São Policarpo foi bispo de Esmirna e um dos discípulos do apóstolo São João Evangelista. Gozou de grande prestígio, admiração e fama de santidade. Teve como discípulo o também insigne Santo Ireneu de Lião. Morreu mártir aos oitenta e seis anos queimado na fogueira por se negar a adorar ao César e aos deuses dos romanos.
Conserva-se dele uma carta que escreveu aos filipenses a pedido de Santo Inácio de Antioquia, que também morreu mártir e a quem se encontrou quando ia a caminho de seu próprio martírio. Conserva-se ainda um texto que representa a mais antiga narração conhecida de um martírio cristão fora do Novo Testamento. Foi escrito aproximadamente no ano 156 d.C., alguns meses após o acontecimento que narra, representando um testemunho autêntico de quem presenciou pessoalmente a heroíca morte de São Policarpo.
Justificação e Salvação
A doutrina de São Policarpo, assim como a Didaquê e os primeiros padres, é uma lúcida exposição da doutrina católica da justificação, completamente livre tanto de pelagianismo como de luteranismo. A este respeito recorda que somos salvados pela graça e não pelas obras:
“Sem havê-lo visto, vós credes nEle com alegria inefável e glorificada, alegria à qual muitos desejam entrar, sabendo, como sabem, que de pura graça fostes salvados, e não por vossas obras, mas pela vontade de Deus, por meio de Jesus Cristo”(São Policarpo, Carta aos Filipenses 1,3)
Ao mesmo tempo ensina que a sola fide não salva se não for acompanhada da obediência aos mandamentos e de uma conduta digna de Deus:
“A fé que vos foi dada é a mãe de todos nós, com a condição de que a acompanhe a esperança e a preceda a caridade; caridade digo, para com Deus, para com Cristo e para com o próximo” (São Policarpo, Carta aos Filipenses 3,3)
“Se neste século lhe agradarmos, receberemos em recompensa o vindouro, segundo Ele nos prometeu ressuscitar dentre os mortos e que, se levarmos uma conduta digna dEle, reinaremos também com Ele. Isso sim, desde que tenhamos fé” (São Policarpo, Carta aos Filipenses 5,2)
“Aquele que a Ele (Jesus Cristo) ressuscitou dentre os mortos, também nos ressuscitará a nós, com tal de que cumpramos a sua vontade e caminhemos em seus mandamentos e amemos o que Ele amou, apartados de toda iniquidade, fraude, cobiaça de dinheiro, maledicencia, falso testemunho…; não devolvendo mal por mal, nem injúria por injúria, nem golpe por golpe, nem maldição por maldição ” (São Policarpo, Carta aos Filipenses 2,2)
O testemunho de São Policarpo soma-se assim ao de todos os Padres examinados nesta obra: nenhum ensina a doutrina protestante da sola fide, ou seja, a doutrina de que o homem é justificado unicamente pela fé, com exclusão das obras, dos sacramentos e da cooperação com a graça. Esta constatação não é apenas um argumento católico: é um fato que os estudos patrísticos do mundo protestante tiveram de reconhecer. O teólogo reformado Thomas F. Torrance, em sua investigação sobre a doutrina da graça nos Padres Apostólicos, assinalou que a visão desses escritores primitivos apresenta traços que não coincidem com a soteriologia da Reforma. A doutrina da justificação pela sola fide, na forma em que Lutero e Calvino a formularam, simplesmente não aparece na literatura cristã dos séculos I e II. O que sim aparece, de maneira sistemática e coerente em cada um dos Padres que examinamos, é a doutrina católica: a fé como início e fundamento inseparável da caridade, das obras e da recepção dos sacramentos.
Veneração dos santos e das relíquias
No Martírio de Policarpo encontramos um testemunho importantíssimo a favor da doutrina católica em diversos sentidos.
Em primeiro lugar, porque atesta que para uma época séculos anterior ao Concílio de Niceia os cristãos rendiam a Cristo culto de adoração, coisa que negam muitas seitas de cunho ariano, como as Testemunhas de Jeová.
Em segundo lugar, porque se distingue lucidamente a diferença entre a adoração que só corresponde a Deus e a veneração que corresponde aos mártires e santos. A partir desta compreensão proclamam que a Jesus Cristo o adoravam como Filho de Deus, mas aos santos e mártires os veneravam como modelos a imitar e exemplos de santidade:
“Nós não poderemos jamais abandonar a Cristo, que morreu pela salvação do mundo inteiro dos que se salvam; Ele, inocente por nós pecadores, nem devemos render culto a outro fora dEle. Porque a Cristo o adoramos como Filho de Deus que é; mas aos mártires tributamos com toda justiça a homenagem de nosso afeto como discípulos e imitadores do Senhor, pelo amor insuperal que demonstraram ao seu rei e mestre” (Martírio de Policarpo 17,2-3)
Menciona-se também explicitamente a veneração das relíquias dos santos e mártires e a comemoração de seu martírio.
“Como visse, pois, o centurião a pertinácia dos judeus, pondo o corpo no meio, mandou queimá-lo ao modo pagão. Desta forma, ao menos pudemos nós recolher os ossos do mártir, mais preciosos que pedras de valor, e mais estimados que ouro puro, os quais depositamos em um lugar conveniente. Ali, segundo nos fosse possível, reunidos em júbilo e alegria, o Senhor nos concederá celebrar o aniversário do martírio de Policarpo, em memória dos que acabaram seu combate e exercício e preparação dos que ainda têm de combater” (Martírio de Policarpo 18,1-3)
Despojamento e pobreza espiritual
Assim como Santo Inácio, denuncia a cobiaça como o princípio de todos os males, exortando a evitar o apego desordenado aos bens materiais:
“Princípio de todos os males é o amor ao dinheiro. Ora, sabendo como sabemos que nada trouxemos conosco ao mundo, e nada hemos de levar, armemo-nos com as armas da justiça e ensinemo-nos uns aos outros, antes de tudo, a caminhar no mandamento do Senhor.” (São Policarpo, Carta aos Filipenses 4,1)
