristãos a celebrarem a Eucaristia com frequência:

Portanto, cuidai de vos reunir frequentemente para dar graças a Deus e manifestar o seu louvor. (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 13,1)

A Igreja Católica e sua constituição hierárquica

De Santo Inácio temos o primeiro testemunho que se conservou onde a Igreja Cristã é chamada de “Igreja Católica”. Escreve: “Onde quer que Jesus Cristo esteja, aí está a Igreja Católica.” Ele também lança muita luz sobre a organização hierárquica da Igreja de seu tempo, pois dirige suas cartas às igrejas destinatárias que tinham uma hierarquia tripartite perfeitamente definida: um bispo que as governava (episcopado monárquico), um colégio de sacerdotes a ele subordinados e um ou mais diáconos.

“Segui todos o bispo, como Jesus Cristo segue o Pai, e o presbitério como os apóstolos; e reverenciai os diáconos como instituição de Deus. Ninguém faça nada relativo à Igreja sem o bispo. Considere-se como Eucaristia válida a que é celebrada pelo bispo ou por aquele a quem ele a confiou. Onde quer que apareça o bispo, esteja também a multidão; assim como, onde estiver Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica. Não é lícito, sem o bispo, batizar nem celebrar uma festa de caridade; mas tudo o que ele aprovar também agrada a Deus, para que tudo o que se fizer seja seguro e válido. (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses 8,1-2)

“Portanto, tendo contemplado, nas pessoas já mencionadas, toda a vossa multidão na fé e no amor, exorto-vos a procurar fazer todas as coisas em divina harmonia, com o vosso bispo presidindo no lugar de Deus, e os vossos presbíteros no lugar da assembleia dos apóstolos, juntamente com os vossos diáconos, que me são caríssimos e aos quais está confiado o ministério de Jesus Cristo, que estava com o Pai antes do início dos tempos e no fim se manifestou.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 6,1)

“Convém que corrais juntos segundo a vontade de vosso bispo, como já fazeis. Pois o vosso presbitério, justamente célebre e digno de Deus, está tão harmoniosamente unido ao bispo como as cordas à lira.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 4,1)

“Tive a graça de vos ver todos na pessoa de Damas, vosso digníssimo bispo, e de vossos dignos presbíteros, Baso e Apolônio, bem como do diácono Sócio, meu conservo, cuja amizade eu possa sempre desfrutar, pois ele está sujeito ao bispo como à graça de Deus e ao presbitério como à lei de Jesus Cristo.”  (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 2,1)

O mesmo é observado ao longo de suas epístolas (Carta aos Efésios 1,3; 3,2; 4,1; Carta aos Magnesianos 2; 3,1; 6,1; 7,1; 13,1; 15,1; Carta aos Trailianos 1,1; 3,1; 12,2; Carta aos Filadélfia 1; 3,2; 7,1-2; Carta a Policarpo 1; 6,1; Carta aos Esmirnenses 8,1-2; 12,2.)

Algo importante em tudo isto é que Santo Inácio fala a um público que assume que, como bem sabe, todas as igrejas cristãs têm esta estrutura hierárquica:

“Visto que o amor não me permite calar a vosso respeito, tomei sobre mim, antes de tudo, exortar-vos a que todos corrais juntos de acordo com a vontade de Deus. Pois Jesus Cristo, nossa vida inseparável, é a vontade manifesta do Pai; assim também os bispos, estabelecidos por toda a parte até os extremos da terra, o são pela vontade de Jesus Cristo. (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 3,2)

Isto apoia a tese tradicional de que o episcopado monárquico teve a sua origem nos próprios apóstolos e, portanto, no próprio Jesus Cristo, e não foi, como grande parte da teologia contemporânea tem assumido,[2], um desenvolvimento tardio da doutrina cristã. A esse respeito, explica o historiador e patrologista Daniel Ruiz Bueno:

Do autor

Os Padres da Igreja falam por si mesmos

Este artigo faz parte de Cristianismo Primitivo: Em busca das origens da Igreja de Cristo, um percurso documentado pela fé dos primeiros séculos e por suas respostas às questões que ainda dividem católicos e protestantes.

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Capa do livro Cristianismo Primitivo

“Este tem sido há muito mais um obstáculo da crítica para admitir a autenticidade das cartas de Santo Inácio, desde Com eles, um episcopado monárquico e uma hierarquia perfeitamente definida tiveram de ser engolidos no final do século I., com o qual muitas teorias caras caíram por terra. Mas teorias são teorias e textos são textos. Ora, os textos das cartas inacianas atestam-nos com absoluta clareza e com esmagadora insistência que cada Igreja – Antioquia, Esmirna, Éfeso, Trales, Filadélfia – tem à sua frente um ἐπίσκοπος, “intendente, inspector”, autoridade suprema na comunidade, que se acrescenta como dependente e subordinado, um πρεσβυτέριον, um colégio de “anciãos” que o auxilia como uma espécie de “senado” e um terceiro corpo de diáconos ou ministros”.[3]

 O historiador católico José Orlandis acrescenta:

“Muitas igrejas do século I foram fundadas pelos Apóstolos e, enquanto viveram, permaneceram sob a sua autoridade superior, dirigidas por um colégio de presbíteros que ordenaram a sua vida litúrgica e disciplinar. Este regime pode ser especialmente atestado nas Igrejas Paulinas, fundadas pelo Apóstolo dos Gentios. Mas com o desaparecimento dos Apóstolos, o episcopado monárquico, que já havia sido introduzido desde o primeiro momento em outras igrejas particulares, generalizou-se por toda parte.. O bispo era o chefe da Igreja, pastor dos fiéis e, como sucessor dos Apóstolos, possuía a plenitude do sacerdócio e o poder necessário ao governo da comunidade”.[4]

Heresia e cisma

Para Santo Inácio, a sucessão de bispos em linha direta com os apóstolos é um dos pilares necessários para que a Igreja permaneça incorruptível e não ceda à tentação de cair em heresias e cismas:

“Pois, quando estava entre vós, clamei, falei em alta voz: Atendei ao bispo, ao presbitério e aos diáconos. Ora, alguns suspeitaram que eu havia falado assim por conhecer de antemão a divisão causada por alguns entre vós. Mas Aquele por cuja causa estou em cadeias é minha testemunha de que não recebi notícia alguma de homem algum. Mas o Espírito proclamou estas palavras: Nada façais sem o bispo; guardai vossos corpos como templos de Deus; amai a unidade; evitai as divisões. Sede seguidores de Jesus Cristo, assim como Ele o é de seu Pai.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfienses 7,1-2)

“Eu, portanto — mas não eu, e sim o amor de Jesus Cristo — vos exorto a usar somente alimento cristão e a abster-vos de erva de espécie diferente; isto é, da heresia. Pois os que se entregam a isso misturam Jesus Cristo com o seu próprio veneno, dizendo coisas indignas de crédito, como os que administram uma droga mortal em vinho doce; quem a ignora a toma avidamente, com um prazer funesto que o conduz à própria morte. Guardai-vos, pois, de tais pessoas. E assim será convosco se não vos ensoberbecerdes e permanecerdes em íntima união com Jesus Cristo, nosso Deus, com o bispo e com as disposições dos apóstolos. Aquele que está dentro do altar é puro, mas aquele que está fora não é puro; isto é, quem faz alguma coisa separado do bispo, do presbitério e dos diáconos não é puro em sua consciência.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos 6–7)

Ele identifica a heresia como um pecado gravíssimo, ainda mais que o adultério, porque corrompe a verdadeira fé:

“Não erreis, meus irmãos. Os que corrompem famílias não herdarão o reino de Deus. Se, pois, os que fazem isso segundo a carne sofreram a morte, quanto mais acontecerá o mesmo àquele que, por má doutrina, corrompe a fé de Deus, pela qual Jesus Cristo foi crucificado! Tal homem, tornando-se contaminado [desse modo], irá para o fogo eterno, e assim também todo aquele que o escuta.

Para este fim o Senhor permitiu que o unguento fosse derramado sobre a sua cabeça, a fim de insuflar imortalidade na sua Igreja. Não vos deixeis ungir com o mau odor da doutrina do príncipe deste mundo; que ele não vos leve cativos para longe da vida que nos está proposta. (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 16,2; 17,1-2)

“Que ninguém vos engane, como de fato não sois enganados, pois sois inteiramente de Deus. Porque, como não há entre vós nenhuma contenda que vos possa afligir, viveis certamente segundo Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 8,1)

Acrescenta ainda que aqueles que caíram na heresia podem arrepender-se e regressar ao seio da Igreja Católica:

“Portanto, fiz o que me competia, como homem dedicado à unidade. Pois, onde há divisão e ira, Deus não habita. A todos os que se arrependem o Senhor concede perdão, se retornarem penitentes à unidade de Deus e à comunhão com o bispo. Confio na graça de Jesus Cristo, que vos libertará de todo vínculo. Exorto-vos a nada fazer por espírito de contenda, mas segundo a doutrina de Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfienses 8,1-2)

“Afastai-vos das plantas malignas que Jesus Cristo não cultiva, pois não são plantação do Pai. Não digo isso porque tenha encontrado entre vós alguma divisão, mas extrema pureza. Pois todos os que são de Deus e de Jesus Cristo estão também com o bispo. E todos os que, no exercício do arrependimento, voltarem à unidade da Igreja pertencerão igualmente a Deus, para que vivam segundo Jesus Cristo. Não vos enganeis, meus irmãos. Se alguém segue quem provoca um cisma na Igreja, não herdará o reino de Deus. Se alguém caminha segundo uma opinião estranha, não está de acordo com a paixão de Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfienses 3)

Também é importante reunir-se em comunidade na Igreja, e esta atitude contrasta com a do arrogante que afirma ter fé, mas não participa da reunião dos fiéis:

“Que ninguém se engane a si mesmo: se alguém não está dentro do altar, fica privado do pão da vida. Pois, se a oração de um ou dois possui tal força, quanto mais a do bispo e de toda a Igreja! Aquele, portanto, que não se reúne com a Igreja já manifestou com isso seu orgulho e condenou a si mesmo. Pois está escrito: Deus resiste aos soberbos. Tenhamos, pois, cuidado de não resistir ao bispo, para estarmos sujeitos a Deus.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 5,2-3)

Justificação pela fé

A sua doutrina sobre a justificação permanece em sintonia com a de todos os primeiros Padres: somos justificados pela fé, mas pela fé unida à caridade; portanto, a fé que salva é a fé verdadeira, uma fidelidade que nos leva a permanecer unidos e firmes na obediência a Deus e aos seus mandamentos até ao fim:

“Os que são carnais não podem fazer as coisas espirituais, nem os que são espirituais as coisas carnais, assim como a fé não pode fazer as obras da incredulidade, nem a incredulidade as obras da fé. Mas mesmo aquilo que fazeis segundo a carne é espiritual, pois fazeis tudo em Jesus Cristo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 8,2)

“Nada disto vos está oculto, se possuirdes perfeitamente aquela fé e caridade para com Cristo Jesus que são o princípio e o fim da vida. Porque o princípio é a fé, e o fim é a caridade. Ora, estas duas, inseparavelmente unidas, são de Deus, e todas as outras coisas necessárias a uma vida santa seguem-se a elas. Nenhum homem que verdadeiramente professa a fé peca; nem aquele que possui a caridade odeia alguém. A árvore manifesta-se pelo seu fruto; assim, os que professam ser cristãos serão reconhecidos pela sua conduta. Pois agora não se exige uma mera profissão, mas que o homem seja encontrado perseverando no poder da fé até ao fim. (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 14,1-2)

É claro que ele pensava, ao contrário dos reformadores protestantes, que a salvação era algo que poderia ser perdido se a pessoa não permanecesse em estado de graça. Tanto é que pede orações pela sua salvação, para que seja considerado digno e não reprovado na hora da morte:

“Suplico-vos, por amor, que me escuteis, para que eu não tenha, por ter escrito, um testemunho contra vós. E rezai também por mim, pois necessito do vosso amor, juntamente com a misericórdia de Deus, para que eu seja digno da sorte para a qual estou destinado e não seja achado réprobo.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos 12,3)

Primaz da Sé Romana

Embora São Inácio não trate em suas cartas do primado jurisdicional da Igreja de Roma como sede dos sucessores de São Pedro, o tom distinto que emprega ao dirigir-se à Igreja de Roma se evidencia numa leitura atenta. Pode-se comparar as saudações dirigidas às diferentes igrejas com a dirigida àquela que «preside na região dos romanos» e «preside à caridade». O tom se destaca não apenas por suas muitas louvações, mas também pela deferência própria de quem se dirige a um superior, dando por entendido que Roma presidia às demais igrejas, e não somente ao seu próprio território.

«Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que alcançou misericórdia pela majestade do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho unigênito; à Igreja amada e iluminada pela vontade d’Aquele que quer todas as coisas que existem segundo a caridade de Jesus Cristo, nosso Deus, e que também preside na região dos romanos; digna de Deus, digna de honra, digna da suma felicidade, digna de louvor, digna de alcançar todos os seus desejos, digna de ser tida por santa, e que preside à caridade, chamada pelo nome de Cristo e do Pai: também a saúdo em nome de Jesus Cristo, Filho do Pai…» (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, Saudação)

A Igreja que «preside à caridade» também dá instruções às demais igrejas e à própria Igreja da qual Santo Inácio é bispo:

«Nunca invejastes ninguém; ensinastes outros. Agora desejo que aquilo que em vossas instruções recomendais aos outros seja confirmado pela vossa conduta. Pedi apenas em meu favor força interior e exterior, para que eu não somente fale, mas queira verdadeiramente; e para que eu não seja apenas chamado cristão, mas seja realmente encontrado como tal.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 3,1)

Também é significativo que, embora não confie o cuidado de sua Igreja a nenhuma outra, ele o confia a Roma, pedindo-lhe que exerça para com ela o ofício de bispo.

«Lembrai-vos em vossas orações da Igreja na Síria, que agora tem Deus como pastor, em vez de mim. Somente Jesus Cristo velará por ela, e vossa caridade também cuidará dela.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 9)

Deduz-se também que Santo Inácio estava bem ciente do fato de que a igreja de Roma era governada pelos santos Pedro e São Paulo:

«Não vos dou mandamentos como Pedro e Paulo. Eles eram apóstolos; eu sou apenas um condenado; eles eram livres, enquanto eu, ainda agora, sou servo.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 4,3)

Virgindade de Maria

Santo Inácio fala da virgindade de Maria como um milagre tão surpreendente que foi escondido do próprio Satanás, embora não seja suficientemente explícito para ter certeza de que se referia não apenas à virgindade antes do parto, mas também à virgindade durante e depois do parto:

«A virgindade de Maria foi escondida do príncipe deste mundo e o seu parto, assim como a morte do Senhor: três mistérios sonoros que se cumpriram no silêncio de Deus.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 19,1)

Domingo como o Dia do Senhor

Os adventistas do sétimo dia e outras seitas sabatistas acusam a Igreja Católica de substituir o sábado pelo domingo como dia de descanso, violando assim o mandamento de Deus. Afirmam também que essa mudança se deveu a manipulações do imperador Constantino, no século IV, para impor «secretamente» o culto ao deus Sol.

Contudo, quase três séculos antes, Santo Inácio afirmou que aqueles que observavam o sábado, e não o domingo como os cristãos, se deixaram enganar por doutrinas estranhas e acabaram por judaizar; os cristãos, porém, guardavam o domingo como Dia do Senhor, porque foi o dia em que o Senhor ressuscitou.

«Não vos deixeis enganar por doutrinas estranhas nem por fábulas antigas, que são inúteis. Pois, se ainda vivemos segundo a lei judaica, reconhecemos que não recebemos a graça. …»

Assim, os que foram educados na antiga ordem das coisas, tendo alcançado a novidade da esperança, já não observam o sábado, mas vivem na observância do Dia do Senhor, dia em que também a nossa vida surgiu de novo por Ele e pela sua morte — mistério que alguns negam; por ele recebemos a graça de crer e por ele sofremos, para que sejamos encontrados discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre. (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnesianos 8,1; 9,1)

«É absurdo professar Jesus Cristo e judaizar. Pois o cristianismo não abraçou o judaísmo, mas o judaísmo abraçou o cristianismo, para que nele se reunisse em Deus toda língua que crê.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Magnesianos 10,3)

«Mas, se alguém vos pregar a lei judaica, não o escuteis. Pois é melhor que um homem ouça o cristianismo de alguém circuncidado do que o judaísmo de alguém incircunciso.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadelfienses 6,1)

É provável que estas advertências se devam ao facto de ainda existirem alguns cristãos que se apegavam às antigas ordenanças da Lei mosaica (circuncisão, dízimo, sábado como dia de descanso, alimentos impuros), conflito que já deixou a sua marca no Novo Testamento e que desencadeou o Concílio de Jerusalém (Atos 15). O próprio São Paulo, de quem Santo Inácio foi discípulo, já havia alertado no mesmo sentido no Novo Testamento: “Portanto, ninguém vos critique por questões de comida ou bebida, ou por causa de festas, luas novas ou sábados.” (Colossenses 2:16)

Casamento e celibato

Santo Inácio segue a mesma linha de São Paulo em suas recomendações sobre o celibato e o matrimônio. O Apóstolo dos gentios escreveu à comunidade de Corinto que o celibato era o estado ideal para servir ao Senhor: «Digo aos não casados e às viúvas: é bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem conter-se, casem-se; pois é melhor casar do que arder… O não casado preocupa-se com as coisas do Senhor, com o modo de agradar ao Senhor. Mas o casado preocupa-se com as coisas do mundo, com o modo de agradar à esposa, e está dividido.» (1 Coríntios 7,8–9; 33–34). As recomendações de Santo Inácio são praticamente idênticas:

«Dizei às minhas irmãs que amem o Senhor e se contentem com os seus maridos, tanto na carne como no espírito. Do mesmo modo, exortai os meus irmãos, em nome de Jesus Cristo, a que amem as suas esposas, como o Senhor ama a Igreja. Se alguém puder permanecer num estado de pureza, para honra daquele que é Senhor da carne, permaneça assim sem se vangloriar. Se começar a vangloriar-se, está perdido; e, se se julgar maior que o bispo, está arruinado. Convém aos homens e às mulheres que se casam formar a sua união com a aprovação do bispo, para que o seu casamento seja segundo Deus e não segundo a própria concupiscência. Que tudo se faça para honra de Deus.» (Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo 5,1–2)

Desapego e pobreza espiritual

A perspectiva da Igreja primitiva sobre os bens materiais e o desapego deles era muito diferente das teologias heréticas contemporâneas que circulam e se popularizam em comunidades eclesiais protestantes e até em algumas comunidades católicas. Ao contrário do que se conhece como «teologia da prosperidade», para Santo Inácio os bens deste mundo, e até a própria vida, nada valem em comparação com a vida eterna; por isso, a ganância é um entrave e um obstáculo:

«Todos os prazeres do mundo e todos os reinos desta terra de nada me aproveitarão. É melhor para mim morrer por Jesus Cristo do que reinar sobre todos os confins da terra.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 6,1)

«Não tenhais Jesus Cristo na boca e o mundo no coração.» (Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 7,1)

Autor: José Miguel Arraiz

NOTAS

[1] O arianismo é uma heresia do século IV que recebeu o nome de Ário (256–336), sacerdote de Alexandria e, mais tarde, bispo líbio. A partir de 318, ele propagou a ideia de que não existem três pessoas em Deus, mas uma só: o Pai. Jesus Cristo não era Deus, mas teria sido criado por Deus do nada como instrumento do seu plano. O Filho é, portanto, criatura e o seu ser tem um começo; houve, portanto, um tempo em que ele não existia. Ao sustentar essa teoria, Ário negava a eternidade do Verbo, o que equivale a negar a sua divindade. Nessa perspectiva, Jesus não é verdadeiramente Deus. Embora Ário se ocupasse principalmente de despojar Jesus Cristo da divindade, fez o mesmo com o Espírito Santo, que também considerava criatura, e até inferior ao Verbo.
[2] Tornou-se cada vez mais comum entre teólogos modernos aceitar a hipótese do desenvolvimento tardio do episcopado monárquico, como explica Francis A. Sullivan (From Apostles to Bishops, The Newman Press, New York, 2001). O próprio autor adere a essa hipótese na obra citada.

[3] Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos, Biblioteca de Autores Cristianos 65, 5.ª ed., Madrid, 1985, pp. 421–422.
[4] José Orlandis, Breve Historia del Cristianismo, Ediciones RIALP, 6.ª ed., Madrid, 1999, pp. 25–26.